Parque Nacional do Caparaó

Longe nas alturas

O Parque Nacional do Caparaó (Parna Caparaó) é um dos principais destinos turísticos do país que unem aventura e ecoturismo. Além de ser uma das grandes referências em montanhismo no Brasil, essa Unidade de Conservação (UC) protege e preserva uma majestosa natureza, importantes tesouros naturais da mata atlântica, bioma tão tristemente maltratado ao longo dos séculos. O Pico da Bandeira, com 2.892 metros de altitude, é o maior atrativo do Parna Caparaó.

Reportagem Rita de Podestá e Cacaio Six
Fotos Marcos Amend

 

Quantas trilhas daqueles maciços de imponentes serras seriam necessárias para conquistar o cume daquela que seria a “montanha” mais alta do Império do Brasil? Era longo, tortuoso, muito frio e úmido o caminho que terminava acima das nuvens, em 2.892 metros de altitude. Mas o imponente pico precisava ser devidamente conquistado e demarcado pelo pavilhão nacional, a bandeira verde, amarela, branca e azul-anil do Brasil.

Pois foi dom Pedro II que ordenou que o símbolo da nação brasileira fosse instalado com galhardia lá naquelas alturas, em um ponto localizado na divisa do território que viria a ser os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. A conquista do lugar que logo passou a ser chamado de Pico da Bandeira repercutiu e foi muito emblemática, mas ainda hoje permanecem as insondáveis belezas da região outrora dominada por uma pujante mata atlântica, guardiã de importantíssimos tesouros naturais desse bioma tão tristemente maltratado ao longo dos séculos.

Cinco picos

O Pico da Bandeira é hoje o principal atrativo turístico do Parque Nacional do Caparaó, dono de uma área de mais de 31,8 mil hectares. Esta Unidade de Conservação (UC) foi criada em 1961 justamente com o propósito de preservar aquele trecho tão importante da mata atlântica. O Bandeira ainda é considerado o mais alto ponto inteiramente localizado em território nacional — os picos da Neblina e 31 de Março possuem alguns metros a mais, só que eles estão na Amazônia, na divisa com a Venezuela.

Todavia, cinco dos dez mais altos pontos do Brasil, além do mais famoso pico, estão localizados na UC na divisa entre os territórios mineiro e capixaba. São eles: Pico do Cruzeiro, com 2.852 metros; Pico do Calçado (2.849 metros); Pico do Calçado Mirim (2.818 metros); e Pico do Cristal, que, do alto dos seus 2.770 metros, é o único localizado exclusivamente em Minas Gerais. Grande e reluzente, tem o nome originado das  formações cristalinas de quartzo que se encontram ao longo da montanha.

É preciso registrar que 80% da área do Parque do Caparaó estão no Espírito Santo e o restante, em Minas. A região é tão incrivelmente acidentada que existem ainda outros seis picos nos domínios capixabas: Morro da Cruz do Negro (2.658 metros), Pico da Pedra Roxa (2.649 metros), Pico dos Cabritos ou do Tesouro (2.620 metros), Pico do Tesourinho (2.584 metros) e a Pedra Menina (2.037 metros).

Não é à toa que o Parque Nacional do Caparaó é hoje talvez a maior referência em montanhismo no Brasil, portanto um dos mais consagrados destinos turísticos que unem aventura e ecoturismo. Também é de extrema relevância a grandiosa natureza protegida pelos limites dessa Unidade de Conservação.

Precioso refúgio

Na Serra do Caparaó, como é previsto nas áreas serranas, a vegetação modifica-se gradativamente, de acordo com a altitude. A mata atlântica reina nas partes mais baixas do Parque — formosa, cria um imenso tapete verde, que protege as encostas. Angicos, quaresmeiras, palmeiras, jequitibás e várias outras espécies, exclusivas desse ecossistema, misturam-se numa confusão harmoniosa. Com a altitude, a paisagem cede espaço à formação de campos: quanto mais alto o local, mais a vegetação rupestre se distribui sobre as rochas. Na parte mineira do Parque, a vegetação é um pouco mais seca, por não ter a influência de ventos marinhos.

A floresta tropical pluvial (mata atlântica) vai até cerca de 1.800 metros; de 1.800 até 2.400 metros, estão os campos de altitude, com formações arbustivas junto à floresta tropical pluvial, nos quais a flora é formada principalmente por gramíneas — como bengalas, bromélias, musgos e orquídeas, além de canelas-de-ema e sempre-vivas. Acima de 2.400 metros, encontram-se os campos limpos. Ali, estão os solos pedregosos e espécies adaptadas a frio intenso, geadas e crostas de gelo. Já na encosta capixaba, predomina a mata atlântica.

