Após o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão — irreparável tragédia, sob todos os aspectos, principalmente no que se refere às vidas que pereceram sob a lama —, Brumadinho busca retomar a vocação que o município sempre teve para o turismo. É claro que a referência maior são atrativos como o Instituto Inhotim e o voo livre da Serra da Moeda, mas há grande visibilidade também no ecoturismo, no turismo cultural, na gastronomia e nos meios de hospedagem.

Reportagem Maria Vaz
Fotos Cezar Felix

O município de Brumadinho, localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte, possui quase duas vezes a área da capital mineira e uma população de 39.520 habitantes. Isso porque ele conta com uma extensa área rural, circundada pelas serras da Moeda e do Rola-Moça e banhada pelos rios Veloso, Águas Claras, Manso e Paraopeba. A mineração, principal fonte de economia do município, que gerava 75% da renda local, foi também responsável pelo desastre ocorrido em janeiro de 2019, com o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, da mineradora Vale, o que afetou tragicamente a vida de diversas famílias, assim como a segunda maior atividade econômica de Brumadinho, o turismo.

A atividade turística do município ganhou muita visibilidade após a inauguração do Instituto Inhotim, em 2006.

Inhotim e voo livre

Conforto e lazer nas pousadas.

O turista que chegava à região vinha de cidades mais próximas e, principalmente, de BH. Porém, após a rápida consagração do Inhotim, o município passou a receber visitantes de praticamente todos os estados brasileiros e de muitos países — o que viabilizou o surgimento de novas pousadas, hotéis e operadoras turísticas. Entretanto, além de ter o maior museu a céu aberto do mundo, Brumadinho sempre registrou uma grande potencialidade turística, graças às belezas naturais de inúmeros recantos ainda intactos de sua área, à proximidade com Belo Horizonte, ao point do voo livre da rampa de decolagem da Serra da Moeda — um destino de esportistas de aventura já há muito tempo reconhecido no Brasil e no exterior — e também devido ao investimento de empresários e comerciantes locais nos ramos da hotelaria, da gastronomia e do ecoturismo.

O trade turístico unido

Paisagem que domina Brumadinho.

O fato é que, a partir do Inhotim, e além do voo livre, Brumadinho passou a atrair turistas interessados nas atividades de ecoturismo, no artesanato — a cerâmica produzida por lá é de alta qualidade e de imenso valor artístico.

Desde o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão da mineradora Vale — uma tragédia sem precedentes, incomensurável por ter provocado a perda de quase 300 vidas, dentre moradores e trabalhadores da companhia —, o fluxo de turistas diminuiu drasticamente.

O mais impressionante é que, no início do ano de 2019, a ocupação hoteleira estava em 90%. Após a tragédia, chegou a registrar uma queda de até quase o mesmo percentual.

Para buscar rapidamente o resgate do fluxo do turismo no município mineiro e, inclusive, tentar resgatar a economia local, a constituída Associação de Turismo de Brumadinho (ATBR) contratou a agência de publicidade Africa, de São Paulo, para criar uma campanha que mostra que Brumadinho e seus habitantes estão empenhados para novamente receber os turistas.

“Embora tenhamos perdido muito com a tragédia de 25 de janeiro, queremos mostrar que Brumadinho está viva, com todos os setores funcionando e sem lama impedindo a visitação”, afirma o operador de turismo Leonardo Esteves, presidente da entidade.

A campanha ganhou o nome de Abrace Brumadinho. Como um pequeno documentário, ela mostra os principais pontos turísticos da cidade, como o Inhotim, e atrativos como o ecoturismo, a gastronomia e o patrimônio cultural sob o ponto de vista do acolhimento típico do povo mineiro, além das histórias de moradores locais, como proprietários de pousadas, guias turísticos, chefs de cozinha, artistas e funcionários do Instituto Inhotim.

 

Estratégia de sobrevivência

Opções para o ecoturismo.

O que antes era uma rede informal de turismo se tornou, às pressas, é bem verdade, a ATBR quando hotelaria, gastronomia e ecoturismo decidiram unir forças e lembrar que o turismo era muito mais que uma forte atividade econômica do município, mas uma vocação e, para muitos, uma paixão. Falar sobre o desastre é inevitável — e essencial — e superá-lo, na medida do possível, é estratégia de sobrevivência. Essa união ultrapassou o fortalecimento das redes preexistentes, e, com ela, os integrantes passaram a se conhecer melhor, indicar uns aos outros e perceber o próprio potencial econômico, que vai muito além do 1% anteriormente identificado, mas que sustenta quase a metade da renda local.

