Ensaio

Os vãos gerais da Serra das Araras

Por Júlia Castro e Gabriel de Oliveira

 

Como é comum ocorrer com os viajantes, também retornei a Serra das Araras sem que soubesse, com clareza suficiente, porque escolhia adentrar novamente aquelas paisagens dentre tantas outras que também gostaria de reencontrar ao menos mais uma vez na vida. Cedi ao impulso e, sem me delongar em tentativas de refletir objetivamente sobre o assunto, deixei que algumas circunstâncias favoráveis tomassem a decisão por mim: liberação do trabalho, uma carona disponível, o feriado e a folga na rotina, cada vez mais rara.

Ao partir de Januária, cidade à beira do honrado e sofrido Rio São Francisco, já vislumbrava a presença da Serra, mesmo sendo impossível visualizá-la no horizonte da estrada de mais de 100 quilômetros que conecta uma localidade a outra. Ela não estava lá, visível na paisagem, mas já era possível senti-la. Nos verdes infinitamente plurais do cerrado, misturados aos beges, aos verdes mais intensos, ao verde-agua dos liquens, aos verdes-oliva, aos verdes tímidos, aos verdes-laranja com pintas amarelas.  A Serra das Araras estava ali no contraste do marrom da estrada de chão, desenhada em curvas e em diálogo com o cerrado, ora mais rústico, ora permeado por elementos que lembram um modo de vida rural. Tudo isso sob uma luz meio alaranjada,meio amarelada, temperada pela poeira que sobe e tinge o ar, o denso ar que desfoca o azul do céu.

Segui em direção à vila da Serra das Araras aprendendo a tratar aquelas cores do cerrado com a esperança de que elas animassem e colorissem as idéias que nos ensinam sobre o sertão ser um lugar vazio, feito de impossibilidades e de escassez. Havia discordância dentro de mim, mas a deixei de lado para olhar melhor aquela leve atmosfera que quase não se percebia. No caminho para o Parque Estadual da Serra das Araras encontrei um grupo de crianças indo para a escola com seus uniformes azuis em tons profundos. Uma delas parou perto de mim e sorriu tombando a cabeça e girando o corpo amistosamente de um lado para o outro, como a me perguntar algo. Seu uniforme tinha estampada uma mata com buritis e duas grandes araras vermelhas em tom forte que me lembravam mais a Mata Atlântica do que o Cerrado.

As crianças foram embora enquanto eu as observava. Coloquei meus óculos escuros e olhei para o sol, um ânimo sem limites me contaminou. Foi quando vi no chão da rua de terra batida uma pequena caderneta com uma capa de um material parecido com couro.

Belo Horizonte, 16 – X – 2014

A caderneta já está plena. Várias folhinhas de caderno começam a descolorir com o tempo, confundidas com a cor avermelhada do chão e o aroma bruto daquelas paragens. Ainda sinto o cheiro de terra – imensamente seca -, enquanto a poeira densa não abaixa; na verdade, parece que alteia mais e não descansa. Disso você sabe muito bem.

Minutos atrás, me vi folheando alguns rascunhos embaralhados e achei o seu presente: “Buriti, minha palmeira/lá na vereda de lá/casinha da banda esquerda/olhos da onda do mar”. O verso me deu força para seguir, para não esmorecer, um suspiro de orvalho no meio do areião! Por isso, resolvi, durante aqueles dias, seguir sempre o caminho rumo mais ao norte, de alma e corpo para romper os tabuleiros, subir os degraus de mesetas das chapadas e pegar o sol com a mão, para depois afogá-lo nos imensos ribeirões, orlados de buritizais. E aí – sim! Chegar à Vereda, procurar a casinha e alguns olhos verdes de mar.

