O Parque Nacional da Serra da Canastra já seria um lugar de extrema importância apenas por abrigar o bioma Cerrado, que lá ocupa uma área de 200 mil hectares. Mas a Canastra abriga outros encantos preciosos. É ali, por exemplo, que nascem as águas do Rio São Francisco, que logo depois desabam na Cachoeira Casca d’Anta, hoje um grande símbolo das belezas naturais brasileiras.

Esta reportagem passeia pelo Parque Nacional e descreve uma experiência de viagem quase que totalmente voltada para produção de um importante acervo de fotografias. Essa jornada provocou profundas reflexões — traduzidas nas imagens aqui reproduzidas — sobre esse magnífico lugar, que precisa ser visto e sentido como um patrimônio natural de toda a humanidade.

Por Cezar Felix
(Texto e fotos)

Luzes da Serra da Canastra.

A trilha avança por grandes extensões de terra com vegetação rasteira e árvores de pequeno e médio portes. O verde das folhas grossas se mistura ao marrom da terra seca. Alguns passos à frente, e a mata se fecha, como se ali começasse uma densa floresta, mas não demora muito para que o horizonte volte a estar à altura dos olhos. O local é totalmente coberto pelo Cerrado, um dos cinco grandes biomas brasileiros.

O Parque Nacional da Serra da Canastra já seria de extrema importância apenas por abrigar esse bioma, que já teve cerca de 80% da área modificada total ou parcialmente pela ação do homem. Mas a Canastra abriga outros tesouros. É ali, por exemplo, que nascem as águas do Rio São Francisco, um dos mais importantes do Brasil — classificado como o rio da “integração nacional”, pois suas preciosas águas seguem um percurso que corta Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Além do mais, ele é uma via de ligação entre as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. É também o único rio de águas perenes a atravessar o sertão, região de escassos recursos hídricos.

O São Francisco foi descoberto no dia 4 de outubro de 1501 pelo português Américo Vespúcio e foi batizado com o nome do santo do dia. Tempos depois, ganhou também o apelido carinhoso de Velho Chico. Hoje, está no cotidiano das comunidades ribeirinhas, nas lembranças dos saudosos visitantes e na memória nacional em razão de livros e filmes que têm o curso d’água como protagonista. O grande rio nasce dentro do parque, no alto de um paredão de 340 metros de altura. Logo em seguida, ele encontra um abismo de 186 metros e, sem poder reverter os efeitos da gravidade, transforma-se em cachoeira, a linda Cachoeira Casca d’Anta. O nome, alias, é inspirado em uma árvore homônima, cuja identificação científica é Drimys winteri, que, por sua vez, foi assim batizada porque é uma planta medicinal. O tronco dela tem propriedades cicatrizantes. Segundo os pesquisadores, o animal anta, o maior mamífero da fauna brasileira, esfrega-se no tronco da árvore para curar ferimentos superficiais.

Depois da estrondosa queda, as águas seguem caminho por exatos 2.814,12 quilômetros até o destino final, o Oceano Atlântico. O Rio São Francisco e a cachoeira Casca d’Anta são os maiores atrativos do Parque Nacional da Serra da Canastra. Mas não os únicos. Das montanhas da Serra da Canastra, nascem outros cursos e outras quedas, como as cachoeiras dos Rolinhos, a mais alta de todo o Parque, com quase 300 metros, a do Cerradão e os seus 202 metros de altura que se dividem em três lances, e a lindíssima do Fundão, que se destaca pela beleza do poço com águas cristalinas.

As cores do Cerrado

Registros das belezas naturais.

Tudo isso dentro do parque criado em 1972. Uma área de 200 mil hectares, o equivalente a 280 mil campos de futebol, onde o Cerrado reina quase absoluto. Ali é possível encontrar diversos tipos da vegetação. São elas: o campo limpo, caracterizado pela predominância de capim; o campo sujo, que são extensões com capim e árvores esparsas; o cerradinho, um campo sujo com mais árvores; e o cerrado stricto sensu, caracterizado pela existência de árvores de médio porte, com troncos e galhos retorcidos. Registra-se ainda a existência de matas de galeria e matas ciliares, que acompanham cursos d’água e ambientes de drenagem.

