Desapareceu a Serra do Curral. Chove tanto que não vejo o seu contorno, e não há nada de que eu goste mais em Belo Horizonte que poder ver a serra, o limite da cidade, de saber que ali está o fim e algum começo. Como se a serra fosse uma saída de emergência, se der errado, vontade de fugir, basta ultrapassá-la, só seguir.

Da janela do meu quarto, a serra faz a moldura do horizonte como um quadro bem-colocado no fim da sala, e, em noites de lua cheia, ainda escuto meu pai chamar, vem, filha, vem ver a lua nascer.

Da casa dos meus pais, é preciso pouco, 20 minutos de carro, talvez, é preciso pouco para se chegar ao bairro mais rico das grandes casas ao pé da serra, para se chegar ao parque, quem não lembra? Aquele onde vamos primeiro em excursão da escola, depois para fazer piquenique com os pais, andar de patins, cair da bicicleta. Mas eu não queria morar no início do fim, prefiro a distância que me permite ver o contorno, a serra, prefiro estar a quatro bairros de distância, talvez cinco. Não, eu não queria morar na saída, o que quero é vê-la. Da janela do meu quarto, a serra faz a moldura do horizonte como um quadro bem-colocado no fim da sala, e, em noites de lua cheia, ainda escuto meu pai chamar, vem, filha, vem ver a lua nascer.

Uma vez, resolvi subir, há 18 anos, não para fugir, mas para atender uma vontade de largar o parapeito e colocar meus pés na paisagem. Eu tinha 16 e combinei com dois meninos, ou rapazes, nessa idade, acho que são moleques. Um deles, eu queria namorar, quase namorava, cheguei a conhecer os pais, foi a primeira vez que conheci os pais de alguém. O problema é que ele já tinha namorada, moleque, e não me contou. Descobri eu mesma, nesses passeios de sábado na Savassi. Lá estavam os dois, cheguei perto, cumprimentei, olá, muito prazer. Depois fui ao banheiro chorar. Coração despreparado. À noite, quando ele me ligou, ouvi meu primeiro pedido de perdão com a serra ao fundo. Eu só falava ao telefone sentada na janela do quarto, ritual ou estratégia para ninguém me ouvir atrás da porta.

O outro moleque tinha o título de melhor amigo, esse, eu não queria namorar, mas ainda assim foi meu primeiro namorado, longo, seis anos, menino bom. Combinamos os três de nos encontrarmos na avenida Senhora do Carmo, que eu sempre chamei de Nossa Senhora do Carmo, até um dia ler a placa e descobrir que não tinha o Nossa, tão mineiro, devia ter. O combinado era encontrar às cinco da manhã, para subir e ver o sol nascer. Fomos, não lembro como minha mãe deixou, na verdade, ela deixava tudo, e talvez por isso, vai saber, sempre fui tão comportada.

Chegamos ao pé da serra, no bairro rico, Mangabeiras. Fomos a pé. Eu de mãos dadas com o menino que tinha namorada ao lado do meu melhor amigo que um dia eu iria namorar. Ao chegar, a pergunta: tem dois caminhos um é mais longo e o outro exige escalar um cano. Cano, não, não vou escalar nada, protestei. Concordaram. Subíamos enquanto a luz acordava aos poucos, mas, precavidos, levávamos lanternas e uma mochila com água, biscoitos recheados e bananas. Eu não me lembro da conversa nem do caminho, mas me lembro de chegar ao topo e procurar a casa dos meus pais, como se eu fosse a lua procurando a minha janela. Era bonito, a cidade toda, a Belo Horizonte vista do horizonte, a cidade a partir do fim dela mesma. Eu procurava minha casa e acenava com as mãos, tinha dito antes de sair: mãe, vai para o quintal e tenta me enxergar.