Parei de folhear as páginas derradeiras do caderninho de campo logo quando vi o rabiscado: “Vão dos buracos: o som do vento dança com as folhas do buriti. Elas insistem em difamar, iludir – como se fosse um chamado para a entrada-das-águas.  É tudo o que clama o seco oco do sertão. Mas quando um pensa o anúncio de chuva, o espesso ar afirma quente e firme que não.  Ainda não”. 

E assim foi todo o tempo da nossa travessia…

A letra era bonita, quadrada, bem organizada, com espaços quase idênticos entre as letras e as palavras, mas ao fim de cada frase parece que a grafia incorporava uma emoção, pois os traços pareceriam mais desequilibrados e, a meu ver, denunciavam o teor afetivo da memória daquele conterrâneo meu. Uma amizade de travessias, uma paixão comum pelo sertão, páginas que mediavam a capacidade criativa de dois amigos. Folheei rapidamente a caderneta com a curiosidade de encontrar algum indício sobre o dono daquele caderninho, mas não vi nenhum nome, telefone ou e-mail.

       Segui meu caminho na estrada que chega ao Catarina, um ribeirão arenoso margeado por buritis, onde qualquer lapso cognitivo poderia me fazer pensar estar no Ceará ou em outro canto de litoral nordestino tomado por areais e a predominância de um bege entre marrons e vermelhos. Deve ser por isso que meu novo amigo vislumbrou a possibilidade de pegar o sol com as mãos para afogá-lo. Sol quente de queimar a nuca! Merecia um final fatal, isso sim!

       Um gole de água mineral serviu de motivo para voltar à caderneta. Já não me sentia desacompanhada por aquelas bandas.

Buracos, Barro Vermelho, Buraquinhos, Morro do Fogo, Ribeirão de Areia, Serra das Araras e arredores, preciso lhe contar. Lá – num legítimo “Vão” – conheci o Rio Pardo. Seus meandros sussurravam baixinho o caminho, os sedimentos se espalhavam, o rio ia para outro lugar, eu também ia. Seguia. Na volta para o alto da chapada, entramos num veículo enlatado, prontos para subir  o declive. E o carro parado, perdido, quase engolido pela areia úmida do Pardo. Mas então aconteceu o que menos e o que mais se esperava: lá vinha, na contravertente, a boiada robusta e os vaqueiros na rabeira, conversa de bois, papo de boiadeiro. Eles desciam da chapada para o vão; nós subíamos do vão para a chapada; caminho estreito, mal cabia o encurralado carro, mal cabia meia dúzia de bois, lado a lado. E vinha a boiada e vinha o carreado. Esbarramos! Boi passa devagar, boi passa zunindo, boi passa por cima.

       E eu que nada sabia de boiada, se fosse pega de surpresa agora nessa beira de vereda, nada faria a não ser rezar para não ser engolida pelo ribeirão Catarina.

– Mas que lugar é esse? – pensei! Melhor seria largar o carro destraçado, adentrar a pé pela massa vegetal do cerrado bruto – forte – imponente; e, assim, chegar até as escarpas da Serra através dos “baixos”, desviando do árduo caminho dos “altos” – uma chapada sem fim, o chapadão imenso. – Mas que lugar é esse? – insisti!

Antes de seguir, ainda matutei: – Sábio é o rio…

E desatei: – Agora seguirei sua trajetória, incorporo seus sedimentos, ouço a sua voz, aprendo o melhor caminho. Daí em diante, deposito também meus sedimentos, torno-me aquático, atravesso o vale do grande tabuleiro, corro por debaixo da terra, alimento as veredas e as raízes pivotantes dos arbustos do cerrado. Me movimento, atravesso o Rio Pardo. Quantas vezes for preciso recolho e semeio suas areias, escrevo meu caminho na sua rede granulada e chego enfim ao outro lado dos Buracos.

O pior e melhor de tudo, mire para depois ver: do outro lado dos Buracos estão os Buraquinhos. E é dos Buraquinhos que subo, enfim, para o alto da Serra das Araras – destino final.

