O parque tem 37 mil hectares de área e está situado na região do Vale do Aço.

Parque do Rio Doce

A natureza viva das águas

 Caracterizado por uma rica biodiversidade e um cenário natural exuberante, que abriga a maior reserva de mata atlântica do estado, o Parque Estadual do Rio Doce (Perd), primeira área de conservação ambiental criada em Minas, chega aos 75 anos de vida como uma importante referência na preservação de espécies animais e vegetais. É um dos parques pesquisados do país e ainda tem muitas metas a alcançar. Uma delas, talvez a principal, é devolver para a sociedade o legado deixado por esse imenso patrimônio.

Reportagem Julio Rezende
Fotos André Sena

“O Parque Estadual do Rio Doce (Perd) foi criado, há 75 anos, pela forte integração da sociedade em seu entorno”, afirmou o analista ambiental Vinícius de Assis Moreira, que gerencia o Perd há oito anos. Historicamente, as primeiras iniciativas em prol da preservação ambiental na região ocorreram na década de 1930, por meio da atuação do arcebispo de Mariana, Dom Helvécio Gomes de Oliveira, conhecido como “bispo das matas virgens”.

No entanto, somente em 14 de julho de 1944, com o decreto-lei 1.119, a unidade tornou-se oficialmente parque. São quase 37 mil hectares de área situados no sudoeste do estado, na região do Vale do Aço, que abrange os municípios de Marliéria, Dionísio e Timóteo e está a 248 quilômetros de Belo Horizonte. Esse espaço é composto por florestas altas, com árvores centenárias e madeiras nobres, sistema de lagoas naturais, trilhas interpretativas e espécies raras e ameaçadas de extinção da fauna e da flora, como a onça-pintada.

O parque é perfeito para que se desenvolva uma atividade turística sustentável.

Turismo sustentável

O desafio dos gestores é justamente aproveitar todo esse complexo natural para desenvolver um turismo sustentável em benefício da população local. “É pegar esses elementos, essa natureza selvagem, para oferecer serviços turísticos de forma sustentável, com geração de renda e emprego”, observou Vinícius Moreira.

Segundo o gerente, com todo esse patrimônio natural e uma infraestrutura de serviços por trás, o Perd pode oferecer mais para a sociedade. “Ele tem potencial para gerar mais emprego e renda”, disse. Uma das ações práticas é aumentar o fluxo de turistas, principalmente de estrangeiros e de outros estados. “Hoje o turismo aqui é muito regional”, atestou. Atualmente, o número de visitantes — de 15 mil por ano — está bem abaixo da capacidade, em torno de 500 mil turistas anualmente.

Iniciativa privada

PERD: rico patrimônio natural e infraestrutura de qualidade.

Para alterar essa realidade, o governo de Minas lançou, em abril passado, o Programa de Concessão em Parques Estaduais, em que visa transferir à iniciativa privada a gestão de visitação dos parques, mantendo a parte de conservação com o Instituto Estadual de Florestas (IEF).

O programa tem como objetivo “o aprimoramento e a diversificação dos serviços turísticos ofertados nas UC (unidades de conservação) estaduais de forma a garantir o cumprimento de seus objetivos de criação, o aproveitamento sustentável das potencialidades econômicas existentes, a maior eficiência na gestão e na conservação da biodiversidade, bem como a geração de benefícios sociais e econômicos para as comunidades do seu entorno”.

O processo, no entanto, é longo e deve ser concluído somente no segundo semestre de 2021, quando está prevista a assinatura do contrato com a vencedora do edital de licitação. O diretor-geral do IEF, Antonio Malard, em entrevista ao siteG1, disse que a meta é ter um leque maior de atrações turísticas e, consequentemente, ampliar o número de visitantes no Parque do Rio Doce.

“Tirolesa, arvorismo, torre de observação de pássaros, são algumas das atividades que podem ser incluídas na programação do parque, o que, com certeza, vai trazer mais visitantes para esse parque maravilhoso que temos em Minas”,ressaltou.

Eficiência na gestão e na conservação da biodiversidade.

Investimentos de R$ 63 milhões

Outra ação importante voltada para a conservação do Perd, aprovada em setembro passado, prevê investimentos de R$ 63 milhões em medidas que visam minimizar o impacto provocado pelo rompimento da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco, em novembro de 2015, no município de Mariana. A lama que vazou da estrutura atingiu o Rio Doce, um dos que cortam o parque. O projeto terá duração de dez anos e será custeado pela Fundação Renova.

“A expectativa é de que, ao final desses 10 anos, o Parque Estadual do Rio Doce seja um dos mais modernos parques do país e que tenha, não somente uma infraestrutura adequada para atender a população, mas que seja uma unidade de conservação autossustentável, proporcionando a conservação da biodiversidade”, ressaltou Antonio Malard.

