Especial Estrada Real

Muitas veredas pelos caminhos

Reportagem Cacaio Six
Fotos Rogério Alves Dias

Desbravar a Estrada Real, conhecer os mais incríveis lugares dos seus quatro caminhos — Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho dos Diamantes e Caminho de Sabarabuçu — é uma das mais deliciosas viagens que se pode fazer. Reconhecida hoje como a mais importante rota turística do interior do Brasil, a Estrada Real é múltipla em atrativos, sobretudo quando a referência são destinos consagrados como Ouro Preto, Diamantina, Serro, Tiradentes e São João del Rei.

Porém, as estradas reais são ainda mais encantadoras e absolutamente surpreendentes quando as muitas trilhas dos seus quatro caminhos cruzam pequenas cidades e vilarejos, os distritos das cidades históricas.

São recantos que conduzem o turista a grandes descobertas — tanto nas indescritíveis belezas naturais quanto nas grandiosas riquezas dos patrimônios históricos e culturais. É preciso registrar também o quanto é carinhosa a receptividade dos moradores locais.

Visitando vilas, como Milho Verde, São Gonçalo do Rio das Pedras e Lavras Novas, e pequenas localidades, como Santana dos Montes, percebe-se que são muitas as veredas das longas e tortuosas estradas reais.

São várias as possibilidades para o turista aproveitar ao máximo de uma inesquecível viagem. Caminhadas por trilhas paradisíacas pelas montanhas de Minas e banhos em cachoeiras de águas límpidas.

O viajante também vai admirar o grandioso acervo de arte e arquitetura, sobretudo no estilo barroco, das várias igrejas e capelas. E vai saborear iguarias da gastronomia mineira, além de ter ao seu dispor muitas opções de compras, como belas peças de artesanato e produtos típicos como, por exemplo, queijos, linguiças e cachaças.

Milho Verde

Um grande campo gramado com uma singela capela ao fundo. Azul e branca, com traços simples, como tudo no povoado de Milho Verde. Uma modéstia que ganha ares de realeza quando uma lua cheia nasce bem atrás da pequena capela e emoldura o cenário. São detalhes como esses que transformam o lugar em um apaixonante refúgio.

A Capela de Nossa Senhora do Rosário, construída em madeira e barro, está ali desde o século XIX, com sua fachada em forma de hexágono e sua torre central. Presume-se que o belo templo foi erguido pelos negros livres e também pelos ainda escravizados.  Era o pequeno recanto de orações daqueles que encontraram as primeiras pedras de diamante na região.

O lugar nasceu como Arraial de Nossa Senhora dos Prazeres de Milho Verde do Serro Frio. O nome explica-se pela santa padroeira da região e “Serro Frio” deve-se ao fato de o arraial àquela época pertencer a Santo Antônio do Bom Retiro do Serro Frio — hoje, simplesmente Serro.

Mas o que ficou do nome, Milho Verde, é a parte mais controversa e, claro, a mais curiosa. Existem duas versões principais. A primeira diz que os bandeirantes, ao chegarem, pararam em uma casa humilde da região e a única comida que havia para ser oferecida era, exatamente, milho verde. Outra lenda conta que um português fundou o povoado em 1711. E seu nome seria Rodrigues Milho Verde.

Em fins do século XIX, o vilarejo chegou a ser praticamente abandonado e seu povoamento voltou a se intensificar só na década de 1980, quando pessoas em busca de tranquilidade começaram a chegar ao local. É na casa delas que hoje se pode ouvir muitas outras lendas da região, regadas a café e ao inconfundível queijo do Serro. A natureza acolhedora do povo dessa região é um dos seus principais atrativos.

As paisagens ao redor completam o charme. A Cachoeira do Moinho é uma das mais bonitas da região e deve seu nome a dois moinhos próximos que eram usados para transformar milho em fubá. A conformação das pedras faz com que a água caia em etapas e chegue ao poço devagar. Mais distante está a Cachoeira do Lajeado. A trilha leva a uma queda d’água que desliza sobre pedras de cor escura, formando uma linda piscina de tonalidade marrom. Por ser rasa, é apropriada para crianças.

