Natureza do encantamento

O cenário paradisíaco ainda intocado da Serra dos Alves, localizada no município de Itabira, faz o lindo lugar receber cada vez mais visitantes, encantados com belezas como nascentes, rios, cachoeiras e cânions. A comunidade local procura se preparar para o turismo, definindo demandas, como a necessidade de se preservar aquilo que o destino tem de mais especial: a paisagem exuberante e o jeito mineiro de receber com carinho e hospitalidade.

Reportagem Juliana Afonso
Fotos Rogério Alves Dias

Quando os primeiros raios de sol despontam por detrás das montanhas da Serra dos Alves, ainda é difícil enxergar ao redor. A neblina cria uma espécie de véu entre os olhos e a paisagem. A alternativa é se sentar em um local protegido e tomar um café borbulhante enquanto o tempo passa. Apesar de dizerem que “no interior o tempo anda arrastado”, o calor do café moído na hora e o sabor do queijo fresco embalam a prosa e fazem o relógio correr. Quando menos se espera, a neblina vai embora, e uma paisagem exuberante se descortina diante dos olhos. O cenário é arrebatador. A mistura de montanhas enormes e vales profundos dão a exata noção do cerrado. Estar ali é estar em meio a uma natureza intocada.

Essa é a sensação que tem levado cada vez mais pessoas a visitar a Serra dos Alves, Distrito de Itabira, na Região Central de Minas Gerais. O local é uma formação geológica da Serra do Espinhaço e faz fronteira com o Parque Nacional da Serra do Cipó. Apesar de não ter nem metade da fama do vizinho, a Serra dos Alves faz parte da Área de Proteção Ambiental (APA) Morro da Pedreira e guarda uma enorme riqueza natural e belíssimas paisagens, que incluem rios, cânions e cachoeiras.

O vilarejo é um atrativo a parte: ruas de terra conduzem o visitante a pequenas casas de paredes coloridas e quintais floridos. A linda Capela de São José, com características coloniais do século XIX (foi construída em meados de 1860), está em frente de uma praça, ponto de encontro local, onde os moradores se sentam para colocar o papo em dia. Umas placas indicam o caminho, outras explicam os bons costumes aos visitantes e algumas recitam poesias.

Nos últimos anos, a Serra dos Alves vive o crescimento do turismo, ainda que de forma tímida. Alguns afirmam que o aumento do número de visitantes se deve à lotação de localidades próximas, como a própria Serra do Cipó. “Os outros lugares têm ficado muito cheios, e aqui tem tranquilidade, muito sossego”, afirma o guia turístico Wallace Fernandes dos Santos, morador da Serra dos Alves. Outros dizem que esse crescimento se deve à melhoria da infraestrutura local. Seja como for, o encanto do lugar tem chamado a atenção.

Turismo crescente

Muitas são as causas para que a Serra dos Alves tenha ganhado visibilidade nos últimos anos. A verdade é que o local vive um ciclo de estímulo mútuo, no qual o aumento da infraestrutura gera o aumento da procura dos turistas e vice-versa. Essa transformação é acompanhada de perto pelos moradores locais, como Geraldo Silva Soares. Nascido na vizinha Serra dos Linhares — “a terra é a mesma, a diferença é só o nariz da serra” —, Geraldo diz que o fluxo de pessoas aumentou muito. “A gente recebe muito turista. Qualquer evento que a gente faz traz pessoas de vários estados e até de outros países. Já recebemos gente da Alemanha, Bélgica, Bolívia, Indonésia, Itália”, conta.

Geraldo é zelador do Parque Estadual Mata do Limoeiro, uma importante unidade de preservação próxima ao vilarejo da Serra dos Alves que conserva trechos da mata atlântica e do cerrado, o que lhe confere uma enorme diversidade biológica, além de uma paisagem singular. O parque é um dos atrativos da região que recebe um número cada vez maior de visitantes. A afinidade das pessoas com ambientes naturais ajuda a trabalhar a importância da preservação. “Temos que trabalhar o turismo muito bem trabalhado. Precisa, sim, do desenvolvimento, mas ele tem que ser sustentável, responsável e com aquela harmonia entre as coisas e as pessoas”, afirma Geraldo, com sabedoria.