Sabedoria de quem escreveu e que acabou por me dar dicas sobre como traçar caminhos naquele ambiente. A água é sempre astuta, pois traz em sua natureza o objetivo de seguir e o faz pelos caminhos que lhe oferecem menor resistência. Enquanto caminhava pela orla do Ribeirão Catarina, recuava em mim o impulso de seguir adiante; preferiria adentrar sorrateiramente no caderno de notas e seguir as linhas escritas que encontrara por acaso.

Antes de tudo, parei na casa de um veredeiro. Com chapéu de couro e cansado da lida da vida, olhou profundamente para meu semblante aquoso, esclareceu logo de vez que os olhos verdes afloram é na vereda e, então, fluem para o mar.

Entrei “para dentro”, como se diz. Conversamos milhares de horas sobre as folias cantaroladas ao luar, estrelas esparramadas pelo céu, os lindos tipos de ventos que brotam da terra, de cada um dos passarinhos que vinham ali nos vistoriar. Entendi rapidamente o imenso poder  ancestral entre o homem e o ser-tão (para isso, tive que olhar para dentro da alma do boi que pastava alegre-carrancudo, na beirada da vertente).

E lá em cima da chapada? “- Seu moço, antes eu plantava roça aqui e soltava o gado lá! Mas agora vivemos apeados, apartados. Plantaram um bocado de vintém na cimeira do chapadão e ao redor fica sempre tudo vazio, opaco. Em cima da terra roda um redemoinho sem parar – gira, gira a girar. E para olhar dentro do vento em caracol, meu senhor, carece de ter certa coragem”.

Não estranhe tantos fatos loucos, meu amigo, não há nada de novo nisso, você sabe. Na verdade, estive sempre na beira do Rio Pardo, com o mesmo chacoalhar de vento nas folhas de buriti e ouvi o mesmo barulho ilusório de chuva. Sim, eu sei que você está lembrado: a viagem nasce bem antes da primeira pisada, da primeira pegada, do primeiro trote neste chão, nasce quentinha na pré-paisagem do meu sertão.

A pré-paisagem do meu sertão – eu então pensava − eram as imagens que minha memória conservara da região e que se apresentavam de modo desconectado, apareciam com pouca definição, embaçadas, mas tinham força suficiente para me trazer de volta. Ao ler aquelas páginas do caderno de bolso, eu pensava em toda a região como espaço em que todos os cantos parecem capazes de encantar aqueles que, ao passarem por lá, ganham a oportunidade de espiar suas belezas. Espiar? Sim, espiar, e não, exatamente, contemplar, porque na Serra das Ararasnada parecia ser encaminhado para o visitante de modo arrebatador, de uma vez só. A impressão que eu tinha era a de ser necessário algum tempo (que varia de pessoa a pessoa) para conseguir alcançar sua “aura”.  Ali se sente algo que instiga, nada que possa ser objetivamente descrito, algo que chama, convida a voltar.

Peço que me lembre, na próxima carta, qual é o milagre dos destinos de um caminho. O quanto mais posso sonhar? Quantas veredas ainda restam nesses gerais e quantas vão para o mar? Colossais buritis estão postados enfileirados pelo vão dos Buraquinhos, o rio em moto-contínuo os segue margeando. Eu, novamente, sigo o movimento. Era começo do dia, o sertão ainda estava tonto, a aurora acompanhava meus passos e o barulho de meus pés na água, subsequente ao macerado da areia quando a pisoteava bem levemente. Do chão avistei enormes paredões, o sol a incidir serenamente no maciço arenito, violentamente vertical. Acredite, no meio do paredão avistam-se outros buraquinhos, são as moradas de incríveis araras vermelhas e canindés, onde constroem seus ninhos  e dormem tranquilas antes da chegada do preguiçoso sol. Olho para cima. Quando a força solar e resplandecente reflete no paredão, as aves se transformam, ficam alumbradas, se metem a gritar, voar e atazanar, metamorfoseando seus gritos em uma vigorosa sinfonia para o amanhecer da Serra.

