O sertão é o mundo

Ao mesmo tempo cenário e protagonistaem obras de Guimarães Rosa, a regiãonoroeste de Minas abriga um rico patrimônio ambiental, cultural e histórico.Diferentes iniciativas buscam fortalecer a atividade turística no território e torná-lo mais conhecido.

Reportagem Sâmia Bechelane
Fotos Tom Alves

“O senhor tolere: isto é o sertão. Uns querem ​que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a afora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. (…) O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães. O sertão está em toda a parte”. (Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)

Já nas primeiras páginas da obra maisaclamada de Guimarães Rosa, o jagunço Riobaldo Tatarana incorpora o sertão na conversa com seu interlocutor, homem culto da cidade a quem o leitor desconhece.No livro, os sentidos atribuídos ao termo são múltiplos: ora denotam uma vastidão de terras no interior do país, longe do mar emais ou menos definida por alguns marcosconcretos; ora se reveste de uma conotação muito mais afetiva que territorial — afinal, se o sertão é o mundo, o protagonista deGrande Sertão também ensina que ele está dentro das gentes. Ao longo da obra, a vertente física do sertão rosiano vai ganhando seus correspondentes geográficossob a forma de cidades, rios, serras e vales,se confundindo também com os Gerais e com o cerrado brasileiro, bioma que ocupa quase um quarto do território nacional. Nesse jogo de significados, algo é certo: a região que hoje se conhece por “noroeste de Minas” é boa parte do sertão construído pela obra rosiana.

Menor densidade demográfica

Formado por dezenove cidades, entre elas Arinos, Chapada Gaúcha, Paracatu e São Romão, o território ocupa hoje cerca de 10% da área total de Minas Gerais. Ao mesmo tempo, sua população corresponde aapenas 1,6% do total de habitantes do estado, o que faz dela a região mineira de menor densidade demográfica. É vasta a extensão territorial dos municípios, que apresentam grandes distâncias entre si e entre suas comunidades rurais — talvez por isso Riobaldo diga, em determinada passagem, que “um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador”.  A média de pessoas vivendo no campo é superior à do restante do estado, o queexplica a importância assumida pela agricultura familiar nos modos de vida do sertanejo. Esses elementos conformam uma região que, embora pouco conhecida no próprio estado, guarda uma incrível diversidade sociocultural e ambiental, umimenso atrativo para turistas interessados em se embrenhar pelos sertões de Minas.

Territórios da literatura

Entre os conhecedores da região, é consenso que um de seus mais importantesporta-vozes foi o escritor brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967), que fez do sertão um dos personagens principais emsua obra. Embora não seja propriamente um autor regionalista, o mineiro nascido em Cordisburgo construiu em seus livros um verdadeiro “inventário” dos Gerais, especialmente em Grande Sertão: Veredas.Elementos da vegetação, relevo, cursos d’água e avifauna do cerrado estãopresentes de forma detalhada nas narrativasde Rosa, também conhecido por suacomplexa inventividade linguística. Por meio dessa escrita ao mesmo tempo tradicional e de vanguarda, o escritorinvestigou a condição humana e se aproximou do que se pode chamar de “alma sertaneja”.

Essa precisão em narrar a terra e as gentesdo sertão resultava não apenas de umaengenhosa habilidade com a escrita. O contato com a região, de diferentes maneiras e ao longo da vida, também lhe rendeu um fabuloso repertório. Formado médico no ano de 1930 em Belo Horizonte, Rosa exerceu a profissão durante algum tempo nos confins do estado. Ainda nessa década, deixou a Medicina e ingressou nacarreira diplomática, fazendo diferentesincursões pelo interior de Goiás, Bahia e Minas Gerais. Assim, conviveuintensamente com vazanteiros, veredeiros,chapadeiros e outras formas do viver sertanejo.

Travessia

Mas sua aventura mais conhecida pelo sertão mineiro aconteceu em maio de 1952, seis anos depois da publicação de sua obra de estreia, o livro de contos Sagarana.Durante 10 dias, Rosa percorreu, no lombo de uma mula, os 240 quilômetros que separam a Fazenda Sirga, em Três Marias,da Fazenda São Francisco, em Araçaí. O escritor viajou junto de 300 bois e oitovaqueiros, entre eles Manuel Nardi, o Manuelzão, que se tornaria um dos personagens de sua novela Uma história de amor. As impressões colhidas durante a travessia, meticulosamente registradas emcadernetas que ele costumava levar ao pescoço, inspirariam a saga de lutas, medos e amores que o jagunço Riobaldo Tatarana experimenta junto de seu bando nas páginas de Grande Sertão, publicado em 1956.

