Parques Estaduais

As mais belas paisagens abertas

Com o entendimento de que o turismo é uma atividade fundamental para estimular a preservação de áreas protegidas, o Instituto Estadual de Florestas e a Secretaria de Estado de Turismo se unem para promover ações conjuntas — como planos de manejo — em unidades de conservação de Minas Gerais.

Reportagem: Juliana Afonso
Fotos: Marcos Amend

Nem só de montanhas vive Minas Gerais. Ao longo de 586 mil km², as exuberantes curvas do território mineiro convivem com chapadas, planícies, áreas secas e superfícies alagadas. Isso sem falar nas cachoeiras, cavernas, veredas e florestas. Parte das belezas naturais do estado está protegida em lei, por meio da criação das unidades de conservação (UCs), áreas destinadas à proteção devido às características especiais que possuem.

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (criado em 2000) estabelece 12 categorias de UCs, com diferentes critérios de gestão e manutenção. A primeira unidade de conservação estadual de Minas Gerais foi o Parque Estadual do Rio Doce, criado em 14 de julho de 1944, para preservar áreas remanescentes da mata atlântica. Hoje, o estado possui 112 UCs, sendo 38 parques estaduais, unidades de proteção integral criadas para proteger ecossistemas de grande relevância ambiental.

Ao contrário do que muitos pensam, os parques estaduais não são territórios intocáveis: nesses espaços, são permitidos a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e lazer. “A proposta é trazer a população para dentro. Assim, as pessoas passam a valorizar e a proteger aquele ambiente”, afirma a gerente de Unidades de Conservação do Instituto Estadual de Floresta (IEF), Cecília Vilhena. O desafio agora é unir os diferentes setores para realizar uma gestão compartilhada desses espaços.

Falsa polêmica

A ideia de que conservação e turismo são incompatíveis é coisa do passado. A promoção do turismo e do lazer é um dos objetivos das unidades de conservação e, quando bem planejada, pode trazer impactos positivos para qualquer região.

Existem algumas ferramentas para se conseguir equilibrar visitação e proteção do território. A principal é o plano de manejo, documento elaborado a partir de uma série de estudos e que estabelece as normas de uso e as ações a serem desenvolvidas nas UCs. “É preciso saber, por exemplo, quais as áreas restritas, quais as áreas passíveis de visitação e qual é o número de turistas que o parque consegue receber. Para isso, o plano de manejo é fundamental”, argumenta o promotor Marcos Paulo de Souza Miranda, da Coordenadoria de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais.

Outra visão controversa é a de que as unidades de conservação são um obstáculo ao crescimento econômico. Ao contrário, quando construídas por meio de diálogo, essas áreas podem se transformar em grandes ativos ambientais, culturais, turísticos e econômicos. Para isso, é importante estar atento às questões sociais. “Se você integra a população do entorno, você gera benefícios para a comunidade. Assim, o parque deixa de ser visto como um entrave e passa a ser entendido como uma oportunidade”, afirma Cecília.

O Parque Estadual do Ibitipoca é um exemplo de como uma unidade de conservação pode trazer retorno econômico e inclusão social: em função dele, existem dezenas de estabelecimentos locais (como lojas, pousadas, restaurantes e lanchonetes), para atender os viajantes, além de pessoas da comunidade que trabalham com serviços de atendimento ao turista.

Diálogo entre os setores

Em meados de 2015, o Instituto Estadual de Florestas (IEF), responsável pela gestão das unidades de conservação, e a Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais (Setur), responsável por promover o turismo, reuniram-se para propor ações conjuntas, com o objetivo de desenvolver atividades turísticas em alguns parques estaduais. “É uma iniciativa recente, e estamos bem animados com a possibilidade de trabalharmos juntos e ter os parques como prioridade no desenvolvimento turístico do estado”, afirma Cecília.

Após a escolha de 20 unidades de conservação como objeto de trabalho — dentre parques estaduais e monumentos naturais já consolidados —, pensou-se nos eixos de trabalho. Dentre eles, estão o aperfeiçoamento da infraestrutura das UCs, com melhoras na sinalização, realização de uma pesquisa com os visitantes sobre os usos desses espaços, capacitação de guias, divulgação dos territórios e promoção desses destinos em feiras internacionais. A Setur pretende também realizar um seminário para apresentar os resultados da pesquisa.

