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O Corpo transcendente

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Grupo Corpo
Grupo Corpo

50 anos de trajetória: o Corpo fez da sua mineiridade um exemplo exímio de brasilidade. Foto do balé Breu.

 

Mais do que uma companhia de dança contemporânea, o Grupo Corpo, fundado no ano de 1975, é uma referência mundial nesta sublime arte de coreografar movimentos do Corpo — que ousaria, no futuro, misturar o popular com o erudito, o regional com o global, o passado com a contemporaneidade. O Corpo consagrou a sua universalidade, que parte do local em que nasceu, Belo Horizonte, mas persiste e parece estar ainda mais latente nos seus 50 anos de existência.

 

Reportagem Rita de Podestá e Cezar Félix

Fotos José Luiz Pederneiras

A imagem típica do povo mineiro é o do desconfiado, devorador de queijo, cachaça e café doce. Imaginário que não persiste à toa, pois muito se confirma. Mas há contradições. Afinal, estereótipos parecem existir para serem questionados. Em Minas, a cultura popular se reinventa. Em Belo Horizonte, a tradição esbarra na complexidade da metrópole. Com o andar do tempo o barroco fundiu-se ao modernismo, ao pós-modernismo, à contemporaneidade, criando um sincretismo cultural que nunca será estático.

Cenário perfeito para artistas que visam palcos maiores. Para mineiros que absorvem o passado transformando-o em novas estéticas. Uma coisa é certa, na arte só quem arrisca consegue ultrapassar as montanhas. Guimarães Rosa, num texto publicado na revista “O Cruzeiro”, de 1957, já vislumbrava esse saber da hora de aquietar-se e do momento certo de avançar: “mineiro não se move de graça. Ele permanece e conserva. (…). Mas, sendo a vez, sendo a hora, Minas entende, atende, toma tento, avança, peleja e faz.” Palavras que sintetizam bem a história do já bastante conhecido Grupo Corpo: um grupo de dança contemporânea que, aos 50 anos da sua trajetória, relembra como fez da sua mineiridade um exemplo exímio de brasilidade.

Grupo Corpo

O Corpo fez da sua mineiridade um exemplo exímio de brasilidade. Foto do balé “21”.

 

Mais do que um grupo de dança contemporânea, é um coletivo de pessoas apaixonadas pela dança que, depois de pelejar um bocado, tornaram-se referência mundial no assunto.

É seguro falar que, dentre manifestações artísticas transformadoras, a força da dança se destaca (sem criar hierarquias) por expressar-se através do corpo e das sensações e sentidos. Mais seguro ainda é dizer que no cenário da dança contemporânea mineira, não há como não ter no Corpo um exemplo ambíguo, de audácia e inovação que mantem suas raízes e o respeito pela mineiridade astuta.

Pas de trois

Fundado em Belo Horizonte, em 1975, o Grupo Corpo é uma companhia de dança contemporânea, ao mesmo tempo em que é um grupo que festeja a música e o movimento. Não faltam histórias, marcos, conquistas. A trajetória, que completa 50 anos neste 2025, é extensa e por isso não permite compilações sem que haja lacunas. Cabe aqui a tentativa de evidenciar como esse grupo orgulha cada mineiro que o conhece. Como confirma Luis Fernando Verissimo no ensaio que escreveu para o livro “Oito ou Nove Ensaios” sobre o Corpo, organizado por Inês Bogéa, ex-bailarina da companhia e diretora da São Paulo Companhia de Dança: “Cada vez que vejo o Corpo me dá um orgulho danado de ser seu conterrâneo”. O livro apresenta as fotos de José Luiz Pederneiras e textos de vários artistas, teóricos e pesquisadores que dissertaram sobre o grupo, sua história e suas interdisciplinaridades.

Grupo Corpo

A primazia do movimento como delineador do tempo.

 

O Corpo (como o grupo, multidão, como aquilo que ocupa espaço e constitui, por fim, uma unidade) tem dentre seus principais realizadores os irmãos Rodrigo, Pedro Pederneiras e Miriam, e os amigos Carmen Purri e Cristina Castilho. Por ser assunto familiar, a primeira sede foi a própria casa onde os irmãos nasceram, no bairro da Serra, em Belo Horizonte. Os pais, Manuel de Carvalho Barbosa e Isabel Pederneiras Barbosa, acabaram por ceder o local, afinal, pesava ali o sonho não de um, mas de três filhos, como num pas de troix (dança de três). Com o tempo ficou fácil justificar o empreendimento, mais até pelo retorno pessoal do que pelo merecido retorno financeiro. O movimento inicial foi do Paulo, hoje Diretor Artístico da companhia: “A Mirinha e o Rodrigo já estavam envolvidos com a Marilene, que tinha um grupo de dança, o “Transforma”, ligado ao Colégio Arnaldo. Faziam um trabalho experimental de iluminação e artes plásticas e me interessei. Mas todos queriam se profissionalizar. Propus que criássemos uma companhia para vivermos da dança”, conta Paulo. Já Rodrigo e Miriam iniciaram como dançarinos, sem saber ainda o que o futuro os reservava.

