Grande sertão, uma longa travessia 

Na região que abrange o Circuito dos Diamantes — e o Caminho dos Diamantes da Estrada Real — o turismo sustentável é a chave para a transformação da realidade social de dezenas de pessoas.

Reportagem Carolina Pinheiro
Fotos Tom Alves

Nos altos das serras Gerais, os povos antigos se integram ao ritmo da natureza desde os primórdios. São filhos da terra, donde tiram o sustento para famílias de muitos parentes. A região do Alto Jequitinhonha, centro-norte mineiro, é abrigo de centenas de comunidades tradicionais. De Diamantina ao Serro, cerca de 300 povoados se ajustam entre montanhas rochosas, campos rupestres, cânions e cachoeiras. Na Cordilheira do Espinhaço, o meio impõe ciclos que regem o cotidiano de agricultores, coletores de flores, tropeiros e garimpeiros. Passado e presente se confundem em um espaço geográfico que revela, no traço forte do sertanejo, a herança extrativista.

Em princípio, o cenário composto por hábitos ancestrais evoca o lirismo. A realidade, entretanto, apresenta dados preocupantes. Com o passar das gerações, a presença ininterrupta do homem sobre o meio acarretou colapso. Não por menos, parte considerável da extensão territorial que integra o Circuito dos Diamantes foi transformada em área preservação ambiental. Por um lado, um ganho, já que a criação de reservas ocasionou a regeneração de inúmeras espécies da fauna e flora. Por outro, uma perda, pois os habitantes dos vilarejos localizados no entorno das Unidades de Conservação (UC) ficaram impossibilitados de fazer uso dos recursos naturais provenientes de um solo que, há séculos, serve de referência para a sua economia de subsistência.

Aposta para o futuro

O entrave gera um conflito ainda sem solução. Moradores, representantes do Governo, integrantes de organizações sem fins lucrativos e pesquisadores abriram debate. A pauta inclui a regulamentação fundiária no perímetro interno das UCs e o desenvolvimento de projetos que visem a preservar a natureza e, simultaneamente, manter as comunidades. Foi dentro de tal perspectiva que o turismo surgiu como aposta para o futuro. Na busca por saída, o turismólogo Felipe Ribeiro, 33 anos, proprietário da operadora Serra Sertão, idealizou o roteiro Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. O objetivo é conservar a biodiversidade e fortalecer as comunidades do entorno dos parques do Mosaico do Espinhaço, Alto Jequitinhonha – Serra do Cabral, por meio da atividade turística e produção associada ao turismo, tais como o artesanato e o cultivo de hortifrutigranjeiros. “Não é a salvação, mas é algo que gera um aumento na renda mensal das famílias residentes”, diz.

Entre as etapas estão a implantação de hospedagem domiciliar, o treinamento de condutores — cerca de 60 moradores —, o mapeamento de caminhos e as oficinas de capacitação. São 200 quilômetros de travessia, passando por várias comunidades tradicionais. “O mais importante é trabalharmos a qualificação dos moradores. Com os mesmos preparados, creio que em três anos alcançaremos o patamar de 20 comunidades integradas”, afirma Ribeiro. Hoje, o número de casas prontas para receber o turista ainda é incipiente. “São muitos atores envolvidos. Os resultados aparecem em médio prazo”, conta.

Atrativos de grande potencial

O plano abrange Curimataí, Inhaí, Santa Rita, Macacos e Quartel do Indaiá, situadas no entorno do PARNA das Sempre-Vivas; Pinheiro, Vila do Biribiri e Mendanha; no Parque Estadual de Biribiri; Abóboras, na APA Rio Manso; Alecrim e Santo Antônio, ao norte do Parque Estadual do Rio Preto; Covão e Bica D’água, na APA das Vertentes; e Capivari e Santo Antônio do Itambé, no Parque Estadual do Pico do Itambé. “Criamos os roteiros a partir de levantamentos feitos dentro das Unidades e comunidades. No início, delimitamos um caminho principal, mas depois vimos que a trilha poderia ser dividida em trechos menores, que compreendessem mais povoados e novos atrativos. É determinante investir em atrativos de grande potencial, como cachoeiras, serras, picos, formações que tenham um apelo visual e fluxo de visitantes.”