Em termos sociais e territoriais, os contos,as novelas e o romance deixados pelo autoroperam como uma metonímia do sertão mineiro. Ao mesmo tempo metafísicos e geográficos, esses elementos ganharammuito destaque na produção de Rosa, o quelevou o turismólogo Gabriel de Oliveira a estudar o tema durante o mestrado. Em sua pesquisa, concluída em 2013 no Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais(UFMG), ele investigou as transformaçõessocioespaciais no sertão mineiro a partir da obra rosiana. O pesquisador identificou três momentos — e movimentos — importantesnos Gerais narrados pelo escritor. O primeiro deles é o jaguncismo, descrito de forma magistral em Grande Sertão. Na história de Minas Gerais, especialmente nas regiões norte e noroeste do estado, essas batalhas remontam ao final do século XIX einício do século XX e têm como principal representante o cangaceiro Antônio Dó. O jagunço era odiado pelas autoridades policiais da época, bem-quisto por muitos sertanejos e foi citado também em diferentes contos de Guimarães Rosa.

“Gerais em movimento”

Outro momento observado por Gabriel é o fenômeno da modernização brasileira nas décadas de 1940 e 1950, nomeado por ele de “Gerais em movimento”. Esse cenário está descrito principalmente nas novelas deCorpo de Baile, também de 1956, e aponta para uma relação cada vez maior entre orural e o urbano. “Aqui observamos mais a lida rotineira das famílias no campo e acultura boiadeira é bem forte. A cidade aparece um pouco mais no sertão; são mencionadas novelas de rádio e bens de consumo. Em um dos textos, por exemplo,uma moça da cidade vai morar na fazenda”, analisa Gabriel, que atualmente é doutorando em Geografia na UFMG.

Marco fundamental da modernização brasileira, a inauguração de Brasília fazparte do terceiro momento identificado por Gabriel, expresso em Primeiras Estórias,de 1962. “A capital simboliza a interiorização demográfica e o desenvolvimento desigual no país nas décadas de 1960 e 1970. Rosa visitou as obras de construção da cidade e escreveu aopai relatando suas impressões. Ele sempre demonstrou uma opinião crítica sobre isso”,conta. Nos contos que abrem e fecham o livro, “As margens da alegria” e “Os cimos”, o personagem Menino vivemomentos de dor e de júbilo em meio à construção de uma grande cidade — essa,ao que tudo indica, uma alusão à nova capital do país.

Trabalho de campo

Guimarães Rosa faleceu em 1967, três dias após tomar posse de uma cadeira naAcademia Brasileira de Letras. Mas, se continuasse escrevendo o ambiente de suas narrativas seria outro, aposta Gabriel.Durante sua pesquisa, o turismólogorealizou um intenso trabalho de campo no sertão rosiano e aventou algumaspossibilidades: as profundas mudanças na dinâmica dos recursos naturais e no sistema de uso da terra do cerrado — como a expansão das monoculturas de soja e, especialmente, de eucalipto — impactariamo cenário das obras. Ao mesmo tempo, ele observou experiências muito interessantes de resistência socioambiental ao que eledescreve como um “processo desigual de desenvolvimento”. Exemplos disso são o Mosaico de Unidades de Conservação Sertão Veredas – Peruaçu e as tecnologias sociais desenvolvidas por organizaçõescomo o Instituto Cultural e Ambiental Rosa e Sertão, com sede em Chapada Gaúcha.

Mosaico de possibilidades

O Mosaico de Unidades de Conservação Sertão Veredas – Peruaçu reúne 14 grandesterritórios protegidos na margem esquerda do Rio São Francisco, divididos em unidades de proteção integral (ParquesNacionais, Estaduais e Refúgio da VidaSilvestre) e de uso sustentável (como asÁreas de Proteção Integral – APAs). Compreende, além disso, a Reserva Indígena dos Xacriabás. Somadas, essas regiões abrangem cerca  de 1,5 milhão de hectares, distribuídos em 11 municípios no noroeste e norte de Minas e em uma pequena parte do sudoeste da Bahia — parase ter uma ideia dessa dimensão, bastasaber que a área total de um campo de futebol ocupa cerca de um hectare.Especialistas apontam que unidades de conservação têm se tornado uma estratégia fundamental para a preservação da biodiversidade do cerrado, bioma que foi reduzido a aproximadamente 1/3 de sua extensão original em apenas quatro décadas.

