As manifestações de religiosidade da Semana Santa em Ouro Preto não só traduzem a força da fé de seu povo como também preserva tradições seculares.

Por: Pâmilla Vilas Boas
Fotos: Jean Yves Donnard

A seresta toca enquanto as serragens dão forma a  desenhos que representam a fé dos homens. Na noite do Sábado de Aleluia e na madrugada do Domingo de

Páscoa, o povo vê a grandeza da saga que mistura arte, religião e tradições. Participar da Semana Santa de Ouro Preto é uma experiência que não cabe em palavras, mas sim em belas imagens que compõe a riqueza da memória que envolve a capital histórica de Minas Gerais.

E nessa relação entre imagem e fé, os tapetes devocionais assumem um papel importante ao enfeitar o trecho de quatro quilômetros por onde passa a procissão da Ressurreição. As ruas da cidade, declarada pela Unesco Patrimônio da Humanidade, são enfeitadas com tapetes coloridos de serragem decorados com flores onde comunidade e turistas se envolvem na confecção de verdadeiras obras de arte.

A tradição de cobrir as ruas para passagem de cortejos se perde no tempo e pode ser relacionada à entrada de Cristo em Jerusalém, quando a população cobria as ruas com ramos para a sua passagem. Em Ouro Preto, essa tradição nos remete ao séc. XVIII, na época das festividades do Triunfo Eucarístico, que marcou a reinauguração da Matriz de Nossa Senhora do Pilar.

O santíssimo, que representa o corpo de cristo, teve de ser transportado da igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos para a recém-inaugurada matriz de Nossa Senhora do Pilar. Os negros do rosário enfeitaram a cidade com tapetes. Mas depois dessa festa a tradição foi esquecida. A confecção dos tapetes só recomeçou em 1963, quando Nossa Senhora do Pilar foi escolhida a padroeira de Ouro Preto. De lá pra cá, a confecção dos tapetes foi absorvida pela população e integrada à cultura popular.  “O Triunfo Eucarístico foi muito importante na união entre o sagrado e o profano para resgatar essa tradição na cidade”, reforça Cézar Teixeira, Chefe de Gabinete da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP).

Tapete de ideias

Ciprestes, farinha de trigo, pó de café, palha de arroz, couro, cal e serragem. Tudo isso pode servir de material para a confecção dos tapetes que agregam a tradição e também trazem à tona diversos questionamentos da arte contemporânea. De acordo com Cézar, os tapetes são uma verdadeira intervenção urbana que agrega e mobiliza a comunidade. “A arte dos tapetes não tem limites, pois envolve artistas, não artistas, moradores da rua por onde passa o cortejo e colaboradores” completa.

Uma beleza construída com detalhes para uma vida breve, que se desfaz após a passagem da procissão. Talvez seja justamente por ser uma obra de arte efêmera que não pode ser dobrada nem guardada que atrai tanto a atenção de turistas, moradores e fotógrafos. É preciso  captar tudo com olhar atento a todo tipo de detalhe. E o que importa mesmo é  o processo de construção do tapete, a união de um povo — com um mesmo propósito de confeccionar sentidos e fé — que contribui para a manter a tradição. “Encanto aos olhos, tradição da cidade, história que faz parte do patrimônio, poéticas que são construídas. Uma intervenção artística e urbana que traduz essa relação com a fé”, completa Cézar.

E dar forma para essas ideias e imagens não é tarefa simples. Primeiro é preciso recolher o material: serragens em várias granulações, pó de café, casca de arroz, pigmentos naturais para então serem tingidos. Os temas dos tapetes variam. Há formas geométricas, moldadas com fôrmas de aço, ou mesmo figuras ou ilustrações, como a imagem de Cristo ou de alguma passagem bíblica. Os desenhos podem ser feitos diretamente sobre o chão ou desenhados sobre papel para depois serem cobertos com o material colorido

Nesse processo, cada família de Ouro Preto é responsável por confeccionar o tapete em frente à sua residência. Em algumas partes do trajeto, onde não há casas, como pontes e áreas comerciais, os tapetes são confeccionados por equipes da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP) que mobiliza alunos e comunidade. O trabalho de montagem dos tapetes começa às 20h do sábado e atravessa a madrugada.