Por haver uma gama ampla de perfis, a equipe de Ribeiro delimitou as rotas de acordo com a preferência do viajante. “As pessoas podem optar por caminhar trechos, escolher o que lhe interessar. A finalidade é atingir um número maior de participantes.” A partir da prática do ecoturismo e do fomento do Turismo de Base Comunitária (TBC) na região, o passo a seguir é a investigação das carências. “As comunidades precisam se adaptar para receber. Apesar de possuírem uma característica hospitaleira, necessitam de captação para fazer melhorias no espaço em que acolherão o turista”, reitera.

Passo a passo

Chamada de grande sertão por João Guimarães Rosa, a área de transição entre os biomas Cerrado e Mata Atlântica guarda um verdadeiro tesouro natural. O relevo acidentado divide as bacias hidrográficas do Rio Jequitinhonha e São Francisco.  Paredões de quartzo atravessam o piso serenado dos campos, ricos em nascentes d’água e bichos graúdos. Onças, tatus-canastra, tamanduás-bandeira e lobos-guará são alguns dos animais que vagueiam pelo raso de vargens. “Um vento com todas as almas — o que vem da Serra do Espinhaço”, descreveu Guimarães Rosa.

A cidade base é Diamantina. Dela, partem grupos de viajantes que variam de duas a dez pessoas. Da praça dos Tropeiros, ponto de encontro de comerciantes locais em dias de feira, tem início o Caminho dos Escravos. Construída no século XVIII, a trilha termina no alto da Igreja Nossa Senhora das Mercês, no povoado de Mendanha. Foram 20 quilômetros abertos na mata para escoar a produção de diamantes de Mendanha para Diamantina. No começo do século XIX, além das pedras, tropeiros transportavam mercadorias de um lado para o outro. O monitor ambiental do Parque Estadual do Biribiri, Tadeu José Fernandes, 40 anos, relata que durante o trajeto pode-se observar plantas e animais silvestres. “O caminho chama a atenção pela sua importância histórica, mas é cruzando a mata que as pessoas descobrirão relíquias como as cachoeiras do Pai Rocha, Vô Toninho e da Biquinha”, diz.

A caminhada é de nível médio pelos declives acentuados. No percurso, o turista passa por dois quilômetros de calçamento antigo bem preservado. Por fim, chega-se a Mendanha, um vilarejo encurvado, de chão vermelho, casario colonial e gente simples.  Seus 625 moradores vivem da agricultura e do garimpo. Perto da vila, na bacia do Jequitinhonha, o garimpo de Areinha movimenta mais de três mil operários. A extração de ouro e diamante no local é uma atividade não regulamentada e devastadora.

Receptivo familiar

Os muros de pedra de cantaria ainda separam alguns terrenos em Mendanha a incluir o do Cemitério dos Escravos, um reduto emblemático, mas abandonado pelo patrimônio. Quem passa pela frente do lugar lamenta a falta de zelo do poder público. Do outro lado da ponte que corta o Rio Jequitinhonha está a casa de Naciba Amin Lauar de Almeida, 68 anos, a dona Ciba. A filha de libanês trabalha com receptivo familiar há quase 10 anos. “Casei com um Diamantinense que sempre teve o sonho de tratar garimpo aqui. Mudamos pra cá há 31 anos. Tinha vez que tirava, numa passada só, um quilo de diamante e quatro de ouro”, recorda.

A senhora apequenada, com olhar maternal, ajudou a fundar na comunidade a Associação de Moradores e Amigos de Mendanha (Ama-Me). “Fiquei de gestora e desde então trabalho com hospedagem domiciliar.” Participou do projeto Turismo Solidário, iniciativa do Governo Estadual. “Eram 18 famílias inscritas, mas o pessoal foi desistindo”, afirma. Em sua casa, há quatro quartos com capacidade para acomodar 10 pessoas. A sede da associação também serve de espaço para a acolhida do turista.