O projeto vai ser desenvolvido em conjunto com o IEF, mas coordenado pela secretaria. A meta a ser alcançada é o aumento do número de visitantes nesses 20 parques e a satisfação dos visitantes, medida por meio de sites de turismo já existentes (como o Tripadvisor). “A visitação fica muito aquém do potencial das unidades de conservação. Os turistas que visitam os parques saem falando ‘nossa, que lindo! Isso existe?’. Há um retorno muito positivo, e isso mostra que precisamos trabalhar melhor esses atrativos”, afirma a assessora da Superintendência de Estruturas do Turismo da Setur, Mariana Rocha. Atualmente, os parques estaduais de Minas Gerais recebem cerca de 500 mil turistas por ano.

O diretor de Unidades de Conservação do IEF, Henri Collet, reitera a importância da união entre os órgãos. “Precisamos transformar os parques em produtos turísticos e, se ficarmos sozinhos, não teremos recursos. É importante que o turista se sinta atraído e visite o local, pois, assim, ele entende a importância de proteger esses espaços”, afirma.

Estratégias que pensam o todo

A falta de recursos é uma das dificuldades enfrentadas pelo IEF para realizar uma boa gestão das áreas protegidas. “Estamos em uma fase difícil. Tem coisas simples que poderíamos fazer, como divulgação, mas não temos recursos e acabamos contando com a ajuda de parceiros para ir em frente”, lamenta Henri.

Para o fotógrafo Marcos Amend — autor das imagens desta reportagem —, consultor (com vasta experiência) em projetos ambientais, há um gargalo na conexão do que ocorre nas UCs com a população em sua volta. Ele afirma que os órgãos ambientais muitas vezes estão focados nas necessidades emergenciais de suas áreas e acabam desconectados do entorno. Ter bons receptivos, guias competentes, restaurantes e hotéis compatíveis com o público do parque é igualmente essencial para atrair as pessoas e alavancar a visitação.

Também falta “vender” melhor as UCs para o público. “Hoje a gente vê muitas placas com os dizeres ‘você está entrando em uma área protegida’, ‘É proibido, isso, aquilo, aquilo outro’. Assim, as pessoas não se sentem parte do processo de proteção dessas áreas naturais, se sentem invasoras”. Para ele, uma das grandes funções sociais das UCs, além da proteção, é aproximar a sociedade desses espaços naturais. Por isso, é fundamental pensar em uma forma de tornar a população usuária das áreas protegidas e fazer com que ela também se sinta responsável pela conservação do território.

Existem planos para a criação de novas UCs em Minas Gerais, mas o promotor Marcos Paulo pondera. “A simples criação de uma unidade de conservação no papel não vai resolver. É preciso, para além do decreto, ações de conservação e de gestão permanentes”. Por isso, o Ministério Público estabeleceu uma ação uniforme, ou seja, um trabalho que será realizado em todo o território mineiro, que exige, do estado de Minas Gerais, a real implantação das unidades de conservação. “Nós não queremos parques de papel, queremos parques estruturados”, reitera o promotor. Para isso, foram instauradas 112 investigações. A ação foi iniciada em 2012, e cerca de 70% já estão encaminhadas. A meta é conseguir o retorno de 100% até o final deste ano.

O estado também responde a outra ação do Ministério Público: segundo a lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, 0,5% do valor de todo empreendimento licenciado pelo estado (minerações, usinas hidrelétricas, etc.) deve ser destinado à criação, à gestão e à manutenção das UCs. Hoje, Minas Gerais tem aproximadamente R$ 200 milhões que não estão aplicados. “O governo está contingenciando esses recursos e utilizando-os para outras finalidades. Nós entramos com uma ação contra o estado, pedindo o bloqueio desse recurso, pois esse valor deveria ser destinado para as unidades de conservação”, conta o promotor Marcos Paulo.

Bons exemplos

Atualmente o estado apresenta 18 UCs estruturadas para receber o turista (ver quadro). O Parque Estadual do Ibitipoca é o campeão quando o assunto é bom exemplo. “Ali, o turista encontra um centro de visitantes, trilhas e atrativos sinalizados, banheiros limpos. A própria comunidade já é entrosada com o parque, e os guias locais levam o pessoal para as cachoeiras”, conta Henri Collet. Além disso, é uma unidade capaz de gerar renda para a população que vive no entorno. O local é o parque com maior número de visitantes no estado, um total de 95 mil turistas por ano.

Outra unidade com boa infraestrutura é o Parque Estadual do Rio Preto. O local apresenta roteiros bem planejados e de acordo com o interesse do visitante, além de espaços como restaurante, lanchonete, área de camping e alojamento.