O turismo une-se não apenas entre os empreendedores da atividade — a fim de recuperar a rentabilidade e torná-la ainda mais eficiente —, mas também em prol de um bem comum, a conservação do patrimônio natural. Preservar a área verde e a riqueza hídrica, ao contrário do que faz a mineração, é essencial para o bom desenvolvimento da atividade turística, que atrai um público que deseja principalmente se beneficiar do ar puro e da paisagem locais.

“A mineração tem um prazo de existência, com o previsível fim dos recursos minerais”, avalia Hércules Figueiredo, proprietário do restaurante Horizontes — localizado na pista de decolagem de voo livre, conhecida como Topo do Mundo, na Serra da Moeda —, que teve uma queda de 50% da clientela após o desastre. O prazo do esgotamento mineral, que seria daqui 20 anos, segundo Figueiredo, “terminou antes da hora” e deixa uma difícil tarefa para a população, que tenta se reerguer da lama, e para o trade do turismo, que precisa unir todas as forças.

“Tem um lado que é interessante, a gente começa a ver como as pessoas funcionam no momento de crise; como é que elas dão conta disso, porque a turma continua aqui, continua trabalhando”, conta Andreia, proprietária do empreendimento Verde Folhas, que passou a receber cerca de 5 pessoas da média de 85 que recebia durante os finais de semana antes do desastre.

Turismo de aventura e ecoturismo.

 

Os atrativos turísticos de Brumadinho

Investimentos em hospedagem.

Situado na localidade de Casa Branca, o Verde Folhas conta com atrações como arvorismo, tirolesa e cachoeira, além da pousada, dos chalés de hospedagem, de um restaurante e de uma lojinha onde são vendidos produtos e comidas produzidos por habitantes locais. O arvorismo, que circunda todo o perímetro do local, conta com três níveis de dificuldade: o nível mais baixo, para as crianças; outro, para os acima de 1 metro e meio de altura, e o terceiro, mais acima, próximo à copa das árvores, para os mais experientes ou corajosos. O percurso, que deve ser feito com o acompanhamento de monitores experientes e com os devidos equipamentos de segurança, apresenta quatro descidas de tirolesa, um rapel e uma parede de escalada e, no fim, a possibilidade de refrescar-se na cachoeira. Para os que pretendem passar a noite, o Verde Folhas também oferece opções diversas: a pousada, com quartos que aconchegam casais e famílias, e os chalés circundados pela mata.

Hospedagem junto à natureza.

Desde o rompimento da barragem, a queda drástica dos visitantes assustou a proprietária Andreia e as 23 famílias que trabalham no Verde Folhas, mas desistir nunca foi uma opção. Com a ajuda de outros comerciantes e empresários locais, envolvidos com a ATBR, bem como da campanha Abrace Brumadinho, o número de visitantes vem registrando um considerável aumento, e a expectativa é a melhor possível no que se refere ao movimento.

 

Voar livre

O voar livre sobre as serras.

A famosa montanha Topo do Mundo, localizada no alto da Serra da Moeda, a 1.500 metros de altitude, não é apenas uma das principais atrações turísticas do município de Brumadinho, é apontada também como o segundo maior ponto de visitação de toda a Região Metropolitana de BH. Apesar de a montanha estar localizada a 36 quilômetros de Belo Horizonte e a 34 quilômetros da sede de Brumadinho, a distância não espanta: o local atrai público variado, além dos praticantes de voo livre. O alto da serra é exuberante: avista-se a capital de um lado e as serras que compõem o famoso Quadrilátero Ferrífero do outro — e tudo isso ainda ornado com parapentes coloridos flanando no céu.

O voo livre não se limita a atletas e esportistas experientes. O turista pode usufruir dos voos duplos e ainda buscar capacitação para a prática do esporte com os instrutores que trabalham na rampa de decolagem.

O restaurante Horizontes é outro destaque do local, pois acolhe o público que vai apreciar a vista, dando a possibilidade de o visitante saborear as opções do menu, com enfoque na gastronomia mineira. Sob nova direção desde fevereiro de 2019, o Horizontes encarou o início da trajetória em um dos períodos mais complicados, pouco após o rompimento da barragem no Córrego do Feijão, com uma queda de 50% do público, mesmo localizado a uma distância significativa do local da tragédia. No entanto, o proprietário Hércules Figueiredo se mostra otimista quanto às perspectivas futuras — tanto devido à união do trade turístico quanto pela atitude que ele tomou desde que assumiu a direção do empreendimento: a união do voo livre com o restaurante.  Hércules, que também é praticante do esporte, decidiu abraçar o público frequentador do Topo do Mundo e levá-lo para o estabelecimento que inaugurou.

 

Arte e hospedagem

Cerâmica: uma tradição de Brumadinho.

