O município de Novo Airão é a porta de entrada para o Parque Nacional de Anavilhanas, um magnífico ecossistema da Amazônia — é Sítio do Patrimônio Natural da Humanidade (UNESCO) e Reserva da Biosfera (UNESCO) —, formado por mais de 400 ilhas que abrigam 60 lagos. Explorar as trilhas aquáticas e terrestres, ver e ter contato com os botos vermelhos, além das lindas paisagens, são atrativos irresistíveis para quem ama a natureza.

Por Cezar Felix (texto e fotos)

Pela privilegiada localização — ou seja, a 143 km de Manaus por via fluvial e a 196 km pela rodovia —, é um destino turístico repleto dos mais fascinantes atrativos.

Com cerca de 20 mil habitantes, a cidade foi fundada em 1955, mas guarda uma interessante história, que é relacionada ao Velho Airão, que surgiu em 1694 erguida por missionários, e ainda viveu o auge do Ciclo da Borracha — período em que o Amazonas viveu um auge econômico sem precedentes em função da retirada do látex produzido pelas seringueiras, matéria -prima para a produção da borracha —, sendo responsável por concentrar toda a produção do látex (entre meados dos anos 1880 e 1912) do alto Rio Negro. Hoje é uma curiosa atração turística, pois da antiga localidade restam construções em ruínas, formando um admirável cenário no meio da floresta.

Ruínas de Velho Airão, referência história de Novo Airão.

Hospedagem e gastronomia

Embora pequena, a cidade de Novo Airão conta com boa infraestrutura no comércio como supermercado, padaria e farmácia. Há ainda cerca de 15 pousadas de diferentes categorias, desde as mais simples até as mais sofisticadas. Na categoria de alto luxo estão os ‘lodges’ (hotéis de selva) que oferecem muita qualidade na hospedagem como o Mirante do Gavião e o Anavilhanas Jungle.

É boa a oferta de restaurantes tanto na modalidade ‘self-service’ quanto os que oferecem pratos da cozinha internacional.

O Rio Negro nas proximidades do cais da cidade.

No que se refere à gastronomia, destacam-se os restaurantes Sabor do Sul, cujo ‘chef’ é gaúcho, e o seu cardápio de carnes e peixes. Para saborear a comida típica e contemporânea da Amazônia, a dica certeira é o restaurante flutuante Flor do Luar, instalado na beira do Rio Negro, o que garante ótimos mergulhos direto do deque da casa. É famoso (e delicioso) o prato de entrada ceviche de tucunaré no tucupi.

Vista do Rio Negro desde a orla de Novo Airão.

Para quem aprecia um bom café, quitutes e sucos típicos, as opções são os charmosos cafés Tapiri e Tipiti Orange Huis.

Boa oferta de hospedagem, inclusive as para os mais exigentes. Na foto, um apartamento no lodge Anavilhanas Jungle.

Atrações da noite

À noite, é preciso ir ao descolado Saloon Ajuricaba Alex Bar, onde junto ao “gastrobar”, funciona uma loja de artesanato, uma barbearia e um inusitado ‘clube de tiro’. Além das boas opções de petiscos, pratos típicos e sanduíches, são oferecidos drinks variados e boas cervejas artesanais. A decoração é criativa: a frente de uma Kombi se transformou em balcão e combina as antigas bicicletas penduradas (marca Peugeot dos anos 40) e com a mesa de sinuca. A trilha sonora é da melhor qualidade, sons da MPB, jazz, blues e rock.

Outra opção gastronômica de muita sofisticação (cozinhas típica e internacional) é ir jantar no restaurante do ‘lodge’ Mirante do Gavião, porém antes é necessário fazer a reserva.

Boto vermelho brincando com os turistas no Flutante dos Botos: um grande atrativo da cidade.

Originalidade do artesanato

 O criativo artesanato produzido em Novo Airão merece ser conhecido — e, é claro, ser levado para casa — pelo turista. Logo na entrada da cidade, está a Fundação Almerinda Malaquias, onde várias peças estão expostas.

A fauna local é motivo de inspiração dos artesãos. A peça mais produzida — e mais vendida — é o “sapo cantador”, feita por meio da marchetaria — técnica de ornamentar a superfície da madeira. As matérias-primas vêm de algumas espécies da flora Amazônica como a jaqueira, o roxinho, a muirapiranga e a itaúba. A explicação é que cada uma delas oferece um tipo diferente de tonalidade.

Opção de lazer de qualidade nos meios de hospedagem locais.