Existem alguns projetos inovadores, como a Rota das Grutas de Peter Lund, em homenagem ao naturalista dinamarquês que, no início do século XIX, fez descobertas importantes ao estudar fósseis na região de Lagoa Santa. Dentre os espaços que fazem parte da rota, estão o Parque Estadual do Sumidouro, a gruta de Rei do Mato e a gruta de Maquiné. “Esse projeto foi realizado em 2014 e contemplou três unidades de conservação com a temática da paleontologia e da arqueologia. A ideia era modificar o perfil  e oferecer roteiros com outras atividades, até para usar o turismo como meio de desenvolvimento da região”, afirma Mariana Rocha.

Os parques estaduais e os seus melhores atrativos

Biribiri

Localização: município de Diamantina

Área: 170 km²

Criação: 22 de setembro de 1998

Principais atrativos: cachoeiras de águas cristalinas (acesso por trilhas de grau médio), poços para banho, sítios com inscrições rupestres. Vale a pena fazer uma visita à bucólica vila de Biribiri

  • Para visitar: todos os dias, das 9h às 18h. Telefone: (38) 3532-6698

Ibitipoca

Localização: municípios de Lima Duarte e Santa Rita do Ibitipoca

Área: 14,88 km²

Criação: 4 de julho de 1973

Principais atrativos: o parque é dividido em Circuito das Águas (com cachoeiras e praias de água doce), Circuito Janela do Céu (com mirantes), Circuito do Pião (com grutas e picos) e Circuito da Parte Alta das Águas (com cachoeiras e poços)

  • Para visitar: todos os dias, das 7h às 18h (segundas-feiras, somente em feriados). Telefone: (32) 3281-1101

Itacolomi

Localização: municípios de Mariana e Ouro Preto

Área: 75,43 km²

Criação: 14 de junho de 1967

Principais atrativos: trilhas com diferentes graus de dificuldade, a maior delas leva ao Pico do Itacolomi, a 1.772 metros de altitude. Há algumas construções históricas dentro do parque, como a Capela São José e a Casa Bandeirista

  • Para visitar: terça a domingo, das 8h às 17h. Telefone: (31) 3551-6193

Lapa Grande

Localização: município de Montes Claros

Área: 80 km²

Criação: 10 de janeiro de 2006

Principais atrativos: grutas e lapas, com pinturas rupestres de diferentes temáticas. Há vestígios arqueológicos de mais de 8 mil anos. O local é dotado de trilhas para caminhada e rotas de ciclismo

  • Para visitar: terça a domingo, das 8h30 às 16h. Telefone: (38) 3224-7550

Mata do Limoeiro

Localização: município de Itabira

Área: 20,56 km²

Criação: 22 de março de 2011

Principais atrativos: cachoeiras, lagoas e grutas. A trilha Circuito Limoeiro Bike passa por pequenas corredeiras. O parque apresenta quatro mirantes com vista panorâmica para as lindas curvas das montanhas de Itabira

  • Para visitar: terça a domingo, das 8h às 16h. Telefone: (31) 3799-9292

Nova Baden

Localização: município de Lambari

Área: 2,14 km²

Criação: 27 de setembro de 1994

Principais atrativos: trilhas com diferentes níveis de dificuldade, como a Trilha das Sete Quedas, que passa pela cachoeira de mesmo nome. No local, vive o macaco bugio, um dos maiores primatas brasileiros.

  • Para visitar: terça a domingo, das 8h às 17h. Telefone: (35) 3229-1817

Pau Furado

Localização: municípios de Uberlândia e Araguari

Área: 21,86 km²

Criação: 27 de janeiro de 2007

Principais atrativos: o rio Araguari é o grande atrativo do parque, que apresenta trilhas para caminhada que passam por praias de água doce e cachoeiras. O Curral de Pedra foi construído por escravos e possui grande valor histórico

  • Para visitar: terça a domingo, das 8h às 16h. Telefone: (34) 3088-6400

Pico do Itambé

Localização: municípios de Santo Antônio do Itambé, Serro e Serra Azul de Minas

Área: 65,20 km²

Criação: 21 de janeiro de 1998

Principais atrativos: o Pico do Itambé eleva-se a 2.002 metros de altitude e pode ser alcançado por meio de uma trilha com duração de quatro horas. O parque apresenta cachoeiras de diferentes tamanhos. Descobriu-se recentemente na região nova espécie de bromélia e outra, de anfíbio – um sapo de 11 mm.

  • Para visitar: quarta a segunda, das 8h às 17h. Telefone: (33) 3428-1372

Rio Doce

Localização: municípios de Marliéria, Dionísio e Timóteo

Área: 359,76 km²

Criação: 14 de julho de 1944

Principais atrativos: abriga a maior floresta de mata atlântica do estado. Trilhas levam o visitante pelas matas e também pelas margens do Rio Doce. O parque apresenta construções de importância cultural e histórica (ponte sobre o rio Doce, auditório Borun do Watu, memorial Dom Helvécio).

