Cafeterias

Um mercado em plena expansão

 O velho hábito de tomar aquele cafezinho, ritual presente diariamente na vida de quase todo brasileiro, ganhou um ingrediente a mais desde que chegaram a Belo Horizonte as cafeterias especializadas em cafés especiais, no início desta década. Além de alterar o sabor e a qualidade do produto, elas criaram um novo consumidor — embora ainda em número pequeno, ele é exigente quando passa a conhecer do assunto — e transformaram-se em ambientes mais aconchegantes e confortáveis, que, além de abrigar encontros sociais, são também ideais para reuniões de trabalho.

Reportagem Júlio Rezende
Fotos Cezar Felix

 

Cafeteria da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocaccer), em Patrocínio.

O pontapé inicial na formação deste novo segmento na capital mineira foi dado em 2013, quando a Academia do Café abriu as portas ao público — desde 2011, ela já comercializava o próprio café, empacotado. Coube à cafeteria o papel de cativar o consumidor, acostumado com o café tradicional, para que ele experimentasse os novos sabores da bebida. “Quando começamos, as pessoas não se importavam com a origem do produto. Então, desde o início, nosso objetivo foi educar o público”, lembra JuliaFortini Souza, uma das proprietárias da Academia do Café, que hoje tem duas unidades — uma no Bairro Funcionários (a primeira delas) e outra na Região da Savassi.

Embora ainda incipiente no Brasil, o mercado de cafés especiais dá sinais de expansão, como mostram dados recentes de um estudo realizado pelo Sebrae, em parceria com a consultoria Euromonitor, que revela um crescimento acelerado do setor. O levantamento informa que, enquanto o segmento do café tradicional — que ainda é o mais consumido no país — aumenta apenas 3,5% ao ano, o setor do chamado café premium— com produção em torno de 70 mil toneladas anualmente — cresce 15% no mesmo período.

Cafeterias (na foto, a Academia do Café, na Savassi): um campo aberto para o crescimento do setor.

Julia Fortini vê um campo aberto para o crescimento do segmento em Belo Horizonte e até torce pela chegada de novos concorrentes ao promissor mercado de cafés especiais. Ela explica que “o interesse vem aumentando a cada ano, e as pessoas estão fazendo cursos para abrir cafeteria”. “Quanto mais cafeterias, melhor para todas as cafeterias”, afirma.

Café para assinantes

Reuniões de trabalho: as cafeterias tornaram-se a principal opção. Na foto, a Noete Café Clube.

Guilherme Hamers Costa é outro a apostar na expansão do setor. Em agosto de 2016, ele e o sócio, Daniel Cabral, inauguraram a cafeteria Noete Café Clube, no Bairro Santo Antônio, zona sul da capital — antes disso, criaram um clube para vender cafés especiais a assinantes de todo o país, iniciativa foi mantida depois da abertura da loja —, e já fazem planos para ampliar o negócio no próximo ano. “A gente pensa em ampliar para o ano que vem. Tem de ser bem estudado, depende do cenário (econômico) do país”, ressalta o empresário.

Segundo Guilherme, a tendência é que o segmento de cafés especiais siga os passos do setor de cervejas artesanais, que teve grande expansão no país nos últimos anos. “Eu acho que hoje o mercado de bebidas e comidas está caminhando para produtos sensorialmente mais apurados, vide o mercado de cerveja”, diz. “O mercado está bem aquecido, com novas cafeterias e pessoas trabalhando com café de melhor qualidade”, acrescenta.

A Noete obteve um aumento na lista de assinantes, o que demonstra, de acordo com Guilherme, um interesse maior das pessoas pelos cafés especiais. “Há um crescimento no número de assinantes (atualmente são 250), daqueles que gostam de consumir o café em casa”, observa. O empresário explica que o sócio do clube começa comprando um pacote pequeno (de 250 gramas) de café moído e logo passa para o grande, de meio quilo, e para o de grão.

 

Público ainda concentrado em um segmento de renda mais elevada. Na foto, a Cafeteria Intelligenza.

Público de classes A e B

O advogado Henrique Fiúza, proprietário da cafeteria Intelligenza, que funciona desde 2016 na Savassi, adota uma postura mais cautelosa com relação ao mercado de cafés de qualidade no Brasil. Para ele, o público ainda está concentrado numa classe mais elevada e cresce lentamente. “É um mercado muito restrito, que vai crescer pouco, porque é um público de classes A e B”, avalia o empresário, que entrou para o ramo por ter identificado uma oportunidade, já que não havia tanta concorrência na época.

