Há quase 30 anos, o delicioso torresmo do Zé Loreto é um dos atrativos do vilarejo próximo a Lavras Novas, distrito de Ouro Preto.

Por Juliana Afonso
Foto Cézar Félix

No tempo em que geladeiras ainda não existiam, as famílias conservavam os alimentos com o que a natureza dava. Os legumes passavam a noite no sereno, as tripas eram defumadas e as carnes eram salgadas ou imersas em baldes cheios de gordura. Ainda hoje, porém, algumas pessoas fazem como nos velhos tempos. É o caso de José Loreto, de 69 anos, que guarda torresmo em grandes panelas de pedra-sabão, cheias de gordura, assim como fazia sua a família dele.

A prática começou há quase 30 anos, quando comprou uma casa em Chapada, distrito de Ouro Preto. “A gente vinha à tarde pra trabalhar e não tinha uma cerveja, um tira-gosto, não tinha o que fazer. Aqui não tinha luz, e eu me lembrei da época da fazenda dos meus tios, quando eles conservavam torresmo na gordura”, conta. Ele começou a fazer torresmo em casa e depois passou a servir os amigos, que sempre sugeriam a José que começasse a produzir a iguaria para vender. A sugestão foi acatada, e há 15 anos o torresmo de Zé Loreto, como é conhecido, encanta moradores e turistas.

Sabor singular

A forma de armazenamento do alimento é um dos segredos do seu sabor singular. Outro segredo é conhecer aquilo que se cozinha. “O frigorífico me entrega um toucinho especial do lombo do porco, uma parte selecionada. No frigorífico eu consigo um animal sempre da mesma idade, diferente do açougue. É mais caro, mas, assim, eu garanto a qualidade” “, diz.

O movimento começou forte desde o início, e logo Zé Loreto, junto da e sua esposa, abriuram um barzinho na porta de casa. Quatro, cinco, seis, sete mesas… Após três anos de funcionamento, o fluxo de pessoas era tão grande que o bar acabou. “Até 20 pessoas, eu conseguia atender bem, mas, acima disso, é muito difícil. Fechei porque tinha muito movimento. Hoje eu conservo duas mesas aqui na varanda e recebo algumas pessoas”, conta.

A melhor forma de experimentar o delicioso torresmo de Zé Loreto é visitar o encantador distrito de Chapada. “O pessoal normalmente vem pra comprar os produtos, aí senta e toma uma cervejinha, come um torresminho. Não é um bar, é uma casa, mas a gente recebe as pessoas aqui”, afirma, com sua a típica hospitalidade mineira. Quem não consegue ficar para um petisco pode levar o produto. “A nossa embalagem vai com a própria gordura. O torresmo vai pré-frito, e o cliente acaba de fritar na própria gordura”, explica. Hoje ele consegue processar em torno de 300 kg quilos de toucinho por mês. O produto também é enviado, por correio, para clientes em outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Junto com sua da esposa, eles fabricam outros produtos, como cachaças e licores de diferentes sabores, geleias de frutas e conservas de pimenta, picles e alho. Zé Loreto afirma que não quer aumentar a produção, nem ficar rico, e sim continuar a oferecer um produto de qualidade. “Ser reconhecido, atender bem, ter muitos amigos. A satisfação é isso. Como já dizia diz o ditado, a gente só leva da vida a vida que levou.”