  • Para visitar: segunda a domingo, das 7h às 20h. Telefone: (31) 3822-3006

Rio Preto

Localização: município de São Gonçalo do Rio Preto

Área: 121,85 km²

Criação: 1º de junho de 1994

Principais atrativos: o parque é dividido em Roteiro da Fauna e da Flora, Roteiro das Pinturas Rupestres, Roteiro dos Mirantes (o mirante da Estrada Real é de grande importância histórica) e Roteiro Praias de Rio e Cachoeira (com destaque para a cachoeira do Crioulo, com quedas e poço de águas escuras, ideais para banho)

  • Para visitar: terça a domingo, das 7h às 17h. Telefone: (38) 3531-3919

Serra das Araras

Localização: município de Chapada Gaúcha

Área: 111,37 km²

Criação: 21 de janeiro de 1998

Principais atrativos: trilhas que levam a rios, veredas e mirantes. Espécies típicas do cerrado, como a árvore buriti e a flor caliandra, são comuns na região. Diferentes espécies de araras sobrevoam a região com frequência.

  • Para visitar: é necessário agendamento prévio. Telefone: (38) 3634-2037

Serra do Brigadeiro

Localização: municípios de Araponga, Fervedouro, Miradouro, Ervália, Sericita, Pedra Bonita, Muriaé e Divino

Área: 150 km²

Criação: 27 de setembro de 1996

Principais atrativos: picos com vista para as montanhas da serra da Mantiqueira (como o pico do Boné, a 1.870 metros de altitude, com vista de 360 graus da região) e trilhas com diferentes níveis de dificuldade. No alto de um dos picos, está a singela ermida Antonio Martins, construída em 1908.

  • Para visitar: terça a domingo, das 8h às 17h. Telefone: (32) 3721-7491

Serra do Intendente

Localização: município de Conceição do Mato Dentro

Área: 135,08 km²

Criação: 28 de março de 2007

Principais atrativos: o parque abriga a cachoeira do Tabuleiro, a maior do estado, com 273 metros de queda. Há outras cachoeiras de grande porte, como a Rabo de Cavalo e a Congonhas, córregos, rios e cânions.

  • Para visitar: segunda a domingo, das 8h às 16h. Telefone: (31) 9-9603-6767

Serra do Rola-Moça

Localização: Belo Horizonte, Nova Lima, Ibirité e Brumadinho

Área: 40,06 km²

Criação: 27 de setembro de 1994

Principais atrativos: mananciais de água doce que preservam nascentes de importantes córregos próximos à Região Metropolitana de Belo Horizonte, com formações de lagos e piscinas naturais. O local é dotado de trilhas

  • Para visitar: todos os dias, das 8h às 17h. Telefone: (31) 3581-3523

Serra Verde

Localização: município de Belo Horizonte

Área: 1,42 km²

Criação: 12 de dezembro de 2007

Principais atrativos: apresenta quatro mirantes, que podem ser acessados por meio das trilhas do parque. Gaviões, pica-paus e falcões são comuns na área

  • Para visitar: segunda a sexta, das 9h às 18h. Telefone: (31) 3455-5266

Sumidouro

Localização: municípios de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo

Área: 20,04 km²

Criação: 3 de janeiro de 1980

Principais atrativos: a lagoa que dá nome ao parque possui um ponto de drenagem por onde a água penetra o solo e “some”, devido à formação calcária do terreno. O local oferece boas opções para a escalada. A gruta da Lapinha e o Museu Peter Lund, com uma exposição com mais de 80 fósseis, são pontos bastante visitados.

  • Para visitar: terça a domingo, das 9h às 16h. Telefone: (31) 3689-8592

Monumentos naturais

Gruta Rei do Mato

Localização: município de Sete Lagoas

Área: 1,41 km²

Criação: 25 de agosto de 2009

Principais atrativos: salão de entrada, com paisagem que evidencia a transição da área externa para a caverna, e quatro salões internos, com pinturas rupestres e formações rochosas de milhares de anos, como estalactites e estalagmites

  • Para visitar: todos os dias, das 9h às 16h. Telefone: (31) 3775-2695

Peter Lund

Localização: município de Cordisburgo

Área: 0,73 km²

Criação: 29 de setembro de 2005

Principais atrativos: a gruta de Maquiné apresenta sete salões, o maior deles com 165 metros de comprimento. Dentro do local, foram encontradas ossadas e outros vestígios arqueológicos. Abrange também um museu.

  • Para visitar: todos os dias, das 8h às 17h. Telefone: (31) 3715-1310

 

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