Trata-se, portanto, de um Parque importantíssimo para a preservação da biodiversidade brasileira, principalmente por se tratar de uma região onde predomina a mata atlântica, com muitas árvores centenárias. Preserva, também, extensa rede hídrica, com diversas nascentes e, devido ao declive acentuado, riachos, cachoeiras, lagos e piscinas naturais com águas puras e cristalinas. Além disso, protege espécies endêmicas de fauna e flora. Entre a população de animais, podem ser encontrados exemplares ameaçados de extinção, como a onça-pintada, a jaguatirica, o gato-mourisco, a jacutinga, o gavião-real, a anta e o macuco.

Também se destacam o mono-carvoeiro, o lobo-guará e o veado-campeiro. Outros animais importantes são os astutos cachorros-do-mato, o macaco-prego e o mão-pelada ou guaxinim, que tem esse nome devido à mão sem pelos, que deixa pegadas parecidas com as de uma criança. Além de mais de milhares de espécies de insetos e répteis e inúmeros anfíbios. Ainda na região, existe uma grande, mas amistosa espécie, que pode, com muita sorte, ser encontrada: o ameaçado muriqui — o maior macaco das Américas. Das aves, são conhecidas mais de 300 espécies. Tangarás, saíras, sabiás-laranjeira, tucanos, seriema, gavião, saracura, jacu e papagaio enfeitam o céu em voos altos ou rasos.

Entre altos e baixos, também não falta água. A rede de drenagem do Parque é caracterizada por rios perenes, de pequeno e médio portes. O Vale Verde, por exemplo, é formado pelo Rio Caparaó e cercado por uma belíssima mata. Localizado próximo à sede administrativa, o Vale compreende as áreas mais baixas do Parque, com menos de 1.000 metros de altitude. O curso do rio entre as rochas forma pequenas cachoeiras e poços que criam piscinas naturais.

Atrativos

O turista pode escolher entre duas portarias para entrar no Parque: uma está no munícipio de Alto

Caparaó–MG, a outra, no município capixaba de Dores do Rio Preto, no distrito de Pedra Menina. Pela portaria mineira, o turista tem acesso a dois acampamentos: o Tronqueira e o Terreirão. Pelo vizinho Espírito Santo, mais dois, o Macieira e o Casa Queimada. Todos são atendidos por funcionários do Parque e equipados com banheiros públicos, bancos e mesas, além das churrasqueiras disponíveis no acampamento Macieira.

Uma vez adentrando o Caparaó, é hora de escolher as opções de passeios.

A atração mais visitada é o já citado Vale Verde, onde existe infraestrutura ideal para famílias e grupos que só querem mesmo descansar. Já a Cachoeira Bonita, localizada no rio José Pedro, é um pouco mais alta, a 1.750m de altitude, e é uma divisa natural dos estados de Minas e Espírito Santo. Faz jus ao nome, é a maior cachoeira do Parque e exibe uma maravilhosa queda de 80 metros. Seu acesso é feito por uma trilha sinuosa de cerca de 5 quilômetros, mas, na metade do caminho, é possível descansar aos pés de uma velha araucária. Ao chegar, a vista já é de tirar o fôlego. Para quem tem disposição, a dica é, depois do banho, subir um pouco mais até o Vale Encantado, que está a cerca de 2.000 metros de altitude. O vale é formado pelo Rio São José, e revela diversas corredeiras, cachoeiras e piscinas naturais. Ao longo da trilha, o incentivo vem com a paisagem e, no final do percurso, já é possível ver o gigante Pico da Bandeira.

Batendo perna

Para quem gosta de caminhar, o Parque é opção perfeita. Vistas incríveis revelam-se nos mirantes, como o da Tronqueira, a 1.970 metros, ou o da Cachoeira Bonita. Mas nenhuma se compara ao espetáculo do alto do Pico da Bandeira.

Porém, há inúmeras opções que não deixam nada a desejar quanto à imensidão da beleza. A trilha Gruta do Jacu, a uma altitude de 1.100 metros, tem início numa escadaria de pedra, na área de piquenique do Vale Verde — parece um portal para paraísos escondidos. O percurso curto é ideal para pessoas de todas as idades. Outra opção está no caminho do Pico, mas bem mais abaixo, a 1.970 metros, é a Tronqueira, o último ponto do Parque acessível por automóvel. Ali, existe infraestrutura de apoio aos turistas e um camping. O mirante proporciona um visual fantástico da Serra do Caparaó — é possível ver as cidades de Alto Caparaó, Manhumirim e outras próximas.