Tudo isso tem, aos poucos, transformado Milho Verde em um belo atrativo turístico. No período aproximado de uma década, essa atividade registrou um considerável crescimento no charmoso distrito. Recentemente, a partir de 2014, houve um impulso ainda maior com o asfaltamento da estrada entre o Serro e Milho Verde.

Além de proporcionar novas oportunidades de trabalho e renda para os moradores, o lugar atraiu empreendedores como o italiano Franco Bouchart, proprietário do restaurante Ovelha Negra. “Há alguns anos, o turismo aqui era muito desordenado, inclusive com grande frequência de arruaceiros”, conta ele. “Hoje recebemos muitas famílias e pessoas com maior poder aquisitivo; gente que se preocupa com o respeito ao meio ambiente, à história e às tradições”.

Morador há 22 anos, Bouchart diz que a Estrada Real teve grande importância para o desenvolvimento da atividade turística na região, principalmente pelo trabalho de marketing voltado para a “efetivação de uma rota turística muito eficiente, que faz com que os  empreendedores também se tornem parceiros dela”.

São Gonçalo do Rio das Pedras

A linda São Gonçalo do Rio das Pedras, que fica a menos de 10 quilômetros de Milho Verde, exige do visitante, em primeiro lugar, instantes de profunda contemplação. Não há quem ande por suas ruas de pedra sem admirar os contornos rústicos e sempre cativantes das construções locais — erguidas a 1.150 metros de altitude. São heranças do século XVIII e nasceram da incessante busca por metais preciosos.

Um toque rústico define quase todas as ruas de pedra de São Gonçalo e não é difícil encontrar uma árvore florida aumentando o charme do local.

Há ainda a magnífica Igreja Matriz de São Gonçalo, datada do final do século XVIII.

Muito próximo ao centro do vilarejo, surge um paredão rochoso de 85 metros de onde a água não para de cair, desenhando uma imponente cachoeira. Dois moinhos de pau-a-pique, que servem à produção de fubá, completam a paisagem da Cachoeira do Comércio. O local, em meio ao casario de São Gonçalo do Rio das Pedras, é o exemplo da convivência harmônica entre homem e natureza que reina ali.

Outras cachoeiras merecem a visita. É o caso da Grota Seca, com mais de 30 quedas que formam poços de diferentes tamanhos, perfeitos para deliciosos mergulhos. E, claro, como todo vilarejo mineiro que se preze, por ali também a história se confunde com as lendas e merece ser conhecida.

Conta-se que a Igreja Matriz de São Gonçalo foi construída sobre a pedra em que um grupo de crianças encontrou uma imagem desse santo. À época, o distrito ainda não possuía um templo cristão, o que fez com que alguns moradores levassem a imagem em romaria para o distrito vizinho de Milho Verde. Mas a imagem reaparecia misteriosamente no mesmo local onde foi achada.

Os moradores então decidiram erguer a igreja ali. Sua arquitetura apresenta um grande portão central e duas torres laterais, além de uma bela pintura do santo que lhe dá o nome no teto da capela-mor. Seu estilo transita entre o barroco e o rococó.

Há quem garanta, porém, que a maior beleza de São Gonçalo do Rio das Pedras não esteja nem em suas construções e nem em sua natureza, mas sim no clima de imensa tranquilidade do vilarejo. Ademil Sebastião Ribeiro é um morador muito conhecido em São Gonçalo. Dono de pousada e de um restaurante, que oferece uma muito saborosa comida típica mineira e localiza-se logo abaixo da Matriz de São Gonçalo, festeja o considerável aumento no fluxo de turistas na vila: “para você ter uma ideia, de junho do ano passado (2014) até esse mês de abril, já cadastrei mais de quatro mil turistas por meio do Passaporte Estrada Real”, conta.

Capivari 

Maria Aparecida do Nascimento e Genésio da Cunha se empenham, ao lado das três filhas, para garantir uma excelente estadia aos visitantes. A cena seria comum, mas um detalhe foge do esperado: a família nunca havia conhecido aqueles que agora se hospedam em sua casa.

