Andrequicé. Onde é que é? É Minas, é terra de Manuelzão, ou de Manuel Nardi a título de veracidade — o lendário vaqueiro que acompanhou Guimarães Rosa numa cruzada pelo sertão mineiro. O ano era 1952. Com cadernos de anotações pendurados no pescoço, o escritor partiu junto ao seu futuro personagem, outros sete vaqueiros e 198 cabeças de gado. Foram 240 quilomêtros em 10 dias, da Fazenda Sirga, em Três Marias com destino à Fazenda São Francisco, em Araçaí. Aos seus 44 anos Rosa, já consagrado pela publicação de Sagarana (1946), faria não só um trabalho de campo, mas um reconhecimento de uma parte do Brasil que não tinha voz. Na verdade, do seu Brasil que gritava (grita!), mas não era ouvido. Como lembrança de viagem o escritor nos deixou livros futuros, como Grande Sertão Veredas e Corpo de Baile (1956), desmembrados em Manuelzão e Miguilim (1964), No Urubuquaquá, no Pinhém (1965) e Noites do Sertão(1965). E foi por meio dessas obras que Rosa eternizou o sertão de Minas — fazendo dele a sua palavra e do leitor o seu cúmplice.

Mas como usar a própria voz para ilustrar a voz do outro? É o que Guimarães nos ensina ao escancarar nas suas obras a cultura sertaneja em toda sua riqueza e diversidade, ao mesmo tempo em que se insere nesse ambiente tão próximo de suas raízes. A vida do sertanejo está nas imagens que construímos por meio da leitura de Grande Sertão: Veredas, no modo de vida dos jagunços, nas suas ambições, na sua forma de reagir diante da paisagem que se apresenta. Está na linguagem, que revela expressões e construções frasais típicas de quem pertence a esse tão característico sertão. Porém, é também pela palavra que Rosa descreve o outro, que ele se apresenta, agregando ao falar do sertanejo a sua habilidade apurada e criativa de brincar com o português. Sendo assim, ao criar uma forma inédita do dizer, o escritor mineiro demonstra, principalmente em Grande Sertão, que enquanto a literatura nos mostra o real por meio do ficcionar das palavras, toda ficção tem algo da nossa pessoal realidade e imaginação. Afinal, um bom contador de histórias é também um importante personagem, o qual, quer queira quer não, se insere sempre no relato.

Expressar-se, seja por meio de dialetos ou de idiomas dos mais diversos, nunca foi um problema para o gênio do neologismo. Foi em resposta a um questionário escolar da prima mais nova, Lenice Guimarães, em 1966, que Rosa confessou suas afinidades linguísticas: “Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal.” Não é de se estranhar que com tantas referências o escritor tenha traçado com primor o falar natural e tão particular do sertanejo — essa língua dialeto que carrega cultura, história e sabedoria. Hoje, há quem estuda o que consideram a língua de Guimarães — quem busca em cada inversão sintática, em cada prefixo destacado do seu lugar habitual, em cada novo verbete uma forma de viajar por um sertão representado e recriado com maestria.

Curioso que, por mais que possa parecer, sua escrita não nos fornece o completo desconhecido. Para além dos termos regionais apropriados pela narrativa, encontramos os muitos neologismos de Grande Sertão, que demonstram formas de se jogar sabiamente com o que o português já nos apresenta. Termos da oração, prefixos e sufixos — todos já existentes — são deslocados do seu lugar esperado. Palavras ganham novas funções, novos papéis. Porém, não há frases completamente carentes de elementos conhecidos. Desta forma, o léxico inusitado, que poetiza por meio do afastamento dos significantes de seus significados, nos deixa alguns recados. Primeiro, de que existe beleza na aventura de mover-se, de deslocar-se do lugar comum. Segundo, reforça que há outros povos, outras culturas dentro de uma mesma brasilidade, ou seja, é preciso reconhecer que nas veredas de Minas, há (ou havia?) quem vivesse um Brasil diferente de tantos outros brasis já retratado. Como bem diz Riobaldo, personagem eternizado pela narrativa: “Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto; que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam”. Assim também é a língua, inconstante, volúvel. E se muda o mundo, a língua e nós mesmos, muda, também, nossa forma de interpretar o redor. Portanto, por mais que seja rico buscar razão e lógica nas primorosas aventuras linguísticas rosianas, a mensagem do escritor parece ser muito mais emocional do que intelectual. Rosa viveu seu sertão — e sua literatura nos convida a desdobrar a sua visão em busca da nossa própria reflexão.

Mas se por um lado ler Guimarães é se aventurar num novo dizer, por outro é ver em palavras o que Minas nos presenteia com imagens. A história de Riobaldo e Diadorim tem como outro protagonista as veredas: um importante subsistema do nosso cerrado. Tratam-se de vales rasos, com solos argilosos, geralmente orgânicos, como brejos, que costumam rodear-se por buritizais e flora e fauna variada. A vereda funciona como um filtro que regula um fluxo de água que alimenta nascentes — uma “caixa d’água do cerrado”. Na poesia de Riobaldo as veredas são lugares vivos, que prendem, inebriam pelo poder que têm diante da natureza do sertão: “Saem dos mesmos brejos – buritizais enormes. Por lá, sucuri geme. Cada sucuriú do grosso: voa corpo no veado e se enrosca nele, abofa – trinta palmos! Tudo em volta, é um barro colador, que segura até casco de mula, arranca ferradura por ferradura.”

