Entre os municípios de Santa Bárbara e Catas Altas, a natureza se encarregou de guardar um tesouro. Ali está o Santuário do Caraça, um patrimônio que já recebeu romeiros, abrigou uma renomada instituição de ensino e hoje serve a pesquisadores e religiosos, além de atrair muitos visitantes. Ao redor do Santuário ainda floresce intacta uma reserva ambiental de inestimável de valor, o Parque Natural do Caraça.

Reportagem: Juliana Afonso
Fotos: Jean Yves Donnard

O carro segue rápido. Sobe e desce pela estrada que corta a Serra do Espinhaço, a “cordilheira” que marca a paisagem desta região das Minas Gerais. O caminho tortuoso revela a rica biodiversidade que se esconde no Cerrado mineiro. Árvores frondosas, pequenas flores secas, passarinhos. Uma verdadeira obra de arte natural a ser apreciada pelos mais atentos.

O carro segue. É quando se descobre uma construção peculiar no meio da paisagem. Ali, no meio das serras, se avista uma torre alta, que decora uma construção de estilo neogótico ainda maior. De cor bege e telhados pretos, o templo impressiona pela imponência. Em volta dela, casas de paredes brancas reluzem contra o sol. Ao redor, pátios enormes e árvores que não parecem fazer parte daquele cenário. São palmeiras e jardins cuidadosamente aparados.

A antiga construção que se vê ainda da estrada é o Santuário do Caraça. O espaço, que já foi hospedagem para romeiros e colégio missionário reconhecido pelos imperadores portugueses, hoje se denomina Centro de Turismo e oferece aos visitantes Museus, Biblioteca, Arquivo Histórico e Fotográfico e Centro de Convenções. Isso sem falar da rica biodiversidade local, que trouxe à região o título de Reserva Particular do Patrimônio Natural —Santuário do Caraça (RPPN) em 1994. É, sem dúvida, um espaço que combina muita história e vastas belezas naturais.

O início do Santuário

O primeiro registro do Caraça aparece somente no ano de 1708. Esse nome foi dado a um trecho da Serra do Espinhaço em um mapa da Província de Minas Gerais. Uma das hipóteses para a sua origem diz que em tupi-guarani Caraça significa desfiladeiro, e o nome foi dado em referência ao desfiladeiro entre o Pico do Sol e o Arraial do Inficionado, o primeiro daquelas bandas. A outra hipótese é a de que o nome se deve ao formato da Serra, que se parece com uma enorme “cara” deitada e olhando para cima.

A região ainda era uma sesmaria quando foi comprada pelo Irmão Lourenço de Nossa Senhora em 1770. “Ele logo começou a construir uma casa de hospedagem para romeiros e uma capela barroca, dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens, devoção mariana tipicamente portuguesa”, afirma o Padre Wilson Belloni, diretor do Santuário do Caraça e da RPPN. O Irmão tinha seus ajudantes, mas realizava o trabalho quase todo sozinho.

A idade avançava e as dificuldades para terminar a construção do sonhado centro de peregrinação aumentavam. Anos antes da sua morte ele teve a ideia de escrever um testamento endereçado ao rei de Portugal, Dom João VI. “O Irmão Lourenço doou as terras e o Santuário com a esperança de que a Coroa Portuguesa ordenasse padres que dessem continuidade ao centro e, se possível, fundassem uma casa para educação de meninos”, explica o Padre Wilson Belloni.

Excelência acadêmica

Em 1820, um ano depois da sua morte, os padres Leandro Rebelo Peixoto e Castro e Antônio Ferreira Viçoso chegam ao Caraça a pedido de Dom João VI. Os padres faziam parte da Congregação da Missão — uma sociedade católica masculina composta por padres e leigos consagrados, que tinha como objetivo marcar presença em missões, paróquias, colégios, além de servir aos pobres e levar seus ensinamentos às pessoas. Seguindo essa lógica, eles realizaram algumas missões nos municípios próximos e depois trouxeram do Rio de Janeiro os primeiros alunos do que viria a ser o Colégio do Caraça. Uma vez criada, a instituição oferecia salas de aula e dormitório para os alunos, seminaristas e padres.

Desde 1830, diversas reformas foram realizadas a fim de aumentar a estrutura na mesma medida em que aumentava o número de jovens matriculados. Dormitórios, refeitório, capela, sala de recreio, depósito, teatro… o Colégio do Caraça foi tomando enormes proporções.