O povoado faz fronteira com o Parque Estadual do Biribiri. Com área de 16.998 hectares, a Unidade criada em 1998 conta com atrativos como as cachoeiras da Sentinela e dos Cristais, além da vila do Biribiri. A 13 quilômetros de Diamantina, o lugarejo foi erguido em 1876 para abrigar a fábrica de tecidos Companhia Industrial de Estamparia S/A. Ao redor das instalações da empresa, havia casas de operários, escola, barbearia e a igreja do Sagrado Coração de Jesus. Hoje, a vila fantasma durante a semana ganha vida no sábado e domingo, quando famílias chegam para passar o dia. A maior parte das casas pode ser alugada para visitantes. Há também pousada e restaurante.

Mais de 200 anos

Das cercanias de Mendanha, uma das opções para os caminhantes é atravessar a APA Rio Manso em direção à Fazenda Raiz. A partir da Cachoeira da Fábrica, em território que pertence ao município de Couto de Magalhães de Minas, são 14 quilômetros que separam um ponto do outro. Os seis primeiros passam pelo Salto dos Veados, uma área com remanescentes de extração de cristais; cachoeiras e poções; várias espécies típicas da flora como pequizeiro, jatobá, mangaba e gabiroba; e lapas como a dos Cabritos com inscrições rupestres que datam de 300 anos antes da chegada dos portugueses ao Brasil.

A trilha leva à comunidade rural de Abóboras, que possui 10 casas dispersas com quintal e horta. Rente ao emaranhado de campinas, a casa de Neusa Filomena Moura Freitas, 77 anos, e Maria Madalena Freitas, mais conhecida como Madá, é pouso para horinhas de descanso. Mãe e filha oferecem refeições aos visitantes que circulam pelo vilarejo durante a travessia dos parques. Neusa, descendente de tropeiros e garimpeiros, conta que o lugar surgiu há mais de 200 anos. “O meu avô já trabalhava com alambique, na roça.” O perfume da comida mineira invade os cômodos da morada acolhedora. Em Minas Gerais, a cozinha é sala de estar. Nela, as pessoas se ajeitam, bebericam, petiscam e esticam a boa prosa. Entre os pratos servidos não faltam o angu, o feijão tropeiro e o frango caipira. Parte dos alimentos são comprados em Amendoim, uma vila agrícola vizinha.

Projeto multiplicável

A próxima parada é a Fazenda Raiz, propriedade que fica a oito quilômetros de Abóboras. Em Raiz, o grupo de viajantes é recepcionado por Laura Murta, 38 anos, e Paulo Ribeiro, 54 anos, sobrinho de Darcy Ribeiro e presidente da fundação com nome homônimo.  O casal se mudou com os filhos para a zona rural com um plano engatilhado para o desenvolvimento socioambiental da região. “Raiz é um projeto multiplicável, autossustentável e autofinanciável. Essa fazenda é o nosso piloto”, conta Ribeiro. A finalidade é mobilizar a sociedade civil para que adquira propriedades localizadas no entorno de parques públicos, áreas indígenas, comunidades quilombolas ou locais que formem um corredor entre Unidades de Conservação.

As áreas selecionadas serão colocadas à disposição do público em forma de cotas cujos valores serão revertidos para o projeto. O modelo permite que seja adotada uma nova forma de conservar, com uma gestão integrada que desenvolva as potencialidades de cada área, entre as quais o ecoturismo e a educação ambiental. “A criação das áreas de conservação será realizada com a participação das populações locais, tendo em vista a geração de trabalho e renda, bem como a valorização dos conhecimentos e técnicas tradicionais.”

Paulo esclarece que dos 1.050 hectares da fazenda, 50 serão utilizados para produção e lazer. “O restante, transformaremos em RPPN. A conscientização é um processo contínuo. Há muita gente que busca uma vida mais harmônica, comunal. Tá na hora de correr atrás e assumir compromisso para realizarmos juntos um sonho que é de todos”, diz.