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O mineiro, o Brasil, o mundo passaram a dialogar entre si nas obras dos irmãos Pederneiras. Na foto, o balé Lecuona.

 

Maria, Maria

O primeiro espetáculo foi “Maria Maria”, com estreia em primeiro de abril de 1976, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Porém, a trajetória começara muito antes. Rodrigo Pederneiras, que viria a ser o coreógrafo do grupo, conta no livro “Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo”, da Coleção Aplauso, como foi conquistado pelo balé após assistir a um espetáculo da sua irmã, a Mirinha. A certeza da paixão não deixava dúvidas: queria dançar. Difícil seria, nos anos 70, como homem, escolher a profissão de dançarino numa capital ainda muito conservadora. Mas isso não o parou. No dia seguinte à apresentação, procurou a academia de dança do Colégio Arnaldo. Conquistou uma bolsa de estudo e se encontrou. Depois, em Buenos Aires, era a vez de encontrar um grande parceiro, por quem desistiria do vestibular para dançar no grupo do argentino Oscar Araiz. Seus pais entenderiam o porquê alguns anos depois.

De Buenos Aires veio o aprendizado, a inspiração e também parte dos responsáveis pela criação de “Maria Maria”, todos da equipe do Oscar Araiz, responsável este pela coreografia. “A intenção para nossa estreia era criar um grande balé, uma superprodução que causasse impacto. Sabíamos que precisávamos de algo que marcasse a nossa chegada e decidimos convidar uma equipe de peso”, afirma Rodrigo.

Grupo Corpo

O Corpo se move, ora com cautela, ora com ímpeto, mas sempre com precisão. Foto do balé “o Corpo”,

 

Assim fizeram: a mineiridade ficou por conta de Fernando Brant, criador do roteiro e dos textos e, é claro, de Milton Nascimento, que logo abraçou o projeto. Paulo é enfático ao falar sobre a importância de ter esse trio de peso logo na estreia do grupo: “A produção foi bem pretenciosa, já com música composta, mas gosto de frisar sempre que foi a generosidade de Fernando, Milton e Oscar que tornou isso possível, eles já eram conhecidos e nosso primeiro sucesso deve-se muito a eles.”

As canções compostas marcaram a música popular brasileira. Músicas que deram o pontapé para um balé que ousaria, no futuro, misturar o popular com erudito, o regional com o global, o passado com a contemporaneidade.

Fórmula de sucesso

O roteiro de “Maria, Maria” fala de uma menina de infância vivida nas margens do Jequitinhonha, que aos quatorzes anos se casa com um homem que lhe dava doces em troca de filhos. Uma Maria como tantas Marias do Brasil, mas que enviuvou cedo e descobriu que existia um mundo além. Uma narrativa popular e contestadora que ganhou coreografia e som, num espetáculo cheio de vozes, movimentos e brasilidades. Deu certo. Na estreia, teatro lotado. O sucesso veio representado em turnês internacionais e repercussões retumbantes. Jovens que desbravaram o mundo com a dança. Carmem Purri, conhecida como Macau, tinha apenas 18 anos quando foi convidada por Paulo para fazer parte do grupo como bailarina. Entrou, portanto, na maioridade, através da arte. “Estreamos o espetáculo Maria Maria com enorme sucesso, o que acabou definindo a trajetória de vida de vários de nós. Eu não tive dúvidas que era aquilo que queria fazer naquele momento.” Depois, Macau se tornou assistente de coreografia.

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A sensualidade cubana apaixonante de “Lecuona” de 2004.

 

Porém, apesar do excelente resultado, Rodrigo conta que por muito tempo a sua principal lembrança da estreia foi um grande tombo que levou no palco. Mal sabia que da queda daria um enorme salto.

Ocorre que estavam no começo de uma empreitada audaciosa e para sobreviver realizavam longas turnês com o grupo.  Aconteceu que “Maria Maria” acabou por tornar-se um nome mais forte do que o do Grupo Corpo, e perceberam ser preciso um novo e marcante espetáculo, que encantasse públicos e atraísse empresários. A próxima produção de grande repercussão, novamente com a coreografia de Araiz, foi “O último Trem”, de 1980. A trilha sonora manteve a fórmula de sucesso — com composições inéditas de Milton Nascimento e Fernando Brant.

O momento era de supremacia do governo militar que decretou, em 1966, a desativação da estrada de ferro que ligava Minas Gerais ao porto, ao mar. Distritos e municípios que viviam em função da ferrovia foram abandonados. O espetáculo veio como um lírico e marcante protesto, além de um importante registro histórico.

Ambos os espetáculos apresentavam uma tendência que seria, um dia, distante da estética explorada pelo Corpo. Todavia, já era nítida a preocupação com a originalidade, seja na relação da música com a coreografia, na cadência tão particular ou na força instigante dos pa de deux (dança de dois).

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Rock and roll de Noites Brancas: enérgico, dinâmico, intenso.