Em um país que via seu ensino regular jogado as traças — obrigando muitos brasileiros a estudar no exterior — o colégio era um oásis da excelência acadêmica. Era conhecido por ter um ensino exemplar, no qual se misturavam formação humana e ensino de conteúdos capazes de fornecer um vasto conhecimento de mundo. Seriedade, disciplina e qualidade eram requisitos básicos. Além das matérias básicas, os alunos estudavam também Religião, Latim, Grego, Francês, Cosmografia, Caligrafia e Desenho.

Não é à toa que ali se formaram importantes personalidades da história do país no campo político, civil e religioso. Formaram-se lá cerca de 500 padres, 21 bispos e 120 políticos, dentre eles os ex-presidentes da república Afonso Pena e Arthur Bernardes. Isso sem contar nos diversos magistrados, médicos, engenheiros, cientistas e professores.

Um prédio em chamas

Durante os 150 anos do Colégio do Caraça formaram-se cerca de 11 mil alunos. As atividades foram interrompidas bruscamente no dia 28 de maio de 1968 após um incêndio. “Durante a madrugada, um aluno que dormia na enfermaria sentiu o cheiro de fumaça e foi avisar o Padre disciplinário. O fogo foi causado por um fogareiro elétrico que estava aceso na sala de encadernação”, conta o Padre Wilson Belloni.

Os 90 alunos desceram depressa, mas ainda tiveram coragem para tentar tirar algumas coisas de dentro do prédio. Entre os itens que foram salvos estão 15 mil dos 50 mil livros da Biblioteca e uma imagem de Nossa Senhora das Graças, retirada do dormitório no terceiro andar por meio de cordas. Os bombeiros chegaram só pela manhã, quando o colégio já não existia mais. “A única construção que não pegou fogo foi a igreja, pois lembraram de tirar as telhas do prédio antes de as chamas se alastrarem”, afirma o Padre. O Colégio então fechou suas portas.

Da educação ao turismo

A instituição que marcou seu nome na história educacional do país teve fim com o grande incêndio de 1968. Mas no fundo todos sabiam que, mais cedo ou mais tarde, ele iria surgir de novo, não necessariamente como uma instituição de ensino. Foi o que aconteceu quatro anos mais tarde, quando o Caraça assume timidamente o status de Centro de Turismo. “Era uma alternativa não só para preservar a memória deste importante ícone da cultura brasileira, mas também para proteger e oferecer à comunidade acadêmica mais de 12 mil hectares de matas e uma importante e curiosa diversidade de fauna e flora”, explica o Condutor de Turismo Pedagógico no Caraça, Sebastião Crispim, representante da Secretaria de Turismo, Cultura e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Santa Bárbara.

Pouco a pouco, o espaço foi ganhando vida. E a vida voltou ainda mais forte em 2002, quando foi desenvolvido um projeto de restauração do prédio queimado. O espaço ganhou infraestrutura moderna (que inclusive se contrapõe ao lado externo da construção, feita em pedras) e serve hoje à memória do local. Parte do prédio é dedicado a um museu da vida colegial (com mobiliários e objetos que mostram um pouco do cotidiano dos alunos), e à biblioteca, com livros do século XV ao XIX que são verdadeiros tesouros.

O Caraça também conta com outros espaços históricos, como o Museu de Sacro, com peças e esculturas religiosas dos séculos XVIII e XIX, e a Pinacoteca, com uma pequena coleção de pinturas. Entre elas está uma das únicas imagens que se tem do Irmão Lourenço de Nossa Senhora.

Diversidade natural

Segundo dados da Secretaria de Turismo de Santa Bárbara, o Caraça recebe em média 60.000 visitantes por ano, dos quais pelo menos 17.500 são hóspedes da pousada do Santuário. “O Caraça oferece um turismo alternativo, em que a formação de valores que permanecem e humanizam verdadeiramente o ser humano é realçada em todos os momentos”, opina Sebastião.

As atividades realizadas atualmente abrangem diversos campos de atuação. No âmbito pedagógico, “o Caraça ampara e contribui com pesquisadores e universidades de vários estados brasileiros”, afirma Sebastião Crispim. Outro ponto importante é sua biblioteca, aberta à visitação e consulta. E para realçar ainda mais seu valor histórico e cultural, todo anos é organizado a Semana do Livro da Biblioteca. Nesse período, há oficinas e atividades pedagógicas, literárias e ambientais para alunos de escolas públicas das cidades Barão de Cocais, Catas Altas, Mariana, Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo.

