Euclides Guimarães:

Hoje é impossível mapear as influências que um indivíduo recebe na construção de sua experiência de vida. Independente do hoje cada vida humana é o resultado de um complexo de experiências que brotam da maneira como se vivencia cada situação que o curso dos acontecimentos vai ofertando. O diferencial de hoje está no excesso, na imensa gama de referências que cada instante pode carregar, visto que a realidade já não se compõe tanto pelas coisas e pessoas com quem nos relacionamos no face a face da presencialidade cotidiana. Ao contrário, se estende por territórios virtuais e hipermercados fragmentários capazes de quebrar a linearidade de uma imersão espacial, convidando-nos o tempo todo para embarcar em viagens imaginárias, a exemplo do que propõem as tantas telas que povoam nosso dia a dia.

Onde antes se viam paisagens pelo enquadramento seguro de uma janela, uma porta ou simplesmente pelo panorama de um ‘plein air,’ hoje o que se vê são fragmentos do mundo, enquadramentos, lugares inventados, copiados ou transformados em imagens. O indivíduo imerso nesse telemundo vai dali extraindo as peças de um quebra-cabeças. Com talento e sorte ele realizará os encaixes coerentes que proporcionarão algum sentido para sua vida. Sem esses encaixes ameaça sempre uma perigosa deriva. Abstraídas das âncoras que as ligam ao mundo, as usinas de sentidos que somos ficam sujeitas a embarcar nas mais perigosas viagens: a depressão, que é a potencialização trágica da própria deriva; o apego exacerbado a um sentido qualquer, como transformar uma celebridade ou um clube esportivo numa religião; o vício, que ao rotinizar prazeres os converte em paliativos momentâneos para um vazio oceânico; a violência, fruto de uma crise ética cuja mais perversa decorrência é a banalização do mal.

Interessante que usemos a metáfora da viagem para falar desses caminhos mentais de produção de sentidos. O recurso que torna a viagem mental por vezes ainda mais rica do que o próprio mundo que lhe serve de referência é a imaginação. Com ela o real se inunda de virtualidades, o tempo se estica desde as mais remotas ancestralidades até as projeções do porvir e o espaço se recria em “alis” e “lás” utópicos ou distópicos. Tudo isso considerando apenas o processamento interno dos dados que a história produz. Mas a necessidade de compartilhar os passos dessa viagem faz brotar também a imaginação coletiva, na qual habitam os mitos, os hábitos e os códigos que os sociólogos denominam ‘imaginário’.

O imaginário de um povo, que flui através de uma memória coletiva, é o fiel depositário das deixas culturais que possibilitam, em cada um, um sentimento de pertencimento a algo maior e mais durável, algo que pode se tornar completo quando amalgama uma identidade. Contudo, vivemos num tempo que conspira contra a linearidade das identidades locais, regionais, étnicas ou nacionais, justamente por causa das deixas culturais desterritorializadas dos telemundos acima mencionados. A linha que se quebra é aquela que nos mantinha plenamente focados no espaço em que o corpo imerge, desviando-nos para os ambientes propostos pelas telas. Dá-se assim uma experiência híbrida, pois visitamos outros lugares enquanto permanecemos em um, podendo trazer sentidos de lá para cá ou levar de cá para lá.

A imaginação sempre pôde, independente de usar para isso telas, estender o espaço da imersão, imaginando mundos fantásticos em quaisquer alhures que a paisagem possa sugerir. O outro lado de uma montanha, de um mar, um lago ou um deserto serve milenarmente à construção de ambientes imaginários. É parte fundamental do imaginário de um povo intuir mundos fantásticos que extrapolam a temporalidade e a espacialidade do mundo real, físico e cotidiano. Isso envolve um eterno “para além” de tudo o que está conquistado. É onde a viagem da imaginação vê-se compelida a estabelecer um elo com a viagem do corpo.

A mobilidade de nosso tempo envolve uma delicada combinação dos estímulos que chegam a nós com os que buscamos quando vamos até eles. Viajar sem metáforas, deslocar-se entre países, campos e cidades traz consigo um duplo alimento para a imaginação: ora descortina o exotismo de outras paisagens e estilos de vida, acrescentando preciosos dados ao mix de experiências que a mente processa, ora reforça a imagem do ponto de partida e, pela saudade, sugere que venha a ser ele mesmo o mais seguro ponto de chegada. Quando pessoas se mudam de uma localidade para outra, não se costuma considerar que estão viajando. Dessa forma as viagens são idas seguidas de voltas, aquelas movidas pela curiosidade e estas pela saudade. Curiosidade e saudade alimentam a desenvoltura da imaginação e, considerando que a consolidação de um povo sempre envolve a conquista de um território, tornam-se alimentos cruciais ao imaginário.

É no outro que aprendemos sobre nós mesmos, é na diferença que percebemos o que nos é igual. Por isso viajar costuma ser estudar o exótico para melhor conhecer o familiar. Se hoje podemos ter notícias do mundo todo sem sair de casa isso em nada diminui a importância da viagem, pelo contrário, o vertiginoso crescimento da indústria do turismo nas últimas décadas evidencia um contraponto fundamental: em tempo desterritorializado territórios ganham um valor especial. Todavia, a complexidade provocada pela interferência híbrida de telemundos é tal, que além de viajar para nos conhecer através do outro, também precisamos viajar em busca das próprias raízes. Eis uma das propostas centrais da revista Sagarana.

Há 15 anos nascia este veículo que o leitor tem em mãos. Começava ali uma longa viagem por territórios que, mesmo sendo nossos, desconhecíamos. Começava ali um exercício de autoconhecimento que mal sabíamos pudesse ser tão comprido e rico. Quantas edições seriam necessárias para que nossos registros estivessem completos e as Gerais totalmente traduzidas por um telemundo editorial? A inspiração em Guimarães Rosa, o homem que descortinou a universalidade de experiências tipicamente regionais, já apontava para o inesgotável. Restava saber se o inesgotável estava apenas na imaginação do autor, ou se também nas referências espaciais e culturais de sua obra.
Foi e vem sendo fundamental viajar por Minas para conosco aprendermos sobre nós mesmos. Foi por imersões em nosso território que aprendemos sobre nossa complexidade. E nada melhor que essa edição comemorativa para ilustrar o valor dessa pesquisa: a grandeza do bioma do cerrado com a grandeza maior de seus pormenores, a delicadeza da relação entre as paisagens e as gentes, que se traduz pelas lentes de Miguel Aun, a exaltação do valor da própria viagem e dos telediálogos do cinema nas margens do Velho Chico, a riqueza da combinação natureza x cultura do Chapadão da Babilônia.

Mesmo com a fertilidade incontestável da imaginação de nossos maiores menestréis, viajando por Minas, vemo-nos tentados a reeditar a máxima do movimento Realista na Europa do séc. XIX: nada na imaginação pode ser tão rico como o real que generosamente se posta a nossa volta.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.


Onde antes se viam paisagens pelo enquadramento seguro de uma janela, hoje o que se vê são fragmentos do mundo, enquadramentos, lugares inventados, copiados ou transformados em imagens.