Por entender que o consumo é ainda limitado, Henrique Fiúza acredita que é preciso avançar muito para o público se familiarizar com a novidade, como aprender que não se toma o café premiumcom açúcar. “Só alguns que conhecem mesmo, que se interessam, em torno de 5% do nosso público”, afirma o proprietário da cafeteria Intelligenza.

Já Tiago Damasceno, um dos proprietários da OOP Café, inaugurada também em 2016 na mesma Savassi (área nobre de Belo Horizonte, que se caracteriza por ser um polo comercial e por receber grande fluxo de pessoas), afirma que o segmento já existe há pelo menos 15 anos no Brasil, mas vinha em ritmo lento até meados desta década. “O mercado engrenou e ganhou força de 2015 para cá”, afirma. “O café especial está em processo de crescimento como cultura de consumo”, completa.

 

O café especial como cultura de consumo. Na foto, a Cafeteria OOP.

Hábito de consumo

Porém, ele entende que a maior parte das pessoas ainda está na fase de conhecer o café, mas acredita que o público vem “descobrindo cada vez mais o produto”. O perfil dos clientes da casa é variado e já passou por mudança, considerada positiva pelo empresário. “O grosso se concentra na faixa de 20 a 40 anos”, afirma.

O empresário argumenta que a existência de um ambiente favorável foi fundamental para o setor se expandir. “Os produtores (de café) também, na origem, estão cada vez mais inseridos no mercado, e há mais produtos bons entrando no mercado”, ressalta. Tiago considera que o segmento “nasce a partir de um hábito de consumo”. “O café já era amplamente difundido em outros países, e nós passamos a importar esse hábito. Felizmente está acontecendo com a gente”, destaca.

Ainda que os cafés especiais tenham uma longa estrada a percorrer nesta terra em que tomar um cafezinho é um hábito bastante popular, os empresários do segmento têm esperança em um futuro promissor.  “Não diria que já é uma cultura, mas as pessoas estão se importando cada vez mais com o café especial”, observa Julia Fortini.

 

Mesmo nas cafeterias tradicionais, o público busca o café especial.

Ambiente de trabalho

As cafeterias tornaram-se a principal opção de escolha para empresários, profissionais autônomos e mesmo estudantes quando querem promover encontros ou reuniões de trabalho. “São ambientes que permitem fazer reuniões, encontros em volta do café”, explica Guilherme Hamers. “Oitenta por cento dos clientes vêm para trabalhar. São reuniões de advogados, coaching, grupo de estudos, de leitura”, acrescenta o proprietário do Noete Café Clube.

Apesar de verificar um perfil diferente de clientes entre as duas unidades da Academia do Café, JuliaFortini também destaca que o local atrai encontros profissionais. “Tem eventos pontuais, como lançamentos de livro. Vem muita gente estudar durante a semana, fazer reunião e até entrevista de emprego”, explica a empresária.

Nicho de Mercado: cardápio de cafeteria entre 6h e 11h e das 15h às 18h, utilizando a estrutura de restaurante.

A OOP Café tem um público diversificado, mas também abriga esse tipo de encontro. “É um espaço para trabalhar”, afirma Tiago Damasceno, um dos proprietários da empresa, que também mantém outra unidade da cafeteria no Instituto Inhotim, considerado o mais importante museu de arte contemporânea do Brasil, situado no município de Brumadinho, que fica a 58 km da capital.

 Reuniões e eventos profissionais

Ciente de que cafeteria é o espaço ideal para reuniões de trabalho, Henrique Fiúza já se preparou para receber esse público quando abriu a Intelligenza, em junho de 2016. Foram instaladas tomadas por todo o local, mesas maiores e cadeiras confortáveis. Também foi garantido o acesso à internet. “São coachings, arquitetos, fotógrafos e DJ, principalmente pessoas que não precisam de um escritório para trabalhar”, diz o empresário, contando como é a composição do público do espaço.

Foi assim que o tradicional restaurante Santafé, que também fica na Savassi, decidiu abrir um espaço para reuniões e eventos profissionais, aproveitando os horários ociosos entre o almoço e o jantar, em outubro passado. De acordo com Maira Souza, coordenadora de marketingda Rede Gourmet, que administra o estabelecimento, a iniciativa surgiu em razão de “uma necessidade para a região”. “Percebemos que muitas pessoas começaram a procurar a casa para reuniões de trabalho”, afirma.

Desde então, o Santafé oferece um cardápio de cafeteria entre 6h e 11h e das 15h às 18h, utilizando a estrutura do restaurante, como tomadas perto das mesas, acesso à internet, ar-condicionado, salas exclusivas e equipamentos como projetor e impressora. “Criamos um ambiente melhor para esse momento de trabalho. Recebemos muitos executivos aqui”, explica Maira.