É o retrato do chamado “turismo de vilarejo”, uma iniciativa da operadora Andarilhos da Luz, que permite aos viajantes se hospedarem na casa dos moradores. É o que hoje possibilita a visita a Capivari, esse povoado com cerca de 200 habitantes que vivem da agricultura e, agora também, do turismo. Uma joia da Estrada Real — devidamente protegida pela Capela de São Sebastião, erguida em meados do século XVIII, no alto de uma colina na entrada da vila  — que só recentemente tem sido descoberta pelos forasteiros.

Genésio acha graça dos que chegam “de tudo quanto é canto, até do exterior” e “se encantam com tudo”. As visitas o fizeram olhar de outra forma para sua região e agora ele faz questão de lembrar que é preciso “preservar e cuidar de tudo o que é belo”. Ele também tem o que ensinar aos que chegam e gosta de fazer isso dividindo “causos” da região ao redor de um boa fogueira.

As prosas são sempre cheias de fantasia e natureza, dois elementos que andam lado a lado em Capivari. É ali que está o Pico do Itambé: com 2.002 metros, um dos pontos mais altos da Serra do Espinhaço, é conhecido como “o teto do sertão”. Sua conservação foi um dos principais argumentos para a criação do Parque Estadual do Pico do Itambé, em janeiro de 1998. Quem se dispõe a ir até o topo encontra cursos d’água, cachoeiras e uma grande riqueza vegetal, que formam belíssimas paisagens.

Mas o atrativo mais procurado pelos visitantes é a exuberante Cachoeira do Tempo Perdido, uma das únicas quedas do estado em que é possível caminhar “por trás” das águas. Essa característica se deve ao formato da pedra, afastada alguns metros do paredão. Outro ponto singular é o chão de areia fina, que dá um aspecto de “praia” ao local. O poço, de tonalidade marrom, confere ainda mais beleza a esse ambiente tão particular. Se depender da beleza da região, Genésio ainda vai dividir muitas fogueiras com visitantes.

Distritos de Ouro Preto

As belezas de Ouro Preto, Patrimônio da Humanidade, espalham-se para muito além da área central da mais importante cidade histórica brasileira: o município  conta com 13 distritos. Lugares surpreendentes que guardam tradições seculares, preservam importantes monumentos de grande importância histórica e revelam belíssimas paisagens, em uma região montanhosa coberta por muito verde.

Os pequenos vilarejos também atraem turistas interessados, principalmente, nos atrativos naturais, como as inúmeras trilhas para caminhadas e as várias cachoeiras.

São Bartolomeu

A imponente Vila Rica tinha ouro, mas não tinha comida. E a consequência disso foi uma enorme crise de fome que assolou a cidade nos primeiros anos do século XVIII. Mas São Bartolomeu resolveu o problema: o pequeno distrito, com sua terra fértil e a fartura de água limpa do Rio das Velhas, passou a fornecer alimentos para os que se aventuravam nas minas. Antes uma mera base para a passagem dos bandeirantes, São Bartolomeu se transformou em um lugar estratégico para os exploradores de ouro.

A rua central do vilarejo, repleta de depósitos de mercadorias e de centros comerciais, garantiu a continuidade de Vila Rica. A capela construída em louvor à Nossa Senhora do Rosário foi a primeira a abrigar a fé dos que ali moravam. Construída em uma fazenda ao norte do município, em cima de um monte e segura contra as enchentes que assolavam o arraial, ela foi ameaçada pelos fiéis de São Bartolomeu, que queriam substituí-la por uma igreja em homenagem ao seu santo de devoção.

A briga foi acirrada, mas acabou optando-se por manter a capela do Rosário e edificar a Igreja de São Bartolomeu bem no centro da vila. Datada de meados do século XVIII, o templo, feito de alvenaria em pedra, divide as ruas da cidade com dezenas de casas coloniais que também remetem a esse tempo. As portas e janelas coloridas conferem um charme a mais para quem revisita a história passeando pelas ruas do distrito.