Ficamos no alto por um tempo, deve ter sido em silêncio, não sei. Eu devia estar de mãos dadas com o moleque que me apresentou aos pais, e eu devia estar feliz. Talvez tentamos achar os lugares conhecidos, a antena de tevê que primeiro foi da TV Itacolomi, não conheci. Dizem que dá para ver o Mineirão, olha lá, será que é? Logo ali, dava para ver aquela casa toda branca, de vidro verde, toda, toda, imponente, parece solitária, grande demais. Também era possível avistar o antigo hospital só de olhos, não sei o nome, no início da serra, o mesmo hospital a que fomos, eu e o amigo que virou namorado, no dia em que outro amigo cortou o olho com uma faca, num despretensioso churrasco de faculdade, dramáticos erros da juventude, são tantos.

A sensação era de abraçar a cidade, minha cidade. Desde que saí de Belo Horizonte, ela se tornou minha, foi só depois de longe, sem serra, depois do abandono, que nasceu em mim essa posse emotiva.

Ficamos por lá durante um tempo até que, no caminho de volta, encontrei uma carteira de identidade escondida debaixo de uma pedra, tive medo, que estranho, era de uma mulher, a idade, não lembro, mas era maior de 18. Pega para você e usa para tomar cerveja, um dos moleques sugeriu. Vai poder entrar na boate, o outro completou. O sobrenome não me volta à memória, mas o nome, não sei como, desconfio que era Julia. O que aconteceu com Julia? Eu tive medo, quis ir para casa, tinha boatos, meninas não deviam subir a serra, mãe, como você deixou? O não namorado e o futuro namorado brincaram de me assustar, depois me acalmaram, não é nada, deve ter perdido. Deixamos lá a carteira e o assunto. Ninguém mais comentou. Fomos embora, e de novo o protesto, não, pelo cano, eu não vou. Terminamos a manhã, já com o sol à pino, no shopping center, tomando milk shake ou comendo casquinha de baunilha, mais seguro, devo ter pensado.
Hoje as mães não deixam mais as filhas subirem, é perigoso, de jeito nenhum.

E agora, daqui da janela, a chuva não me permite ver a serra, e eu me sinto um pouco presa, e se eu quiser fugir? Penso em Julia. Aos 16 anos, eu não entendia bem o que podia acontecer com Julias, Marias e Clarisses. Quero acreditar que ela saiu da cidade, escalou a serra para ir longe, para ver o outro lado do horizonte, para ir a até algum lugar em que pudesse dizer que, na sua cidade tem uma serra que marca o fim. Quero acreditar que ela tinha um plano de escape, assim como eu tive – privilégio- toda mulher deveria poder fugir, e toda cidade deveria ter uma rota de fuga.
Agora, visitante da janela do meu quarto que há muito já não é meu, eu fico na torcida para a serra aparecer, para eu dormir de janela aberta, mesmo com medo de o morcego entrar e com risco de ser atormentada por zumbidos de pernilongos bêbados, quem sabe tenho a sorte de uma insônia, só para poder me sentar na janela, fumar o cigarro de palha, ficar olhando vaga e traçando o trajeto da cidade, da minha cidade. Quem sabe a serra aparece, e eu conto tudo o que aconteceu, pergunto sobre Julia, para onde ela foi, ficou tudo bem?, e conto que fui para um lugar no qual não se vê o fim, que troquei a vista da serra por um céu onde só tem janelas e mulheres que sobem avenidas largas, não serras, mas avenidas quase sempre sem fim. Quem sabe eu conto que às vezes a saudade é claustrofóbica, que dá vontade de fugir e que eu queria, só mais uma vez, pode até ser a última, mas eu queria poder de novo subir no alto da serra que agora não vejo, só para ver a minha cidade fingindo que sou lua.

Rita de Podestá, produtora e revisora de conteúdo e escritora, nascida e criada em Belo Horizonte, mora hoje em São Paulo, onde, da janela do 9º andar, vê o pôr do sol refletido no prédio comercial com janelas de vidros.