Localizada no centro-oeste do Estado de Minas Gerais, a Serra da Canastra é um dos lugares mais exuberantes do país. É um lugar extravagante em tesouros naturais. São imensos os seus paredões, seus campos e os seus vales e montanhas. São inúmeras as suas nascentes e os seus riachos, são impressionantemente cristalinas as suas cachoeiras.

Por: Tudy Câmara
Fotos: Roberto Murta

A Canastra situa-se no divisor de águas das bacias dos rios São Francisco e Paraná e entre o Domínio dos Cerrados e o Domínio Tropical Atlântico. Essas características fazem com que a Canastra apresente uma rica diversidade de espécies animais e vegetais.

A Serra da Canastra abriga o Parque Nacional Serra da Canastra, que foi criado para proteger a nascente do rio São Francisco e uma parte do cerrado de Minas Gerais. De lá para cá muito mudou na região. Com a criação do Parque Nacional muita gente foi obrigada a ceder suas terras para o parque e, por tristeza, foi embora de lá …  Mas outros souberam aproveitar, mudaram de atividades e se juntaram para fortalecer o turismo e para garantir a preservação das terras — e o dia de amanhã.

Mas a riqueza da região vai além. O chapadão é palco de inúmeras histórias e segredos que forjou ali um bravo, mas também um gentil homem da terra. Suas crenças e seus costumes, o seu genuíno “jeito mineiro”, a sua astúcia, camaradagem, hospitalidade e simpatia o tornam muito especial.

Especiais também são os sabores e aromas de seus queijos, dos seus doces e de toda a fortuna de quitutes da sua típica e variada culinária, que ultrapassam em muito os limites das Minas Gerais.

A iguaria mais famosa da Canastra é o queijo. A fabricação do queijo Canastra teve início há mais de dois séculos e foi influenciada pelo queijo da Serra da Estrela, de origem portuguesa, um modo de fazer queijo que foi introduzido durante o Ciclo do Ouro.

Em maio de 2008, o queijo Canastra foi contemplado com o registro de bem imaterial do país, pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A pastagem natural do alto da serra, as águas cristalinas, a altitude e o clima da Serra da Canastra são, certamente, os responsáveis pelo delicioso sabor do original queijo Canastra.

Nascentes do São Francisco

O Parque Nacional da Serra da Canastra foi criado em 1972 com o objetivo de  proteger as nascentes do rio São Francisco, pois a região vinha sofrendo com o desenvolvimento desordenado da agropecuária e da mineração.

O rio São Francisco é o maior rio genuinamente brasileiro, com cerca de 3.000 km. Nasce no Estado de Minas Gerais e atravessa mais quatro estados brasileiros: Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Até há pouco tempo, a nascente conhecida do São Francisco era na Serra da Canastra, mas estudos recentes confirmam que o rio São Francisco nasce no rio Samburá, no município de Medeiros, em Minas Gerais. Entretanto, a nascente histórica continua sendo nas águas puras que brotam na região denominada Chapadão da Zagaia, no alto do parque.

A nascente no parque é delimitada por uma imagem de São Francisco de Assis, frei franciscano que, por seu amor à natureza, ficou conhecido mundialmente como o santo protetor dos animais e do meio ambiente. Uma lenda da região diz que a imagem desce do pedestal em noites de lua cheia para curar os animais feridos.

71 mil hectares

O Parque ocupa uma área aproximada de 71 mil hectares, no sudoeste do Estado de Minas Gerais. A maior parte do parque está inserida no bioma do cerrado.

Predominam o relevo acidentado e uma imensidão de campos com vegetação rasteira, que produzem uma paisagem única, com grandes vistas panorâmicas e muitas cachoeiras com alturas que chegam a quase duzentos metros. A vegetação aberta favorece também a observação de inúmeros mamíferos, como o veado-campeiro, o tamanduá-bandeira e o lobo guará e também espécies de aves, como carcará, perdiz e urubu-rei. A Serra da Canastra tem o formato de um baú, daí o seu nome, pois canastra é um tipo de baú antigo. O nome também deu origem ao Parque Nacional e a tantas coisas mais na região ao redor da serra.

