Euclides Guimarães:

Há três problemas com relação ao futuro: um é que ele não existe, na medida em que não passa de uma grande virtualização; sua realização se dá na sua eliminação, que é quando se torna presente. Outro é que o que é esperado nunca chega, pelo menos não como foi esperado, ou seja, a retrospectiva nunca corresponde aos planos. O outro é que sua inexistência é densa, uma vez que pesa sempre sobre o presente a necessidade de projetar futuros. Assim o porvir incide decisivamente sobre os sucessivos agoras, ou como esperança, ou como ameaça. Nossa relação com o futuro oscila então entre o desejo e o medo. Mas qual sensação prevalece? Bem, isso depende do espírito de cada presente.

No auge da modernidade, ali por meados do séc XX, maravilhados com o progresso da ciência e com as promessas utópicas de grandes ideologias, vivemos um tempo de esperança, mas as ideologias foram se dissolvendo enquanto se digladiavam ao longo da Guerra fria. Também o avanço da ciência deparou-se com temerosas nevralgias: a iminência do esgotamento das fontes materiais e energéticas estabelecendo delicados limites à sustentabilidade do progresso e, com a bomba atômica, a conscientização de que nosso poder destrutivo é maior que o construtivo. Isso significa que o futuro não é mais como era antigamente pois, ao contrário da modernidade, tempo de grandes esperanças, a posmodernidade é um tempo de temores pelos perigos que se prenunciam.

Curioso é que o Brasil carregue há mais de cem anos o rótulo de “país do futuro”. O termo aparece intitulando um ensaio de Stephan Zweig, em 1941, mas em 1874 D. Pedro II, convidado especial da Philadelphia Centennial Exposition, já ouvia loas proclamando essa potencialidade. Certo é que pertencer ao futuro vem representando um fardo aos presentes que desde então se sucedem. Se o futuro não existe, talvez o Brasil também não, tamanha a defasagem entre o país sonhado e o país vivido. Se planos, quando realizados, por tendência se deturpam, no Brasil a deturpação é a regra. Se o futuro se apresenta ora como esperança, ora como ameaça, eis a contraditória terra da messiânica espera por um bem que caia do céu e eis também o reino dos perigos, da incerteza e do risco. Contudo, se buscarmos uma compreensão para a situação que fez do Brasil um eterno país do futuro, talvez tenhamos que voltar os olhos ao passado.

O problema do passado não está tanto no quanto também não existe, mas na destemperada forma com que ora se perde, ora insiste. O peso do que insiste reside em heranças arquetípicas que, desejáveis ou não, às vezes disfarçadas de novidade, parecem capazes de resistir a qualquer mudança, sugerindo imagens cíclicas entediantes de eternos retornos. Arquétipos são, por etimologia e definição, marcas da origem. Produtos dos traumáticos (des)encontros transcontinentais de nossas matrizes étnicas e da estrutura colonial, pesam sobre os ombros dos brasileiros de hoje marcas de uma formação horrorosa maravilhosa. Miscigenações e discriminações, dominações e paixões, perversões e alegrias que, em sua combinação, engrossam um caldo cultural de grande complexidade, no qual se decantaram arquétipos tão díspares como aqueles que fragilizam nossas instituições públicas e aquele que nos leva a carnavalizar a vida como poucos outros povos são capazes.

Um dos nossos problemas arquetípicos, resultante da perversa hierarquia colonial, é uma autoimagem ressentida que faz mirar outros povos com a admiração de quem sonha em um dia ser como eles. Por tal equívoco modernizar muitas vezes significou o descarte peremptório do passado em nome da adoção desavisada de hábitos e estilos de vida alheios. Por tal equívoco mutilamos uma cultura que é plena de aspectos capazes de nos manter à parte da mediocridade que caracteriza essa vidinha fast food do mundo globalizado, de culto ao trabalho, individualismo narcísico, correria e consumismo.


O futuro não é mais como era antigamente pois, ao contrário da modernidade, tempo de grandes esperanças, a posmodernidade é um tempo de temores pelos perigos que se prenunciam.


No caso de Minas, vimos a venda virar supermercado, o mercado virar shopping, a varanda virar sala de tv, a ferroviária virar rodoviária, o queijo pasteurizar, o sossego virar pressa, a carne de panela virar hambúrguer, o pequeno produtor sucumbir aos grandes monopólios e tantas outras mudanças tantas vezes comprometedoras de uma qualidade de vida indubitavelmente melhor.

Contradição radical: uma tradição que induz a romper com tradições. Eis uma boa dica para entender a badalada frase de Tom Jobim:“o Brasil não é para principiantes”.

Por sorte as dimensões continentais desse brasilzão permitiram que, no arrastão da globalização, sobrassem ilhas de abandono, insistência, teimosia ou resistência, cuja essência revisitada permite ao brasileiro um valioso reaprendizado sobre si mesmo. No caso de Minas ainda há as Gerais que se escondem entre topos e vales, fazendas e vilas, recantos bem próximos ou mesmo infiltrados na natureza quase bruta dos parques e florestas sobreviventes. Nelas ainda se podem saborear as saudáveis tradições do sossego, da prosa esticada e da mesa comprida.

 Valorizando o pequeno produtor, os longos processos de cozimento e preparo dos alimentos, se opondo ao tempo frenético da vida moderna, destaca-se um movimento cultural internacional, oriundo da Itália, norteado pela gastronomia, ao qual as tradições de Minas parecem se encaixar como uma luva: o slow food.

Cremos que viajar pelos recantos de Minas cultivando o apreço por lugares e hábitos mais próximos de nossas origens é uma oportunidade lúdica de reencontrarmos raízes que podem municiar-nos contra os perigos do porvir. Nesse sentido o passado pode ser um antídoto para um futuro esvaziado de sentido e graça. Em tempos de incerteza, preservar tradições que ensinem sobre outras maneiras de estar no mundo é sensato e lava a alma. Por isso, lá no mar, salvem as baleias e, por aqui, salve o slow food da vibe mineira.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.