A região do Mosaico abriga incríveis potencialidades para o desenvolvimento do turismo “ecocultural”, ainda que nem todas as áreas estejam totalmente abertas à visitação pública. Boa parte das apostas se dirige ao Parque Nacional Grande Sertão:Veredas, cujo nome homenageia de forma explícita o escritor mineiro. Terceira maior unidade de conservação do Mosaico e criado por decreto em 1989, o Parque é umverdadeiro santuário ecológico: são 44 espécies de anfíbios, 31 de répteis, 244 de aves, 62 de peixes e 56 de mamíferos,dentre eles o cervo-do-pantanal, o tamanduá-bandeira e o lobo-guará, que estão ameaçados de extinção.

Vastidão das veredas

Além da observação de espécies, turistaspodem se aventurar por caminhadas etrilhas de bicicleta e visitar cachoeirascomo a Mato Grande, que está a apenas dois quilômetros da entrada do Parque. Outro bálsamo para os olhos é a vastidão das veredas que acompanham trechos dos rios Itaguari, Cariranha e seus afluentes. A visão é ainda mais bonita se o visitante chega até os mirantes Veredão e Chapada— do qual se avista o estado da Bahia na linha do horizonte. Segundo o engenheiro florestal César Victor do Espírito Santo, superintendente executivo da Fundação Pró-Natureza (Funatura), uma das instituições responsáveis pela gestão do Parque, o local ainda não dispõe de umainfraestrutura adequada para recebergrandes fluxos de visitantes. Por isso,interessados em conhecer a unidade devem entrar em contato com a administração do Parque e percorrê-lo acompanhados de um guia local.

Mas as potencialidades turísticas do Moisaco não residem apenas em suas unidades de conservação. As comunidadesdo entorno também são apontadas como espaços importantes para turistas interessados na troca de saberes e na hospitalidade sertaneja.

“Ecoturismo cultural”

Esse é o mote principal do chamado “ecoturismo cultural de base comunitária”,um segmento turístico que busca aliar a preservação da biodiversidade com a promoção do desenvolvimento sustentável e da diversidade cultural. Assim, busca-se iralém do que é oferecido no turismo de aventura ou no ecoturismo,tradicionalmente praticados em áreas de conservação.

Desenvolver esse tipo de turismo é um dos eixos estruturantes do Plano de Desenvolvimento Territorial de Base Conservacionista do Mosaico, elaboradopela Funatura e parceiros entre os anos de 2006 e 2008 e ainda em execução. OInstituto Cultural e Ambiental Rosa eSertão, com sede em Chapada Gaúcha,cuida da execução desse eixo desde 2012.Entre outras atividades, o projeto envolve a capacitação de condutores ambientais locais e educação para o patrimônio cultural, ambiental e artístico nas escolas, além da realização de duas edições do tradicionalEncontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, em 2012 e 2013. Também está prevista a construção de dois Centros Comunitários de Apoio ao Visitante. “É uma possibilidade de entendermos cultura, meio ambiente e turismo como fatores de desenvolvimento. Não há apenas troca de serviços, mas também o incentivo àorganização comunitária”, reflete DamianaCampos, coordenadora executiva do Rosa e Sertão e responsável pelo projeto, um dos vencedores da 5ª edição do Prêmio Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) Brasil. Damiana estima que essas atividades tenham contribuído para potencializar uma rede de mais de 2.400 pessoas envolvidas com turismo na região.

Circuitos turísticos

Além das ações relacionadas ao Mosaico, o fomento à atividade turística na região também acontece por meio dos Circuitos Turísticos, associações de municípios comafinidades sócio-culturais e econômicas que se unem para desenvolver o turismo de forma integrada. Essa regionalização é uma estratégia da política estadual e nacional de turismo, que busca incentivar a gestão descentralizada desse setor em todo o país. Na região noroeste do estado, está ocircuito turístico que abrange cinco municípios da bacia do Rio Paracatu; denominado Circuito Noroeste das Gerais,é um dos 46 circuitos oficialmente certificados pela Secretaria de Estado de Turismo (SETUR-MG). Até 2008, a região também contava com outro circuito oficial: o Urucuia Grande Sertão, com 11 municípios pertencentes à bacia do Rio Urucuia, aquele que Riobaldo Tatarana apelidou de “rio do amor”. Embora sua certificação não tenha sido renovada, o circuito continua em operação e se organiza para requerer novamente a chancela da Secretaria.