No que diz respeito ao turismo ecológico, há motivos de sobra para conhecer o Caraça. Localizado nas entranhas da Serra do Espinhaço, o que não falta são trilhas que levam a cachoeiras, piscinas naturais de águas cristalinas, grutas e picos, com uma vista incrível de toda a região.

Natureza endêmica

Mas o mais surpreendente é como a Serra do Caraça, um espaço relativamente pequeno frente a grandeza da cordilheira do Espinhaço, consegue reunir tamanha biodiversidade. Uma das explicações está em sua localização geográfica, que agrega três tipos distintos de vegetação: Cerrado, Mata Atlântica e Campos de Altitude.

Além disso, em 1994 houve a criação da Reserva Particular do Patrimônio Natural — Santuário do Caraça. “A atitude teve início por um ato voluntário da Província Brasileira da Congregação da Missão, que é sua proprietária e mantenedora. O Ibama reconheceu e oficializou o título em caráter perpétuo”, explica a bióloga e Coordenadora Ambiental da RPPN, Aline Cristine Abreu. Ela conta que o grande objetivo desse título de unidade de conservação é garantir seus quase 11 mil hectares de grande relevância ambiental e social contra possíveis interesses danosos, bem como a almejada qualidade de vida para as gerações presentes e futuras.

De fato, a biodiversidade local é inconfundível. A flora da Serra do Caraça é composta por mais de 200 espécies de orquídeas (sendo nove ameaçadas de extinção no estado), além de candeias, ipês-amarelos e macaúbas. E claro que dentro de um ambiente tão rico seria possível encontrar uma fauna ainda mais variada. Só de aves são 339 espécies diferentes, sendo 15 ameaçadas de extinção, como o lindo pica-pau-rei e o bravo falcão-de-peito-laranja.

Animal de estimação

Entre os mamíferos são 66 espécies distintas e dez ameaçados, incluindo o lobo-guará, o animal de estimação dos residentes e turistas do Santuário do Caraça. Isso porque em 1982, depois de muito quebrar a cabeça para descobrir quem estava revirando as lixeiras do complexo, os moradores perceberam que se tratava de um lobo-guará. Para mostrar ao animal que ali ele não corria perigo, os funcionários começaram a colocar badejas de carne nos portões do Santuário e, com o tempo, foram subindo até as portas da igreja.

A atitude fez com que ele saísse da lista de animais em extinção, apesar de ainda ser classificado como espécie vulnerável. Hoje, quem quiser ver os animais deve esperar a noite cair, ir até porta da igreja e ter paciência. E bico fechado: barulho demais espanta o animal.

Se o lobo-guará se tornou o bicho de estimação e o símbolo da biodiversidade do Caraça isso se deve ao cuidado da comunidade local, mas também ao fato de a área em que vive ter sido classificada como RPPN ainda em 1994. Assim como ele, diversos animais e plantas sobrevivem nesse santuário natural. Mas como toda Unidade de Conservação, ela sofre uma série de ameaças.

Impactos ambientais

Por estar ao sul da Serra do Espinhaço, a Reserva está inserida também no Circuito do Ouro, na Estrada Real e no Quadrilátero Ferrífero, denominações que marcam, de uma forma ou de outra, uma forte característica da região: sua riqueza mineral. “Por causa da sua riqueza, a região assiste a intensificação dos empreendimentos de significativo impacto ambiental desde o século XVIII”, lamenta a bióloga Aline Abreu.

Hoje, o maior problema é o incêndio florestal, que na maior parte das vezes é de origem criminal. Aline afirma que só neste ano a RPPN sofreu com a perda de dois mil hectares, o que causou um enorme prejuízo para o meio ambiente. Outras atividades que exigem muito cuidado e fiscalização também são desenvolvidas no entorno, como a mineração, a pastagem, a monocultura do eucalipto e a carvoaria — em grande parte clandestina. “Todas essas atividades vêm acontecendo nos topos de morro, reconhecidas como Área de Preservação Permanente, sagradas para garantir a recarga das nascentes dos cursos d’água”, afirma Aline.

Uma importante solução nesse sentido aconteceu em 1998 com a implantação da Coordenação Ambiental e do serviço de monitoria por meio de parceria com a Associação Mineira de Defesa do Ambiente. “A parceria contribuiu para o melhor gerenciamento da Reserva, favorecendo a aproximação responsável entre homem e natureza, cultura e biodiversidade”, opina Sebastião Crispim. Entre os objetivos estão a melhoria da gestão, a elaboração e implantação do Plano de Manejo da Reserva, a orientação aos visitantes e a fiscalização local.