De acordo com Vinícius Moreira, um dos maiores desafios do Perd hoje é de fato combater os impactos provocados pelo rompimento da barragem. O assoreamento do Rio Doce provocado pela lama da mineradora atingiu comunidades que dependiam do rio. Como consequência desse problema ambiental e social, ocorreram ações ilegais de caça e pesca dentro do parque. “A gente conseguiu contê-las”, adiantou o gerente.

Dentre outras medidas, o programa “prevê ampliação dos limites do parque; regularização fundiária; georreferenciamento; ações de combate a incêndios florestais; aquisição de veículos e embarcações; implantação de sistemas de videovigilância; reformas, projetos e obras diversas; contratação de consultorias para criação do plano de comunicação e marketing; contratação de pessoal para apoio técnico”.

Iniciativa privada na gestão de visitação e conservação mantida com o IEF.

Pesquisa e reconhecimento

Devido ao enorme potencial ambiental, o Perd é alvo constante de pesquisadores. “É um dos mais pesquisados do Brasil”, afirmou Vinícius Moreira. Os estudos não se limitam à fauna e à flora exuberantes do parque, tratam também dos aspectos turísticos, históricos e religiosos. “É um legado, uma contribuição muito grande”, disse o gerente da unidade.

Uma das pesquisas realizadas girou em torno da presença de onças-pintadas e de onças-pardas no local. “O parque tem a última população viável de onças-pintadas do país”, observou Vinícius Moreira. A conclusão do estudo apontou que existem quatro onças-pintadas na unidade, mas o gerente acredita que esse número possa ser maior. “Acreditamos que sejam entre seis e dez onças-pintadas e que haja de 40 a 60 onças-pardas”, contou.

Outro fator que ratificou a importância do Parque Estadual do Rio Doce, segundo o gerente, foi a inclusão da unidade, em 2010, na lista dos Sítios Ramsar, um tratado ambiental intergovernamental instaurado pela Unesco em 1975, para classificar as áreas úmidas de importância ecológica internacional.

O Perd é ainda a maior área contínua de Mata Atlântica preservada em Minas e o terceiro complexo de lagos do país, ficando atrás apenas do sistema amazônico e do planalto mato-grossense.

Dos 42 lagos existentes na unidade, o Dom Helvécio, o mais famoso deles, conhecido como Lagoa do Bispo, é o maior e mais profundo lago natural do Brasil. Com 7 quilômetros de espelho d’água e 40 metros de profundidade, ele é aberto para banho em área delimitada pela administração, região chamada de “prainha”. A pesca esportiva também é permitida, mas apenas para quem possui a carteira de pesca.

 Atrações e infraestrutura

Parque do Rio Doce: a maior área contínua de mata atlântica preservada em Minas.

O parque oferece aos visitantes uma gama de atrações que incluem passeios de barcos (diurno e noturno), caminhadas por diversas trilhas, safári noturno, pesca esportiva e uma infraestrutura com área de camping, alojamento, centros de treinamento e de pesquisa, capela, anfiteatro, biblioteca especializada, videoteca, mirante, restaurante e estacionamento.

Aos amantes da natureza, o parque dispõe de atividades como trilhas e caminhadas, que podem ser curtas e longas. Elas são consideradas, juntamente dos passeios de barco, a melhor maneira de se conhecer o parque.

Uma delas é a Trilha do Vinhático, que possui 800 metros de extensão e é feita a pé, com grau de dificuldade médio. O nome se deve ao fato de haver um grande vinhático no meio do caminho. No trajeto, é possível ver exemplares da fauna e da flora da Mata Atlântica e a regeneração da floresta após um incêndio ocorrido na década de 1960, o qual destruiu um terço do parque. O passeio ocorre em grupo de 15 pessoas, que são acompanhadas por um guarda-parque. Outras trilhas conhecidas são a do Angico Vermelho e a do Pescador.

Paisagem que mostra a grande diversidade da natureza do Parque do Rio Doce.

Trilhas interpretativas

Existem, ainda, as trilhas interpretativas, as quais possuem placas informativas e de conscientização ambiental. Esses passeios pelo parque podem ser guiados, quando exigem a presença de guardas-parque, ou autoguiados, sem a presença do funcionário, nesses o próprio turista segue a sinalização.

O Safári Noturno é outra atração de destaque na unidade. Os visitantes têm a oportunidade de observar jacaré-de-papo-amarelo, aves, onças e outros mamíferos de grande porte. O passeio inclui também o pôr do sol no Mirante e a visita ao viveiro de mudas.

Outro atrativo que permite conhecer a história do parque é o Centro de Visitantes, onde existe uma exposição permanente que retrata, de forma interativa, a biodiversidade da unidade e as origens do local. No auditório Borun do Watu (“índio do Rio Doce”, em dialeto krenak), são exibidos vídeos sobre o Perd e sobre temas ambientais e expostos quadros, fotos, informações e objetos de uso dos índios botocudos, que foram os primeiros habitantes da região e atualmente vivem à margem esquerda do Rio Doce.

Investimentos de R$ 63 milhões: minimizar o impacto do rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana.

