Exuberante destino

A menos de 100 quilômetros da capital mineira, a Serra do Cipó é refúgio para turistas que buscam descanso e contato com a deslumbrante natureza . Essencial para a manutenção da biodiversidade, esse recanto paradisíaco da Cordilheira do Espinhaço enfrenta dificuldades para equilibrar crescimento e potencial turístico.

Reportagem Juliana Afonso
Fotos Rogério Alves Dias

 

Quando as primeiras chuvas de verão começam a cair no alto da Serra do Cipó, na parte sul da Cordilheira do Espinhaço, em Minas Gerais, as nascentes e os riachos transbordam e as cachoeiras se enchem de água. É o momento ideal para moradores e turistas admirarem as volumosas quedas d’água da região —com o cuidado necessário, é claro. É também o momento perfeito para se observar a simplicidade de uma natureza pra lá de complexa, que, ao receber das chuvas a água que se foi nos meses de seca, consegue reestabelecer o volume dos rios, em especial o Cipó, que deságua no rio das Velhas, o maior afluente do caudaloso rio São Francisco.

Como em um sistema onde todas as peças se encaixam, a Serra do Cipó é essencial para a manutenção da biodiversidade e é, por si só, a região com um dos maiores índices de endemismo do Brasil. As particularidades do local se devem, em grande parte, à formação geológica de milhões de anos, que originou morros, picos, cânions, piscinas naturais, cachoeiras de águas cristalinas e belíssimas paisagens, envoltas em uma vegetação exuberante.

Todos esses atrativos, associados à proximidade com Belo Horizonte (a região está a menos de 100 quilômetros de distância da capital mineira), fazem com que a Serra do Cipó seja um dos destinos de ecoturismo mais procurados de Minas Gerais, com opções para lazer, descanso e esportes. O crescimento do turismo, porém, traz diversas questões, que passam pela garantia da conservação do meio ambiente e, ao mesmo tempo, pela democratização do acesso aos atrativos turísticos.

Importância reconhecida

As exuberantes paisagens da região podem ser vistas ainda na estrada. Isso porque a formação geológica que originou o local, há cerca de 1,7 bilhão de anos, criou um cenário cheio de curvas. Outra consequência desse processo é o fato de as montanhas serem o divisor das bacias dos rios Doce e São Francisco. A água que floresce na região é um elemento à parte: a pureza do rio Cipó é tão grande que recebe o título de “classe especial”, dado aos cursos d’água que contribuem para o equilíbrio natural e a preservação dos ambientes aquáticos.

As características singulares da região sempre chamaram a atenção, principalmente dos ambientalistas, que, a partir da década de 1970, lutaram pela criação de uma legislação para proteger o espaço. Mas somente em 25 de setembro de 1984, após uma série de estudos, foi criado o Parque Nacional da Serra do Cipó, com uma extensão de 33.800 hectares, entre os municípios de Itambé do Mato Dentro, Jaboticatubas, Morro do Pilar e Santana do Riacho. A Unidade de Conservação (UC) visava à proteção das nascentes do rio Cipó, da fauna e da flora locais — devido ao alto grau de endemismo da região — e do seu potencial recreativo.

O analista ambiental do Instituto Chico Mendes para a Biodiversidade, Flávio Lúcio Braga Cerezo, atual chefe do Parque Nacional da Serra do Cipó, salienta a importância de se entender o território como local de visitação. “A categoria Parque prevê a visitação com o objetivo de lazer, recreação, ecoturismo e educação ambiental. É nos parques que pessoas têm a oportunidade de conhecer e apoiar a conservação desse patrimônio no país”, afirma.

50 mil visitantes em 2016

Aos interessados em conhecer o lugar, o que não falta são atrações, que podem ser visitadas a pé, de bicicleta ou a cavalo. Algumas delas estão entre os pontos turísticos mais procurados da Serra do Cipó, como a cachoeira da Farofa, com 80 metros de queda, e o cânion das Bandeirinhas, com paredões de tirar o fôlego, além de mirantes, lagoas e rios.

O número de visitações ao parque é expressivo: no ano de 2016, foram mais de 50 mil pessoas. A previsão para este ano é que o local receba mais de 60 mil turistas. “O Plano de Manejo do Parque coloca muito claramente que a limitação do número de visitantes está associada à qualidade da infraestrutura ofertada. Quando a gente melhora essa infraestrutura, tem a possibilidade de aumentar esse limite”, explica Flávio.  Hoje, o número de visitantes é compatível com o espaço delimitado para a atividade turística, que soma menos de 2% da área total do parque, e um dos desafios dos gestores locais é melhorar a qualidade da infraestrutura de recepção para, então, aumentar a visitação.