Os diferentes tipos de vegetação foram responsáveis pelo desenvolvimento de diversos tipos de plantas. Estima-se que existam mais de 10 mil espécies vegetais na Serra da Canastra. Só de margaridas, são cerca de 220 espécies, algumas endêmicas. As sempre-vivas também são típicas da região. Existem 15 espécies dessa planta, que se destaca pelo aspecto seco e pela capacidade de resistir a altas e baixas temperaturas. Bromélias, lírios e orquídeas também são algumas das flores que colorem a Serra da Canastra, além das que nascem no alto das árvores típicas da região, como as sucupiras, as samambaiuçus e, é claro, o pequizeiro.

Vista da Serra da Canastra.

Vida animal

O raro pato-mergulhão. Foto Marcos Amend.

Sobrevoam essa deslumbrante região, quase 300 aves registradas. Dentre elas, está o galito, ave migratória que durante o período reprodutivo, entre julho e janeiro, dá o ar da graça pelo parque. Outra espécie que merece destaque é o raríssimo pato-mergulhão. Essa ave só vive em ambientes com mata ciliar farta, onde possa se esconder, água limpa e transparente, onde possa encontrar alimentos, e abundância de peixes. É uma espécie que tem uma série de exigências em termos de qualidade ambiental e, por isso, está cada vez mais acuada. O pato-mergulhão figura entre as 10 aves aquáticas mais ameaçadas do planeta, e, hoje, quase metade dos cerca de 250 exemplares restantes no Brasil estão no Parque da Canastra.

A fauna local vai muito além das aves, são cerca de 1.500 espécies animais. Diversas delas precisam enfrentar não só a degradação ambiental, mas também a caça predatória, problema que afeta o lobo-guará. O desmatamento e as queimadas fazem com que esse animal busque novas áreas para viver. Mas a maior ameaça que ainda enfrenta é a caça. Existe a crença de que o lobo é mau, que come galinhas e que pode gerar muitos problemas para os homens.

Há 10 anos, um projeto local chamado “Lobos da Canastra” desenvolve ações de pesquisa e de conservação ambiental, com o objetivo de preservar o habitat desses animais e, consequentemente, promover a manutenção da espécie. Hoje, a Serra da Canastra é reconhecida como o espaço com o maior número de lobos-guarás em todo o Brasil, uma média de 150 espécimes. Além dos lobos, há o registro de quase 80 outras espécies de mamíferos. Dentre os mais raros de se ver, estão o tatu-canastra e a onça-parda. Também podem ser encontrados micos-estrela, macacos-prego e veados-campeiros.

É interessante registrar que o nome Canastra obedece a uma tradição respeitada pelos bandeirantes. Eles  identificavam os acidentes geográficos como marcos sinalizadores das trilhas percorridas por eles. “Canastra”, um antigo vocábulo português de origem grega, denomina um tipo de arca móvel e rústica — de formato retangular, útil para guardar muitas coisas — que as bandeiras utilizavam nas tropas. A semelhança do objeto utilitário com a forma da serra, vista ao longe, foi a principal razão para nomear a região.

 

Guias turísticos

Queijo consagrado na França.

Para escrever sobre a magistral Serra da Canastra, não há como deixar de registrar as informações básicas sobre o Parque Nacional, como foi descrito nas linhas acima. Porém, conhecer a Serra da Canastra com algum tempo de sobra é algo que vai muito além de uma simples viagem. A companhia de um guia turístico é sempre aconselhável. Na região, principalmente no município de São Roque de Minas, existem ótimos profissionais do setor, assim como empresas especializadas em ecoturismo, cuja qualidade no atendimento é amplamente reconhecida. Basta fazer uma rápida pesquisa na internet para encontrar as melhores oportunidades de contratação.

Opções de hospedagem, para todos os gostos e disponibilidade de gastos, também não faltam. A oferta é muito boa e variada, com exceção, talvez, para quem deseja uma estadia com muito luxo. O mesmo pode se afirmar para o quesito alimentação: existem bons restaurantes, e quase todos oferecem no cardápio opções da tradicional cozinha mineira.