 

O mercado aquecido, com novas cafeterias e cafés de melhor qualidade.

Público exigente

Para Tiago Damasceno, da OOP Café, o interesse pelo produto, relativamente novo na capital mineira, tem chamado a atenção dos donos das cafeterias, que percebem o surgimento de um cliente mais exigente. “O público vem se aprimorando na questão de provar o café e conhecer o produto. Ele sempre busca informação sobre a origem, quem faz, quem está por trás da xícara”, diz. Depois que aprende, é bastante exigente com a qualidade do grão, da torra, com a bebida. Cobra excelência em tudo”, ressalta Guilherme Hamers, do Noete Café Clube.

JuliaFortini, que acompanhou de perto a evolução dos frequentadores da Academia do Café, pioneira na capital mineira, afirma que aquele cliente lá do início, que não se importava com a origem do café, hoje quer saber não apenas de onde vem o produto, mas também o que está por trás da bebida que está ingerindo. “Hoje as pessoas estão se importando mais. Elas percebem a diferença drástica não só no sabor, mas também na qualidade do produto”, observa.

A empresária acredita que o cliente mais bem-informado acaba servindo de referência para a melhoria do próprio negócio. “Quando ele entende o que está tomando, ele tem propriedade para falar. A gente melhora dessa forma”, afirma. “Eu gosto quando o cliente diz ‘não gostei desse café, quero outro’. Ele está entendendo o que é o nosso café.”

Julia considera que esse lado didático é fundamental para o cliente compreender a diferença entre o café tradicional e toda a estrutura que gira em torno da linha premium. “O preço é muito diferente. Tem café de graça nos restaurantes. O café especial custa R$ 6 a xícara. É muito importante mostrar o porquê disso. É preciso explicar que existe uma cadeia por trás do café especial. É um conjunto de coisas que vem fazer aquele café de qualidade”, observa a empresária. Os preços da bebida na Academia do Café variam de R$ 6 a R$ 22.

Guilherme Hamers observa, também, uma diferença entre esse novo cliente e o frequentador das tradicionais cafeterias, aquele que geralmente toma o cafezinho ao pé do balcão, sem perder muito tempo. “O consumidor de cafés especiais não busca aquele café de um minuto. Ele quer ficar no ambiente, tomar um café diferente, experimentar outros métodos de preparo”, pondera o empresário.

 

A Livraria de Rua apostou em um novo espaço que inclui uma cafeteria.

 Cursos e oficinas

Como o mercado de cafeterias de cafés especiais ainda está em formação, as próprias casas já existentes em Belo Horizonte oferecem cursos e oficinas destinados tanto aos interessados em abrir um negócio quanto aos consumidores dispostos a conhecer mais o produto que estão bebendo.

Primeira a entrar no mercado da capital, a Academia do Café disponibiliza cursos para quem quer abrir a própria cafeteria. Segundo JuliaFortini, proprietária do estabelecimento, o treinamento é fundamental para se garantir a qualidade necessária ao novo empreendimento. “É uma coisa muito séria, e é legal ver esse mercado crescendo de uma forma boa”, ressalta a empresária.

A Academia do Café oferece cursos não só profissionalizante, mas também para leigos, que podem conhecer mais sobre os cafés especiais, a propriedade da fruta, exercitar o olfato, “com menos teoria e mais degustação”.

Guilherme Hamers também observa que há uma procura crescente por cursos profissionalizantes e até mesmo workshops. “As pessoas querem obter uma explicação mais técnica do produto”, afirma.

Outra que atua na formação em torno dos cafés especiais é a OOP Café, que criou a Escola OOP, no Bairro Floresta, zona leste da capital, para promover cursos e oficiais para futuros profissionais e consumidores. Antes de abrir o negócio, Tiago Damasceno, consumia o café premiumpor hobby. Ao decidir empreender, ele começou a pesquisar sobre o produto, fez curso de barista e viajou ao exterior.  “Passei a conhecer os atores envolvidos dentro daquela indústria”, conta. Segundo o empresário, o investimento para abrir uma cafeteria nesse segmento é bem variado, mas ele acredita que, com R$ 30 mil, seja possível montar uma de pequeno porte.

Depois de abrir a cafeteria Intelligenza, o advogado Henrique Fiúza fez curso para conhecer melhor o produto. O empresário deixa um alerta para quem quer entrar para o segmento. Segundo ele, o estabelecimento precisar estar localizado em região central e bastante movimentada, uma vez que o café especial ainda se restringe a certa camada da população.