Mas sozinha ela não é capaz de se manter. É por isso que uma das maiores preocupações da equipe é a ameaça de a Reserva ficar “ilhada” por empreendimentos de significativo impacto ambiental. A Direção da Reserva vem buscando medidas preventivas e sensibilizando pessoas e órgãos competentes para garantir corredores ecológicos, que são verdadeiras faixas verdes entre florestas e/ou Unidades de Conservação.

No que diz respeito à vida animal, Aline ressalta que o impacto no entorno da Reserva, acarretara a superpopulação, o cruzamento consanguíneo e a perda da biodiversidade local. Prejuízo para todos.

Visita imperial

A família imperial portuguesa sempre esteve envolvida com o Santuário do Caraça. A história começou ainda no século XIX, quando o Irmão Lourenço pediu a Dom João VI que cuidasse do espaço. Mais tarde, o local foi visitado por Dom Pedro I, que subiu a Serra para se aconselhar com o padre Leandro Rebelo Peixoto e Castro, ilustre educador em Portugal.

Com o tempo, o Colégio do Caraça se tornou conhecido por sua seriedade e disciplina e despertou a atenção do seu sucessor, Dom Pedro II. Ao contrário do pai, sua intenção era mais cultural do que política. Assim, quando veio a Minas Gerais em 1881, o imperador fez questão de ir ao Caraça. Em seu diário ele conta dos passeios, da natureza das montanhas mineiras, da seriedade do Colégio e dos ensinamentos cotidianos transmitidos pelos professores aos alunos.

Abaixo-assinado pela preservação

Atrás da Serra do Caraça há uma mancha marrom. Ela começa pequena, em volta de poças que se confundem com pequenas e rasas piscinas laranja, resultado da mistura entre água e lama. Mas ela cresce em camadas e se torna tão extensa quanto as próprias montanhas. A mina, fruto da exploração do minério de ferro, tão abundante naquela região, é só um dos empreendimentos montados ao redor da RPPN.

Foi para garantir uma maior proteção à Reserva e também à toda região que o Santuário do Caraça iniciou um abaixo-assinado pedindo “a adoção urgente, pelas autoridades competentes, das providências cabíveis para a delimitação de toda a extensão da Serra do Caraça e de seu entorno, já declarada Monumento Natural e tombada pela Constituição do Estado de Minas Gerais, a fim de que seja efetivamente protegido e preservado um dos mais importantes patrimônios do povo mineiro”

Segundo a bióloga e Coordenadora Ambiental da RPPN, Aline Abreu, o “documento já foi remetido ao Ministério Público de Minas Gerais, que está conduzindo muito bem o processo”. Além disso, foi estruturada uma equipe pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente para estudar criteriosamente a situação das Unidades de Conservação — desde a Serra de Ouro Branco, passando pela Serra de Ouro Preto, Serra do Caraça até a Serra do Curral —, com a missão de garantir esse importante corredor ecológico.

A Secretaria de Turismo, Cultura e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Santa Bárbara também é favorável ao abaixo-assinado. “A luta hoje não é apenas pela preservação, mas também para evitar o isolamento, tão nefasto quanto a degradação”, afirma Sebastião Crispim.

Mais perto de Deus

Entre o conjunto arquitetônico do Caraça, o Santuário Neogótico de Nossa Senhora Mãe dos Homens é o que mais chama a atenção. Inaugurado em 1883, foi construído com mão-de-obra escrava e materiais regionais como pedra sabão, mármore e quartzito, todas retiradas de cidades vizinhas. O Santuário é a primeira igreja neogótica do Brasil — um estilo que busca reavivar as formas góticas e medievais em detrimento ao estilo clássico predominante.

No Brasil do século XIX, a igreja nasceu como um contraponto à arte barroca que predominava no país. Enquanto o barroco que apelava aos corações das pessoas, o neogótico buscava sempre o lado racional. É por isso que ao invés de altares e esculturas que dão a impressão de um Deus que vinha ao encontro dos fiéis, o estilo neogótico prima por obras capazes de mostrar que o “alcançar a Deus” é um movimento que exige inteligência e reflexão.

Mas nem sempre foi assim. A construção do enorme santuário foi uma ideia do Padre Clavelin devido ao pequeno número de pessoas que a pequena capela barroca do Irmão Lourenço era capaz de receber. Até então, o local tinha uma ermida, a Ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, para uso dos peregrinos. Apesar de pequeno, era um local de grande beleza com imagens da Paixão de Cristo, esculturas de santos e altares dourados construídos por grande artistas, como os púlpitos de Mestre Ataíde.