Há, é claro, um diferencial de extrema sofisticação que se traduz no espetacular queijo canastra, decididamente um caso à parte no que se refere a um irresistível atrativo local (confira o quadro nesta reportagem). No mesmo patamar, podem-se incluir os cafés especiais cultivados e produzidos em fazendas da região e também, em alguns casos, a cachaça artesanal de alambique. Esses produtos são oferecidos em diferentes estabelecimentos, e as fazendas produtoras, principalmente do queijo canastra, estão dentro dos pacotes oferecidos pelos operadores de turismo locais — sejam empresas sejam guias.

 

Experiência de viagem

Espelho d’água.

Diferentemente de outras reportagens já produzidas por esta Sagarana sobre a Serra da Canastra, esta tem um caráter voltado para descrever uma experiência de viagem, cujo principal objetivo foi a produção de um vasto acervo de fotografias. Só por esse fato, essa jornada provocou profundas reflexões — que estão traduzidas no que desvelam as imagens publicadas nestas páginas — sobre esse lindo lugar, um patrimônio natural que precisa ser considerado como de toda a humanidade.

Ao adentrar o Parque Nacional a partir da portaria de São Roque de Minas, ainda de madrugada, o deslumbre inicial fica por conta do céu estrelado e também de uma esperta raposa que parece dar boas-vindas. É preciso registrar que há um trecho péssimo da estrada antes da portaria, uma distância em torno de uns 5 km, que é de irritar pela precariedade. E o pior, a reparação do trecho não fica pronta nunca.

Seguindo a estrada de terra adiante, a principal via do Parque Nacional, essa em muito boas condições, não há como não se encantar com a vegetação em volta molhada pelo orvalho da manhã. Junto do raiar do dia, que traz uma luz indescritível, surgem os primeiros animais, como os veados-campeiros e uma grande variedade de pássaros. Os gaviões, principalmente o carcará, desfilam em poses de inegável nobreza.

Corujas no seu habitat.

As corujas, por seu turno, já estão em outra sintonia, uma vez que a noite já se foi.

 

Algum lugar do paraíso

A alvorada ilumina a Canastra.

A primeira parada é para registrar a luz inebriante que surge com a alvorada. Então, é preciso invadir o Cerrado — com a devida autorização da administração do parque, deve-se registrar — e subir em algumas rochas típicas desse ecossistema, decoradas pela encantadora vegetação que caracteriza os campos rupestres ou campos de altitude. Ao redor, observam-se muitas sempre-vivas, bromélias, diferentes tipos de orquídeas, lírios do campo e as vassourinhas. A beleza é tanta, refletida pelos primeiros raios da manhã, que não é exagero comparar o cenário com um jardim de algum lugar do paraíso.

A natureza ainda reserva outra grande surpresa: de repente, surge entre as pedras, uma família de veados-campeiro. Um grande e vistoso macho, a fêmea e dois filhotes. Não há como não se emocionar.

 

Pato-mergulhão

A Casca d’Anta, vista da parte baixa.

Nessa primeira incursão dentro dos limites do parque, o objetivo era chegar à parte alta da Cachoeira Casca d’Anta, para tentar registrar a nobre presença do raro e extremamente arisco pato-mergulhão. Como a espécie depende de áreas úmidas do Cerrado, dos rios e de corredeiras localizadas em serras altas — além de necessitar permanecer durante o ano em extensos territórios —, o lugar é um habitat perfeito. O pato-mergulhão gosta de descansar, depois que se alimenta — de pequenos peixes e invertebrados aquáticos, capturados quando ele mergulha —, sobre as pedras que ficam no meio dos rios. Geralmente, costuma aparecer um casal. Eles se diferenciam por um vistoso penacho — presente tanto no macho quanto na fêmea. Aliás, ela põe até oito ovos, de cor branca-amarelada, em ninhos construídos em cavidades nos troncos de árvores, nos barrancos de terra nas beiras de rios e córregos e nas fendas dos paredões rochosos. Ela os incuba durante um mês. Depois que nascem, os patinhos ficam com os pais durante seis meses, o prazo para se tornarem adultos, quando, então, se dispersam.

 

 

Partes alta e baixa da Casca d’Anta

Imagem da parte alta da Casca d’Anta.