Meu coração ali já batia mais forte…

Nesse ponto da leitura, que já se tornara um tipo de travessia que eu realizava pelos caminhos da memória e da imaginação, tudo parecia fazer sentido. O coração do dono do caderninho batera mais forte justamente quando ele encontrara aquelas para as quais a natureza reservou a arquitetura perfeita. As vermelhas e as Canindés, as rainhas, as senhoras daquele Vão, daquelas veredas, daquela serra: as araras cuja força doava sentido e força ao lugar-paisagem. As araras cujas cores e a beleza incitavam a ambição de traficantes sem caráter e, também, sem coração.

Acho melhor chegar ao fim da carta. Mas o convido para concluirmos o voo e o texto ao mesmo tempo, bem no instante em que alcançarmos o topo da Serra! Porque o resto é o resto: a subida dos patamares é feita em apenas três passos de ascensão, evoluindo por debaixo do lençol d’água até a última folha da campina do topo do morro, em consenso com as formas da paisagem. Aqui, nos sopés da serra estão os grandes blocos desmoronados, escarrilhados, cuspidos junto ao leito do rio; um passo a frente chega-se aos taludes íngremes, fervilhados em erosões, carcomendo toda aquela terra que irá desmoronar lá embaixo; por fim, é só chegar – tabular – ao alto da Serra, um pedaço de chapada remanescida, residual, que não se abala por nada. Pelo menos até então. 

       Naquele instante já me sentia como o próprio destinatário daquelas palavras. O fim da carta escrita nas páginas empoeiradas da caderneta já se anunciara, mas eu − com os pés molhados pela água do Catarina – me via invadida por uma profusão de recordações. Dentre elas, me lembrei da travessia que fiz no Vão dos Buracos e da paisagem que parece uma síntese da força do tempo da natureza sobre um lugar. A natureza, nesse caso, poderia ser visualizada como uma menina que brinca no terreiro, se ocupando de fazer um montinho de terra enquanto cantarola uma canção qualquer. Depois vai soprando lentamente o montinho de terra, e moldando com filetes de água que derrama de suas mãozinhas, até que o montinho começa a desmoronar. O que resta da brincadeira da menina é a paisagem que se pode observar durante o percurso do Vão dos Buracos em direção aos Buraquinhos.

Bom, agora é esperar nosso próximo voo, meu compadre. Nesse instante, deu até uma saudade, mas de algo que eu ainda não vivi. Ah, e eu sei que já contei tanto e nada relatei. Quando falo algo, as palavras ficam interligadas umas nas outras, assim como as areias do rio e do mar. Mas o sentimento de cada uma, cada um procura, procura… até não achar.

       E eu continuava procurando um sentido para além das coisas. Procurava o sentido de estar ali, na Serra das Araras. Procurava o próprio sentido da Serra. Buscava os indícios: as casinhas charmosas assentadas em terreno batido, com uma árvore florida ao lado; o cachorro que late para o carro passando devagar no quebra-molas; o mourão das cercas onde pousa um pássaro; nos pequenos comércios não raramente movimentados por vaqueiros, sinucas, chapéus e donas bonitas com trança no cabelo. Tudo em mim era nostalgia, mas era feita não do sentimento de lembrança do que passou, mas do que nunca se passou, do que eu nunca soube: que sertão é esse que se distancia daquele pintado na tela da TV e  em livros didáticos das escolas nas cidades?

Júlia Castro pesquisa o tema da viagem a partir da interface entre literatura e geografia. É mestre e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais.

juliafcastro@gmail.com

Gabriel de Oliveira estuda as relações socioespaciais no sertão mineiro, a partir da literatura de Guimarães Rosa. É mestre e doutorando do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais.

gabrielt.oliveirab@gmail.com