Preces para as almas

Em uma pequena comunidade na Serra da Canastra sobrevive um ritual secular. Com cantos e preces, um grupo de pessoas reza para que as almas encontrem a paz eterna. Assim, com fé e respeito, a Folia das Almas se mantém viva.

Por Juliana Afonso
Fotos André Dib

Os tons mais escuros do azul colorem o céu no Vale do Gurita, um pedaço do paraíso encravado na Serra da Canastra. Ali é quase noite. O silêncio toma conta do local. Nas curvas das montanhas que se avistam ao longe, nenhum barulho, só o farfalhar de folhas das retorcidas árvores do Cerrado mineiro.

Um grupo de pessoas quebra o silêncio. Elas se aglomeram em uma casa e planejam os últimos detalhes para aquela noite. Vestem suas túnicas brancas e testam os seus instrumentos musicais, sem muito alarde. O ônibus chega para levar o grupo para a casa de outra família, ali mesmo, também no Vale do Gurita, mais especificamente em Itajuí, uma comunidade rural do município de Delfinópolis.

Todos entram no ônibus e seguem seu destino. É Sexta-feira Santa. É o último dia em que saem às ruas para realizar o ritual. É também o dia mais importante.

“Na Sexta-feira Santa, à noite, é que o perigo maior se apresenta. Não há proteção dos Santos, Cristo está morto. A Recomendação às almas (…) marca desse modo um momento de grande desamparo. Celebra-se no culto às almas, a morte de todos. O pacto com a vida está desequilibrado, o auxílio dos santos está ausente”.

O relato de Lia Fukui, escrito em 1983, mostra um dos motivos da realização da Folia das Almas, tradição popular que realiza uma cerimônia simbólica com canto e rezas para que as almas alcancem a paz eterna. O ritual atravessou séculos e gerações. Hoje, ele se mantém vivo em poucos locais do interior de Minas, como a comunidade do Itajuí, onde um grupo de foliões se esforça para preservar a tradição.

Ritual secular

Não se sabe ao certo de onde surgiu o ritual de “Recomendação das almas”, como era chamado, mas se sabe que ele era praticado em Portugal desde a Idade Média. Isso porque o catolicismo medieval acreditava que o destino comum de todas as almas era o purgatório e a tradição de rezar e cantar às almas era uma maneira de pedir a salvação eterna dos mortos.

A tradição chegou ao Brasil ainda no século XVI com a vinda dos jesuítas. Apesar de ter sido ensinada durante os processos de evangelização de grande parte da população brasileira, pouquíssimos grupos deram continuidade à realização do ritual.

A Folia das Almas era mantida em todas as regiões do município de São Roque de Minas, como mostra uma crônica escrita no ano de 1974 por um morador da cidade chamado João Leite:

“Mas havia outra serenata (…). Era muito triste e punha em todos nós, meninos, um grande medo. Na Semana Santa, saía da Rua do Capim um grupo de mulheres, comandado pela Maria Pedreira, que percorria as ruas no silêncio e escuridão da noite, tirando pras almas”.

Hoje, o ritual acontece em poucos locais. Dentre eles está a comunidade de Itajuí, a poucos quilômetros de Delfinópolis. Há relatos de que as cerimônias de cantoria para as almas acontecem na comunidade há mais de 70 anos. Porém, o ritual tornou-se uma tradição desde o início da década de 1950, quando foi construída a Capela de Nossa Senhora das Graças. “Os devotos rezam pelas almas que estão sepultadas aos pés da Serra do Cemitério e em outros locais espalhados pelo vale. Por aqueles faleceram devido a várias epidemias que assolaram a região”, conta Edson das Neves, auxiliar do setor de Patrimônio Cultural de Delfinópolis.

Para não deixar morrer

Já o grupo da comunidade do Itajuí, especificamente, realiza as cerimônias há mais de 40 anos sem interrupções. A tradição da Folia das Almas, porém, precisou se readaptar aos novos tempos para não perder a sua força. Os cantos e rezas, que aconteciam em todas as sextas-feiras da Quaresma, hoje ocorrem somente na quarta, na quinta e na sexta da Semana Santa.

Com base no levantamento realizado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Delfinópolis, a Folia das Almas de Itajuí é uma manifestação folclórico-religiosa de grande importância, tanto para a história da Igreja Católica no Brasil quanto para o fortalecimento da identidade sócio-cultural das comunidades. Por isso, a entidade trabalha duro para preservar a celebração.

 “Uma das principais ações diretas que fazemos é disponibilizar um ônibus para que o grupo possa ir de casa em casa durante a Semana Santa”, diz Edson das Neves. Ele conta que, originalmente, o cortejo era feito a cavalo, mas que hoje, não só pela distância, mas também pela segurança dos integrantes, é de grande importância a ajuda para o deslocamento.

Os foliões também trabalham para chamar mais gente para compor o cortejo durante o feriado santo. É comum a folia começar com 20 ou 30 pessoas e que, no último dia, já atraia mais de 50. O grupo é aberto a todos que queiram participar e conta com pessoas de todas as idades.