 

Caminhando por conta própria

A fase seguinte marca os primeiros passos de Rodrigo como coreógrafo. Certamente ele aprendeu a caminhar depressa. “Cantares”, de 1978, criado entre “Maria Maria” e “O Último Trem”, foi seu primeiro solo, ainda pouco conhecido. Em seguida, outras cinco coreografias: “Tríptico” e “Interânea” de 1981; “Noturno” e “Reflexos” de 1982; e “Sonata” de 1984. Mas seu grande salto foi dado com “Prelúdios”, quando o antes bailarino provou que o acidente no primeiro espetáculo era, na verdade, um prenúncio de novos e bem-sucedidos caminhos.

“Maria Maria” tornava-se um passado feliz. “Prelúdios” foi aplaudido de pé no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O balé, inspirado nos 24 prelúdios de Chopin, foi interpretado pelo pianista mineiro (como deveria ser) Nelson Freire. Era balé, era clássico, e era contemporâneo. Era universal, mas era brasileiro. Ao fim, a cortina fechou para abrir o novo futuro da companhia. Eles eram, mais do que nunca, o Grupo Corpo.

Nos anos seguintes começariam a desenvolver um idioma próprio. Uma nova sintaxe condicionada somente ao corpo que entrava para essa grande família. O clássico daria lugar ao samba, ao tango, às onomatopeias musicais, à percussão. O grupo mineiro passou a aventurar-se, cada vez mais, na abstração, deixando o enredo perder a linearidade e a cronologia da narrativa. A primazia era do movimento e do som como delineadores do tempo.

Todo ganho era investido na equipe e na sede. Foi preciso trabalho duro e muita, muita criatividade. O patrocínio da Shell, em 1989, possibilitou uma criação mais tranquila e estável. Em 2000, a Petrobras tornar-se-ia o grande apoiador cultural e financeiro do Corpo. Esses patrocínios permitiram ao grupo convidar artistas para compor canções exclusivas, tornando una a ligação coreografia e som.

Para um grupo de dança contemporânea no Brasil e em Minas, tais apoios são a garantia de uma liberdade criativa com possibilidades de ousadia. Sem dúvidas, um direito conquistado. “Sou livre para dançar, para amar, para criar meus filhos. Sou livre, mas não me deram este direito, eu é que conquistei”. (Trecho do roteiro de Fernando Brant, do espetáculo “Maria Maria”).

Grupo Corpo.

Dança Sinfônica: o passado e o presente conversam mais uma vez.

 

Passos bem planejados

No livro “Oito ou Nove Ensaios Sobre o Grupo Corpo” o artista plástico, mestre em filosofia e doutor em artes Marco Giannotti, descreve e analisa as diferenças entre o clássico e o barroco tendo como base os espetáculos do Corpo. Sobre a estética do grupo ele diz que “a sua qualidade não pode ser medida por conceitos tão estranhos ao mundo moderno. Mas não deixa de ser interessante resgatar alguns conceitos do passado que parecem se fundir e até se diluir no mundo contemporâneo e que permanecem de alguma forma presentes como referências da nossa percepção.”

Passado contemporizado em “Missa do Orfanato”, de 1989, que teve como trilha sonora a Missa Solemnis k.139, de Mozart. Dentre as novidades, a estreia de Freusa Zechmeister como figurinista. Responsabilidade que não mais largaria e que executaria sempre de modo harmônico à luz, som, movimento e cenário.

O espetáculo pesa, comove. Os bailarinos em figurinos camuflam-se no palco com seus cabelos desgrenhados a caminho da missa, enquanto batem os pés no chão anunciando o peso da vida. Deus parece estar presente na luz branca que se mescla com a coloração do cenário, cor de terra, barro, pintado pelo artista plástico Fernando Velloso. Os braços e o olhar estão dirigidos ao alto, a algo maior, como se clamassem as divindades, mas fica a impressão de que alguma força opressora contrai os ombros dos bailarinos e os jogam ao chão, insistentemente. O contexto era aquele da ditadura militar. Sendo assim, a mineiridade barroca e religiosa atualizam-se ao retratarem uma opressão descarada.

Grupo Corpo.

O Corpo se move, ora com cautela, ora com ímpeto, mas sempre com precisão. Na foto, o balé Imã.

 

Rodrigo conta, ainda no livro Aplauso, sobre a reação do seu pai, católico praticante, ao assistir o espetáculo: “(o pai) tinha receio do que pudesse realizar ao levar uma missa aos palcos. Estava mexendo em algo que para ele é sagrado. No dia da apresentação em Belo Horizonte, sentou-se na plateia para assistir e, pela primeira vez na vida, o vi chorar. Quando terminou, me abraçou e senti algo tão especial que até hoje não tenho palavras para descrever.” Não é difícil deduzir que este não foi um choro individual. O espetáculo foi um sucesso de público e uma curva acentuada na trajetória do grupo. Reencenado 15 anos depois, em 2006, quando foi comemorado os 250 anos do nascimento compositor austríaco, despertou as mesmas emoções perturbadoras.

O erudito e o popular

É em Nazareth, de 1993, que o erudito e o popular se unem com maior força. O trabalho resulta do entrelaçamento de características da obra de Machado de Assis (1839-1908) e de Ernesto Nazareth (1863-1934), grande colaborador da formação da música popular instrumental brasileira, que compunha, principalmente, ao piano. O desafio foi proposto — e cumprido pelo também compositor, músico e crítico literário José Miguel Wisnik, outro grande representante da música popular.

