Certificado na Categoria de Cafés Especiais, o Orfeu é o café brasileiro mais premiado do mundo. Os grãos de “qualidade selecionada” são também cultivados na Fazenda Sertãozinho — loalizada na Serra da Mantiqueira, no sul de Minas, município de Botelhos — propriedade que abriga impressionante infraestrutura de produção.

Reportagem Cezar Felix
Fotos André Sena/Cezar Felix

A combinação entre o bioma Mata Atlântica e a cafeicultura.

As curvas da aprazível estrada que segue sempre sinuosa pelo elevado relevo desta região da Serra da Mantiqueira não deixam de revelar uma paisagem desenhada pela Mata Atlântica. Porém, a vegetação típica do bioma também abriga  uma imensidão de pés de café. De repente, destaca-se no cenário, em um ainda mais alto panteão da serra, uma enorme  árvore. Trata-se de um espetacular Jequitibá Rosa — uma das maiores árvores e de vida mais longa de toda a flora brasileira. É a maior árvore da Mata Atlântica, podendo atingir de 30 a 50 metros de altura. Já o tronco dela pode chegar a 7 metros de diâmetro.

Os “grãos de qualidade selecionados nas montanhas sul mineiras”. Foto André Sena.

Um pouco mais adiante seguindo o caminho surge uma charmosa estradinha, decorada nas duas margens por uma fileira de lindas árvores ‘maple tree’ ou bordo, planta símbolo do Canadá. Esses já são os domínios da Fazenda Sertãozinho, onde são cultivados os “grãos de qualidade selecionada nas altas montanhas sul mineiras” que geram o Café Orfeu, o café brasileiro Categoria Especial mais premiado do mundo. “O Orfeu nasceu com a missão de levar os melhores cafés produzidos no Brasil para os brasileiros”, afirma Amanda Capucho, CEO da marca. “Para isso, os cafés da linha Orfeu são compostos pelos melhores grãos de cada colheita e passam por um rigoroso processo de seleção e torra, fazendo com que a qualidade seja percebida imediatamente no aroma e no paladar”.

Tradição de 67 anos

Não é por acaso que o símbolo maior da Fazenda Sertãozinho e do Café Orfeu é justamente o Jequitibá Rosa, de 40 metros de altura, que  gloriosamente se mantém forte e belo há 1.500 anos. 

A grandiosidade do magnífico Jequitibá Rosa que domina a paisagem da Fazenda Sertãozinho.

 

As instalações necessárias para o beneficiamento do café. Foto André Sena.

A infraestrutura construída na fazenda é admirável. Junto a um extenso terreiro de secagem, estão todas as instalações necessárias para o beneficiamento. 

Infraestrutura: o terreiro de secagem. Foto André Sena.

A Fazenda Sertãozinho carrega uma tradição de 67 anos na cafeicultura. A mais antiga lavoura é do ano de 1948. Em 2005, a marca Orfeu iniciou a sua trilha no mercado dos cafés especiais e hoje na Sertãozinho são cultivadas as seguintes variedades: Catuaí, Catucaí, Icatu, Mundo Novo, Japy, Arará, Guará e Bourbon Amarelo. A propriedade trabalha todas as etapas do processo produtivo, do cultivo ao preparo do café. A colheita, a propósito, é realizada manualmente, pois a região é obviamente muito acidentada, o que inviabiliza a mecanização. Por outro lado, a colheita manual é garantia de um resultado superior.  É interessante lembrar que o principal objetivo do trabalho é buscar cada grão maduro, de cor vermelho vivo. Uma vez colhidos, os grãos são descascados e seguem para a secagem ao sol no terreiro.

Alta tecnologia e feito com as mãos

Funcionários da fazenda na lida com o café.

Portanto, o Café Orfeu é plantado e colhido, depois selecionado — os grãos também são separados manualmente —torrado, embalado e também distribuído para o mercado. É como explica Amanda Capucho: “Orfeu é cultivado nas altas montanhas do Sul de Minas e Mogiana, por profissionais apaixonados que vivem o café todos os dias”. A CEO explica que “usando alta tecnologia, tudo é feito com as mãos e com todo o cuidado para o consumidor”. Pelo fato do Café Orfeu ser “plantado, colhido, torrado, embalado e entregue pelas Fazendas Sertãozinho”, como faz questão de salientar Amanda Capucho, “o frescor do produto se mantém até o momento de ser degustado e o que garante que o controle e melhoria da qualidade aconteçam em todas as etapas da cadeia, constantemente”.