A riqueza de cursos d’água do Parque contagia os olhos de seus visitantes.  A beleza das cachoeiras…  muitas cachoeiras … Cachoeira Casca d’anta, Cachoeira do Rolinho, Cachoeira do Fundão, também conhecida por Cachoeira do Santo Antônio, Cachoeira do Rasga Canga, Cachoeira do Capão Forro, Cachoeira do Nego, Cachoeira do Cerradão, Cachoeira da Parida, Cachoeira da Chinela e muitas mais. Dentre as cachoeiras a Casca d’anta é a mais conhecida pela sua imensidão são cerca de 186 metros de queda d’água e está emoldurada em uma parede de rocha de aproximadamente 340 metros de altura.

Embrenhamo-nos na mata e dentro em pouco começamos a ouvir o barulho da cachoeira. Pelas informações que me tinham dado havia poucos instantes, eu sabia que ela se despencava do lado meridional da Serra da Canastra. De repente avistei o seu começo e logo em seguida pude vê-la em toda a sua extensão, ou pelo menos o máximo que podia ser visto do ponto onde nos achávamos.

O espetáculo arrancou de José Mariano e de mim um grito de admiração. (Auguste de Saint-Hilaire, Viagem às nascentes do Rio São Francisco, 9/4/1819)

O cerrado da canastra

O cerrado se caracteriza pela presença de pequenas árvores de troncos torcidos e recurvados e de folhas grossas, esparsas em meio a uma vegetação rala e rasteira, entrecortada, às vezes, por campos limpos ou matas de árvores não muito altas. Os ambientes variam significativamente, áreas campestres, savânicas e florestais misturando-se numa mesma região.

O cerrado ocupa aproximadamente 50% do Estado de Minas Gerais e 25% do território brasileiro. É classificado como o segundo maior bioma do país, presente em cerca de 2.045.064 km2 (fonte: Ministério do Meio Ambiente).

Em 2009, o cerrado foi reconhecido como Patrimônio Natural Nacional, título recebido anteriormente pela Amazônia, pela Mata Atlântica e pelo Pantanal. A titulação vem demonstrar a importância que o bioma tem para a preservação da natureza.

A Serra da Canastra é o maior bloco de vegetação nativa do bioma no Estado de Minas Gerais e também se destaca entre os maiores blocos de vegetação contínua do país. Grande parte do cerrado da Serra da Canastra é formada por uma imensidão de campos que florescem em diferentes épocas do ano. Em cada estação o colorido muda e a beleza é renovada.

Nessa imensidão existem milhares de espécies vegetais e uma grande variedade de vertebrados terrestres, aquáticos, bem como um número elevado de invertebrados. Espécies ameaçadas de extinção como o tatu-canastra, o lobo-guará, a águia-cinzenta e o tamanduá-bandeira, entre muitas outras, o que afirma sua importância como ambiente natural. Além da diversidade faunística e florística, os recursos hídricos da região destacam-se na quantidade e na qualidade.

A flora da Canastra

A região da Canastra, com grande diversidade florística, é considerada uma das áreas prioritárias para preservação da flora de Minas Gerais. A variedade de ambientes faz com que cada cantinho da serra tenha um colorido diferente —campos floridos com muitas espécies endêmicas, raras e ameaçadas de extinção.

Nas formações campestres da Canastra algumas espécies merecem destaque: são as espécies popularmente conhecidas como sempre-vivas, consideradas plantas nativas das serras e cerrados que, depois de colhidas e desidratadas, não sofrem praticamente nenhuma alteração em sua forma e coloração.

As sempre-vivas não são exploradas na região da Serra da Canastra, mas, em outras regiões são utilizadas na fabricação de artigos de decoração, sendo comercializadas no Brasil e no exterior. Entretanto, a produção das mesmas vem decrescendo ao longo dos anos, possivelmente devido ao controle exercido pelos órgãos governamentais à coleta predatória (muitas delas encontram-se na lista das espécies da flora ameaçadas de extinção).

Destacam-se também nos campos rupestres várias outras espécies como as  vassourinhas e as canelas-de-ema os lírios-do-campo, as orquídeas e as bromélias.

As formações savânicas formadas pelo cerrado stricto sensu, caracterizado pela presença de árvores tortuosas, baixas e ramificações retorcidas apresentam algumas espécies de maior porte como o vinhático e o pau-terra, além do pequizeiro.