Pouco mais abaixo, a pousada Estalagem do Mirante se aconchega em meio à paisagem montanhosa da Serra da Moeda. O local possui um perfil “mais romântico”, como conta o proprietário, Luciano Drumond, mas, ainda assim, atrai hóspedes de todas as idades. Além dos chalés, o espaço comum abrange um restaurante e uma cachoeira que cai em uma piscina artificial. O aconchegante lugar apresenta conforto e segurança para os visitantes, além da mesma vista espetacular que se tem a partir da serra. Como os outros empreendimentos turísticos do município, a Estalagem do Mirante viu cair 60% do público desde janeiro de 2019, apesar da localização, distante da barragem rompida.

Recentemente, a charmosa pousada inaugurou o ateliê da ceramista Eny Amorim, onde a artista cria peças que podem ser adquiridas pelos turistas.

E, por falar em cerâmica, essa é mais uma atividade que movimenta o município de Brumadinho, mais um importante atrativo turístico. Quem trouxe a cerâmica para a região, na década de 1970, foi a artista Toshiko Ishii. A chegada de Toshiko atraiu artistas e artesãos interessados em conhecer e aprender a técnica dela de queima da cerâmica, conhecida como bizen, na qual as peças são mantidas no forno por cerca de 70 horas.

Os ensinamentos de Toshiko contribuíram para a existência dos 14 ateliês e 17 ceramistas hoje presentes no município e, para que estes encontrassem na cerâmica não apenas um produto artesanal, mas também uma forma de expressão artística. Uma dessas artistas é Erli Fantini, renomada ceramista, fundadora, em 1999, da conhecida Feira de Cerâmica, que acontece anualmente no município. Erli, que já teve trabalho exposto em diversas galerias, museus e salões de arte do país, não abandonou a região onde trabalhou com Toshiko. O ateliê dela, sempre visitado por turistas de todos os cantos do Brasil e de diferentes países, fica localizado no bairro Palhano.

 

Instituto Inhotim

Instituto Inhotim: a grande referência.

Vivo e em
constante movimento

Por Assad Ibrahim
Fotos Cezar Felix

Localizado muito próximo ao perímetro urbano de Brumadinho, o Instituto Inhotim — Museu de Arte Contemporânea e Jardim Botânico — é de tão grande importância como um dos mais importantes destinos turísticos brasileiros que já recebeu cerca de 3 milhões de pessoas desde 2006, ano da inauguração do complexo.

Em uma área de 140 hectares, entre os ricos biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, o Inhotim expõe, de forma permanente, obras de renomados artistas nacionais e estrangeiros, nas galerias e dispostas entre exuberantes jardins.

Segundo informa a instituição — uma entidade privada, sem fins lucrativos, reconhecida pelo Governo do Estado de Minas Gerais como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) —, “o Museu possibilita que os artistas criem site-specifics de forma única e inovadora, além de viabilizar a exibição permanente de obras de grande escala que normalmente não poderiam ser expostas em museus tradicionais. Tudo isso proporciona ao visitante uma experiência singular, que integra arte, natureza, cultura, arquitetura, entretenimento e educação”.

 

Acervo botânico

Paisagem decorada pelo piloto.

Na área ambiental, o Inhotim possui uma coleção de cerca de 4,5 mil espécies de todos os continentes — algumas raras e ameaçadas de extinção. Esse acervo é objeto de estudos “com vistas à conservação da biodiversidade e ao combate à mudança climática”.

No campo da educação, como informa o instituto, “o Educativo Inhotim atende, anualmente, 40 mil pessoas, que participam desde programas de formação a visitas mediadas”, sendo que mais da metade dos visitantes entra no Inhotim gratuitamente, por meio dos projetos socioeducativos e das quartas-feiras livres.

Há ainda uma programação cultural que realiza grandes festivais, como o MECAInhotim, com shows, espetáculos e performances. “Artistas da cena independente e também cantores consagrados se apresentaram no Instituto, incluindo Caetano Veloso, Jorge Ben Jor e Marisa Monte”.

 

Arte contemporânea

 

O acervo de arte contemporânea em exposição é formado por pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações de cerca de 60 artistas, de 38 países diferentes. Cerca de 700 obras encontram-se à mostra atualmente. Dezenove galerias são permanentes, e quatro são dedicadas a exposições temporárias.

As 19 galerias permanentes apresentam obras de Tunga, Cildo Meireles, Miguel Rio Branco, Hélio Oiticica & Neville d’Almeida, Adriana Varejão, Doris Salcedo, Victor Grippo, Matthew Barney, Rivane Neuenschwander, Valeska Soares, Doug Aitken, Marilá Dardot, Lygia Pape, Carlos Garaicoa, Carroll Dunham, Cristina Iglesias, William Kentridge e Claudia Andujar.

