Macacos muriquis

Afetuosos benfeitores da floresta

No município de Caratinga, no Leste de Minas Gerais, localiza-se uma área preservada — a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala — que, além de proteger toda a riqueza da mata atlântica, é o habitat de um grande número de exemplares do maior primata das Américas: o macaco muriqui.

Reportagem Rita de Podestá
Fotos: Marcos Amend

É preciso preservar a natureza, disso, todos sabemos. A cada dia, nossa fauna e nossa flora encontram mais dificuldades para sobreviverem no acelerado ritmo do progresso humano. Porém, nesse porvir constante de desenvolvimento, não imaginamos a riqueza de espécies que dependem de nós. Flores que nunca imaginamos, árvores que sobrevivem a centenas de anos e animais de todos os tamanhos, cores e gênios. A natureza continua a nos surpreender com tesouros que resistem ao tempo e ao homem, e, no Leste de Minas, está uma dessas preciosidades. Uma área preservada que, além de proteger toda a riqueza da mata atlântica, é o habitat de uma grande quantidade do maior primata das Américas: o muriqui.

Podendo chegar a 15 quilos, os muriquis pertencem ao gênero Brachyteles e dividem-se entre o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) e o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus). A triste notícia é que ambos estão ameaçados de extinção, sendo o do norte considerado criticamente em perigo. Mas há esperanças. A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala, uma área de cerca de 957 hectares em Caratinga, à margem esquerda do rio Manhuaçu, na bacia do Rio Doce, abriga centenas de muriquis-do-norte. Um número considerável, uma vez que acredita-se que restem menos de 1.000 da espécie em todo o mundo.

Entretanto, para que esse número mantenha-se estável, é preciso muito trabalho humano, seja de pesquisadores, observadores, seja de amantes da natureza. A reserva é um importante remanescente florestal que existe devido à dedicação dos herdeiros dela. Por lá, há um número elevado de plantas endêmicas, aves e mamíferos ameaçados de extinção. O local corresponde a aproximadamente 72% da chamada Fazenda Montes Claros, a qual apresenta 80% da mata em bom estado de conservação. Somada às terras vizinhas, são aproximadamente 1.450 hectares de mata atlântica original. Vale lembrar que menos de 4% da formação original de mata atlântica no estado de Minas Gerais estão cobertos por vegetação natural. A região é montanhosa, e as altitudes variam entre 318 e 628 metros. No local, estão os córregos Jaó e Matão, que serviram de inspiração para os nomes dados aos dois principais grupos de muriquis da reserva: o “grupo do Matão” e o “grupo do Jaó”.

Legado para a vida  

Todavia, por trás de todo esse patrimônio natural, há quem deva ser reverenciado: Feliciano Miguel Abdala, o filho de um imigrante libanês com uma brasileira que adquiriu a terra da Fazenda Montes Claros em 1944, comprada do amigo “seu Benzinho”. Mas, para fechar a compra, havia uma condição: proteger a natureza do local. Abdala não pensou duas vezes, era o negócio perfeito. O trabalho não foi fácil, pois, infelizmente, preservar não era a atitude que se esperava de um fazendeiro. A regra era explorar a terra, e Abdala ia contra essa visão. O olhar dele estava voltado para o futuro. Hoje, a natureza agradece.

Os grandes aliados nessa empreitada foram os pesquisadores. Muitos visitavam a reserva interessados em colher dados e informações. Até que Abdala encontrou, nesses curiosos cientistas, a solução para manter vivo e preservado aquele patrimônio. A partir dos anos 1970, vários pesquisadores visitaram o local, mas foi o primatólogo americano Russell Mittermeier que abriu a mata e os muriquis que a habitavam à também americana Karen Strier, pesquisadora que, há mais de 30 anos, dedica-se à observação e à pesquisa desses grandes animais. O mais longo e completo estudo já feito sobre um grupo de primatas neotropicais.

Em vida, Abdala doou uma pequena casa no coração da mata para servir de base de apoio aos pesquisadores. Assim, ganhou guardiões da natureza e, é claro, bons amigos, que o acompanharam até os 92 anos de vida dele. O legado deixado foi imensurável. O fazendeiro cumpriu seu contrato com “seu Benzinho” como nem este esperava. Contam que, logo após seu falecimento, o mais antigo muriqui do grupo do Matão também veio a falecer. Porém, ambos deixaram herdeiros. Esposa, filhos e hoje netos de Abdalla continuam o trabalho. Inclusive, foram eles que separaram pastos e lavouras e transformaram a área em RPPN no ano de 2001. A atitude é nobre. Muitos proprietários de terra não têm interesse em tomar essa providência ou simplesmente nem sabem que podem. Por isso, é sempre um bom exemplo quem opta por preservar mais que destruir.