Outra matéria-prima muito utilizada é retirada da planta arumã, que cresce nos alagados na beira dos rios e igarapés. Ela possui talos aéreos que alcançam vários metros de altura. As fibras da planta são trabalhadas pelos artesãos de modo que elas possam ser manejadas por meio do trançado, uma técnica originária de etnia Baré —  habitante do Alto Rio Negro.

Depois de trançar as fibras, elas são tingidas de vermelho e preto — cores obtidas por meio de tinturas e resinas retiradas das plantas goiaba-de-anta, urucum e ingá xixica.

O resultado é que as matérias-primas trançadas com tiras de arumã — e decoradas com as tinturas produzidas pelas plantas da flora nativa — geram peças como balaios, cestos, bolsas, cadeiras, luminárias e esteiras, chamadas de tupés.

O boto vermelho, mamífero aquático, vive livre no Rio Negro e encanta os turistas.

Botos

O atrativo mais visitado em Novo Airão é o Flutuante dos Botos. Localizado na Praia da Orla já no Parque Nacional de Anavilhanas, o lugar — que existe há mais de 20 anos e é uma propriedade privada —, permite uma interação das pessoas com os bonitos mamíferos da água doce durante sessões de alimentação realizadas pelos monitores. Antes, porém, na entrada, é preciso assistir uma palestra sobre as principais características dos botos e sobre a atividade turística ali desenvolvida. Os animais vivem livres no rio, mas se aproximam quando os alimentos são oferecidos. Muito dóceis e amáveis, eles podem ser tocados levemente pelas pessoas, nadam ao redor delas e, às vezes, fazem algumas pequenas firulas. 

O Rio Negro abriga os dois maiores arquipélagos fluviais do mundo: Mariuá e Anavilhanas.

Trilhas aquáticasOs passeios aquáticos pelo parque, após serem devidamente aproveitados pelo viajante, tornam-se experiências inesquecíveis pela quantidade de belezas naturais existentes na incomparável paisagem Amazônica.

No circuito turístico, visitam-se praias e as incríveis trilhas aquáticas no segundo maior arquipélago fluvial do mundo que está no mais extenso rio de águas escuras (pretas) do planeta. Aliás, o maior arquipélago está no mesmo Rio Negro: chama-se Mariuá e localiza-se no município de Barcelos (AM), a 287 km rio acima.

Turistas aproveitam as águas do rio.

Anavilhanas é formado por mais de 400 ilhas que abrigam 60 lagos. Elas são cortadas por vários paranás — os canais dos rios e igarapés — e pelos furos, as trilhas que atravessam os igapós. Esse ecossistema espetacular pode ser visitado durante o dia e à noite, usando como meio de transporte, principalmente, os barcos e as lanchas rápidas, as “voadeiras”. O arquipélago também pode ser contemplado dos céus, sobrevoado por hidroaviões, numa viagem encantadora, porém de alto custo.

Navegar pelo Rio Negro em direção às trilhas aquáticas do arquipélago é uma viagem inesquecível.

Cheia e seca

Os passeios aquáticos, possíveis em qualquer época do ano, são os mais comuns. Entre a cheia e a seca, a variação do nível das águas fica entre 8 e 12 metros.

Na estação seca, que ocorre entre os meses de setembro fevereiro, as praias surgem ao longo do Rio Negro revelando areias brancas de rara beleza, que se destacam ainda mais na deslumbrante paisagem graças ao contraste com as águas escuras. As praias, de variadas extensões, que recebem mais visitantes são as do Iluminado, Meio, Sobrado, Tiririca, Aracari, Bararoá, Camaleão   Sobrado e a Praia da Orla, a única com acesso por terra firme.

Duas trilhas terrestres, curtas e fáceis de percorrer, podem ser visitadas nas proximidades de Novo Airão. Elas são as trilhas de Miritipuca e Andorinhas.

O arquipélago de Anavilhanas é formado por mais de 400 ilhas que abrigam 60 lagos.

Trilhas de terra firme

Embora só seja possível alcançá-las de barco ou de “voadeira”, as chamadas trilhas de terra firme são excelentes opções de aventuras para os apaixonados pela natureza.

As duas mais visitadas são as trilhas do Bariaú e do Apuaú. Na primeira trilha, que segue o rio de mesmo nome, o ideal é visitá-la (sempre acompanhado de guias especializados) nas épocas de enchente, meses de abril e maio, ou na vazante, outubro e novembro. É quando o Bariaú forma cinco lindas corredeiras, que são ótimas para banho. É possível avistar animas como ariranha, porco do mato, paca e até anta.