Rota dos vilarejos

Raiz se localiza a 12 quilômetros de Alecrim, uma comunidade com 300 habitantes que vivem da agricultura familiar. Marilace do Rosário Lopes Almeida, 67 anos, e Wilson José Almeida são conhecidos na região pela sua produção artesanal de cachaça. “Somos nós dois a fazer a bebida num engenho movido a lenha. É com o dinheiro da cachaça que a gente compra as despesas pra casa”, relata Marilace. Seu Wilson vende a pinga que fabrica para vizinhos e nas feiras de Diamantina e arreadores.

O ponto seguinte da travessia é o Parque Estadual do Rio Preto. Ao chegar, o turista tem acesso a 12.185 hectares com infraestrutura completa. Há passarelas, placas de sinalização, decks, alojamentos, camping e restaurante, além de uma equipe de guias especializada. Segundo Antônio Augusto Tonhão de Almeida, gerente e fundador da Unidade de Conservação, o diferencial é o recurso humano. “Os funcionários cresceram no parque, vestem a camisa, incorporaram a área”, diz. Os principais atrativos são o Pico Dois Irmãos, as cachoeiras do Crioulo e das Sempre-Vivas, e a chapada do Couto.

Povos do Espinhaço

Do alto dos campos a beiradas de rio, as comunidades constituem o berço da cultura popular no Espinhaço. Seus moradores são guardiões de saberes seculares. A história de Minas Gerais se atrela ao jeito de ser das pessoas que habitam os interiores. Um dos trechos da travessia dos parques leva o viajante ao PARNA das Sempre-Vivas. No caminho, São João da Chapada é o vilarejo com maior número de casas. Pelas ruelas estreitas, nota-se a predominância da origem quilombola.

Ana Afonsa Pereira, 75 anos, a Dona Miúda, relata que seu bisavô era dono de escravo. “Ele tinha que mandar pra não ser mandado, sabe? A família do meu pai é da raça que fundou quilombo perto de Quartel do Indaiá. Até hoje a gente mantém a tradição. Da dança, dos instrumentos. Chama chula. Os escravos que deram esse nome. Quando eles cansavam, começavam a dançar. Era pra descarregar o corpo. No outro dia, já estavam bons pro trabalho de novo.” A chula é representada de dezembro a janeiro, no mesmo período da folia de reis. Enquanto homens tocam pandeiro, sanfona, violão e caixa, mulheres entoam versos em uma espécie de disputa. Palavras de origem banto são pronunciadas em alguns momentos.

No mesmo distrito, a poucas quadras da casa da dançarina, Valmira de Lurdes Miranda, 44 anos, é sócia de uma pensão familiar. Em 2006, o Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Idene) promoveu um curso de uma semana no local. “Aprendi como receber as pessoas e hoje temos duas suítes e um quarto disponíveis”, diz. O trânsito de turistas ainda é pouco, mas já mudou a realidade da moradora. “Em São João, são quatro casas que recebem. Duas hospedam e oferecem alimentação, eu e a Dona Nilma. As outras só hospedam. Eu gosto. Fazemos muitas amizades.”

Sertão é dentro da gente

O roteiro que alia natureza e pessoas é diversificado. Trata-se de uma região com grande potencial a ser explorado. O conjunto engloba elementos que fazem do passeio uma experiência peculiar para o turista. Durante a travessia, há caminhadas mais técnicas, outras mais leves. O contato direto com paisagens e cultura é o diferencial. Felipe Ribeiro esclarece que a procura ainda é pequena — a operadora Serra Sertão guia 500 pessoas por ano. O retorno é gradativo. “O propósito é criar uma rede em que as pessoas consigam se autogerir, comunicar e integrar. A geração de trabalho e renda é fundamental para a preservação do ambiente de montanha da Serra do Espinhaço e manutenção das comunidades. O turismo é um caminho”, afirma. No sertão mineiro, o desafio é padrinho do bem maior: a perseverança. Para o sertanejo, o que Deus une, o homem não separa. Como crê a produtora de cachaça do Alecrim, Dona Marilace: “temos que agradecer por tudo que somos, temos e amamos. Não saio da roça por nada.”

Serviço

Serra Sertão Turismo Receptivo
 (38) 3531-9726/ 9941-0044
serrasertao@gmail.com