Também muito impressionante é a estrutura do prédio que abriga o complexo da torrefação. Para começar, não passa despercebido o delicioso aroma no momento da torra dos grãos. No local,  ocorrem todos os processos de produção até surgirem as marcas Orfeu dos cafés moídos, em grãos e em cápsulas. Depois de torrados, os grãos seguem por uma extensa esteira quando é realizada uma criteriosa seleção manual, responsabilidade de uma equipe de funcionárias. O grão considerado defeituoso é imediatamente destacartado.

Expediente no prédio que abriga o complexo da torrefação.

Equipamentos de última geração

Vista parcial do galpão de armazenamento.

No caso do café moído — a moagem ocorre logo após a torra —, ele segue para a moderna máquina que produz o café em cápsula. Da produção até a embalagem, o processo é altamente tecnológico. O café é moído na hora e cai diretamente dentro de uma cápsula que em seguida é devidamente embalada. As cápsulas são produzidas com muita rapidez, saindo diretamente da máquina para as caixas, onde são empacotadas manualmente.  

A moderna máquina que produz o café em cápsula.

“A torrefação foi idealizada e construída na própria fazenda, para completar o ciclo de produção e entregar diretamente aos clientes um produto de alta qualidade e, é claro, com grande frescor”, diz Amanda. “A unidade de produção é climatizada e conta com equipamentos de última geração para garantir maior qualidade final do produto durante o processo de torrefação, embalagem e expedição”. 

O momento da torra dos grãos.
Foto André Sena.

Reconhecimento

O Café Orfeu tem orgulho de afirmar que procura “alcançar a excelência em tudo o que fazemos — a busca pelo grão perfeito”, como está registrado no sítio orfeu.com.br: “garantir qualidade superior não apenas no produto, mas em todo o processo de produção, incluindo qualidade de vida para quem trabalha na fazenda”.

Os grãos são criteriosamente selecionados manualmente.
Foto André Sena.

O texto prosssegue afirmando: “acreditar na sofisticação que está na simplicidade, na naturalidade e na autenticidade. Aquela que se cultiva com o tempo, com história.

Enaltecer o conhecimento que gera valor e sabor: no processo, no saber fazer, na união entre arte, sensibilidade e tecnologia, no consumidor ‘connoisseur’ e na cultura”.

O preparo para o instante mágico da prova.

Os anos de dedicação à cafeicultura com o mais alto padrão de profissionalismo, além de tratar o produto café com rígidos principios empresariais, renderam não só resultados consistentes no mercado como  também importantes reconhecimentos: Orfeu é o café brasileiro mais premiado do mundo. Certificado na Categoria de Cafés Especiais, a mais alta classificação dos cafés, a marca carrega em sua história a conquista de 26 vezes vencedor do Cup of Excellence, o maior e mais prestigiado concurso internacional de excelência em cafés, além de diversos prêmios como Coffee of the Year, e o bicampeonato no Aroma BSCA 2017 e 2018.

Fazendas Rainha e Laranjal

“O Orfeu é cultivado por profissionais apaixonados pelo café”. Foto André Sena.

Além da Fazenda Sertãozinho em Botelhos, o Café Orfeu é cultivado em outras duas propriedades: Fazenda Rainha e Fazenda Laranjal. A primeira fica no município de São José da Grama (SP). O ótimo clima e a altitude entre 1.100 e 1.540 metros favorecem as melhores condições para a producão de cafés especiais. Os cafés da Fazenda Rainha —  que possui a maior lavoura da variedade Bourbon Amarelo no Brasil — são consagrados no mercado por sua doçura e suavidade.

Numa altitude entre 1.100 e 1.300 metros, localizada no município de Poços de Caldas, a Fazenda Laranjal, por sua vez, tem um relevo muito íngrime. Esta condição favorece a produção alta — classificados como exóticos e muito aromáticos. As variedades cultivadas são Catuaí, Catucaí, Maragogipe, Canário, Mundo Novo, Icatu e Bourbon Amarelo.

Respeito e credibilidade com o consumidor

Para ratificar os conceitos na condução do negócio e do produto café — e todos os desdobramentos da atividade — ,  além dos valores inerentes à marca Café Orfeu, que fizemos esta entrevista com a CEO Amanda Capucho.

O belo cenário da plantação. Foto André Sena.