Paisagem que encanta

O Parque Nacional da Serra do Cipó recebe todo tipo de turista: crianças, jovens, adultos e idosos, aventureiros e moradores do campo e da capital. Elizabete Coimbra, 46 anos, auxiliar de contabilidade, veio com um grupo de colegas da academia que frequenta, em Belo Horizonte, para fazer uma caminhada e aproveitar o dia na cachoeira. “Do que estou gostando mais? De tudo. Da paisagem, do sossego, de sair daquele barulho da cidade. Aqui é lindo”, diz.

O grupo aproveitava o passeio, entre banhos, fotos e conversas animadas. O guia do grupo, Orilon Brasil Neto, 50 anos, engenheiro ambiental, frequenta a Serra do Cipó há mais de 20 anos. “Eu sou escalador. Comecei vindo aqui escalar e, automaticamente, uma cachoeira, uma caminhadinha…”, conta. Para ele, o que faz da Serra do Cipó um lugar especial é a abundância de água, além da beleza da vegetação. Isso sem contar a proximidade da capital. “Essa turma tem um dia pra fazer a atividade, aqui acaba sendo um local rápido e com muitas opções”, explica Orilon.

Regulamentação da Área de Proteção Ambiental

Mas os atrativos da região ultrapassam os limites físicos do parque. As lindas cachoeiras Grande, Véu da Noiva e Serra Morena, verdadeiros cartões-postais da Serra do Cipó, são exemplos de lugares já muito conhecidos por moradores e visitantes. Elas fazem parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Morro da Pedreira. Com abrangência total de 66.200 hectares, circundando toda a área do parque, a APA foi criada em 26 de janeiro de 1990, com o objetivo de preservar o ecossistema local, com destaque para o bioma do cerrado.

A regulamentação da área trouxe novos desafios. Grande parte desses atrativos está em propriedades particulares e, ao contrário do parque, não recebe recursos do governo. Para manter a qualidade e poder investir em infraestrutura e preservação, os proprietários tiveram que pensar em formas diferenciadas de administrar esses espaços. Uma das soluções encontradas foi cobrar um valor de entrada. Assim, enquanto no parque a visitação é gratuita, nos atrativos particulares a entrada pode chegar a R$ 30.

Cobrança controversa

A cobrança para a visitação dos atrativos da Serra do Cipó tem mudado o perfil do público que frequenta o local. Para algumas pessoas, ela é positiva. “Agora existe mais segurança nesses atrativos, os balneários têm salva-vidas, o local é mais fiscalizado”, opina o empresário Rodrigo Pereira de Melo, da Bela Geraes, agência de turismo da região. Ele acredita que a cobrança é uma das explicações para a diminuição dos “farofeiros”, apelido dado aos grupos de excursões que viajam ao local só por um dia, levam a própria comida e deixam o lixo para trás.

Houve uma tentativa, por parte dos proprietários e gestores dos atrativos, de controlar esses grupos, com a elevação do valor da entrada, a partir da percepção de que esse seria um público de baixa renda. Mas o aumento no preço não provocou, necessariamente, diminuição desse perfil. “O visitante vem de qualquer forma. Se quiser, ele junta o dinheiro e vem”, avalia Gustavo Campos, secretário municipal de Turismo e Meio Ambiente de Santana do Riacho. O município abrange, dentre outros, o distrito de Serra do Cipó, porta de entrada para a maior parte dos pontos turísticos da região.

O governo municipal tem trabalhado na regulamentação e na normatização desses locais, com o objetivo de promover uma gestão sustentável dos atrativos turísticos. Capacidade de carga, limite de visitação, controle de entrada com termo de responsabilidade e ciência dos riscos, exigência de monitores e salva-vidas nos balneários são alguns dos pontos a serem regulamentados, além da responsabilização dos gestores desses espaços pela destinação correta do lixo. “O processo ainda está em andamento, ele vai finalizar com a implementação das normas em forma de lei municipal”, afirma Gustavo. Para o secretário, a cobrança é uma forma de compartilhar a responsabilidade pela preservação do espaço com o turista.

Impedimento à visitação

Para outros, porém, a cobrança é um impedimento à visitação. “Antes você ia a qualquer lugar sem precisar pagar, agora eles estão cobrando um preço altíssimo. Isso prejudica o acesso da população e elitiza o público”, opina Leandro Queiroz Santi, 54 anos, médico. Leandro aproveitava a tarde na cachoeira Monjolos, onde não há cobrança de entrada. A irmã dele, Eleonora Queiroz Santi, 52 anos, aposentada, compartilha a mesma opinião. “Uma família com cinco pessoas tem que pagar R$ 150 para um dia de passeio, sem contar o preço da comida”, exemplifica.