O pequizeiro é a árvore símbolo do cerrado e seu fruto serve como alimento.  O fruto pode ser apreciado em variadas formas: cozido, no arroz, no frango, no leite. Além de serem utilizados na fabricação de doces, geléias, sorvetes, licores e óleos. As formações florestais em meio à vegetação do cerrado apresentam continuidade com as matas ciliares. Essa região se caracteriza pela elevada densidade de árvores, entre as quais predominam a pindaíba-do-brejo, a amesca e os samambaiaçus. 

E o cerradão que se encontra entre a formação florestal e um cerrado strictu sensu, nas porções mais elevadas do terreno apresenta em quantidade a sucupira-branca, a sucupira-preta, o carvoeiro além do vinhático e do pequi — que ocorre também em outras formações do bioma.

A fauna da canastra

A região da Canastra é considerada uma das áreas prioritárias para preservação da fauna de Minas Gerais, devido à grande diversidade faunística. Muitas são as espécies raras, endêmicas e ameaçadas de extinção que vivem por lá.

A existência de formações florestais entrelaçadas às várias fitofisionomias do cerrado é de grande importância para a fauna, pois influencia diretamente na dinâmica biológica da maioria dos grandes animais da região. Suçuaranas, lobos-guará e tatus-canastra, dentre outros, encontram abrigo durante o dia nesse ambiente, saindo durante a noite para suas atividades. Outros animais vivem exclusivamente em ambientes florestais, a exemplo dos quatis, macacos-prego, micos e jacus. O fornecimento de recursos alimentares pelos ambientes florestais é, em geral, elevado, devido à presença de árvores produtoras de frutos carnosos, como o pau-pombo, o palmito-juçara, a amesca, a uricanga. Nos ambientes florestais são encontradas também a gabiroba e a pitanga-do-mato, da família Myrtaceae, a canela-do-campo e a canela-amarela, da família Lauraceae, e muitas outras espécies comestíveis.

Das muitas espécies de animais que ocorrem na Canastra algumas se destacam.

Em estudo recente, a perereca-de-pijama foi registrada no Parque Nacional Serra da Canastra. A espécie até  pouco tempo só tinha registro em outros dois parques nacionais: o Parque Nacional das Sempre Vivas e Parque Nacional da Serra do Cipó.

Dentre as quase 300 espécies de aves registradas na Serra da Canastra, o galito é uma das espécies migratórias só vista nos campos do Chapadão da Canastra entre os meses de julho e janeiro. Nessa época, a espécie está em período reprodutivo e provavelmente procura temperatura mais amena para reproduzir-se. Os machos alçam vôos altos, longos e especiais. Nesses vôos assemelham-se a helicópteros.

Nas matas ciliares situadas nas porções norte e central do Parque a presença do pato-mergulhão merece destaque. É uma das aves mais ameaçadas de extinção em toda a região neotropical.

A sobrevivência do pato-mergulhão depende da presença de rios e córregos encachoeirados, com águas límpidas, frias e margeando florestas ciliares característica de seu habitat.

A dieta também está relacionada à qualidade das águas em que ele vive, pois é com a visão que o pato-mergulhão localiza suas presas, necessitando, portanto, de águas cristalinas.

Das 80 espécies de mamíferos que já foram registradas na região da Canastra algumas chamam atenção dos visitantes. O tamanduá bandeira, espécie ameaçada de extinção no país e em Minas Gerais, parece ser abundante na Canastra. Por ser uma espécie de hábito diurno é facilmente visualizada na região alta do Parque. Em uma das nossas andanças pelo chapadão da Canastra avistamos, em uma manhã ensolarada, 11 indivíduos de tamanduás-bandeira.

Outro grupo de mamíferos que podemos visualizar na Canastra com facilidade é o dos veados e, das três espécies que ocorrem na região, o mais visto é o veado galheiro, também conhecido por veado campeiro, que, é o único ameaçado de extinção, tanto no Estado de Minas Gerais como no país.

Na área do Parque, em época de seca, muitas vezes são feitos aceiros na beira da estrada, para evitar que, em caso de incêndios, o fogo se alastre. Quando as gramíneas começam a brotar nesses aceiros, os veados campeiros são visualizados com facilidade. Os brotos das gramíneas são alimentos muito apreciados por eles. Em setembro de 2010, numa travessia realizada de automóvel, saindo de São Roque de Minas rumo à parte alta da Cachoeira Casca d’Anta, contamos 12 indivíduos.