Outro espaço que tem chamado a atenção dos turistas é a Casa de Cultura da Serra dos Alves, aberta há três anos. Tudo começou quando a professora de música Ivone Ayres levou alguns dos alunos que tinha em Itabira para tocar no vilarejo. Os moradores receberam as letras das canções e acompanharam os alunos, que tocavam em um palquinho montado em frente à igreja. “Foi uma experiência mágica”, relembra Helena Ayres, filha de Ivone e uma das idealizadoras da Casa de Cultura. “Depois de um tempo, contaram pra minha mãe que as crianças iam para a aula cantando as músicas dentro da van. A gente viu que realmente tinha feito diferença, tanto para a formação quanto para a alegria deles. Foi quando pensamos em fazer um espaço lá”, conta. Hoje a Casa de Cultura oferece oficinas, shows e atividades para todos os públicos, com foco nos moradores.

Trabalhar com o público local é a forma que a família Ayres encontrou de agradecer a comunidade pelos anos de amizade e encontros que viveram ali, ao longo dos últimos 15 anos, e de capacitar as pessoas para desenvolverem os próprios negócios. “Antes vinha um ou outro, era fácil receber em casa, mas agora chegam muitas pessoas. A comunidade está aprendendo e se preparando para receber esse público”, afirma.

Organização comunitária

O turismo é uma realidade cada vez mais presente no dia a dia dos moradores da Serra dos Alves, que têm realizado reuniões comunitárias para conversar sobre as possibilidades e efeitos desse processo. Questões como acolhimento, infraestrutura e meio ambiente são debatidas nos encontros, que acontecem uma vez por mês. “Os moradores querem ampliar as possibilidades, reforçando o que é deles, como o artesanato e a culinária local”, afirma Helena.

O vilarejo tem tradição a mostrar. Apesar de a grande parte dos moradores não produzir em larga escala, é fácil encontrar produtos artesanais à venda, como polvilho, fubá, café, cachaça, queijos e biscoitos caseiros. Dentre os produtos de artesanato, os bordados em ponto cruz e os acessórios feitos com retalhos também chamam a atenção.

O aumento do número de pequenos empreendimentos acontece principalmente entre a parcela mais jovem da população. “Serra dos Alves tem muitas pessoas idosas, mas os novos já tomaram consciência. Tem um menino que acabou de abrir uma butique e uma menina que está montando um café”, afirma o proprietário da Pousada Portal da Serra, Francisco de Paula Santos Filho, também conhecido como “Chiquinho”.

Apesar de o comércio se expandir com desenvoltura, outras atividades ainda precisam de fôlego. Uma delas é um trabalho de receptivo que seja capaz de oferecer informações consistentes aos turistas que chegam, indicações sobre as estradas, hospedagem, restaurantes, horários de funcionamento e atividades que podem ser feitas no local.

Índice de ocupação

Outro ponto que precisa ser discutido é o índice de ocupação do vilarejo. O organizador do Trans Espinhaço (travessia de mountain bike pela Serra do Espinhaço), Antônio Gonçalves, mais conhecido como “Ticorico”, afirma que o movimento turístico na Serra dos Alves ainda é muito atípico. “É comum chegar lá num fim de semana, e a vila estar parada. É preciso pensar no que fazer para ter sempre um número médio de pessoas no local, inclusive em dias de semana”, observa. Para ele, os moradores precisam divulgar melhor o trabalho.

Ticorico nasceu em Itabira e começou a explorar a região em busca de lugares para treino de mountain bike. A Serra dos Alves era um roteiro pelo qual tinha interesse, mas só depois que a estrutura do vilarejo melhorou é que ele passou a levar grupos para o local. “Na última reunião, eu falei que não justificava vir aqui e tomar café da manhã com biscoito comprado no supermercado. O legal é oferecer as quitandas da região”, diz.

Além dos encontros mensais, a comunidade se reúne a cada três meses para discutir um projeto de ampliação do Parque Nacional da Serra do Cipó para a região da Serra dos Alves. A proposta surgiu a partir da doação de uma área de 1.612,68 hectares feita pela Vale, em acordo entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Estadual de Florestas (IEF). A doação do terreno e a posterior ampliação do Parque é uma medida de compensação florestal — mecanismo que prevê compensação pelos impactos causados pela implantação de empreendimentos.

Nessas reuniões, que normalmente contam com a presença de representantes da Prefeitura de Itabira e do ICMBio, outras discussões são levadas a cabo, como a questão dos acampamentos ilegais, das queimadas criminosas e da passagem de veículos em locais de grande vulnerabilidade ambiental. A ideia é que a comunidade possa ajudar a denunciar essas e outras práticas nocivas, como o desrespeito à lei de silêncio e à coleta seletiva (já implantada no vilarejo).