Os irmãos carregavam uma sacola cheia de lixo, que recolheram ao longo da caminhada pela beira do rio. “Mesmo com um acesso agora mais elitizado, a gente ainda vê muito desrespeito à natureza”, afirma Leandro. Para o chefe do Parque Nacional da Serra do Cipó, Flávio Cerezo, quem mais degrada o ambiente não é exatamente o pobre. “Quem mais degrada costuma ser quem tem grande poder aquisitivo, as empresas que promovem grandes empreendimentos com pouca preocupação ambiental, que visam somente ao lucro. Em termos de educação do indivíduo, a gente vê pessoas com baixo e alto poder aquisitivo jogarem lixo na rua”, afirma.

O fato de o Parque Nacional da Serra do Cipó não cobrar entrada faz com que o  público que o frequenta seja bastante diversificado. A direção entende que esse é dos motivos para o aumento no número de visitantes em 2016, ano em que praticamente todos os outros atrativos e serviços turísticos da região registraram baixa. “A atividade turística deve enxergar a diversidade da população brasileira e dar oportunidade a todos os públicos”, afirma Flávio. A Unidade de Conservação cumpre, assim, a missão de democratizar o acesso e trabalhar a educação para preservação.

Natureza e relaxamento

A visão de que o meio ambiente precisa estar isolado das pessoas para conservar as características que possui é coisa do passado. Atualmente, o turismo é entendido como aliado da preservação. “Se a pessoa conhece, sabe que é bonito, sabe que é frágil, que precisa de cuidado, ela vai ajudar a preservar”, afirma Rodrigo.

O público visita a região principalmente para aproveitar a natureza. A Serra do Cipó oferece diversas trilhas, de diferentes níveis de dificuldades, e até mesmo a possibilidade de se realizarem travessias. A mais recente, inaugurada no final de 2015, tem 65 quilômetros de extensão e atravessa todo o Parque Nacional da Serra do Cipó, percurso que pode ser feito em um período de três dias. Rodrigo, da agência Bela Geraes, afirma que as atividades náuticas também são muito procuradas, como o caiaque, o stand up padle e o boia-cross, que podem ser contratados na beira dos balneários particulares.

Mas, se tem um esporte no qual a Serra do Cipó se destaca, esse é a escalada. “Aqui é a meca da escalada no Brasil”, afirma o engenheiro ambiental Orilon. O tipo de rocha da região, o calcário marmorizado, é ótimo para essa atividade. “Além de o lugar proporcionar a prática de caminhadas e oferecer muita água”, comenta.

Outro público que visita a região vem em busca de relaxamento — e um pouco de romance. “As pessoas procuram muito nos finais de semana. Recebemos muitos casais que vêm para namorar”, afirma a proprietária da Fazenda Monjolos, Raquel Machado.

Diversificar para crescer

A ocupação das hospedagens e a procura por passeios na Serra do Cipó são maiores aos fins de semana e feriados, a ponto de os atrativos turísticos, hotéis e pousadas se esvaziarem totalmente nos dias de semana. “Muitos turistas procuram um lugar para dormir, e não a cadeia produtiva”, afirma Raquel. A Fazenda Monjolos, que funciona há 25 anos, optou por incluir todas as refeições, desde que foi inaugurada. A prática permanece até hoje. Para Raquel, isso é reflexo da falta de investimentos no local. “Quando os governos pensam e trabalham a região como um local turístico, ela melhora a estrutura”, afirma.

Hoje, o distrito da Serra do Cipó concentra a maior variedade de hotéis, pousadas, restaurante e lojas da região, por ser a porta de entrada para os principais atrativos turísticos. Entretanto, devido ao baixo fluxo de turistas durante a semana, alguns estabelecimentos só abrem as portas nos dias mais cheios. “A gente recebe muitas pessoas das operadoras de São Paulo que só vieram pra cá porque tomaram a decisão em cima da hora e não tinha vaga na Chapada Diamantina ou na Chapada dos Veadeiros. O feedback deles é sempre o mesmo: ‘como ninguém conhece este lugar?’”, conta Rodrigo, que critica a falta de divulgação da Serra do Cipó, principalmente por parte dos governos municipal e estadual.

Ainda que a divulgação da Serra do Cipó esteja baseada nas belezas naturais, é preciso diversificar a oferta. Foi pensando nisso que o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) lançou as Rotas Temáticas, com o apoio da Secretaria de Turismo e Meio Ambiente de Santana do Riacho.