A referência machadiana veio de “Esaú e Jacó”. No romance a personagem Flora toca uma sonata ao piano. O momento histórico e presente do texto é a queda da monarquia, acontecimento que parece transmutar-se na música de Flora, como uma sensação de caos, de desordem. Um momento de não poder que levará a alguma mudança significativa. Algo parecido com o marco que a “Missa do Orfanato” representa para todo o Grupo Corpo.

Em artigo escrito para a Folha de São Paulo, em 07 de novembro de 2004, Wisnik afirma o caráter híbrido da sua trilha, que tem perfeita sintonia com o grupo. “Havia esse cruzamento, então, de erudito e popular em Nazareth. E o grupo Corpo também estava no mesmo processo. Eles começaram fazendo, vamos dizer, espetáculos de natureza mineira: “Maria, Maria” (com música de Milton Nascimento) e “O Último Trem”. Depois passaram um período fazendo peças clássicas européias e estavam então voltando — em 1992, quando eu os conheci — para a música brasileira, a música contemporânea brasileira, com “21”’.

Grupo Corpo.

Cada fase foi essencial para a construção do que a companhia se tornou.

 

O espetáculo “21”, cuja estreia foi em 92, anterior à “Nazareth” instaurou uma nova linguagem na coreografia do grupo, a qual perdura. A dança passou a se mostrar para além do tato e movimento. Assistir ao espetáculo é ouvir, ver, sentir, excitar-se e emocionar-se. As cores são das festas de rua, de São João, da chita do baião, do congado. São listras, flores, verde limão, rosa choque, vermelho batom. A presença do popular mineiro é evocada no figurino e cenário, entretanto, funde-se numa mistura que parece mais cosmopolita do que regional. Ali, os sentidos se exaltam e se unem num sentimento só, enquanto escutam o som envolvente, artesanal e único, da composição do músico Marco Antônio Guimarães, do grupo mineiro Uakiti — parceria que perduraria até a comemoração de 40 anos do Corpo. A quebra dos quadris, o entra e sai da cena, a comunhão som e corpo, a sensualidade aliada à música instrumental, são todos elementos estranhamente comuns e inovadores. Por fim, em “21”, há uma síntese de peso do que consiste a companhia desde então.

O clássico, o barroco, o religioso, o mineiro, o Brasil, o mundo passaram a dialogar entre si, cada vez mais, nas obras dos irmãos Perderneiras. Isso ajuda a explicar o desafio de falar sobre esse grupo, sem poder revisitar cada momento da sua trajetória. Não há passos em falso: o Corpo se move, ora com cautela, ora com ímpeto, mas sempre com precisão. Cada fase foi essencial para a construção do que a companhia se tornou.

Grupo Corpo.

O balé Gira.

 

Por um triz

As grandes estreias e longas turnês viraram rotina. Tornou-se comum ao belorizontino aguardar o dia de ir ao Palácio das Artes, curioso sobre o novo espetáculo e ansioso para rever algum já aplaudido. Revisitá-los desperta sempre novas sensações, seja qual for a obra apresentada: “Bach”, de 1996, com a música de Marco Antonio Guimarães e um cenário quase futurista; a africanidade de “Benguelê”, na voz instrumento de João Bosco, de 1998; a sensualidade cubana apaixonante de “Lecuona” de 2004; ou o ritmo de “Onqotô”, de 2005, que, apesar do título mineiro, ganhou brasilidades diversas na voz e composição de Wisnik e Caetano.

Todavia, a história começa sempre muito antes da estreia e envolve pessoas, interessados, entusiastas e, é claro, bailarinos mais do que dedicados. Prontos, inclusive, para colaborar quando o coreógrafo rompe o menisco do joelho esquerdo, bem na preparação do que dizem ter sido o balé mais difícil dançado pela companhia. “Triz”, cuja música e coreografia inspiraram-se no mito grego de Dâmocles (que por ordem de Dioniso tem sobre a cabeça uma espada suspensa por um tênue fio). A trilha é do pernambucano Lenine —  que fez sua primeira parceria com a companhia em 2007, no espetáculo “Breu” — e privilegia os instrumentos de corda, com destaque para a rabeca do violinista francês Nicolas Krassik. Entre fios e cordas, foi por pouco, mas esse pouco foi mais do que o suficiente para render muitos aplausos.

Grupo Corpo.

O balé Primavera.

 

Sempre cabe mais um

Antes de se unirem através do Corpo, os irmãos seguiam seus próprios caminhos profissionais. Rodrigo desistiu do vestibular para dedicar-se à dança. José Luiz, o mais velho, chegou a graduar-se em medicina; já Pedro conquistou o bacharelado em engenharia. As irmãs desde sempre abraçaram as artes e reencaminharam os irmãos. Foi Paulo o grande influenciado que largou a arquitetura e enveredou-se pelo teatro, onde debutou em 1975. Hoje, ele é Diretor Artístico da companhia, responsável pela luz dos espetáculos e participa da criação dos cenários. Há um consenso sobre sua gestão cuidadosa, a qual garante a unidade dessa comunidade tão unida.