Dali, o visitante pode ter acesso a outros importantes atrativos, como a Cachoeira Bonita, o Vale Encantado, e o Terreirão, este último, um platô de onde se descortinam belíssimas paisagens, a 2.370 metros de altitude. A trilha, que se inicia a uma altitude de 1.970 metros, margeia o curso do Rio José Pedro, o divisor dos estados de MG e ES. Os turistas tanto a percorrem a pé quanto sobre mulas. A paisagem impressiona passo a passo. Cada vez mais é possível avistar o Pico, e é no Terreirão que muitos dormem, sonhando com a chegada ao cume. O local é parada obrigatória para os aventureiros que sobem o Pico da Bandeira, já que representa a metade do percurso total, que é de 9 quilômetros. No local, há um camping, o posto de guardas do Parque e uma antiga casa, conhecida como “abrigo de pedras”. Construída antes do Parque, era um refúgio para pessoas que criavam animais naqueles campos. Hoje, é um famoso ponto de apoio aos turistas. É comum os visitantes chegarem a pernoitar na casa para, na manhã seguinte, prosseguir a subida até o Pico da Bandeira.

Mas há o outro gigante da região, o Pico do Cristal, de onde se avista, imponente, o Pico da Bandeira, com o característico abismo no lado dianteiro e a suave parte da escalada no lado posterior. O caminho é muito procurado para a prática de trekking, porém, por não haver marcação de trilha, é indispensável agendar o passeio com um condutor de visitantes.

A trilha final

Partindo do Terreirão, depois de pernoitar e descansar, é hora de os aventureiros subirem ao destino final. Essa trilha abrange os 4,5 quilômetros faltantes. A caminhada exige muito mais que no primeiro trecho, por ser bastante sinuosa, íngreme e apresentar mais afloramentos de rochas. Ela também margeia o curso do Rio José Pedro e leva o visitante até o Pico da Bandeira.

A caminhada pode durar cerca de duas horas ou mais, e, a cada passo, o frio parece ficar mais intenso. No inverno, a beleza da trilha é intensificada pela vegetação coberta de finas camadas de gelo e revela um brilho inesquecível. Mesmo que o visitante não vá até o pico, chegar bem pertinho dele já vale o passeio. Para os que não abrem mão da subida, é preciso informar-se e preparar-se bem para a aventura. Evite pesar a mochila e lembre-se de que a alimentação deve ser leve e balanceada. Nesse trecho, deixe o peso maior na barraca e suba apenas com o necessário. Lembre-se também de que o Parque recebe cerca de milhares de visitantes por ano, portanto não dá para querer subir sem fazer reserva antes. Vale ficar atento às melhores épocas de visitação, que vão de maio a setembro, com pico em julho. No verão, há muita chuva, o que torna as trilhas escorregadias. No mais, é ter disposição e muito fôlego, parceiros que serão muito bem recompensados.

O cume – Pico da Bandeira 

Alcançar o topo é uma conquista, pessoal e coletiva. Cada um tem seu motivo para superar o desafio, mas todos compartilham da imensa satisfação de chegar e ficam igualmente estupefatos com tamanha beleza. Muitos optam por realizar a caminhada ainda de madrugada, assim, são recebidos com o inesquecível espetáculo da alvorada. No caminho várias lanternas alinhadas em fila. Não há desistências, afinal é mais perigoso parar que dar um passo no escuro.

Alguns cantam, outros conversam, outros ficam em silêncio, controlando a respiração. Para quem chega ao topo ainda na escuridão, a espera pode ser difícil, o frio não pede licença e não há onde se esconder. Apesar do clima tropical, a temperatura mínima no cume pode chegar a menos 10ºC e a sensação térmica, devido ao forte vento, é ainda mais severa. Durante o inverno, o turista sente na pele o frio seco, mas tem grandes chances de se deparar com um céu praticamente sem nuvens. Os primeiros raios do sol não trazem o calor esperado, mas, em compensação, acalmam a mente com um maravilhoso presente da natureza.