O Flautista e cantor Walter Fernandes já passou por muitas madrugadas tocando serestas enquanto a comunidade se dedica à construção dos tapetes. “Enquanto o pessoal tece vou tocando música de seresta. A música Carinhoso, os sambas canção de Nelson Gonçalves e outras do passado. O povo da rua ajuda, canta junto e chega até a pedir música.”, comenta.

Reinventar para não morrer

Reinventar e difundir uma tradição local exige esforço, pesquisa e mobilização junto à sociedade. É nesse sentido que atua a Fundação Artística de Ouro Preto (FAOP). Com mais de 40 anos de existência, a FAOP promove ações para preservar a tradição da ornamentação das ruas com os tapetes devocionais.  Para isso, a  entidade oferece palestras, cursos, entrevistas, orientações e apoio técnico de sua equipe à comunidade. De acordo com Cézar, uma das ações promovidas pela FAOP no sentido de  preservar um acontecimento tão tradicional como a criação dos tapetes é o trabalho de mobilizar alunos, professores e funcionários em suas três unidades e, em especial, com o envolvimento dos Núcleos de Arte e de Conservação e Restauração durante as festividades da Semana Santa. “São várias pessoas envolvidas e a FAOP tem criado estratégias para manter a tradição com pesquisa de novos materiais para manter toda essa diversidade”, explica.

Além de criar mecanismos para que a comunidade continue promovendo as suas tradições, a FAOP também incentiva as reinvenções e a inserção em novos espaços. Em 1989, a artista plástica Gabriela Rangel realizou a intervenção chamada “Tapete de Ouro Preto” em que instalou o tapete devocional em frente ao Centro Cultural da UFMG durante o 21º Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, dentro da programação “Intervenção Urbana”.

Cézar explica que, a partir do ano de 2005, a FAOP criou a ação artística Tapete+Arte que incentiva, difunde e valoriza a tradição dos tapetes devocionais de Ouro Preto, inserindo em espaços diversos com mobilização e participação da comunidade. Para Cézar, esse deslocamento coloca essa tradição dentro da arte produzida atualmente.  “O projeto ‘Tapete + arte’ leva esses tapetes devocionais para outros espaços como galerias, museus e outras cidades. É uma forma de brincar com a tradição e com as questões impostas pela contemporaneidade”, completa.

Rituais da Semana Santa

E não são só os tapetes que fazem da Semana Santa de Ouro Preto uma das mais importantes manifestações religiosas do Brasil. A cada ano, as duas igrejas matrizes da cidade se revezam na preparação da programação da Semana Santa: em um determinado ano a festa é  de responsabilidade da matriz de Nossa Senhora do Pilar e no outro é da matriz de Nossa Senhora da Conceição. Este ano de 2012, a programação ficou a cargo da matriz de Nossa Senhora do Pilar, que comemora 300 anos. É por isso que o percurso da procissão muda, já que ele depende da igreja responsável pelos festejos da Semana Santa.

Dentro dessa extensa programação que   começa no Domingo de Ramos e vai até o domingo de Páscoa, a celebração da Sexta-feira da Paixão é uma das mais importantes. Nesse dia acontece a Procissão do Enterro. Após o sermão, ocorre o descimento da Cruz em frente a igreja de São Francisco de Assis, com a encenação da retirada de Jesus Cristo da cruz. A partir daí, a comunidade segue em procissão pelas principais ruas da cidade.  A imagem do Senhor Morto é acompanhado pela guarda-romana. Atrás vem a imagem de Nossa Senhora das Dores e a corporação musical tocando músicas fúnebres. Neste dia, não há missas nem toques de sinos, somente o som das matracas.

Outro momento importante é a cerimônia do Lava–Pés que acontece na Quinta-feira Santa em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário. Após o sermão do Mandatum, o padre, representando Jesus, lava os pés de doze jovens da comunidade, que representam os apóstolos.

O Sábado de Aleluia marca o início do ano litúrgico católico, com a bênção do fogo novo e da água batismal. Também é o dia da confecção dos tapetes de serragem. O Domingo de Páscoa começa com a missa festiva na Matriz Nossa Senhora do Pilar, em celebração à Ressurreição de Jesus. Após a missa, a Procissão do Santíssimo Sacramento é formada e percorre o caminho dos tapetes de serragem. É uma procissão festiva, que termina no Santuário de Nossa Senhora da Conceição. As casas da cidade mostram a alegria da data com as toalhas coloridas que aparecem nas janelas e sacadas.