Euclides Guimarães

Em tempos hiperconectivos a principal companhia que cada um tem é a sua própria e sua principal responsabilidade é para consigo. O indivíduo, meio que abandonado à própria sorte, assim se encontra desde a infância quando, entre telas, professores, parentes ou babás, começa a aprender que o sentido da vida está em encontrar para si mesmo um caminho de sucesso e desfrutar dos prazeres a ele proporcionais. Mas, mesmo no extremo individualismo, o que somos para nós mesmos depende de outros.

É ingênuo pensar que o hiperindivíduo contemporâneo se basta narcisicamente, abrindo mão da vida social. Ao contrário, o desejo de ser amado, respeitado, admirado e, por vezes até temido só pode ser posto a prova nas negociações relacionais da vida cotidiana, impactando, sobretudo, a autoestima. Este alimento que só os outros podem nos dar permeia qualquer formato histórico de sociedade, mas na era da conectividade seu formato e dimensão costumam ser dados pela visibilidade.

Nos últimos números vimos o quanto a díade (relação entre duas pessoas) ancora aqueles que vivem em tempos assim. Falamos do amor romântico como uma coincidência cósmica que acrescenta à química social a química da pele, de seu poder de combater a solidão básica a que estamos condenados na era da conectividade. Falamos da amizade como compromisso que não tira a liberdade e conexão que não tira a segurança, sendo assim uma forma cada vez mais preciosa de não estar só. Para além das díades falamos de grupos afetivos como as irmandades, comunidades, inclusive as virtuais, as tribos urbanas e de como elas evidenciam as necessidades sociáveis do sujeito contemporâneo.

Contudo, mesmo que isso implique a acentuação de carências, vimos que, no geral, os compromissos tendem a se afrouxar enquanto o que cresce é a conectividade. Isso pode ser verificado também nas relações de trabalho, que a princípio se pautam pela racionalidade e não pela afetividade.

A chamada era global garantiu uma mobilidade sem precedentes às elites econômicas que acumulam crescentemente o grosso do capital circulante no planeta. Quando as fábricas dão lugar às empresas transnacionais o antigo formato da relação patrão empregado vai também se transformando e passa a valer o vínculo da colaboração. Como colaborador o trabalhador, teoricamente, tem mais liberdade em ralação às formas tradicionais do vínculo empregatício, convertendo-se num prestador de serviços altamente conectivo. Em novas rotinas como as que prescindem da jornada de trabalho, do apito da fábrica, do uniforme e da repetitividade dos gestos, ele pode atuar em ‘home office’ e outras formas de ação à distância, produzindo por tarefas, empreitada, etc. A empresa beneficiária de seu trabalho não guarda com ele aquele grau de compromisso que teria caso ele fosse empregado. Nessa nova ordem produtiva tudo se mede por resultados. São os índices, as curvas nos gráficos que medem a produtividade que vão definir seus méritos. Em relação aos colegas, ele é mais um concorrente do que um tradicional “companheiro”.

Os empregadores, estes então se fluidificam, tornam-se etéreos, soltos no mundo, inatingíveis. Capital e trabalho já não se comprometem um com o outro como no auge dos tempos industriais. O primeiro ganha a agilidade com que sempre sonhou, circulando pelo planeta de acordo com sua conveniência, o segundo padece entre manter sua curva produtiva crescente que exige sacrifícios cada vez maiores, ou cair na ralé de excluídos do consumo e dos benefícios que essa nova ordem traz, normalmente em forma de incríveis artefatos, incluindo as novidades tecnológicas, não raro associadas à ampliação dos poderes conectivos.

Nesse caso, a preeminência da conectividade põe-se a serviço dos últimos arranjos de uma velha ordem que sobrevive na velocidade exata de com que se renova. No mundo desencantado da produtividade e da razão parece não haver mais lugar para o peso dos compromissos, já que o capital circula pela leveza das conexões. Até mesmo a relação entre o homem e o espaço que ele habita torna-se menos compromissada. Cada vez mais telas se põem no lugar de janelas, de forma que a paisagem do entorno dá lugar a imagens do mundo. Muros e cercas gigantes se erguem separando povos, ou classes que assim se livram do incômodo de compromissos.

Entre o peso do real e a leveza do telerreal a preeminência do segundo atinge condições extremas na maneira como se vendem aqueles que circulam por esse ambiente fluido da alta conectividade. Com a convergência midiática alcançada pelas tecnologias digitais, que permite o uso de textos, sons e vários formatos de imagens em rede, nosso tempo vê surgir um novo regime de visibilidade. Se em outros tempos temeu-se muito estar sob os olhos dos vigilantes, hoje o que se deseja é cair nas graças de tais olhares, posto que assim nos tornamos vitrines, ganhamos popularidade e cumprimos a meta máxima para tempos conectivos: a de ser altamente conectável. Tem sido um verdadeiro “vale tudo” o esforço para se tornar visível, emplacar um viral nas redes sociais, ganhar popularidade e, com isso, fama e dinheiro. Eis a superfície do contexto em que vivemos. Mas onde mora sua profundidade? Talvez nas angústias que um mundo tão fluido vai produzindo, talvez nas contradições de arranjos tão novos voltados ao atendimento de interesses tão velhos, talvez no mal-estar causado pela sensação, consciente ou não, de que tudo se faz cada vez mais fluido e fugidio.

 Se há mais de um século e meio Marx percebia que, na modernidade, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”, talvez tenha chegado a hora de perceber que, na contemporaneidade, o que é fluido se solidifica no ar ou que nada pode ser mais sólido, ainda que etéreo, do que o que está no ar.

Talvez por isso fotografar viagens vem se tornando mais interessante e recorrente do que estar lá. Talvez por isso o gosto contemporâneo por eventos grandiosos e espetaculares: em tempos em que a conectividade tem mais valor do que o compromisso os sentidos já não moram tanto naquilo que justifica a realização de uma cerimônia, ou no que ela representa, mas sim na operação conectiva que um evento é capaz de realizar. Mesmo que momentaneamente uma sociedade celebra nos grandes eventos o que de concretamente social ainda resta nela. Euclides Guimarães, primavera de 2014.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUCMinas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e na FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura).

Na contemporaneidade, o que é fluido se solidifica no ar ou que nada pode ser mais sólido, ainda que etéreo, do que o que está no ar. Fotografar viagens torna-se mais interessante do que estar lá.