Ramiro Abdala, neto de Feliciano e hoje presidente da Sociedade para a Preservação do Muriqui, a “Preserve-Muriqui”, criada em 2002, é a prova de que a paixão está na família. O maior objetivo dele é unir forças para continuar o bom trabalho. O desafio é encontrar recursos que mantenham viva a pesquisa tão incentivada pelo avô. “Os pesquisadores foram muito importantes para a preservação da reserva, tanto pelo fato de sua presença física diária no interior da mata quanto pela aproximação com a população do entorno. Aos poucos, conseguimos conquistar os vizinhos para serem aliados na preservação da mata”, relata.

Há, ainda, muitos outros obstáculos, porém alguns resultados são motivadores. Ramiro conta que o número de muriquis aumentou de 40 indivíduos no começo da pesquisa para mais de 350 recentemente. Sem contar a volta de espécies que haviam desaparecido da mata, como a jaguatirica, a onça-parda e algumas aves.

Um tranquilo vaivém

Os anos de pesquisas acumularam o maior volume existente de informações sobre os muriquis. Todos os primatas da reserva são catalogados, nomeados e acompanhados diariamente. Entender hábitos, costumes e formas de reprodução desses animais é importante para auxiliar nas práticas de preservação deles. Por isso, cada um é reconhecido individualmente, assim como as mães dos primatas nascidos a partir de 1982.

Quanto ao nome muriqui, não se sabe ao certo o significado. A origem é o tupi, e há a crença de que queira dizer “povo manso da floresta”. É fácil aceitar a hipótese, uma vez que esses grandes primatas são conhecidos pelo baixo nível de agressividade. Todavia, o cientista Teodoro Sampaio, na publicação O tupi na geografia nacional, de 1901, sugere que buriqui, ou muriqui, seja uma variação de Myra-Qui: “gente que se bambaleia, que vai e vem”. Fica a dúvida, pois quem já observou os movimentos dos muriquis, há de concordar que essa descrição cai muito bem neles.

Para escolher o nome que mais convém, vale a visita à reserva. Prepare-se para um espetáculo nada ensaiado, já que os animais seguem a própria rotina sem interação com quem os observa. A desenvoltura deles é surpreendente. Vê-los locomoverem-se com os longos rabos e as mãos ágeis é como admirar competentes acrobatas. O rabo é característica especial dos muriquis das Américas, que ocupam, na maior parte do tempo, as partes superiores da floresta. Eles podem até descer, mas preferem não ficar longe das folhas e galhos. Aliás, é delas que se alimentam, além de alguns frutos. Por esse motivo, acabam atuando como “jardineiros”. Por se moverem bastante pela floresta, dispersam as sementes das árvores mais altas. Os muriquis precisam da natureza, assim como ela precisa dos muriquis.

Curioso que, devido a uma característica do gênero, indivíduos jovens e adultos de ambos os sexos têm a região abdominal bem projetada, o que pode formar uma barriga preponderante. Isso dificulta saber se é uma fêmea de muriqui grávida ou com a barriga cheia de folhas. Quando se trata de gestação, essa dura, em média, sete meses. Depois do nascimento, o filhote é carregado pela fêmea de galho em galho, permanecendo firme nas costas da mãe até o desmame.

Já os galhos são casa e meio de transporte, pelos quais esses primatas deslocam-se rapidamente, utilizando-se do extenso rabo, dos braços longos e das mãos que viram verdadeiros ganchos. Cair não é preocupação nem quando dormem. Para evitarem quedas, usam a cauda enrolada em galhos para se manterem presos. Marcos Amend, fotógrafo de natureza que apoia o projeto, ficou encantado com os movimentos e a docilidade dos animais e conta que uma das particularidades do local é que, devido ao declive, a área reservada para observação fica no nível de visão de algumas árvores. É como se o visitante assistisse de camarote à vida nas alturas dos muriquis. Só não há contato físico, e funciona bem assim, cada qual no próprio lugar, em perfeita harmonia. “Eles não se importam, continuam despreocupados, sem ligar para a nossa presença. Andam sempre juntos, os machos, inclusive, não se desgrudam e são extremamente afetuosos uns com os outros”, conta Amend. Os machos não disputam lideranças no grupo, pelo contrário, encontram-se com frequência abraçados, enquanto as fêmeas dispersam-se, até mesmo do grupo natal, em certa época da vida.

