Tiradentes é conhecida como uma das cidades históricas mais bem preservadas do Brasil. Sinônimo de encantamento e tranquilidade, o município, de 7 mil habitantes, conquista turistas de vários lugares do mundo, que chegam à cidade atraídos pelo rico patrimônio arquitetônico emoldurado pela Serra de São José. São 300 anos de história e 20 bens tombados no município, sendo 11 deles — além do conjunto como um todo — pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Reportagem Marina Rattes
Fotos Cezar Felix

Quem anda pelas ruas do Centro Histórico se depara com sobrados setecentistas praticamente impecáveis. Dezenas de casarões de traçado simples chamam a atenção pelos beirais e janelas entrelaçadas, originais da época. Um cenário raro, que confere a Tiradentes uma condição privilegiada, se comparada a outras cidades históricas do país.
Mas esse belo casario nem sempre esteve em boas condições. A decadência econômica vivida na região a partir do final do século XVIII foi responsável por deteriorar grande parte das construções da cidade. Para se ter uma ideia, no ano de 1900, Tiradentes contava com apenas 19 sobrados na área urbana; outros tantos estavam em ruínas ou haviam sido demolidos.

Casarões originais da época setecentista.

Mesmo após o tombamento do conjunto arquitetônico pelo Iphan, em 1938, algumas casas e sobrados continuaram a se deteriorar. Anos depois — nas décadas de 1950 e 1960 — o instituto fez obras de emergência em quase todas as construções oriundas do século XVIII, que se mantiveram íntegras nas duas décadas seguintes. Somente a partir de 1980 — como resultado da valorização do patrimônio, da grande especulação imobiliária e do investimento de forasteiros nos imóveis —, o casario foi totalmente restaurado e o Centro Histórico ganhou o aspecto conservado que ostenta até hoje.

Para fiscalizar as obras e garantir a correta manutenção do sítio histórico, o Iphan instalou, em 1983, um escritório técnico na cidade. Qualquer intervenção precisa ser comunicada ao instituto e autorizada por ele. “O escritório recebe, analisa e envia os projetos para a divisão técnica de Belo Horizonte, que aprova ou não as construções, reformas e restaurações dos bens particulares”, explica o pesquisador Olinto Rodrigues. Hoje em dia, segundo ele, “nenhuma casa do Centro Histórico está em ruínas, tudo está bem conservado”.

Investimentos de R$ 30 milhões

Se na década de 1980 o casario particular de Tiradentes passou a ser alvo de investimentos privados, nos últimos dez anos o conjunto de monumentos da cidade recebeu a atenção merecida. Um projeto do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), iniciado em 2009, investiu cerca de R$ 30 milhões na restauração de cinco igrejas e cinco capelas, na instalação de três museus, no desenvolvimento de um programa de capacitação e educação patrimonial e ainda na elaboração do plano diretor da cidade. De acordo com a Assessoria de Imprensa do BNDES, o principal critério para a seleção das ações foi a contribuição delas para a valorização do patrimônio de Tiradentes e para o desenvolvimento sustentável da região por meio do turismo.

Uma vista do Largo das Forras.

A fachada do Museu Casa do Padre Toledo.

O projeto, que deve ser concluído em meados de 2018, foi totalmente pensado e executado em articulação com a sociedade civil de Tiradentes. “Quando soubemos do interesse do BNDES em investir na cidade, decidimos criar um grupo gestor para estabelecer as nossas prioridades, como representantes da comunidade”, explica Rogério Almeida, diretor do Museu da Liturgia, vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes (IHGD) e um dos membros do Grupo Gestor da Cidade de Tiradentes.

Almeida conta que o grupo levou em consideração o estado de conservação de cada um dos monumentos, para definir a ordem das intervenções. “Começamos pela Igreja de Nossa Senhora das Mercês, depois São Francisco de Paula e Nossa Senhora do Pilar do Padre Gaspar, e, em paralelo a isso, a instalação dos museus da Liturgia, de Sant’Ana e a Casa do Padre Toledo. Depois veio a Igreja de São João Evangelista e por último as capelas dos Cinco Passos da Paixão e a Igreja da Santíssima Trindade, que ainda estão em andamento. Deixamos a Santíssima Trindade para o final, porque ela é a grande expressão cultural da cidade em termos de fé. E a igreja vai ser entregue nos 300 anos da cidade”, conta.

Prioridades

Dos dez monumentos tombados pelo Iphan, cinco foram contemplados no projeto. Das igrejas, ficaram de fora a Matriz de São Antônio, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e a Capela do Senhor Bom Jesus da Pobreza. Olinto Rodrigues, que também é membro do Grupo Gestor da Cidade de Tiradentes, explica que a parte estrutural da matriz foi restaurada em 2001 e encontra-se em bom estado. Já a restauração dos elementos artísticos foi descartada, por se tratar de uma obra de altíssimo valor, que acabaria consumindo grande parcela do orçamento e impossibilitaria a realização de outras intervenções. “A matriz tem uma quantidade enorme de elementos artísticos: todos os cômodos têm decoração. Acredito que esse trabalho ficaria em torno de R$ 7 milhões”, explica.

R$ 30 milhões investidos em projetos de restauração.

A Igreja do Rosário, por sua vez, ficou de fora da lista de prioridades por não correr nenhum risco. “É uma igreja toda de pedra, que não tem problema estrutural nenhum. Ela precisa de revisão no telhado, na pintura, nas instalações elétricas e nos assoalhos. Precisa também da restauração dos elementos artísticos”, completa o pesquisador do Iphan.

Já a Capela do Senhor Bom Jesus da Pobreza foi descartada por ter passado por uma restauração completa recentemente. Entre 2005 e 2007, o monumento teve tanto os elementos arquitetônicos como os artísticos recuperados em uma obra coordenada pelo Iphan.

Um dos inúmeros belos ângulos da cidade

Desde o início do projeto, o Grupo Gestor se preocupou em utilizar os recursos de forma a garantir não apenas a restauração dos monumentos, mas também a conscientização e a capacitação da população local, para que o patrimônio histórico se convertesse em um vetor para o desenvolvimento social da cidade. Para isso, foram publicados dez livros de educação patrimonial e realizadas diversas oficinas técnicas de ofícios ligados à manutenção e à gestão do patrimônio. “Não adianta restaurar se você não tiver gente para cuidar. Não tínhamos mão de obra qualificada para gerir os projetos, então capacitamos a equipe. Todos os funcionários dos museus são tiradentinos e passaram pelos cursos de capacitação”, lembra Almeida.

Tiradentes: paz e a tranquilidade da cidade.

Passados nove anos desde o início das ações, empresários e moradores locais já conseguem ver os benefícios trazidos para a cidade. “O patrimônio está muito bem cuidado, e os novos museus trouxeram um atrativo a mais aos turistas. É preciso oferecer mais do que boas pousadas e bons restaurantes”, opina o chef de cozinha João Lombardi. Ele ressalta também a importância do trabalho realizado pelo Iphan. “Sempre foram muito ativos. Não existe nada largado, há uma preocupação grande com a correta manutenção do casario”.