Ouro Preto: de onde partem todos os caminhos

Ouro Preto permanece uma cidade setecentista em pleno séc. XXI. No Brasil, é a que mais mantêm sua integridade histórica — no que se refere ao seu patrimônio edificado — e representa a síntese da arte colonial mineira. A cidade nasceu no final do século XVII como resultado da exploração do ouro pelos  bandeirantes.

Ouro Preto foi o primeiro centro histórico brasileiro a receber, em 1930, a denominação de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela UNESCO. A exploração do ouro estimulou o surgimento do maior conjunto de arquitetura barroca do mundo que, apesar da influência do Barroco europeu, assumiu características próprias e se transformou no Barroco Mineiro.

É dessa particular e especial cidade que partem todos os caminhos da Estrada Real. Conhecer Ouro Preto é reviver a história. A primeira lição começa na Praça Tiradentes, local que foi, um dia, palco das confabulações da Inconfidência Mineira — movimento no qual a elite local lutou contra a cobrança extorsiva dos impostos pela exploração aurífera (o “quinto” do ouro, que correspondia a 20% do metal extraído). Para melhor compreender, é só ir ao Museu da Inconfidência, construção de 1780.

Na exposição encontram-se roupas, cartas e objetos de lendários personagens do século XVIII, assim como mobiliário da época e peças do Mestre Athayde, ou Manuel da Costa Athayde, importante artista do Barroco-Rococó que influenciou numerosos alunos e seguidores; e Antônio Francisco Lisboa, conhecido pelo apelido Aleijadinho, um artista gênio que lutou contra uma doença degenerativa, o que nunca o impediu de realizar trabalhos incomparáveis na pintura, escultura e desenho. São Francisco de Assis, a Igreja mais famosa de Ouro Preto, é considerada sua obra-prima e um dos exemplares mais significantes do Barroco Mineiro. Sua construção, iniciada em 1766, é das poucas que possui a obra escultórica e a talha de autoria do mesmo artista — um primor em harmonia.  

Já a Matriz Nossa Senhora do Pilar, com construção iniciada em meados de 1730, é considerada a segunda igreja mais rica em ouro do Brasil: são mais de 400 quilos. A Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, de 1785, não pode deixar de ser visitada por ser uma construção de autêntica arquitetura barroca com sua planta e fachada curva. Outra parada obrigatória é a Casa dos Contos, erguida entre 1782 e 1784, foi espaço de pesagem e fundição do ouro.

As ruas são também atrações da cidade, tão importantes quanto suas construções históricas. Tortuosas, desembocam em largos, estreitam-se em becos e revelam grandes ladeiras, pontes de pedra, chafarizes, igrejas. A dica é andar a pé, sem pressa. O resultado é um encantamento a cada passo. Boas opções de hospedagem são as pousadas e hotéis do Centro Histórico, caso a intenção seja ficar próximo dos principais atrativos da cidade, pois a maioria das hospedagens desta área funciona em casarões coloniais tombados. No entorno da cidade existem várias outras opções, muitas bem próximas da natureza ou no alto dos morros, com vistas incríveis.

Desbravar outros tempos

Para quem quer continuar a desbravar outros tempos, embarque no passeio de trem até Mariana, em uma locomotiva com vagões panorâmicos que ladeia cachoeiras e montanhas até chegar à cidade, a 15 km de Ouro Preto.

Mariana guarda uma importante parte do patrimônio cultural e histórico de Minas Gerais. A Catedral da Sé e a Igreja de São Francisco de Assis — onde está o túmulo de Mestre Athayde — são primorosos monumentos da arte colonial mineira. A Igreja da Sé é datada de 1760, quando foram finalizadas sucessivas ampliações. Por isso, a sua decoração é primorosa, com um imenso acervo de Aleijadinho e Mestre Athayde. Há ainda o fantástico órgão Arp Schnitger, fabricado na Alemanha em 1701, de sete metros de altura por cinco de largura e dono de 1039 tubos. Os concertos emocionam os turistas todas as sextas-feiras pela manhã e também aos domingos. Outro acervo de imensa importância é o altar da Igreja do Carmo, em esplendoroso estilo rococó, além das cores barrocas e a pintura do teto. Do alto de um morro, desponta-se a Basílica de São Pedro dos Clérigos, cuja decoração é influenciada pelo Barroco italiano.

