A cidade de Belo Horizonte agrega em seu território setecentos quilômetros de águas correntes que desembocam em seu principal afluente, o Ribeirão Arrudas. De toda essa extensão pouco se pode ver nos dias atuais, estando já invisíveis trezentos quilômetros desses percursos, que correm por baixo das ruas e avenidas asfaltadas.

Em meados da década de 20, foram iniciadas as obras de canalização desses cursos d’água, afim de abrir novas vias de acesso e evitar as enchentes que eventualmente alagavam a cidade. “Venham sentir o cheiro do asfalto”: era o slogan que tentava convencer os habitantes a acreditar na chegada do progresso em forma de ruas e avenidas.

Em nome da razão, excluiu-se o azul da paisagem belo-horizontina, dando lugar a uma cidade cinza, alagada pelas chuvas que invadem as ruas lavando o cimento e o lixo da cidade ainda hoje, quase cem anos após as primeiras e sucessivas obras de contensão das águas. Diante dessa lacuna na paisagem e na vida dos habitantes, Três Momentos de um Rio reúne passado, presente e futuro, no que se refere ao retorno de nossos rios invisibilizados. O primeiro momento, intitulado A Primeira Margem, é referente ao passado, e reúne fotografias apropriadas do acervo público da cidade de Belo Horizonte. Datadas entre as décadas de 20 e 70, período de intensas obras de canalização e fechamento dos cursos d’água, as imagens ganham a interferência de um azul que os rememora.

O cimento era o progresso.

O segundo momento, A cidade da Razão, trata-se do nosso presente, — da consequência dessa ação iniciada anos antes — momento em que os rios persistem em reocupar o espaço que lhes pertence, correndo pelo asfalto construído para apagá-los. As fotografias, feitas no período das chuvas e consequentes enchentes —entre dezembro de 2017 e março de 2018 —reforçam a presença dessas águas, com o quase total apagamento da cor cinza. Os mapas do Ribeirão Arrudas e da planta das águas da cidade também aparecem nesse segundo momento, compostos com fragmentos de poemas do poeta João Cabral de Melo Neto.

Os Coveiros.

O terceiro momento, referente ao futuro, é apresentado em forma de um folhetim datado do ano de 2025 — que envolve um conto fantástico, uma notícia fictícia e um poema, em um formato clássico dos folhetins das décadas de 70 — quando estas mesmas águas, sem terem mais para onde correr e escoar, invadem por inteiro a cidade, fatalmente submersa.

O trabalho, iniciado há aproximadamente dois anos, envolve uma pesquisa extensa acerca da história da cidade e de suas águas: conversas com especialistas (geógrafos, arquitetos e outras pessoas engajadas no assunto), visitas à diversas nascentes, conversas com seus cuidadores e uma pesquisa de imagens em arquivos públicos. Diante disso, iniciam-se também as pesquisas e experimentações para as soluções plásticas, com o fim de criar questionamentos acerca da conjectura da vida e do espaço público, resgatando a memória afetiva e política das águas da cidade, a partir da imagem e da narrativa poética.

VISITA AO RIBEIRÃO DO ONÇA E SEU CUIDADOR ITAMAR

Seu Itamar nos contou as histórias do Onça, as possíveis origens do seu nome (o peso do ouro; um proprietário bravo; o habitat das onças) e o seu atual estado…
Nos contou que havia guardadas fotografias antigas, da época em que o ribeirão acolhia os moradores em suas margens para uma pescaria e uma boa prosa. Contou como não acreditaram os mais jovens — e até mesmo os mais velhos — quando ele mostrou as tais fotografias, dizendo que elas retratavam o mesmo lugar onde hoje todos sentem repulsa.

Fotografia do Mapa do Arrudas

No seu projeto mais recente o seu Itamar, junto com a população, está construindo um parque ciliar para trazer as pessoas de volta ao o convívio com as águas.
“Como falar sobre as águas, sem falar sobre elas?” — Ele nos perguntou.