Irene Guedes, secretária executiva doCircuito Urucuia Grande Sertão e da Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Vale do Rio Urucuia,ressalta que a região é plena depotencialidades turísticas, especialmenteem elementos ligados ao turismo religioso,ao cultural e ao de aventura. “O sertão por si só é um atrativo”, acrescenta. A Agência integra o Circuito e é uma das instituições responsáveis por “incubá-lo por meio do desenvolvimento de parcerias para a capacitação de agentes, produção deinventariados turísticos e outras atividades necessárias à certificação — que tem duração bienal. Cumprir com esses objetivos é uma condição fundamental para que o circuito acesse os programas e projetos desenvolvidos pela SETUR-MG.

Roteiros intermunicipais

Irene Guedes aponta que, embora o turismo seja um elemento importante na economia dos municípios, permanece o desafio de mobilizá-los para que se dediquem de forma permanente ao desenvolvimento dessa atividade. Outra dificuldade é atrair investidores. Para a subsecretária de Estado de Turismo da SETUR, Silvana Nascimento, uma aposta importante para a região e também para outros circuitos do estado é investir no turismo regional. Pesquisa realizada em 2012 pela Secretaria junto a visitantes de Paracatu mostra que mais da metade dos entrevistados vinham do próprio estado. “Normalmente o turismo começa pelas regiões vizinhas. Isso é ótimo porque se incentiva que o mineiro conheça Minas Gerais”, comenta Silvana.

No âmbito do circuito Urucuia Grande Sertão, três roteiros intermunicipais são sugeridos ao visitante. Um deles contempla caminhadas e banhos de rio e cachoeiradurante visita ao Parque Nacional Grande Sertão Veredas e ao Parque Estadual Serra das Araras, passando também pelo Corredor Ecológico Vão dos Buracos, localizado entre os parques. Outro roteiro se concentra em comunidades e vilarejos, como Igrejinha, Bonito e a Reserva Ecológica de Sagarana, incluindo a possibilidade de apreciar o pôr-do-sol no Rio Urucuia. Uma terceira rota sugere ao turista se encantar com as tramas e linhas do noroeste mineiro, conhecendo diferentes associações de artesãos, tecelões e fiandeiros da região.

Terra de folias

Próximo à igrejinha da comunidade de Morrinhos, distrito de Arinos, um terno de folia de reis canta, dança e distribui sorrisos para todos os  moradores e visitantes que se aproximam. É uma noite fria de julho, mas a fogueira crepitante acesa há pouco aquecea platéia e os oito cantores e instrumentistas, que são liderados pelo capitão de folia Luizão dos Morrinhos.Seguindo a tradição, o grupo entoa o canto de saudação para Aristonho, dono da casa. Emendam uma curraleira e um lundu,seguido de uma catira. Caixa, pandeiro, violão, cavaquinho, rabeca e rapa-pau são os instrumentos que acompanham o coro.“Esta aqui é uma folia ‘temporana’, quefizemos para receber os visitantes no povoado”, explica seu Luizão.

Tradicional festa profano-católica de origem ibérica, a folia de reis acontece entre os dias 25 de dezembro e seis de janeiro, celebrando a visita de  Melchior, Baltasar e Gaspar — os três reis magos do Oriente — ao menino Jesus em Belém. Foi trazida ao país pelos colonizadores ainda no século XVI e, já em solo brasileiro, foi ganhando cores locais. Seu Luizão contaque, atualmente, as folias não homenageiamsomente os três Santos Reis — São José eSanta Luzia, por exemplo, também podemfigurar nas bandeiras dos grupos. Na folia,um cortejo formado por cantores, instrumentistas, reis e palhaços caminha em festa até a casa do chamado “festeiro”, onde são oferecidas alimentação, esmolas e cantos de louvor entoados pelos moradores e por toda a vizinhança.

Como em outras regiões do interior do estado, a folia de reis é uma festa muitotradicional no noroeste mineiro. Em muitoscasos, é a principal manifestação de cultura popular nas comunidades. Outro destaquesão os grupos de dançadeiras, como as deRibeirão de Areia, distrito de Chapada Gaúcha. Além deles, a região é palco de importantes eventos religiosos e festejos regionais, tais como cavalgadas e festasdedicadas a santos padroeiros. Um exemplo é a Romaria de Santo Antônio, queacontece há mais de 100 anos: geralmente na primeira quinzena de junho, fiéis e pagadores de promessa sobem a Serra para homenagear o santo — cuja imagem, segundo a tradição local, já teria aparecido no topo do morro.

“Feito Rosa para o Sertão” é outra festa queganhou repercussão nos últimos anos,realizada sempre em Sagarana, distrito de Arinos.