A vocação do lugar continua a mesma até hoje: agradar paladares. O arraial que nasceu para alimentar os trabalhadores das minas, atualmente se destaca pelos doces que produz. Cocadas, doces de leite, compotas de frutas e uma enorme variedade de outros doces artesanais dão fama a São Bartolomeu. Mas a maior atração mesmo é a goiabada-cascão, tombada desde 2000 como patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais.

Dizem que o célebre doce mineiro foi inventado por ali. “Quando a gente faz a goiabada tem que passar o doce na peneira de taquara. Dizem que dois senhores que faziam doce decidiram não jogar tudo fora e acabaram fazendo com a goiaba inteira. E deu certo”, conta Vicente Quirino Fortes, de 80 anos, que mantém os doces que fabrica em uma mesa de madeira em uma loja na rua principal. Quem vai até esse distrito a 19 quilômetros de Ouro Preto e experimenta a goiabada cascão feita ali sabe que a experiência deu mesmo certo.

Lavras Novas

No alto de um monte existe um vilarejo encantador. As ruas feitas de pedra fazem curva a cada esquina. As calçadas são enormes e, vez ou outra, oferecem um banco e uma mesinha caso alguém queira se sentar. As casinhas só tem um andar e cada uma tem uma cor diferente: verde, azul, laranja, roxo, lilás, amarelo… Assim é Lavras Novas, situada a 17 km de Ouro Preto, um local que parece ter sido tirado das páginas de um belo romance.

Construída por mineradores e escravos, que buscavam pedras na entrada do distrito para a obra, a Capela Nossa de Senhora dos Prazeres é um dos maiores patrimônios de Lavras Novas. Tanto que há quem acredite que o templo tem rastros em toda a cidade: os grandes blocos de pedras soltas na entrada do vilarejo teriam sido deixados lá pelos escravos que deveriam transportá-los para a obra.

Mas essa parte da história da capela, erguida em 1740, pode até ser lenda e não seria a única — pouco se sabe do início do povoado, que tem seus primeiros registros documentais em 1716. As imprecisões ajudam a envolver o povoado em uma charmosa aura de mistério, incrementada por relatos de visões de Nossa Senhora, por exemplo, que há décadas tem, supostamente, aparecido para os moradores.

O que se sabe ao certo é que o vilarejo nasceu movimentado pela mineração, mas por volta de 1780 a dificuldade de acesso pelas montanhas íngremes afastou os exploradores. Os que decidiram ficar construíram uma sociedade diferente. Eram principalmente negros e mulatos libertos que viviam nesse local isolado. A maioria dos cerca de 500 habitantes era ligada por laços sanguíneos, já que os casamentos se davam entre as famílias. Um dos resultados desse arranjo é que não havia preocupação com a propriedade da terra — que todos diziam pertencer à santa.

Foi só com a construção da estrada que hoje permite a chegada de carros por meio dos tortuosos caminhos, em meados do século XX, que essa organização começou a mudar. Algumas atividades, como a extração de lenha e o reflorestamento de eucalipto, passaram a ocupar os moradores locais. Na década de 1970, com a chegada da luz elétrica, outras mudanças vieram e, aos poucos, o turismo passou a ser uma vocação do lugarejo. Hoje, há uma grande oferta de pousadas, desde as mais sofisticadas às mais simples, e existem ótimas opções em restaurantes. A noite também é agitada: vários bares oferecem shows de música ao vivo e diversas opções em comidas e bebidas.

Entre os atrativos naturais,  destaca-se a cachoeira do Rapel, com 200 metros de queda livre, ideal para a prática de descidas em vãos livres. Por ser de difícil acesso, é recomendável a assistência de um guia. Outras cachoeiras também chamam a atenção, como a dos Namorados e a Três Pingos. Também não faltam atrações para os praticantes de trekking e de mountain bike, que podem fazer ótimos percursos pelas curvas montanhosas dos arredores.

