Fotos Eduardo Gontijo

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu — localizado no Norte de Minas Gerais, entre os municípios de Januária e Itacarambi —, conserva um dos mais valiosos patrimônios arqueológicos e geológicos do Brasil. Uma área protegida de 56.000 hectares abriga uma fabuloso acervo natural formado por mais de 140 cavernas e 80 sítios arqueológicos com pinturas rupestres

A paisagem sertaneja é marcada pela contradição. No meio da terra seca, veredas de águas reluzentes. Em meio a um sol escaldante, árvores frondosas. No meio da imensidão marrom, um homem disposto a ajudar indica que “a cidade mais próxima não está longe daqui”. Ainda que inóspito, o sertão está cheio de vida. Vida que brota de onde menos se espera. Por isso, o espanto de tantos ao reconhecer, no sertão, paisagens tão belas como as que se encontram no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. O local guarda um dos mais valiosos patrimônios arqueológicos e geológicos da região: são mais de 140 cavernas e 80 sítios arqueológicos com pinturas rupestres, em uma área de 56.000 hectares.

Peruaçu: parque criado em 1999.

O Parque está localizado no Norte de Minas Gerais, entre os municípios de Januária e Itacarambi. Criado no ano de 1999, o Parque faz parte do Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu, projeto que propõe a unificação de áreas de conservação ambiental existentes nas regiões Norte e Noroeste do estado por meio de corredores ecológicos. Ainda que os espaços estejam dispostos de forma isolada, o mosaico constrói um desenho geométrico que garante a conexão entre as partes. O Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu abrange um território de 11 municípios, 12 unidades de conservação e uma área indígena, composta por 32 aldeias do povo xacriabá, isso sem contar as comunidades quilombolas e outros povos tradicionais que vivem na região.

Formação da terra

Apesar de a região apresentar características típicas do bioma Cerrado, ela já começa a se misturar com a fauna e a flora da Caatinga, o que garante à região uma vegetação única. Dentro do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, é comum encontrar árvores de médio porte típicas do Cerrado junto a arbustos pequenos, de aspecto seco, comumente encontrados na Caatinga. Entre as espécies mais presentes no local, estão a aroeira-do-sertão e o pau-preto. Ainda que a riqueza vegetal da região chame a atenção do visitante, são as características geológicas que a transformam em local de interesse turístico e científico. Afinal, a quantidade de cavernas, grutas, veredas e lagoas dentro do território é algo realmente fora do comum.

Biomas: Cerrado e Caatinga.

Buscar uma explicação para o fenômeno é voltar a um Brasil ainda submerso nas águas do mar, há milhões de anos. Com a elevação do nível da terra, a água secou, formando grandes maciços de calcário. Nesse processo, diversos cursos d’água não encontraram saída para o mar e se transformaram em lagoas. Outros insistiram na busca por uma saída e acabaram por esculpir extensões calcárias e transformar as rochas em cavidades naturais. Esse foi o processo enfrentado pelo Rio Peruaçu, curso d’água que percorre parte do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e dá nome à região. O conjunto de processos erosivos foi responsável pela formação de um lindo complexo de veredas e lagoas, cavernas e grutas de diferentes tamanhos e formas.

Beleza natural

Visitar o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu é se surpreender. Impressionam as famosas veredas, áreas de vegetação rasteira das quais brotam águas cristalinas. São verdadeiros oásis no sertão. Os enormes buritis, espécies de palmeiras que alcançam até 20 metros de altura, tornam o cenário ainda mais singular. A maior das veredas é a do Peruaçu, com 37 quilômetros de extensão. As da Lagoa Azul e da Passagem também merecem destaque. Outros caminhos levam a uma das seis lagoas existentes no local. São elas: Carrasco, do Jacaré, do Jatobá, Junco, do Meio e dos Patos. As lagoas são rodeadas por matas ciliares — vegetação que acompanha os cursos d’água e são responsáveis pela manutenção da qualidade dos recursos hídricos e pela conservação de diversas espécies.

Cavidades naturais: imensos salões.

Mas a grande peculiaridade do Parque é mesmo seu conjunto de cavernas e grutas. Entrar em uma delas é entender a existência de um novo mundo, bem abaixo dos nossos pés. Em Minas Gerais, há mais de 5.000 cavidades naturais, o que faz dele o estado com o maior número de grutas e cavernas no Brasil. Cada cavidade é classificada de acordo com a sua relevância biológica, e o complexo geológico do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu é considerado de extrema importância.

Populações pré-históricas: 11.000 anos.

O caminho para se apreciar tudo isso é, por vezes, estreito e sem iluminação. Mas, no fim desses corredores naturais, abrem-se imensos salões com formações rochosas de distintas cores e texturas. Algumas paredes apresentam mesmo um brilho natural, como se estivessem cobertas por uma camada de pedras preciosas. Do teto, pendem grandes estalactites, colunas de pedra formadas pelo gotejamento incessante de água e minerais. E, como num processo de recriação da matéria, do chão, surgem estalagmites, formadas pela sedimentação dos minerais que caem do teto. Cada um desses processos dura milhares ou mesmo milhões de anos para se consolidar, sem nunca perder o caráter de mudança.

Gruta do Janelão, cavidade com 4.740 metros.

O espaço mais visitado é a Gruta do Janelão, uma cavidade com 4.740 metros de extensão horizontal e 176 metros de elevação. Ao contrário das grutas tradicionais, as fendas das paredes possibilitam a entrada do sol, que forma pequenas florestas verdes dentro da cavidade e dá a impressão ao visitante de se estar em um belo jardim. O nome do espaço se deve a uma grande abertura lateral que dá vista a um lindo paredão.

Marcas ancestrais

A importância do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu para a conservação do meio ambiente está clara para todos aqueles que visitam o local e se encantam com os enormes salões naturais construídos pela própria natureza, pelas belíssimas veredas e lagoas que se estendem pelo sertão afora e pela vegetação ímpar que o local apresenta ao misturar Cerrado e Caatinga. Há também motivos históricos e culturais para a manutenção do espaço: a região do Parque foi habitada por populações pré-históricas há cerca de 11.000 anos.

O Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu:
11 municípios.

A passagem desses povos está marcada nas pinturas rupestres deixadas em algumas das grutas e cavernas do Parque. Há também a presença de picoteamentos, desenhos em baixo relevo realizados com ferramentas primitivas. Somente por meio de pesquisas aprofundadas, descobriu-se o quão antigos estavam esses seres do período contemporâneo. Com o fim dessas populações, o local passou um longo período sem a presença de humanos, até ser ocupada por índios xacriabás. Esse grupo habita a margem esquerda do rio São Francisco e foi formado a partir da mistura entre os índios e os negros que chegaram ao Brasil. Originariamente, o grupo se comunicava pelo dialeto akwe, mas, nos dias de hoje, eles falam português.

Natureza bruta intocada.

Grande parte dos xacriabás está, hoje, no município de São João das Missões, local oficialmente reconhecido como território indígena no ano de 1979. Eles dão à região uma riqueza cultural que completa o quebra-cabeça que faz de Peruaçu um lugar único e digno de ser reconhecido como um dos mais belos parques do Brasil.