Paisagem em 360 graus

Acima do Centro de Visitantes, fica o mirante, em forma de lagarto, dividido em dois níveis. No primeiro, que traz placas com a representação da rosa dos ventos, indicando a direção de alguns municípios, é possível observar a paisagem em 360 graus. O segundo fica a aproximadamente 13 metros em relação ao nível solo, o que permite contemplar a mesma paisagem do primeiro, mas com maior amplitude.

Há ainda o Memorial Dom Helvécio, conhecido também como Capela de Nossa Senhora da Saúde, onde há um oratório com imagem histórica de Nossa Senhora da Saúde e um altar coberto. Lá ocorre uma Romaria Ecológica desde 1993, sempre no mês de julho, para comemorar o aniversário de criação do parque, como forma de resgate do esforço de Dom Helvécio e das comunidades do entorno na criação e na proteção da unidade.

O parque possui também um restaurante, que oferece almoço, lanches, variedades de bebidas e porções.

Tirolesa, arvorismo e torre de observação de pássaros podem ser incluídas na programação do parque. Na foto, o guaracava- de-barriga amarela.

 Relevo e clima

O clima predominante na região do Parque Estadual do Rio Doce é o tropical de savana, com duas estações bem-definidas: chuva no verão e seca no inverno (duração de quatro a cinco meses). A temperatura média durante o ano gira em torno de 22° C, mas pode chegar a 40° C, no verão, e a 3° C, no inverno.

São duas as formas de relevo que prevalecem na região: as colinas e as planícies. O parque está localizado entre planaltos do Vale do Rio Doce.  Há também a presença de topos nivelados, com muitos morros e altitudes variando entre 200 a 500 metros, e conjuntos de serras que ultrapassam a altura de 1.000 metros.

Os principais corpos d’água da região do parque são os rios Doce, que fica ao leste da unidade, e Piracicaba, ao norte. A lama da barragem da Samarco que danificou o Rio Doce, em novembro de 2015, não atingiu as lagoas do Perd, que continuam com as águas limpas.

 Horário de funcionamento e tarifas

O Parque Estadual do Rio Doce funciona todos os dias para visitação, das 8h às 17h. O estacionamento é gratuito.

A entrada custa R$ 20 (inteira) — estudantes, maiores de 60 anos e crianças de até 6 anos pagam meia-entrada. O valor é diferenciado para moradores dos municípios próximos. Quem reside em Dionísio e Marliéria não paga para passar o dia no local. Já quem mora em Timóteo paga R$ 2 durante a semana e R$ 10 nos fins de semana e feriados.

A diária na área de campingcusta R$ 40 por pessoa. Já no alojamento do parque os preços são os seguintes: R$ 80 (quarto individual), R$ 120 (cama de casal), R$ 150 (cama de casal e uma de solteiro), R$ 180 (quatro camas de solteiro) e R$ 220 (cinco camas de solteiro).

O Dom Helvécio é o maior e mais profundo lago natural do Brasil: 7 km de espelho d’água e 40 metros de profundidade .

Como chegar

Para quem sai de Belo Horizonte, a orientação é pegar a BR-262 no sentido Vitória–ES e entrar no entroncamento para São José do Goiabal, entre João Monlevade e Rio Casca, seguindo 6,5 quilômetros de estrada asfaltada, pela BR-320. Após esse percurso, seguir a sinalização até a entrada do parque.

Outra opção é pegar a BR-381 no sentido Belo Horizonte–Governador Valadares, passando por Timóteo, em direção a Cava Grande. Desse ponto, são 20 quilômetros até a entrada do parque.

Dicas e orientações

Um dos principais atrativos do parque, as caminhadas, por trilhas e estradas, exigem alguns cuidados por parte dos visitantes. O site“Descubraminas”, do Senac–MG, traz dicas e orientações que valem a pena registrar, para que o turista evite alguns transtornos durante os passeios. A seguir, alguns estão listados.

– Chapéu e protetor solar para se proteger do sol.

– O melhor período para visitação dos parques é de abril a outubro, quando chove menos.
– Alimentar-se é importante. Leve sempre na mochila: frutas, sanduíches, biscoitos e barras de cereais, alimentos nutritivos e práticos.

– Tenha sempre uma garrafa de água na mochila.
– Um calçado apropriado e confortável para caminhar (tênis ou bota) é item obrigatório.
– O melhor é evitar fumar em um parque. Mas, se o fizer, tome cuidado com o seu cigarro, apagando-o depois de fumar.

– Nada se deixa em um parque. Todo o lixo deve ser coletado e disposto nos locais apropriados.

– Nada se leva de um parque. Animais, plantas, rochas, frutos, sementes e conchas encontradas no local fazem parte do ambiente e lá devem permanecer.

– Caçar, pescar e molestar animais silvestres é crime previsto por lei. Os animais precisam buscar o próprio alimento, para manter o ciclo de vida natural.
– Entrar no parque com animais domésticos pode causar problemas, como a introdução de doenças e ameaças ao ambiente natural.
– As áreas de visitação pública são restritas e, normalmente, possuem horários definidos.