Do outro lado do caminho

O Caminho Novo é detentor de inúmeros e importantes patrimônios históricos. Da cidade de Ouro Preto ao Rio de Janeiro são vários os atrativos turísticos, legados da época em que todo o metal extraído das minas começou a seguir o novo percurso.

Do Rio de Janeiro  em direção a Minas, a estrada segue por meio de uma grande serra repleta de curvas e exuberantes paisagens até chegar a Petrópolis (RJ). O caminho é belo, a cada trecho a vista ganha amplitude. Para quem sobe, vale parar no Mirante do Cristo, e ver montanhas e um divino pôr do sol.

Petrópolis, perto do mar, mas situada na região serrana do Rio, era lugar preferido pela família imperial para passar as férias — mais especificamente numa fazenda comprada por Dom Pedro I em 1830. A cidade preserva um ar imponente e aristocrata devido aos seus museus, casarões e prédios históricos, do tempo em que se tornou a capital do império, de 1893 até 1903. Para aprofundar na história, basta ir ao Museu Imperial de Petrópolis, um monumento em estilo neoclássico edificado entre 1845 e 1862. No interior do museu encontram-se o trono, joias, mobiliário, artigos de decoração, além do traje, a coroa e o cetro do imperador — umas das mais raras peças da museologia nacional. Definitivamente, o visitante se depara com uma aula de história do Brasil.

Lições que estão também nas ruas da cidade. A Catedral de São Pedro de Alcântara, terminada em 1939, é um exemplo rico do estilo neogótico. Mais imperial impossível, afinal, ali estão os restos mortais de D. Pedro II, de sua esposa Dona Teresa Cristina e da Princesa Isabel. Outra parte importante da história — mesmo que não proveniente da realeza — é a casa de Santos Dumont, erguida em 1918, que apresenta hoje muitas das criações do aeronauta, com exceção, é claro, do consagrado 14-Bis. O Pai da Aviação nasceu na cidade de Santos Dumont (MG), onde existe um museu dedicado ao aviador na Fazenda Cabangu Alberto Santos Dumont.

No caminho é interessante parar nos chafarizes de pedras, decorados por  antigas inscrições. Uma delas  homenageia Mariano Procópio, engenheiro famoso por ter construído, em 1861, a Rodovia União e Indústria, ligando Petrópolis a Juiz de Fora.

Às margens do Caminho Novo surgiu o pequeno povoado Santo Antônio do Paraibuna, que daria origem a Juiz de Fora, importante centro econômico da região da Zona da Mata de Minas Gerais. A cidade guarda vários atrativos como o  Museu Mariano Procópio, datado de 1861, é o mais antigo de Minas. O seu imponente edifício é em estilo renancentista. Na cidade não se pode deixar de ver os painéis do artista Cândido Portinari: as “Quatro Estações” e “Cavalos”, que decoram a fachada do edifício modernista do Clube Juiz de Fora. Outra opção é ver os belos afrescos de Angelo Biggi, da melhor tradição muralista italiana, no Teatro Central, construído em 1929.

Também é preciso conhecer Conceição do Ibitipoca (MG), próxima a Juiz de Fora. Aclamada por atrativos naturais, a cidade com jeito de vila surgiu em 1692, com a chegada da bandeira de Padre João Faria Filho. No alto da Serra do Ibitipoca está o Pico do Pião, onde existem as ruínas da Capela Senhor Bom Jesus da Serra, construída em 1932 e destruída pelo tempo. A imagem do Bom Jesus do Pião encontra-se hoje em outra capela, cuja frente é voltada em direção ao Pico do Pião. Diz a lenda que foram as forças do santo que entortaram a capela para que a imagem pudesse apreciar o Pico.

Ainda no caminho, em Paraíba do Sul (MG), é possível ver os ossos de Tiradentes (mártir da Inconfidência Mineira) no Museu da Inconfidência. Se preferir, ainda ali por perto, é possível visitar a mais antiga construção da região, preservada em Matias Barbosa (MG): a Ermida da Fazenda de Nossa Senhora da Conceição do Caminho Novo, datada de 1709, onde ficaram hospedados alguns dos Inconfidentes de 1789.