O tempo é quem dita a vista. O mar de morros pode está coberto por um mar de nuvens, visão única e impressionante. Mas, à medida que o sol se impõe, pode se confirmar, pelo topo das montanhas, que nada é mais alto. A vista de 360 graus alcança centenas de quilômetros de montanhas e vales, tamanha a clareza do céu. É possível avistar de longe as cidades próximas, além do Pico do Cristal, a Pedra Menina, o Pico do Calçado, dentre outros. No cume existe uma cruz de cimento e uma imagem do Cristo Redentor. Há, ainda, uma torre que, em outros tempos, serviu de suporte para uma estação repetidora de sinais.

Dois caminhos e uma meta

Muitos, ao descer o Pico, aventuram-se a conhecer de perto também o Pico do Cristal, e depois seguir uma trilha que leva à famosa Casa Queimada, rumo à portaria Pedra Menina, no lado capixaba. O esforço é recompensado na chegada aos restaurantes da região — mesa farta, abastecida com comida caseira feita em fogão à lenha.

É possível subir ao cume do Pico da Bandeira por ambos os lados, o mineiro e o capixaba. Existe, inclusive, a opção democrática de subir por um estado e descer pelo outro. No lado capixaba, estão atrativos como a Macieira, um platô a 1.800 metros de altitude, e a Cachoeira do Aurélio, uma queda d’água com 50 metros de altura, localizada no Rio São Domingos. Além de várias outras cachoeiras.

Porém, todos os caminhos levam ao mesmo lugar, acima das nuvens. O tempo para se ficar no topo depende da disposição de aguentar o frio. Mas não é essa a lembrança que fica. Na memória fica a prova da imensidão da natureza. Além da sensação de que, ao superar esse desafio, é possível superar tantos outros. Um feitiço bom e a prova de que a vida nos permite uma renovação diária. Como bem verbaliza o personagem cabo Lituma, no livro “Lituma nos Andes”, do autor Mario Vargas Llosa:

“Quando recobrou a consciência continuava tremendo, agora do frio que fazia seus ossos rangerem. Já era noite e, pelas dores ao tentar se mexer, tinha a impressão de que um carro lhe passara por cima, triturando tudo que tinha debaixo da pele. Mas estava vivo e era formidável que, em lugar do estrondo e da torrente de terra, pedras e rochas, agora reinasse no mundo essa gélida calma agradável. Principalmente no céu. Por uns segundos esqueceu seu corpo, enfeitiçado pelo espetáculo (…)”.

Lendas e história

Considera-se o Pico da Bandeira o ponto mais alto em território exclusivamente brasileiro, mas, de fato, ele é registrado como o terceiro mais alto do país, com cerca de 2.892 metros, quando comparado aos picos da Neblina, com 2.993 metros, e o 31 de Março, com 2.972 metros. Porém, ambos se localizam na fronteira do Brasil com a Venezuela e, portanto, não são inteiramente nacionais. Essas alturas foram atualizadas recentemente, no Projeto Pontos Culminantes, do IBGE.

O título de pico mais alto do Brasil foi dado em 1859, quando D. Pedro II mandou hastear no topo da elevação a bandeira brasileira. Quanto ao nome do Parque, alguns historiadores defendem que a palavra caparaó tem origem indígena e significa “águas que rolam das pedras”. Há quem diga que existam outros significados, como: “casa do rio torto” ou “casa de capara” — uma edificação feita com esteiras, comum em lugares altos e frios.

Porém, uma divertida lenda contradiz a história. Segundo relatos populares, existia na região onde hoje é o Parque um boi muito bravo que se chamava Ó. Como esse boi sempre afugentava quem o tentasse capturar, os boiadeiros fizeram um mutirão e depois de muitos dias e de lutas, finalmente pegaram o animal. Como prova de tal bravura, resolveram castrá-lo, e o boato se espalhou: “caparam o Ó”.

O local tem outras datas históricas, como o ano de 1967, quando o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) promoveu um levante armado, denominado “Guerrilha do Caparaó”, que contestava o regime ditatorial e, segundo historiadores, foi idealizado por Leonel Brizola e patrocinado pelo estadista cubano Fidel Castro. Houve grande repercussão nacional, os guerrilheiros permaneceram meses na Serra do Caparaó, até serem denunciados. O jornalista capixaba José Caldas da Costa lançou, em 2007, o livro “Caparaó – A primeira guerrilha contra a ditadura”. No lançamento o ex-guerrilheiro Araken Vaz Galvão afirmou: “Tiramos o Caparaó da geografia e o colocamos na história”.

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