A menos que se tenha alguma sorte, a espera pelo mergulhão pode ser longa. É preciso paciência para conseguir fotografar a ave. Durante o tempo de espera, vale a pena observar os arredores da parte alta da Casca d’Anta. É comovente ver como são límpidas as águas dos primeiros quilômetros do Velho Chico. Logo mais à frente, aparece a primeira cachoeira do rio, uma pequena queda (algo em torno de 15 metros de altura) que forma um poço perfeito para deliciosos mergulhos — nunca se aventure sozinho, e sim junto de um guia. Após formar essa piscina natural, a água do rio segue caminho e poucos metros depois desenha uma garganta sinuosa até desabar para esculpir a cachoeira símbolo maior do esplêndido complexo natural da Serra da Canastra.

As emas lá correm livres.

Também é preciso percorrer uma trilha de poucos quilômetros, desde a margem do rio, até chegar ao mirante da parte alta da Casca d’Anta, no alto da serra — são 300 metros de altura, é preciso extremo cuidado —, praticamente ao lado da garganta, para se deleitar com a indescritível vista do Vale da Canastra. É algo muito difícil de se descrever, tamanha a beleza. Há ainda a trilha, de dificuldade média — nunca percorra o trecho desacompanhado —, que chega à parte baixa da Casca d’Anta. Pelo caminho, o visual é sempre bonito, mas o grande impacto é quando surge a vista da cachoeira e do grande poço. Um cenário impressionante, uma síntese do que a natureza é capaz de esculpir. Após a descida, uma curta trilha de cerca de 3 quilômetros, e surge o mirante, onde a parada é simplesmente obrigatória. Para chegar próximo ao poço, é preciso percorrer difíceis trechos sobre as escorregadias pedras. Dependendo do volume da água, nesse ponto, os respingos fortes molham tudo em volta. Nadar no poço é decididamente perigoso, tanta é a força da movimentação das indomáveis correntes que se formam dentro dele.

Turistas no poço da Casca d’Anta.

 

Chapadão da serra

O magnífico veado-campeiro.

Uma vez cumprido o objetivo de retratar o pato-mergulhão — um feito que proporcionou imensas alegria e satisfação à equipe dedicada a esta reportagem —, a etapa seguinte seguiu passeando pelo parque. No trajeto pela estrada principal que corta o chapadão da serra, sempre é preciso parar: aparecem animais de solo, como tamanduá-bandeira, lobo-guará, cachorro-do-mato, além do veado-campeiro, e também aves como a rara ema, a seriema, o gavião-carcará e os incríveis gavião-caboclo e urubu-rei. Há ainda as várias espécies (são mais de 800) de pássaros que vivem protegidos nos limites do Parque Nacional. Então, é claro, é preciso fazer as melhores imagens dessa rica fauna.

Atrativos para os observadores de pássaros.

No caminho, o primeiro atrativo é a Garagem de Pedra. A peculiar construção fica próxima a um belo mirante que dá vista para a Serra da Babilônia, localizada do outro lado da Serra da Canastra. Entre as duas, o vasto vale ou o Vão dos Cândidos. O conjunto natural constrói um pujante acidente geográfico, que proporciona uma vista esplendorosa.

A nobreza do gavião-carcará.

Outro interessante lugar é o Curral de Pedras, uma espécie de monumento que guarda a história das tradições da Canastra. Foram erguidos muros com grandes blocos de pedra que realmente formaram um curral de forma arredondada, cujo objetivo era manejar o gado. De lá, a visão do pôr do sol é um espetáculo.

Vista da Serra da Babilônia.

Nascente e São João Batista

A humilde nascente do São Francisco.

Na nascente histórica, não há como ficar insensível a tamanho significado das águas límpidas brotando até formarem um pequenino poço. Da humilde nascente em meio à vegetação típica do Cerrado, emerge o São Francisco, que dali segue numa longa — e hoje penosa — trajetória. Quanta história está registrada nas margens do rio com nome de santo? Não cabe na imaginação.

A viagem continua rumo a São João Batista, distrito de São Roque de Minas, próximo à portaria 2 do Parque Nacional. No típico lugarejo dos sertões de Minas Gerais, a pequena igreja, a praça e algumas casas destacam-se na paisagem. As construções conservam os traços originais de um povoado que, por incrível que pareça, foi importante centro de passagem dos tropeiros que carregavam mercadorias fundamentais para a colonização desta extensa região do Brasil central.

O Velho Chico segue límpido.