Uma mostra muito importante de todasessas manifestações pode ser vivenciada no Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas. O evento é realizado desde 2001no município de Chapada Gaúcha,normalmente na segunda quinzena de julho, e em todos os anos é esperado ansiosamente por artesãos, grupos de cultura popular,cooperativistas, articuladores locais e outros interessados. O palco que recebe as apresentações culturais é montado na praça principal e divide espaço com barracas de comidas típicas, como o beiju (ou tapioca), o doce e a farinha feitos de pequi e os sorvetes de baru, buriti e araticum, frutos e sementes típicos do cerrado. Produtos artesanais também são expostos, tais comobolsas, caixas, tapetes, biojoias e quadros produzidos especialmente com matérias-primas oferecida pelo bioma, como o buriti, o jatobá e o jacarandá. “O evento contribui para que os próprios municípios também construam e fortaleçam suas agendas culturais”, resume Damiana Campos, do Instituto Rosa e Sertão, que foi responsável pela organização de duas edições do evento.Em 2013, um mapeamento do Institutorevelou a presença de mais de 70 gruposculturais na região.

Nos sertões da História

Sentada à mesa de jantar do casarão-sede da Fazenda Menino, Geralda Antônia Britorelata para muitas pessoas espalhadas pela sala histórias que estão à margem da História oficial. Dona Geralda tem os cabelos brancos e crespos presos, traz no rosto profundas marcas de expressão e já enxerga pouco. Mas o sofrimento que perpassa sua narrativa não se sobressai ao tom espirituoso e bem-humorado com o qual compartilha as perseguições vividas durante o regime militar. Chegou ali em 1968, a convite do então dono da Fazenda, o alemão Max Hermann. Nos primeiros anos atuou como professora do povoado; já no início da década de 1970, encarregou-se da administração da Fazenda quando Max, de inclinações comunistas, mudou-se para o Rio de Janeiro. Iniciava-se aí um longo período de agruras: agentes do Estado “visitavam” com freqüência a Fazenda, em busca de informações sobre o paradeiro e as atividades do patrão. Em uma dessas ocasiões, conta que já esteve sob a mira defuzis no quintal da própria casa.

A Fazenda Menino ocupa impressionantes 89 mil hectares no Vale do Urucuia,próximo à comunidade de Ribeirão de Areia.  Na década de 1950 as terras foram adquiridas pelo alemão Max Herman, quejá reuniu ali políticos como João Goulart, Leonel Brizola e Miguel Arraes, além do arquiteto Oscar Niemeyer. A amizade com este último, inclusive, rendeu um projetoarquitetônico ousado: a Cidade de Marina na Colônia Agropecuária Menino, de 1956,planejada em paralelo à criação da nova capital. A ideia era construir uma cidade para 200 mil pessoas no interior da própria Fazenda, rodeada de chácaras cuja produção agrícola abasteceria a própria cidade de Marina e também Brasília, a apenas 160 quilômetros dali. Com a ida de Max para o Rio, o projeto de Niemeyer não saiu do papel.

Ao lado da Colônia Menino, o território guarda outros acontecimentos singulares e pouco estudados na História tradicional. Os Gerais protagonizaram, em 1736, os chamados “Motins do Sertão”, tambémchamados Conjuração do Rio São Francisco. O estopim da revolta foi a taxa de capitação, imposto cobrado pela metrópole portuguesa sobre o ouro.Diferentemente da região das Minas, o sertão mineiro tinha dificuldades na extração do metal, já que a colonização diferenciada lhe rendera uma vocaçãomuito mais agropastoril que mineradora. A cidade de São Romão foi o palco principal da ação dos rebeldes, reprimidos no mesmo ano.

Outro acontecimento singular foi a passagem da Coluna Prestes pelo território, em 1925. Na ocasião, mais de 1500 revoltosos percorreram 25 mil quilômetros, em 13 estados do Brasil, marchando contra a república oligárquica do presidente Artur Bernardes. Já na década de 1970, o povoamento da região de chapadas — que muitos acreditam ser a referência geográfica do mítico Liso do Sussuarão, mencionado em Grande Sertão Veredas —foi incentivado pela Fundação Rural Minaspor meio do Projeto de Desenvolvimento e Assentamento da Serra das Araras – PDSA.Mais de sessenta famílias gaúchas migraram para a região e passaram a se dedicar, principalmente, a extensasmonoculturas de soja e de sementes decapim braquiária. Em 1995, a Vila dos Gaúchos se emancipou, ganhando o nome de Chapada Gaúcha.