O arquiteto paulistano Frederico Amaral, de 44 anos, descobriu Lavras Novas há 20 anos e é um visitante assíduo: “sou apaixonado por esse lugar e fico aqui pelo menos 15 dias por temporada. Gosto muito do sossego”. Durante esses anos, o arquiteto, além de perceber um grande desenvolvimento na atividade turística no povoado, acompanhou interessado a implementação da rota Estrada Real: “É um produto espetacular, é visível o quanto o roteiro proporcionou a melhoria das condições tanto para o turista como para os empreendedores, em todos os aspectos”.

O vilarejo encantador com as ruas feitas de pedra que fazem curva a cada esquina surpreende quem se aventura por ali. As casas coloniais mantém quase intacta a arquitetura do vilarejo, que conserva os aspectos das primeiras povoações da região do ouro. O colorido das paredes conferem um brilho especial ao lugar. As calçadas são enormes e, vez ou outra, oferecem um banco e uma mesinha caso alguém queira se sentar e prosear — afinal, o hábito, tão mineiro, não poderia deixar de existir por ali.

Chapada

A pouco mais de seis quilômetros de Lavras Novas, descendo uma estrada de terra cheia de curvas que parece dar várias voltas em torno da serra, chega-se ao minúsculo vilarejo de Chapada.

À primeira vista, surge uma pequena capela rodeada por um casario simples, mas que parece retratar, com muita fidelidade, o típico e primitivo aglomerado “urbano” desenhado pelos primeiros habitantes, exploradores da mineração aurífera.

O lugarejo tinha uma localização estratégica, pois antigas trilhas de acesso a Ouro Preto atravessavam aquelas paragens. Chapada localiza-se a poucos quilômetros de algumas dessas trilhas, cujos entrocamentos davam início aos caminhos novo e velho da Estrada Real. Ainda existem, nas proximidades do distrito, vestígios destes caminhos, como algumas pontes de pedra.

A pequena capela, dedicada a Sant’Ana, é simplesmente um dos mais importantes legados da primeira arquitetura religiosa implantada pelos pioneiros da mineração. Embora tenha uma singela arquitetura — com uma pequena nave e uma capela-mor ligadas pelo arco-do-cruzeiro e protegidas pelo telhado de duas águas —, dois aspectos da fachada principal chamam muito a atenção: a torre do sino, que fica à direita, desprendida do templo, e o belíssimo medalhão (que está acima da porta) esculpido em pedra sabão.

Datado de 1883, o medalhão, de autor desconhecido, é considerado por vários especialistas como uma obra de grande originalidade por ser diferenciada das fachadas rococós, típicas da época.

Outro grande tesouro originário da localidade é a imagem de Santana da Chapada, peça de autoria atribuída a Aleijadinho, tombada em 1987 pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Atualmente, a valiosa imagem encontra-se em exibição no Museu de Arte Sacra de Mariana. Porém, todo mês de julho, retorna à capela da Chapada para as festividades de Sant’Ana, uma tradição de mais de 130 anos.

Santana dos Montes

Um lugar que preserva um patrimônio de inestimável valor histórico, cuja memória remete às fazendas especializadas em agricultura e em pecuária que abasteciam de alimentos as regiões de mineração aurífera, responsável por um grande fluxo migratório. Hoje, algumas dessas fazendas se transformaram em hotéis-fazendas de alta qualidade.

A alucinante corrida pelo ouro iniciada com a descoberta do metal dourado na região de Mariana e de Ouro Preto no século XVII não tem precedentes no mundo — nem mesmo as que ocorreram no oeste dos Estados Unidos da América, na Califórnia, em 1849, que o cinema hollywoodiano tão bem soube fantasiar, podem ser comparadas à supracitada.

O fluxo migratório na região se tornou ainda mais incontrolável depois que o sertanista Garcia Rodrigues Paes, filho do bandeirante Fernão Dias Paes Leme, abriu, em 1699, o Caminho Novo da Estrada Real — por meio do qual o percurso do Rio de Janeiro até às minas passou a ser de 14 dias. Estima-se que chegaram à região cerca de 70 mil pessoas sedentas por fazer fortuna.