Beleza intocada

O contato com a natureza é, sem dúvida, um dos maiores atrativos da Serra dos Alves. Além das paisagens exuberantes, a região possui alguns pontos turísticos muito visitados. Um deles é o Cânion dos Marques, formado pelas águas do Rio Tanque, que criam pequenas cascatas e piscinas naturais ao longo do caminho. O local é ideal para a prática de modalidades de esportes de aventura, como escalada, rapel e rafting. Outro ponto turístico muito visitado é a Cachoeira do Bongue, no distrito de mesmo nome, a poucos quilômetros da Serra dos Alves. Com cerca de 50 m de queda, a cachoeira forma um belo poço, perfeito para banhos.

O acesso a esses e outros locais tem diferentes graus de dificuldade. Para se chegar ao Cânion dos Marques, por exemplo, é preciso fazer uma caminhada de cerca de 3 km, o nível é de baixa dificuldade. Para se descer ao poço da Cachoeira do Bongue, por sua vez, é preciso calçado firme e olhar atento: apesar de o percurso ser curto, o trajeto é íngreme e sinuoso.

Para se ter um panorama sobre a diversidade ambiental da região, o melhor é fazer um passeio pelo Parque Estadual Mata do Limoeiro. Com uma área de 2.056,7084 hectares, o território traz uma rica mistura de fragmentos da mata atlântica e do cerrado. A jacarandá-caviúna, a braúna-preta e o samambaiuçu são três espécies ameaçadas de extinção e que ainda podem ser encontradas dentro do parque, que possui, ainda, cachoeiras, lagoas, grutas e mirantes. Geraldo tem prazer em trilhar os caminhos dessa reserva com os turistas, que ele chama carinhosamente de “memoriadores da natureza”. “Tem horas que eles se calam e ficam na meditação, no culto espiritual deles, no íntimo deles, com a natureza e Deus”.

Luzes no céu

Vários moradores da região da Serra dos Alves dizem já ter visto algum tipo de objeto misterioso no céu. Os relatos já chamaram a atenção de alguns ufólogos (profissional que estuda evidências de óvnis – objetos voadores não identificados), que começaram a fazer contato com a comunidade para investigar o que acontece por ali. O guia turístico Wallace Fernandes dos Santos relata o dia em que avistou luzes no céu: “Eu estava com um grupo de oito pessoas. Estávamos vindo da região do Bongue, por volta das oito da noite. Fizemos a primeira parada e vimos três bolinhas paradas no pasto, no topo da montanha. À medida que a gente veio descendo, duas sumiram, e ficou uma só. Aí, rapaz, no que a gente começou a descer o morro, essa bola começou a brilhar. Parece que ela brilhou pra chamar atenção de todos que estavam no veículo. Quando a gente parou o carro, todo mundo olhou ao mesmo tempo. E essa bola foi aumentando e depois fechou de uma vez só e sumiu. Todo mundo pensou em pegar o telefone e tirar uma foto, mas o negócio parece que paralisou todo mundo, ninguém teve reação”.

Território de aventura

Além de guardar uma beleza fascinante, as montanhas e vales da região da Serra dos Alves são ideais para a prática de trekking e bike. Há anos Ticorico trabalha com travessias de mountain bike na região. Um dos roteiros mais interessantes sai de Nova União, passa por Cabeça de Boi, Serra dos Alves, e chega a Itambé do Mato Dentro, ao longo de quatro dias de muita atividade e contemplação. “O pessoal ficou maravilhado com a Serra dos Alves. Aquela coisa bucólica, singela, bem mineirinha mesmo”, conta.

A ideia de Ticorico é vender mais que uma viagem: uma experiência. “Os tiozinhos todos me conhecem e são parte do projeto. Onde a gente para tem um cafezinho, uma broinha, um lanchinho. Eles já sabem quantos são, que horas vamos chegar e, quando paramos lá, já tem um pastelzinho esperando a gente no fogão de lenha”, diz. Em abril do ano passado, Ticorico levou um grupo de 39 pessoas de três estados diferentes.

Ele é um dos organizadores do Cipó Cup, uma prova de ultramaratona, no molde das grandes provas internacionais, com duração de cinco dias. Neste ano a prova acontece entre os dias 5 a 9 de julho