— A Fazenda Sertãozinho e por extensão o Café Orfeu têm como símbolo o belo Jequitibá Rosa, além de manter belas reservas florestais, e ainda conta com o Certificado UTZ. Na atual conjuntura, essa atenção com o meio ambiente seria um diferencial para caracterizar a qualidade não apenas do produto como também do mercado dos cafés especiais — tanto no Brasil quanto no exterior? 

A preocupação com o meio ambiente não é mais apenas um diferencial, é uma necessidade para sobrevivência de todas as empresas, em todos os segmentos. Cuidar das reservas, ter um uso consciente de água, manter o equilíbrio no ecossistema da fazenda, são atitudes básicas para garantir que estaremos no mercado daqui a 10-20 anos, seja por respeito e credibilidade com o consumidor, seja por garantir que continuará sendo uma fazenda onde a natureza provê cafés de qualidade. Está tudo relacionado! Se cuidamos do meio ambiente, ele cuida da gente também!

Um exemplo disso são as pragas. Como temos reservas florestais, complexas e preservadas, as pragas, joaninhas, gafanhosos, preferem viver na mata e não no café. Com isso temos menos incidência de pragas na lavoura, menos uso de defensivos e um produto de mais alta qualidade.

A busca por práticas sustentáveis é incansável e estamos constantemente buscando evoluir, inovar e melhorar onde podemos. A ultima inovação neste sentido foi a adoção de cápsulas biodegradáveis, que é uma forma de assegurar que vamos diminuir a geração de resíduos e evitar a logística reversa de “lixo” para ser reciclado.

As cápsulas Orfeu. Foto André Sena.

O preparo do delicioso café.

— Hoje, em termos gerais, como sintetizar a dinâmica (sobretudo em relação a preços, custos de produção, e as dificuldades enfrentadas pelo produtor) do mercado da cafeicultura e particularmente dos cafés especiais?

— A cafeicultura no Brasil evoluiu e cresceu muito nas últimas décadas, assim como muitos cultivos no Brasil e nosso fortalecimento no agronegócio. Uma das maiores dificuldades do produtor ainda é entender o que ele está vendendo e buscar a melhoria no processo para ganhar qualidade, não apenas produtividade. O Brasil se tornou o maior produtor de café do mundo, mas focou pouco em virar o melhor produtor. Ainda assim, temos alguns dos melhores cafés do mundo!! Só precisamos encontra-los e dar luz a eles! Muitos produtores plantam, colhem e vendem o café todo junto, sem separar, sem beneficiar, sem provar e entender qual a bebida que ele está vendendo. Com isso ele deixa de entender e valorizar a qualidade, deixando de gerar valor para ele e deixando esta etapa com a cooperativa ou trader. A maior parte dos nossos melhores cafés acabam participando de concursos e sendo leiloados a torrefadores internacionais, que compram a commodity, torram e agregam o valor de suas marcas para depois vender a preço de café especial.

Nossa missão é exatamente o oposto. Levar os melhores cafés produzidos no Brasil para os brasileiros, com uma marca genuinamente brasileira, gerando empregos e valor agregado na cadeia toda ainda dentro do Brasil! O consumidor está muito aberto a experimentar e valorizar a qualidade! Só precisamos levar até ele, explicar e entregar o que prometemos: cafés diferenciados e de excelente qualidade!

Funcionária monitora a torra.

 

Imagem da bela florada.

— Em termos de competitividade nos mercados, quais seriam as vantagens do café produzido nas regiões de Minas Gerais?

— Minas é responsável por metade da produção de café do Brasil, e o Sul de Minas por metade da produção do estado. Além do alto volume, é o estado mais premiado do país, o que nos confere uma oportunidade maravilhosa de produzir café de altíssima qualidade com escala! O terroir da duas regiões onde estamos é muito privilegiado, as condições climáticas são perfeitas pela ausência de chuvas na época de colheita, o solo muito rico em minerais (por exemplo na região de Poços que é um vulcão inativo). Com isso temos tudo a nosso favor! Assim, não é por acaso que somos o café mais premiado do mundo, com 26 Cup of Excellences (o Oscar dos cafés) em nossa história! Um fator adicional e super relevante é o know how e a tradição que a região e as pessoas que ali residem tem! Este conhecimento é crucial para a evolução da qualidade ano a ano e para seguirmos na curva de aprendizado e produção de novas variedades, cada vez melhores, mais resistentes e mais produtivas.

Amanda Capucho: busca por práticas sustentáveis. Foto Divulgação.