O cantar para os mortos

Na Sexta-feira Santa, os integrantes do grupo se preparam para o ritual. Todos vestem uma túnica branca que chega até os pés. No peito, uma cruz vermelha ao estilo das usadas nos navios portugueses — um símbolo relembrar aos fiéis que a tradição chegou ao Brasil pelas mãos dos jesuítas.

As cerimônias começam ainda pela manhã, quando os foliões se dirigem para a Capela de Nossa Senhora das Graças, em Itajuí. Esse momento é novo. “Tradicionalmente, a Folia das Almas é um ritual noturno. Mas há três anos o pessoal resolveu fazer um passeio ecológico ate o Cemitério do Tatu. O passeio sai às três da tarde, hora em que Jesus morreu na cruz e desceu à mansão dos mortos para salvar as almas e levá-las para o céu”, contextualiza Edson. Na capela, todos pedem as graças em favor das almas e tocam o sino para invocar proteção aos devotos. Segundo os foliões, esse é o momento da convocação das almas santas e bem aventuradas.

O grupo então toma fôlego para realizar a caminhada de cerca de quatro quilômetros em meio ao verde das montanhas da Serra da Canastra. Pessoas de todas as idades caminham juntas, unidas pela fé. O cortejo segue até o Cemitério do Tatu. Ali eles entoam cantos e preces tradicionais pelas almas, em uma espécie de celebração. Quando terminam o ritual, voltam para a Capela do Itajuí após outra caminhada sem pressa pelos caminhos verdejantes do cerrado mineiro.

Os foliões ficam na igreja até o anoitecer, quando começam as visitas às casas de famílias tradicionais da comunidade. Durante esse período, as rezas continuam. Também acontecem pequenas ações simbólicas, como o momento em que os foliões acendem as velas. “É na sexta-feira que Jesus morre e a luz das velas é um sinal de que já não caminhamos mais na escuridão; Jesus está iluminado, pois atingiu a vida eterna”, explica Edson.

Instrumentos musicais

Quando o céu escurece, o grupo já está pronto. A última reza dentro da igreja pede às almas que os acompanhem naquela noite de cortejo pelas casas da comunidade. Os foliões logo chegam à primeira casa. Desembarcam ali munidos de diversos instrumentos musicais. A matraca é a protagonista. Produz um som parecido ao canto de uma gralha — o colorido e barulhento pássaro parente dos corvos — cada vez que o ferro encosta a madeira. Ela é tocada repetidas vezes e anuncia a chegada do cortejo.

O apito é levado pelo capitão. O chocalho também está presente e é para lembrar o barulho das pedras que eram jogadas nas casas das pessoas para avisar a chegada do cortejo. O réu-réu, feito de bambu, gera uma sequência rápida de batidas quando o tocador gira a roda dentada, que levanta e solta rapidamente uma lasca do instrumento. A cigarra, como o próprio nome diz, imita o barulho desse inseto, tão comum no campo. O berra-boi, feito a partir de um cordão que se prende em uma tábua de um lado e por um cabo do outro, produz um som forte que imita o barulho de uma violenta ventania.

Antigamente as pessoas se assustavam e as crianças choravam por causa dos instrumentos musicais. Ainda hoje, quando o ritual passa por uma casa que nunca recebeu a tradicional folia, muitos se assombram.

Libertação das Almas

Os cantos acontecem de casa em casa — sempre em números impares. Quando o ritual começa, os donos das casas devem apagar as luzes e rezar. “Pedimos orações aos mortos e aos antepassados das famílias e todo mundo respeita”, explica Edson. O objetivo é orar pelas almas que se encontram no purgatório para que alcancem o perdão e a paz eterna. No fim da cerimônia, as luzes podem ser acesas novamente. Algumas casas convidam os foliões a tomarem o café e comer algo. Na mesa da família, simples quitutes ou verdadeiros banquetes.

A Sexta-feira da Paixão é o único dia em que o cortejo ultrapassa o horário e segue para além da meia-noite. Isso acontece devido à Reza do Terço da Libertação das Almas, feito na casa de alguém que se dispõe a receber o ritual. Como um gesto de gratidão, o dono da casa organiza um jantar para todos os participantes e para os vizinhos, parentes e amigos que foram convidados para participar da cerimônia. Por isso, ele é chamado de “festeiro”.

Caça ao tesouro

E a festa continua. Uma das atividades mais esperadas é a caça ao tesouro de Judas Iscariotes. “Segundo a história, Jesus foi vendido aos romanos por Judas, que recebeu o pagamento em dinheiro, e essas moedas foram escondidas”, conta Edson. As crianças, fantasiadas e mascaradas, representam as almas penadas, e saem à procura do tesouro de Judas — recheado com balas, bombons, brinquedos e outras regalias.

A tradição da Folia das Almas na Serra da Canastra cresce um pouco mais a cada ano. Em 2014, foi celebrada em outras duas comunidades do município de Delfinópolis. A comunidade do Claro recebeu o grupo na segunda-feira. O ritual começou com uma visita à capela do Bom Jesus dos Aflitos e, de lá, seguiu cortejo noturno pelas casas. A comunidade de Santo Antônio recebeu os foliões na terça-feira. Os outros dias, como de costume, foram dedicados à comunidade do Itajuí. Foi a primeira vez que a cerimônia aconteceu de segunda a sexta-feira.