Com altitude de 1.200 metros, o arraial, também conhecido como São João Batista da Serra da Canastra, tem posição geográfica muito interessante: ele fica entre as bacias dos rios São Francisco e Paraná. Do lado da primeira bacia, vários córregos e riachos caem no Velho Chico; já o representante da outra é o grandioso Rio Araguari, que nasce nas proximidades, cruza as regiões do Alto Paranaíba e do Triângulo Mineiro e vai desaguar no Rio Paranaíba. Este, por sua vez, encontra-se com o Rio Grande, e juntos formam o Rio Paraná. Os dois rios desenham — um, na parte norte, e outro, na sul — o famoso “nariz” de Minas Gerais, tão bem identificado no mapa do estado.

A primeira queda do Velho Chico.

Cachoeira do Fundão

A praça e a Igreja de São João Batista.

Em São João Batista, além da possibilidade de saborear o melhor da cozinha local, tipicamente mineira — é preciso encomendar antes nos restaurantes facilmente encontrados na vila —, pode-se adquirir um queijo canastra, de qualidade, textura e sabor simplesmente inigualáveis.

Duas cachoeiras estão a poucos quilômetros da vila: a Cachoeira do Gurita, que é a primeira queda do Rio Araguari, e a do Lava-pés que, por sua vez, faz parte do primeiro curso d’água que colabora para formar o São Francisco.

Ainda dentro dos domínios de São João Batista, a jornada pelo Parque Nacional da Serra da Canastra tinha mais um objetivo: chegar à Cachoeira do Fundão, que, para muitos, é um dos lugares mais lindos não só do complexo da Canastra, como também de todo o sertão das Gerais. O caminho para a cachoeira não é fácil. Saindo da estrada principal do Parque Nacional, acessa-se uma estrada secundária sem nenhuma sinalização e muito difícil de ser percorrida, devido à grande precariedade da conservação. Portanto, só se faz esse trecho com veículos com tração 4×4, inclusive porque, nos últimos 10 quilômetros, a trilha é muito íngreme.

A trilha rumo à Cachoeira do Fundão.

A estrada termina em uma propriedade particular, onde obrigatoriamente o veículo deve ficar estacionado. A informação que a reportagem teve é de que os donos da fazenda cobram taxas (os valores são baixos) de visitação e de estacionamento, além do mais, é possível encomendar refeições. No nosso caso, porém, quando lá chegamos, não havia ninguém na fazenda.

Para chegar à cachoeira, pega-se uma trilha de pouco mais de 1,2 quilômetro praticamente toda em descida e, em seguida, o trajeto, em torno de uns 200 metros, é sobre pedras (muitas delas escorregadias). A primeira vista da Cachoeira do Fundão é um deslumbramento. De cima das pedras, o coração bate forte com a beleza de cenário: há um conjunto harmonioso formado pela vista da volumosa queda d’água de 80 metros de altura, pelo desenho do relevo repleto de delicadas reentrâncias. Logo abaixo passa um rio de águas incrivelmente transparentes.

Queda d’água da Cachoeira do Fundão.

Mais à frente, é preciso ultrapassar outras rochas até chegar à beira do magnífico poço arredondado. São as águas do Rio Santo Antônio que desabam lá de cima e que esculpiram, talvez ao longo de milênios, esse conjunto de estonteante beleza. A piscina natural é perfeita para banhos. Além do mais, existe uma grande pedra de onde é possível saltar. Também se pode nadar até o final da queda e ainda atravessar o trecho entre a rocha e a cortina d’água.

Antes de cair a noite — exatamente no instante em que a lua cheia surge lá no alto do céu e se posiciona entre as rochas onde começa desabar a cachoeira —, iniciamos a nossa partida do Fundão.

 

Saga de uma viagem diferente

Estava, portanto, finalizada a saga de uma viagem diferente, voltada quase que exclusivamente para a contemplação de uma boa parte do Parque Nacional da Serra da Canastra. O melhor é que, dessa fantástica experiência, emerge uma certeza: é preciso voltar à Canastra. Há muito mais para ser descoberto nessas abençoadas terras. Vamos retornar, em breve. Afinal, a contemplação também é matéria-prima da fotografia, e o ofício de produzir belas imagens torna-se decisivo para que se possa construir uma força sublime em favor da conservação desse que é um patrimônio natural de toda a humanidade.