Se chamam os meninos para ver o rio, sentir seu cheiro, encarar o lixo que desce com ele, eles não iriam jamais. Se constroem um campinho de futebol no mesmo lugar, os meninos começam a conviver naturalmente com as águas e passam a ter mais cuidado com a forma como se relacionam com o rio daí pra frente.

VISITA À NASCENTE DO CÓRREGO ACABA MUNDO E SEU CUIDADOR LAERTE

“Quanto vale um molho de cebolinhas?” — Perguntou o Laerte.

Seu Laerte, 2017.

Que antes era coisa simples, que se tinha no quintal de casa, e que pra ter a salsinha que tinha o vizinho, bastava trocar uma pela outra.
Neste dia, ele contou pensativo: “a gente pega a chave, liga a moto, coloca gasolina, desce o morro, para, entra no supermercado, busca uma cebolinha que jamais seria tão fresca quanto aquela que vinha da horta, paga caro, volta pra casa e, provavelmente, nem chega a usar toda ela…”

E os remédios? O Laerte nos contou também que um dia passava em frente a uma drogaria e uma voz gritava uma promoção de algum remédio pra dor. As pessoas, completamente saudáveis, entravam aos montes como quem fazia um ótimo negócio. “Eles não sabem que todos os remédios estão plantados bem aqui, e se esquecem de cuidar deles” – dizia com tristeza.

À margem do Onça, 2017.

Das coisas que mais nos impressionou está o extremo cuidado e atenção que ele nos deu, como quem anseia desesperadamente dar um recado, pedindo, sem pedir, que ele seja passado pra frente. E no fim ainda diz: “porque todos temos algo pra ensinar, eu pra vocês, vocês pra mim…”. E pensamos no que que tínhamos a ensinar para aquele homem.

VISITA AO CÓRREGO DOS JOÃES E SEU CUIDADOR NONÔ.

Estávamos prestes a fazer a visita mais esperada, porque nos contaram que a casa do seu Nonô era “encantada”, e essa palavra nos encantou.

Seu Nonô, 2017.

E era mesmo, tanto a casa quanto ele. Nos guiou calmamente com sua bolsinha marrom por cada canto encantado do lugar que ele construiu com vontade de salvar a nascente que ele chamou de “Joães”. E contou, pausadamente pra dar tempo de escrever tudo com cuidado — ele adorava quando nos via escrevendo o que contava — o porque do nome: “Meu pai chamava João. Havia também o seu João da dona Ucina e o João Marinheiro. Moravam na margem do córrego. A intenção é que as pessoas, as famílias numerosas, pudessem ajudar a cuidar do córrego. E isso nunca aconteceu, ficando eu o único responsável para cuidar do córrego desde o outono de 1991.”

Esgoto a céu aberto, 2017.

E cuidou. E tirou do córrego toneladas de lixo. E aproveitou de tudo que era possível aproveitar pra construir o lugar. Plantou, regou, e agora colhe suas próprias cebolinhas.
No fim, pediu para que a gente escrevesse um último pensamento:

“As nascentes são como pequenos fios de água, que são como nossos capilares. Se fizermos um corte superficial no braço, veremos pequenos pontos de sangue, que breve escorrerão e escoarão para algum lugar. Os rios correm um para o outro, que no amanhecer ou entardecer chegarão ao mar.”

O coletivo Paisagens Móveis começa no ano de 2016 com a união das artistas Bárbara Lissa e Maria Vaz, e do anseio de trabalhar em conjunto em busca de histórias e memórias da cidade onde vivem. Ambas graduandas em Artes Plásticas, com uma trajetória em comum que vem também das letras e da literatura, as duas artistas buscam em seu trabalho a conexão poética entre imagem e palavra; realidade e ficção; criação e apropriação. Em 2018, a artista e designer gráfica Ágatha Araújo passa a compor o coletivo, e hoje as três já desenvolvem um trabalho híbrido, que ultrapassa — e também conecta — o suporte da fotografia e da palavra, além de já estarem desenvolvendo novos projetos e aprofundando a temática inicial: “rememoração”.

Contato: www.cargocollective.com/paisagensmoveis
Email: paisagensmoveis@gmail.com