Trabalho que envolve unir todo o processo criativo e encontrar o conceito, a identidade do espetáculo. “Eu vejo o caminho que foi proposto pela Freusa, pelo Rodrigo e tento encontrar uma união de tudo, um conceito do espetáculo. Só depois de tudo pronto que o tema, o conceito final, o título são criados.”

São mais de cinquenta pessoas na equipe. Cada um tem a sua função, mas todos olham por todos. Além de Rodrigo, do núcleo inicial permanecem os ex-bailarinos e irmãos Pedro e Míriam Pederneiras, Carmen Purri (Macau), Cristina Castilho e Fernando de Castro. Também fizeram história na equipe o artista plástico Fernando Velloso e Freusa Zechmeister, que participaram ativamente do núcleo de criação. Freusa faleceu em dezembro de 2024.

Grupo Corpo.

O balé Gil Refazendo.

 

O corpo muda com a vida, a vida muda com o corpo

Com os 40 anos, novas mudanças. Depois de anos tendo Rodrigo como o condutor de todo o processo criativo das coreografias, Cassi Abranches, ex-bailarina, abriu os caminhos de uma nova década com o espetáculo “Suíte Branca”. Uma escolha segura. Cassi entrou na companhia na montagem de “Santagustin”, em 2001. Veio de São Paulo com o objetivo de ser bailarina do Corpo: meta cumprida. Quatorze anos depois é a convidada para preencher uma página em branco. Para iniciar um novo capítulo, o qual é precedido de muitas histórias que não clamam por um fim — o que se espera é um clímax.

Para preencher a página foram escolhidas não as cores de “Prelúdios”, o escuro de “Breu”, ou terracota de “Missa do Orfanato”, mas o branco, a cor que reflete todas as outras. A trilha foi composta por Samuel Rosa e executada pelo Skank. Um grupo mineiro tradicional, de grande sucesso no cenário musical, mas que não deixou de trazer a inovação. A composição de Samuel para a peça é mais rock and roll, menos balé. O resultado é enérgico, dinâmico, intenso. A resposta da trilha vem em movimentos iguais, numa angulação como a de um pêndulo que marca as horas, que anuncia um tempo que não para.

Grupo Corpo.

O balé Estância.

 

Porém, como é esperado, o passado e o presente conversam mais uma vez. A segunda coreografia desta data redonda é “Dança Sinfônica”, assinada por Rodrigo, o que evidencia ser esse momento não só uma transição, mas uma coexistência de épocas. Sua obra espia o passado, relembra todos que passaram pela companhia e tinge o palco de um vermelho barroco, sonorizado pela parceria sempre certeira com Marco Antônio Guimarães. O grupo musical Uakti, desta vez, gravou junto à Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Mineiríssima parceria, como era a intenção. Por fim, a leveza e a força da obra ganharam seu máximo com a bailarina Silvia Gaspar, que permanece quase todo o tempo no ar — como se o futuro tirasse os pés do chão e lançasse voo para novos sonhos.

O balé Piracema.

O balé Piracema.

 

A década 2015/2025

Neste ponto, aqui e agora, voltamos ao presente. Isso porque esta reportagem foi produzida no mês de agosto de 2025, especialmente criada para modestamente homenagear os 50 anos do Grupo Corpo.

Portanto, o próximo capítulo da saga da maior e mais importante companhia de dança contemporânea do Brasil se concentra nos balés que, literalmente, movimentaram os últimos 10 anos.

No ano de 2017, ao desvelar, mais uma vez, a inquietude que é peculiar à dança do Corpo — sem se preocupar, de certa forma, com a expectativa sempre crescente em torno de um novo trabalho por parte de todos que admiram o grupo — a trupe belo-horizontina simplesmente sacudiu o mundo da dança (incluindo o universo da própria companhia) por meio do emocionante espetáculo chamado Gira.

Grupo Corpo.

Gira: nos terreiros de umbanda o encantamento necessário para criar o balé.

 

O Grupo Corpo foi buscar nos terreiros de umbanda a transcendência necessária para criar Gira. Não à toa, no informe da companhia veio a explicação que está no dicionário: Gira, S.f.Bras[Do quimbundo njila, ‘giro’; do quicongonzila,‘caminho’]. Nos candomblés angola-congo e na umbanda, roda de fiéis em que se cultuam com cânticos e danças rituais, ger. girando em círculo, as entidades (‘seres espirituais’) do terreiro ou centro.

Mesmo que jira, enjira, canjira, corruptelas de Njila, Pambunzila, Bombojira, alguns dos nomes relacionados a Exu nos candomblés angola-congo.

Assim, os ritos da umbanda alimentaram todas as referências que inspiraram a estética cênica de Gira. Como pontua o Grupo Corpo, é Exu quem guia e atua como força propulsora ao espetáculo. A partir daí, entraram em cena onze temas musicais da trilha criada pela banda paulistana Metá, Metá (“três ao mesmo tempo”, em ioruba), com a participação muito especial de Elza Soares.

Rodrigo Pederneiras — com a luxuosa companhia dos parceiros Paulo Pederneiras, na cenografia; iluminação de Paulo e Gabriel Pederneiras e os figurinos de Freusa Zechneister — esculpiu uma extraordinária coreografia, na qual ele multiplicou todos os movimentos que caracterizam a originalidade da dança do Corpo.