São oito roteiros: Rota das Tradições (saberes tradicionais), Rota do Bem-Estar (atividades de promoção à saúde), Rota da Produção à Mesa (degustação e preparo de produtos rurais), Rota dos Sabores da Serra do Cipó (identidade cultural e gastronômica), Rota dos Sabores da Lapinha da Serra (identidade cultural e gastronômica), Rota Rupestre (turismo arqueológico), Rota do Cerrado e Campos Rupestres (sensibilização para a preservação da fauna, flora e águas) e, como não podia deixar de ser, Rota da Aventura (ecoturismo e turismo de aventura). “Elas são o resultado de um trabalho de fortalecimento das lideranças locais”, afirma Gustavo Campos.

Cuidado em expansão

A principal fonte de receita do município de Santana do Riacho é o turismo e, para fortalecer a atividade, é preciso garantir a preservação do meio ambiente que, atualmente, passa por algumas ameaças. “Estamos no meio de dois grandes projetos de desenvolvimento econômico: de um lado, o crescimento do Vetor Norte de Belo Horizonte, que gera uma grande especulação imobiliária no entorno, do outro, a construção do maior mineroduto do mundo, em Conceição do Mato Dentro”, alerta Gustavo.

Como nenhuma das duas atividades acontece no município, esse não recebe nenhuma contrapartida financeira, essencial para a contratação de uma empresa especializada, capaz de produzir um diagnóstico ambiental neutro. Esse relatório poderia ser usado como argumento para a elaboração de leis condizentes com as especificidades da região.

Pequeno éden

Considerada por Burle Marx como o “Jardim do Brasil”, pela extraordinária diversidade de ambientes, da fauna e da flora, a Serra do Cipó é dos conjuntos naturais mais exuberantes do mundo.  Ainda no século XVIII, a região foi percorrida por grandes naturalistas, como Lund, Saint-Hilaire, Warming, Langsdorff, dentre outros, que iniciaram impressionantes registros da riqueza da flora, da fauna e de sítios arqueológicos e paleontológicos.

A área do Parque Nacional da Serra do Cipó está delimitada nos domínios do bioma do cerrado, cujos principais destaques são as grandes áreas de campos rupestres. Existem ainda matas de galeria e alguns fragmentos de mata atlântica que influenciam na composição de espécies que, portanto, estão distribuídas em ambientes extremamente diversificados.

Há muito tempo objeto de vários estudos e pesquisas, que sempre registraram relevantes descobertas, a flora da Serra do Cipó registra a ocorrência de numerosas plantas endêmicas — aquelas que só existem lá —, a ponto de configurar como região com uma das maiores taxas de endemismo do mundo.

Destacam-se, por exemplo, várias espécies de sempre-vivas. De flores secas, pelo fato de não murcharem nem perderem a cor, são utilizadas na decoração. Por essa razão, são muito coletadas e, como consequência, sofrem algum tipo de ameaça. Outras importantes plantas, muito diversificados, são as canelas-de-ema (velósia gigante), sendo que algumas das espécies são extremamente interessantes: as canelas-de-ema gigantes atingem até seis metros de altura e um metro de circunferência na base do tronco. Algumas delas apresentam mais de 900 anos de idade.

No Cipó são encontrados orquídeas e bromélias de várias espécies e cores; margaridas, cactos, ipês e quaresmeiras, além de fascinantes líquens coloridos, que brotam sobre as pedras. A abundância de espécies vegetais é tão grande que a região — que fica permanentemente florida durante os 12 meses do ano — é um imenso campo aberto para os pesquisadores.

Fauna rara

A fauna da Serra do Cipó também reúne espécies endêmicas importantes, como a perereca-de-pijama, que tem esse nome devido às listras pretas que tem na pele. Também há uma série de animais raros, como aves, peixes e mamíferos, alguns ameaçados de extinção, como o lobo-guará e a onça-parda.

Das espécies de mamíferos existentes

em Minas Gerais — são registradas cerca de 243—, 55 já foram vistas no Parque Nacional da Serra do Cipó. Isso porque essas espécies apresentam ampla distribuição geográfica: elas vivem no cerrado, na mata atlântica e também na caatinga. Porém, algumas são endêmicas do cerrado, como alguns ratos-do-mato e a raposinha.

Um dado muito importante está relacionado à ocorrência de espécies ameaçadas de extinção — que estão catalogadas na lista oficial do estado — e que vivem na Serra do Cipó. São 11 espécies: os lobos-guará, as raposinhas, as lontras, os ratos-de-espinho, as jaguatiricas, os gatos-do-mato-pequeno, as suçuaranas, os tatus-rabo-de-sola, os tamanduás-mirim, os catitus e os guaribas.

Por essa descrição, fica mais que evidente a extrema relevância da Serra do Cipó, uma região raríssima, cujas extraordinária beleza e gigantesca riqueza natural desvelam um pequeno éden a 100 quilômetros de Belo Horizonte.

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