Hoje há, ainda, quem se aventure a buscar no real a ficção da leitura, dando asas à imaginação por meio das pernas que comandam caminhadas pelos percursos de Grande Sertão. Uma forma de tentar formular em imagens a beleza narrativa rosiana, que registrou a grande importância desse cenário. Porém, hoje, a narrativa se aproxima do idílico, e o real exige muito mais da nossa imaginação. As veredas estão perdendo sua vitalidade. Desmatamentos, queimadas, uso excessivo do recurso para irrigação, e contaminação de lençois freáticos — são algumas das causas mais recentes que as têm destruídos. Aos poucos no sertão, restam apenas resquícios do que um dia foram os oásias do cerrado. Com o tempo o que fica é apenas um sentimento inevitável de “circunstristeza” diante da paisagem.

Por tantos motivos, Grande Sertões deveria ser leitura obrigatória pois é, certamente, uma forma de inspirar qualquer sentimento de preservação. Por meio da obra se percebe o óbvio que muitas vezes foge da nossa percepção. Não se trata de um lugar, mas de um modo de vida, e destruí-lo é desconsiderar quem dele vive e quem por ele sobrevive. O sertão está vivo, como nós. A leitura nos permite viajar com Rosa em companhia de seus cangaceiros, mas também nos convida a embarcar numa experiência dentro de si. A cada máxima, a cada conselho, a cada tratamento do homem como um ser que sente em consonância com a natureza, o livro nos provoca questionamentos. O “sertão: é dentro da gente”. Guimarães o descreveu em suas palavras, precisando de inventá-las quando o léxico normativo já não bastava. O leitor, por sua vez, é convidado a criar suas próprias interpretações por meio desse mundo de palavras já recriado.

Há quem diga que a obra é difícil de entender, talvez porque não seja esse o melhor verbo, Grande Sertão: Veredas é livro para se sentir. E quando sentimos, muitas vezes temos essa vontade de tornar palpável, de ver de perto o que nos provoca. Por isso, o desejo de buscar imagens que estejam à altura da poesia desses personagens poetas sertanejos. No ensaio aqui proposto, o desafio é o de ilustrar com o olhar da fotografia. Sem preocupações com reais ou equivalências geográficas, até porque “Tudo que é bonito é absurdo”, e o absurdo parece mesmo existir somente na forma de sentimento. A intenção é, portanto, por meio do mesmo olhar capaz de interpretar palavras, ficcionar realidades através do ângulo, do objeto escolhido, da luz e, porque não, do sentir por meio das câmeras.

Não resta dúvidas de que Grande Sertão é uma obra que se desdobra em infinitas possibilidades interpretativas. Um rico laboratório de reinvenção. É certo que toda reflexão tem sua raiz na memória e na experiência de mundo. Buscamos sempre nossas próprias referências para explicar imensidões. O mesmo fazemos diante do sertão rosiano, o qual como imagem sublime antes assusta com sua vastidão para depois acalmar com sua beleza simples: “sertão é onde o pensamento da gente forma mais forte que o poder do lugar”. O que vemos não é o que enxergamos, nem sequer o que lemos, mas o que sentimos diante de tal grandeza. Sendo que cabe a cada um encontrar a melhor forma de expressar sua experiência. Sendo assim, se na literatura as palavras nos levam a criar imagens, na fotografia são as imagens que geram palavras.

A beleza da arte está na sua multiplicidade de suportes, formatos e possibilidades. Rosa conheceu um sertão que muitos de nós não conhecemos, assim como nunca conheceremos. O sertão de Rosa nunca será o nosso. Mesmo se, por ânsia da descorberta, caminhar-se pelo mesmo percurso do escritor há 65 anos, o trajeto e o destino final serão outros. Melhor do que isso. O seu sertão será sempre uma fonte rica, bela, intacta na forma de palavra, mas totalmente mutável quando colocada diante de quem a lê e de quem a ilustra. Por isso, as fotos aqui selecionadas não pretendem superar nenhuma interpretação. São apenas tentativas de absorver a sabedoria por trás da fala desse sertão que ainda hoje grita, no seu próprio idioma — nas vozes de manuéis, riobaldos e diadorins. A intenção das fotos não é encontrar sentido, mas revelar um sentir. Até porque “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”. E se tem algo que aprendemos com Grande Sertão: Veredas é que, se viver é mesmo tão perigoso, o melhor é fazer de tudo para encontrar um pouco de poesia no caminho.

Rosa viveu o próprio sertão.

Ler Rosa é se aventurar num novo dizer.

Na poesia de Riobaldo, as veredas são
lugares vivos.

Diante do sertão rosiano como imagem
sublime.

Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente forma mais forte que o poder do lugar. Viver é muito perigoso…

Ah, tem uma repetição que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso coisas — e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?.

Sertão é isso;  o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera.

Sertão é o sozinho. (…) Sertão: é dentro da gente.

Sertão, — se diz —, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem.

“O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado” — ele Seo Ornelas dizia. — “O sertão é confusão em grande demasiado sossego.”

 

Que: coragem – é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia — do sertão — a toda travessia.

O sertão não chama ninguém às claras; mas porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente…

Sertanejos, mire veja: o sertão é uma espera enorme.

Estrela gosta de brilhar é por cima do Chapadão.

Tudo que é bonito é absurdo — Deus estável.