É como explica a companhia: “riscadas por trios, duos ou solos brevíssimos, as formações de grupo (frequentemente em número de sete) serão recorrentes. Em uma trilha eminentemente rítmica, duas grandes respirações melódicas abrem espaço para a materialização de solos femininos imperiosos, dançados sobre a voz de instrumentos igualmente solitários”.

Foi assim, na homenagem a Exu — o mais humano dos orixás, o grande condutor dos cultos das religiões de matrizes africanas —, que o Grupo Corpo não só encantou com Gira como também alçou voos ainda mais altos na consagração definitiva da arte que apresenta ao mundo.

Grupo Corpo.

Primavera: cada elemento da companhia visto de maneira mais focada e mais íntima.

 

Primavera

Nos tristes tempos passados sob o jugo da pandemia, os bailarinos faziam aulas remotas e o Corpo embarcou nas “lives” das plataformas digitais utilizando-se da liberação de gravações de balés e à promoção de diversos eventos via internet. Diante daquela implacável realidade, Rodrigo Pederneiras teve a ideia de criar peças curtas para a internet e chamou o compositor Paulo Tati para discutir o projeto.

O amigo compositor então reuniu e mandou ao coreógrafo as músicas de “Palavra Cantada”, o consagrado espetáculo infantil criado por ele e por Sandra Peres, que na época marcava os 27 anos de carreira da dupla. Rodrigo selecionou 14 músicas e os dois compositores passaram a trabalhar em cima das músicas escolhidas.

Foram realizadas adaptações e remixagens que geraram estilos musicais que fluíam do jazz às percussões afro. A música infantil foi transportada para o universo adulto. Nascido na pandemia, como ressalta o Grupo Corpo, o  balé incorporou — e, de certo modo, abraçou — as interdições do momento. “Houve somente três pas-de-deux”, disse Rodrigo Pederneiras. “Só se tocavam os bailarinos que são casais, e viviam juntos. O restante do espetáculo se desenvolveu em duos, trios, quartetos e todos mantiveram distância entre si; houve somente uma cena com oito bailarinos”. Apesar do distanciamento físico entre os bailarinos, na avaliação do grupo, a sensação de proximidade ficou mais intensa — e os destaques individuais, mais constantes.

A ideia original de Rodrigo Pederneiras de criar peças curtas para a internet acabou por moldar a construção da cenografia. Paulo Pederneiras, diretor artístico e cenógrafo, explicou: “Quando vimos que havia ali um arco, um conceito, um espetáculo inteiro, eu já estava testando o uso de câmeras e decidi tirar partido dessa ideia”, esclareceu. “No espetáculo, posicionamos duas câmeras minúsculas à frente do palco, operadas da coxia, trabalhamos as projeções dos bailarinos em tempo real, projetadas numa tela de tule preto, atrás da cena”.  Foi a primeira vez que a companhia usou o recurso em seus espetáculos.

No figurino, assinado por Freusa Zechmeiste, destaque para as cores fortes —tons de amarelo, laranja, vermelho e verde — nos trajes das bailarinas e a vestimenta clássica e despojada dos homens nas calças pretas com corte social.

“Em Primavera, tivemos a chance de ver cada elemento da companhia de maneira mais focada, mais íntima”, resumiu Rodrigo. Na estreia do balé, em outubro de 2021, a compositora Sandra Peres declarou: “levar a nossa música para o universo adulto, com outro recorte, tem sido uma experiência fabulosa. É simplesmente um grande privilégio, é comovente ver o nosso trabalho vibrando, fisicamente, no balé do Grupo Corpo. Onde passamos a enxergar a música; ela se materializa”

Grupo Corpo.

Estância: balé com a Los Angeles Philharmonic e com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Maestros Gustavo Dudamel e Fábio Mechetti.

 

Estância

Mesmo vivenciando praticamente todas as possibilidades proporcionadas por uma trajetória de grande sucesso, além do óbvio reconhecimento do público e da crítica, o Corpo viveu uma experiência inédita no ano de 2023. Por meio do consagrado maestro venezuelano Gustavo Dudamel, a companhia mineira recebeu uma encomenda da Los Angeles Philharmonic, orquestra que tem Dudamel como regente titular e diretor artístico.

Rodrigo Pederneiras criou a coreografia sobre a música de Estância, do compositor Alberto Ginastera (1916-1983), um dos compositores favoritos de Gustavo Dudamel, cuja obra está sempre presente nos concertos da Orquestra Filarmônica de Los Angeles. Conforme explica a companhia, Rodrigo “engendrou uma coreografia que alterna conjuntos e grupos menores transformando em desafio bem-sucedido a limitação de espaço no palco pela presença da orquestra. Toda a companhia dança, os 21 bailarinos, com cenas de tutti e também solos, pas-de-deux e grupos menores”. Assinados por Janaina Castro, “os figurinos  evocam as cores da terra e as formas emblemáticas da cultura dos Pampas, como os ponchos”.