Há um ou outro muriqui curioso que olha para entender quem os observa, porém é raro. O que é certo é que são grandes, mas dóceis e tranquilos, e observar a mistura de longos braços e caudas enrolados em galhos e troncos é uma experiência única. Amend, que tem no histórico expedições por todo o mundo, garante que se emocionou, tanto pelo esforço do trabalho feito pelos responsáveis quanto pela exuberância das particularidades desses malabaristas da mata atlântica. “Eu já imaginava que esses bichos eram lindos. Mas não estava preparado para tanta afetividade. Foi umas das minhas experiências mais marcantes”. Fica a dica, há muito para se ver e se emocionar, e pensar que são apenas animais que, como todos nós, buscam e precisam de um lugar para seguirem a vida que merecem ter.

A grande mascote da mata atlântica

Porém, ademais o esforço, as populações de macaco muriqui remanescentes têm sofrido os impactos decorrentes da diminuição de habitats, principalmente, para uso do solo na agropecuária, infraestrutura e urbanização. O desmatamento é, historicamente, a maior ameaça à sobrevivência dos muriquis, uma vez que eles dependem de grandes áreas de florestas para sobreviverem. Há, ainda, outros problemas, como a caça e a extração de riquezas naturais. Caçadores entram clandestinamente nos remanescentes de mata atlântica, para extração ilegal, e muitas vezes caçam os primatas. Estima-se que a extração ilegal do palmito, por exemplo, tenha sido a responsável pela extinção de muriquis em extensas áreas de São Paulo e do Rio.

Entretanto, um grande fator restritivo para a preservação dos muriquis é a baixa disponibilidade de recursos financeiros e parcerias que possibilitem dar continuidade aos projetos. Já recursos humanos, como pesquisadores, cientistas e amantes da natureza interessados em doar esforço e dedicação, não faltam. Quem quiser ajudar basta entrar no site do “Preserve-Muriqui”, para saber como colaborar. Os administradores não pretendem desistir. Os planos de futuro incluem a construção do novo laboratório de campo da reserva, com instalações adequadas para que a continuidade da pesquisa seja sempre a principal atividade da RPPN Feliciano Abdala.

O turismo de natureza é, também, um incentivo. Hoje o local recebe visitas de escolas públicas de Caratinga e Ipanema, além de pesquisadores de todo o mundo que percorrem as diversas trilhas para observação, uma forma importante de conscientização. Além disso, há projetos que envolvem a reforma da casa para construção de uma futura pousada, tudo aliado a um trabalho contínuo de divulgação sobre os animais e de incentivo à preservação. Inclusive, o muriqui foi cotado para ser a mascote da Olimpíada 2016 no Rio de Janeiro. Justo. Afinal, trata-se de um animal ágil, esperto e receptivo, como um bom brasileiro. Não ganhou a disputa, mas não há dúvidas de que os muriquis são grandes mascotes da nossa mata atlântica.

Ramiro e equipe fazem o que podem, o importante é trabalhar junto, como ele próprio reconhece. “Nos dá muito orgulho ser parte desse projeto de preservação. O mérito é de muita gente, pois, sozinho, não seria possível levar isso adiante; família, amigos, pesquisadores, funcionários, são também grandes responsáveis pelo resultado”.  Aliás, reconhecer o trabalho de pessoas que dedicam as vidas à preservação ambiental é tão importante como preservar a nós mesmos. E, se é importante conhecer nossas riquezas, os muriquis, certamente, merecem a nossa atenção.

Amend faz a parte dele e deixa o recado seja através de imagens, apoios a projetos seja compartilhando experiências. “Vi pessoas incríveis que, de diferentes formas, dedicam uma parte da sua vida para a proteção e a geração de conhecimento desses lugares. Acho que o desafio da conservação da natureza é imenso, nada trivial e, muitas vezes, mina a nossa energia. Mas os encontros com essas pessoas fantásticas renovam a vontade de fazer a minha parte”, conta o fotógrafo. Não há como discordar. Enquanto houver quem acredita e faz, certamente, haverá esperanças.