Com tantos em busca de ouro, não havia, porém, quem produzisse alimentos para tanta gente. Foi assim que surgiram, então, as fazendas do ouro, especializadas em agricultura e em pecuária, as quais abasteciam as regiões de mineração. Até hoje, as sedes dessas fazendas, datadas dos séculos XVIII e XIX, atraem a atenção de quem passa pelo pequeno município de Santana dos Montes. São mais de 20 delas por ali, algumas recuperadas e outras tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado.

A arquitetura de todas elas é peculiar. Grande parte está aberta à visitação e outras se estabeleceram como agradáveis hotéis-fazendas. Por isso, Santana dos Montes é um dos principais municípios integrantes do Circuito Turístico Villas e Fazendas, que conta com 12 municípios e é reconhecido pela Secretaria do Turismo de Minas Gerais.

Um destaque nesse cenário é a antiga Fazenda Fonte Limpa, de 1742, hoje um belo hotel-fazenda. A construção tombada está em meio a florestas e a cursos d’água preservados. Já a Fazenda do Tanque, também tombada pelo patrimônio Municipal, tem sede datada de 1863. Atualmente, fabrica cachaça e ainda funciona como hotel.

A bela Fazenda Santa Marina oferece hospedagem limitada a 20 pessoas. A propriedade é do início do século XIX e se destaca pela  imponência da casa sede, restaurada nos mínimos detalhes. Todos os ambientes são decorados com mobiliário de época, além de os quartos serem espaçosos e muito confortáveis. Das atividades de lazer, podem ser programados passeios nas trilhas, banhos em cachoeiras e ainda  passeios de barco a remo no grande lago que há na propriedade.

O atual Hotel Fazenda da Chácara, por sua vez, era uma imensa fazenda de 5000 hectares, cuja sede é de 1741. O lugar oferece aos hóspedes atividades tipicamente turísticas, como pesca esportiva e visitação, e outras que inserem os visitantes no dia a dia rural, como a retirada de leite e o conhecimento do confinamento bovino. Há, ainda, um vinhedo e um engenho, os quais possibilitam, respectivamente, a degustação de vinho e de cachaça. Além de restaurante, o hotel-fazenda também oferece churrasqueiras, piscinas (uma para adultos e outra para crianças), sauna e hidromassagem.

Outras belas fazendas que merecem ser visitadas são a da Pedra, a da Posse, a do Antônio Quirino e a do Santinho. Logo na divisa com Cristiano Otoni, a Fazenda da Pedra foi edificada pelos escravos em cima de uma grande pedra que forma a base da construção. Trata-se de um dos últimos sobejos da arquitetura bandeirista. O espaço conserva a senzala, o tronco para castigar os escravos e outras antiguidades, como o mobiliário original. Em processo de tombamento está a Fazenda do Santinho, do século XVIII, também com mobiliário de época e com um pátio calçado em pedras, de onde se avista a Cachoeira do Santinho.

Já o cartão-postal da bucólica Santana dos Montes é a Praça da Matriz, Patrimônio Histórico Municipal, com cerca de trintas casarões ao redor. Mas a grande atração mesmo é a Igreja de Santana, que mantém portas e janelas originais, além de ter seu sino do lado de fora. Em seu interior, há um altar barroco folheado a ouro, pinturas de Francisco Xavier Carneiro (discípulo de Mestre Athaíde) e imagens dos séculos XVIII e XIX. Entre elas, encontra-se a imagem dourada da padroeira, Nossa Senhora Santana.

Um obelisco, feito em comemoração ao centenário da paróquia, está no centro da praça, que é um ponto importante, onde ocorrem todos os eventos e as principais manifestações culturais e populares do povo. Rodeado de jardins e de quintais, bem ali, na praça matriz, está o Solar dos Montes, outro hotel cuja sede ocupa um casarão do século XVIII. O belo e interessante estabelecimento oferece ainda um restaurante onde a culinária mineira se soma à cozinha internacional, à portuguesa e à espanhola, cujos pratos podem ser acompanhados de bons vinhos, outra especialidade da casa. Boa culinária regada à história é o que define Santana dos Montes.