São diferentes trilhas que atravessam os igapós.

Trilha do Apuaú

Para visitar a Trilha do Apiaú, localizada na base 2 do ICMbio, na barra com o Rio Negro, é preciso agendar antes na sede da instituição em Novo Airão. Só é possível chegar lá de voadeira, em uma viagem de 30 km. No local, permite-se o pernoite, pois há uma estrutura para redes e sanitários. Só é possível receber no máximo oito pessoas.

Durante os passeios atravessa-se igarapés entre diferentes formações florestais.

A trilha, de 4 km de extensão, tem dificuldade moderada, porém com muitas subidas e descidas.

Durante o percurso cruza-se-com belos igarapés e por diferentes formações florestais, oportunidade única para perceber a diversidade das florestas da Amazônia. Outra vantagem são as várias espécies de árvores frutíferas encontradas pelo caminho. Por causa delas, avista-se aves como  papagaios e tucanos em busca dos frutos.

Trilhas pelos igapós

Os passeios aquáticos com os barcos podem ser realizados em qualquer época do ano.

Na cheia, de março a agosto, as trilhas aquáticas (acessíveis somente pelo rio) conduzem a passeios fabulosos por meio de pequenos barcos que cruzam os igapós — as florestas inundáveis da Amazônia.

Pelo caminho, navegando no Rio Negro, antes de adentrar os igapós, não é raro avistar os botos vermelho e tucuxi. Com um pouco de sorte, é possível se deparar com lontras e as ferozes ariranhas.

Os observadores de aves (birdwatchers) têm um ótimo destino.

O barco entra pelo igapó que invade uma ilha e segue até surgir do nada um imenso lago, numa paisagem alucinante, onde se destacam as fantásticas macacarecuias — uma árvore que chega aos 15 metros de altura, dona de flores exuberantes e muito perfumadas que florescem no tronco da planta. Ela é conhecida como abricó-de-macaco, pois o seu grande fruto redondo, colado junto ao tronco, é muito apreciado pelos macacos.

As praias surgem ao longo do Rio Negro revelando recantos de rara beleza.

Outra árvore destaca-se pela imponência e beleza: é o macucu gigante de igapó, a mais alta do arquipélago. Há, inclusive, a possibilidade de escalar um exemplar, atividade oferecida por algumas operadoras de ecoturismo.

Há trilhas que devem ser visitadas nas épocas de enchente, meses de abril e maio, ou na vazante, outubro e novembro.

O gavião preto faz de Anavilhanas a sua morada.

Fauna e flora

Anavilhanas abriga uma rica avefauna, um verdadeiro paraíso para os observadores de pássaros (birdwatchers). Conforme informa o Instituto Chico Mendes (ICMbio), vivem nas ilhas “espécies derestritas às florestas de igapó “como a ameaçada choquinha-do-tapajós e as raras socó-jararaca e garça -da-mata.

A linda paisagem de um lago que está dentro de uma das ilhas do arquipélago de Anavilhanas.

Há ainda as pouco conhecidas gaturamo-anão, ariramba-bronzeada, maria-da-campina e guaracava-de-tapete-vermelho. Destaque ainda para as migradoras águia-pescadora, batuiruçu, e as andorinhas e maçaricos. O ICMbio explica que existem também as aves de “distribuição limitada” como as espécies gavião-pato, mutúm, rabo-branco-pequeno, arapaçu-ferrugem, choca-preta-e-cinza, formigueiro-liso, dançador-de-cauda-fina e anambé-preto.

Mais uma linda paisagem no lago, onde se destacam as fantásticas árvores macacarecuias.

Dos exemplares da fauna que lá vivem, os mais ameaçados são a onça pinta, o maracajá-peludo, o tamanduá-bandeira, a ararinha, o tatu-canastra e o peixe-boi-da-amazônia.

Portanto, em razão de reunir tamanha biodiversidade, é tão relevante a importância para toda humanidade de Anavilhanas, que o Parque Nacional é reconhecido internacionalmente, segundo informa o ICMbio. O arquipélago é Sítio do Patrimônio Natural da Humanidade (UNESCO) e Reserva da Biosfera (UNESCO).

Pela sua extrema importância, Anavilhanas é Sítio do Patrimônio Natural da Humanidade (UNESCO) e Reserva da Biosfera (UNESCO).