Para Paulo Pederneiras, “é uma alegria constatar o reconhecimento do nosso trabalho por um dos mais importantes regentes da atualidade e uma das maiores orquestras do mundo”. A sequência do balé no Brasil veio no encontro com a Filarmônica de Minas Gerais. Foram apresentados três espetáculos em Belo Horizonte, no histórico primeiro encontro do Corpo e da Filarmônica — tendo como palco a bela Sala Minas Gerais.

É verdade que Filarmônica e Corpo já estiveram juntos em estúdio, no ano de 2015, momento em que a companhia comemorava 40 anos. A orquestra gravou Dança Sinfônica, criada por Marco Antônio Guimarães.

Na época da apresentação de Estância, em agosto de 2023, o maestro Fábio Mechetti — diretor artístico e regente titular — afirmou: “para exaltar ainda mais a celebração dos 15 anos da Filarmônica, nos unimos a um dos maiores patrimônios culturais mineiros, em sua seriedade e excelência do trabalho — e da penetração que esse trabalho tem tanto em Minas quanto no exterior. A riqueza artística da soma de música e dança transforma positivamente nossa sociedade.”

Grupo Corpo.

Gil Refazendo: ideia de um renascimento, de um refazer, replantar, reconstruir.

 

Gil Refazendo

A partir de uma primeira trilha criada em 2019 por ninguém menos do que o monstro sagrado Gilberto Gil — que ganhou uma “primeira tradução cênica” , como disse a companhia, no balé Gil — . três anos depois (com a pandemia no meio de tudo), a música de Gil ressurgiu no palco.

Como explica a companhia, a trilha voltou “em uma nova encarnação, no espírito de renovar, reconstruir, rever, reviver. Refazer”. O balé, todo reconstruído, não por acaso ganhou um novo nome, Gil Refazendo. Paulo Pederneiras então declarou: “não é somente uma nova coreografia: é um novo espetáculo. Embarcamos na ideia de um renascimento, de um refazer, replantar, reconstruir”.

Rodrigo Pederneiras disse que “a música é como um rio caudaloso, de correnteza forte”, e que por isso a trilha conduz um espetáculo de alta intensidade. “Entrei nessa dinâmica, com grupos grandes em cena, em vez da prevalência de duos e trios. E não há chão — é uma energia que sobe”.

Vestidos de linho em tom cru, os bailarinos dançaram sob uma luz branca e desvelaram em cena variações “retrabalhadas” de canções clássicas como “Aquele Abraço”, “Realce”, “Tempo Rei”, “Andar com Fé”, “Toda Menina Baiana”, “Sítio do Pica-Pau Amarelo” e “Raça Humana”. Gilberto Gil definiu quatro temáticas, ou quatro ambientes musicais: um choro instrumental; uma abordagem camerística (com inspiração “em Brahms ou Satie”, aponta ele); um terceiro momento de liberdade improvisadora e, finalmente, uma construção abstrata baseada em figuras geométricas. “Círculo, triângulo, retângulo, pentágono, a volta ao círculo e finalmente a dissolução numa linha reta”, como explicou Gil.

Paulo Pederneiras sintetizou o significado de Gil Refazendo: “embarcamos na ideia de um renascimento, de um refazer, replantar, reconstruir. Gilberto Gil, com sua metafísica, suas ideias e a fundamental militância em prol do meio-ambiente se tornou uma perfeita tradução da necessidade de reconstruirmos o que foi arrasado, pôr de pé novamente o que desandou”. Além do mais, o Corpo ainda homenageou Gil pelos 80 anos de vida completados justamente no ano de 2022.

Grupo Corpo.

Piracema: no ano de seu cinquentenário, o Grupo Corpo escolheu o fenômeno da piracema como símbolo de sua trajetória.

 

Piracema

Piracema — cuja apresentação em Belo Horizonte — entre os dias 27 e 31 de agosto no Palácio das Artes — arrebatou o público. Não é nenhuma novidade, muito pelo contrário, o público belo-horizontino sair extasiado do Grande Teatro do Palácio das Artes. A emoção proporcionada por Piracema teve como coadjuvante luxuoso o balé Parabelo, de 1997, com trilha de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik.

A companhia explica o atual espetáculo lembrando que o Tupi “pira” (peixe) e “cema” (subir) formou a linda palavra que dá nome ao balé comemorativo do meio século de existência do Corpo. ‘Arribação de peixes em grandes cardumes. Movimento migratório de peixes no sentido das nascentes dos rios, com fins de reprodução’, explica o dicionário.

O Corpo então arremata: “O peixe sobe a correnteza do rio, numa dura jornada, para chegar ao local da desova. Contra a força da corrente, contra os obstáculos, vence a urgência de criar e recomeçar o ciclo da vida. No ano de seu cinquentenário, o Grupo Corpo escolheu o fenômeno da piracema como símbolo de sua trajetória — uma viagem movida pelo irresistível desejo de criar, recriar e resistir, em sua brasilidade profunda e incontestável que deságua na linguagem universal da grande arte.”

Na trilha, surge mais uma grande novidade: as músicas foram compostas por Clarice Assad, a primeira mulher a compor uma trilha para a companhia. “Foi minha primeira trilha, e logo com o gigantesco Grupo Corpo, de quem sou absolutamente fã”, disse ela. “Honrada e lisonjeada. Encaramos juntos um processo maravilhoso, que me ensinou muito”.