Galeria Adriana Varejão.

As quatro galerias dedicadas a exposições temporárias são as do Lago, da Fonte, da Praça e da Mata. “Os pavilhões contam com grandes vãos que permitem o aproveitamento versátil dos espaços para apresentação de obras de variadas mídias. Periodicamente, as exposições das galerias temporárias são renovadas para apresentar novos trabalhos e criar reinterpretações da coleção. Além disso, artistas são convidados a desenvolver novos projetos — juntamente com a equipe do Inhotim —, fazendo do Museu um lugar em constante movimento e evolução”, ratifica o Instituto Inhotim.

Instalação de Lygia Pape.

 

Galeria da fotógrafa Cláudia Andujar.

Mais vivo que nunca

 

Diante da importância do Instituto Inhotim para Brumadinho — e, é claro, para o turismo brasileiro, inclusive sob o ponto de vista estrutural da atividade, uma vez que ele é um dos mais importantes destinos do país —, a nossa reportagem ouviu a opinião da instituição sobre os acontecimentos relativos à tragédia da barragem da mina Córrego do Feijão, por meio de Renata Bittencourt, diretora executiva do Instituto Inhotim.

— Como o Inhotim avalia, dentro de um contexto geral, o impacto causado pela tragédia para as atividades do instituto?

— Para nós, o impacto foi, sobretudo, humano. Muitas vidas foram perdidas na tragédia, afetando permanentemente centenas de famílias. O Inhotim não foi atingido, pois fica a quase 20 quilômetros da área afetada. Mas ficamos alguns dias fechados, em respeito ao luto das pessoas que perderam amigos e parentes. Cerca de 80% dos funcionários do Inhotim são de Brumadinho, e alguns deles perderam amigos, parentes ou pessoas queridas com o ocorrido. A esses, a nossa equipe de RH prestou assistência e apoio psicológico. Antes da reabertura do Inhotim ao público, houve acolhimento das equipes, com três dias de atividades de meditação, ioga, conversas em grupo e palestra sobre resiliência. Porém, estamos percebendo que o contato com os colegas é parte importante desse processo de superação.

Com relação ao fluxo de visitantes, nos primeiros três meses após o rompimento da barragem, chegamos a ter uma queda de 40% de visitação, em comparação às nossas melhores médias. Janeiro estava caminhando para superar a média dos últimos cinco anos, quando houve o rompimento da barragem, no dia 25.

— Hoje, qual é a situação no que se refere às atividades e ao retorno da visitação por parte dos turistas?

— Temos nos esforçado em várias frentes para retomar o fluxo de visitantes não só para Inhotim, mas também para toda a cidade de Brumadinho, que tem vasta riqueza natural e cultural.

A nossa primeira atitude após o rompimento foi reforçar que o Inhotim continuava seguro, vivo, longe da área afetada. Depois, entramos com uma programação educativa e cultural de peso, para movimentar ainda mais o Inhotim. Apresentações com artistas renomados, como Lenine, Pato Fu e Grupo Giramundo, Filarmônica de Minas Gerais e Orquestra Ouro Preto trouxeram milhares de pessoas ao parque. Grandes eventos, de amplitude internacional, também foram muito importantes, como o MECAInhotim e o Iron Runner. E ainda tem muita atração bacana por vir neste ano.

Outro ponto muito importante para retomar a visitação foi intensificar e ampliar as nossas ações com envolvimento da comunidade de Brumadinho e região, um público muito importante para nós. Um dos programas é o Nosso Inhotim, que garante gratuidade na entrada no Instituto, para moradores de Brumadinho. Mais de 4 mil pessoas já se cadastraram, e mais de mil já vieram ao Inhotim por meio desse programa, muitas pela primeira vez. Agora, estamos com exibições de filmes para as famílias aos domingos, além de uma agenda de apresentações com artistas locais no Inhotim e da nossa Escola de Música, na comunidade.

Ações para a comunidade.

Hoje, o Inhotim está mais vivo que nunca e mais ainda ciente de seu papel na retomada do turismo da cidade. Estamos percebendo sinais de melhora na visitação, especialmente neste mês de julho, férias, em que estamos com uma programação educativa bem interessante, com visitas temáticas e ativações em obras de arte.

Estamos percebendo as pessoas não só retornando ao Inhotim, como também se apropriando mais do local, com um sentimento maior de pertencimento. A comunidade, principalmente, tem descoberto a diversidade de experiências que pode ter aqui, seja para aproveitar a programação seja para conhecer as obras de arte, ou apenas para ler um bom livro e contemplar a natureza.