No embalo dessa trilha — que também contou com a participação do violinista Sérgio Assad, pai de Clarice — houve, segundo o Corpo, mais uma “inovação radical no método de trabalho dos dois criadores”, os coreógrafos Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches — que agora é coreógrafa residente da trupe. A partir de uma proposta do diretor artístico Paulo Pederneiras, a companhia foi dividida em dois grupos de 11 bailarinos, e cada um dos coreógrafos criou e ensaiou independentemente todo o balé, para depois reunir e combinar as duas versões. Um detalhe importante: foram estabelecidos limites rígidos nos processos de trabalho, pois um grupo não pôde saber de absolutamente nada do que acontecia nos ensaios do outro.

“Nossas duas visões se completam. Foi uma experiência riquíssima”, disse Rodrigo. “Deu um frio na barriga, mas topamos a proposta do Paulo e a dança cumpriu seu papel integrador”, completou Cassi.

A cenografia de Piracema é assinada por Paulo e a iluminação por ele e por Gabriel Pederneiras. Novidades também nos figurinos: assinados pela dupla de designers Alva, formada pelos irmãos Susana Bastos, artista e estilista, e Marcelo Alvarenga, arquiteto.

O fato é que Piracema é mais uma obra de puro encantamento da companhia de Belo Horizonte. Mais uma vez, esse balé certamente vai ganhar o mundo, emocionando diferentes pessoas e culturas. Um depoimento de Clarice Assad resume o significado de mais uma obra histórica (afinal, são 50 anos de gloriosa existência) do Grupo Corpo: “no final das contas, foi um quebra-cabeças que o Corpo e eu montamos lado a lado, criando um panorama de evolução, mudança e revolução do mundo. E ainda não sabemos se caminhamos para uma utopia ou uma distopia. Mas o poder regenerativo da arte é real”.

 

Grupo Corpo.

A casa do Grupo Corpo é Belo Horizonte. Minas. O chão, a raiz de onde saem ideias que irão ganhar o mundo.

 

Trabalho colaborativo

Os bailarinos suportam rotinas pesadas de ensaios, além de inúmeras viagens nacionais e internacionais, porém a leveza vem da união entre todos da companhia. O familiar existe, mas não apenas pautado por um sobrenome. O trabalho é colaborativo, não há solidão. Dança, música, luz, figurino, cenário, tudo se integra nas criações.

Em 50 anos de estrada, é perfeitamente possível resumir assim essa história: cabe ao Paulo tecer as redes que firmam essa unidade e iluminá-la. Ao Rodrigo fica a tarefa de encontrar as formas como se dará a caminhada, enquanto Pedro preocupava-se com os detalhes que cabem ao diretor técnico — atualmente sob a natuta de Gabriel que também brilha nas luzes. Freusa sempre deu unidade e identidade às vestes de tribos que se criaram e se revelaram nos diferentes cenários pintados por Fernando Velloso. Imagens que, por sua vez, são cuidadosamente eternizadas na magistral fotografia de Zé Luiz. Já Mirinha, depois de muito dançar, coordena o projeto “Corpo Cidadão”, que une dança e cidadania, abrindo espaço para moradores da periferia de Belo Horizonte. Por fim, os bailarinos, que traduzem todo esse trabalho através do movimento e das coreografias que chegam como pancadas ou afagos aos nossos olhos.

Sem falar nos músicos que são, sem dúvidas, integrantes cruciais da família, os quais ganham total liberdade em suas criações. Compositores nacionais de peso que acompanharam e acompanham o grupo, como João Bosco, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Samuel Rosa, Wisnik, Analdo Antunes, Uakti e Tom Zé.

Seja pela talentosa equipe artística ou pelos insistentes e competentes Pederneiras, o Grupo Corpo enche de orgulho o belo-horizontino, o mineiro e, por que não, o brasileiro espectador.

A criação de Rodrigo envolve, propositalmente, recortes técnicos e memórias afetivas. Comemora cada ato da companhia e mostra como o grupo é capaz de manter suas raízes mineiras e ainda ser inovador e cosmopolita. Mário de Andrade acreditava que o barroco mineiro era expressão nacional, por ser uma proposta de abrasileiramento do barroco europeu. Assim é o Corpo, patrimônio brasileiro que vem de Minas, com o qual os mineiros orgulhosamente se identificam.

Uma coisa é certa. A casa do Grupo Corpo é Belo Horizonte. Minas. O chão, a raiz de onde saem ideias que irão ganhar o mundo. “Não criamos quando estamos em turnês. O lugar da criação é em BH, em casa, onde podemos concentrar”, afirma Paulo.

Nesse sentido, eles terão sempre um pouco de “Maria Maria”, que acaba por descobrir que seu lugar é o mundo. Essa universalidade que parte do local persiste e parece estar ainda mais latente nos 50 anos de vida do grupo. Quando se evidencia o exemplo perfeito de mineiros que entenderam, atenderam, tomaram tento, avançaram, pelejaram, até que foram lá e fizeram, muito bem-feito, por sinal

 

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