Catas Altas de muitos encantos

 

Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

A paisagem inebriante da Serra do Caraça combinada com o rico patrimônio histórico conservado — como a Matriz de Nossa Senhora da Conceição —, além dos belos recantos naturais ao redor, fazem de Catas Altas um destino turístico repleto de atrativos.

Por Cezar Félix (texto e fotos)

Ao chegar na praça central de Catas Altas (a 120 km de Belo Horizonte) é quase impossível não se encantar com a paisagem que se abre aos olhos. Cercada por construções coloniais, um casario colorido ainda bem conservado e, ao centro, a imponente beleza da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a ampla praça, de nome Monsenhor Mendes, fica defronte à imensa Serra do Caraça — de onde desponta em uma vista inebriante o Pico Catas Altas, também chamado de Pico dos Horizontes, com 1.810 metros de altura.

A cidade conserva um belo casario colonial. Ao fundo, o Pico Catas Altas, na Serra do Caraça.

Das casas da praça, vale a pena apreciar os prédios da sede da prefeitura e o Casarão do Dr. Moreira, utilizado como um local para eventos e exposições de arte e artesanato. O primeiro prédio, restaurado exatamente para abrigar a Prefeitura Municipal de Catas Altas, é do século XVIII, e pertenceu ao português Domingos Vieira da Silva, conhecido por ter sido o dono das valiosas minas de ouro conhecidas como Pitangui, Bananal e Boa Vista. Já o casarão foi erguido no início do século XX sobre as fundações de um antigo imóvel do século XVIII. Há ainda o Solar dos Emery, hoje a sede da Secretaria de Turismo, lugar que hospedou, em 1867, Richard Francis Burton, o legendário explorador e geógrafo inglês, que também era linguista, poeta e antropólogo.

Uma família aproveita a tranquilidade da praça. Ao fundo, à direita, o Casarão do Dr. Moreira.

Há ainda no entorno da praça, agradáveis bares e restaurantes onde é possível consumir diferentes petiscos regados a cerveja gelada ou a outras bebidas como o tradicionalíssimo vinho de jabuticaba produzido na cidade. São muito boas também as opções para almoço ou jantar com os pratos da gastronomia mineira. Porém, o melhor mesmo é ficar algumas horas sentado, bebericando e saboreando algo, apenas para usufruir do delicioso clima e da beleza da paisagem ao redor.

Uma vista da pequena cidade histórica.

Matriz de Nossa Senhora da Conceição

O principal destaque da bela Catas Altas é a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, consagrado como um dos mais importantes templos de Minas Gerais. A história da igreja traduz os acontecimentos que levaram ao surgimento de Catas (minas ou garimpos e escavações no alto do morro) Altas, cujos primeiros vestígios de população se deram ao redor das minas de ouro da Serra do Caraça, pois as atividades minerárias foram iniciadas em 1708. Quatro anos depois, em 1712, ocorreu o   primeiro registro de batismo celebrado na antiga Matriz de Nossa Senhora de Conceição, um importante documento histórico, pois ele comprova que uma primitiva igreja já existia.

Matriz de Nossa Senhora da Conceição, é um dos mais importantes templos de Minas Gerais.

Porém, consta que foi o bandeirante português Domingos Borges que fundou o primeiro arraial, em 1703, após descobrir preciosas minas de ouro, um ano antes, na encosta leste da Serra do Caraça. Em 1718, o lugar foi nomeado como Freguesia Nossa Senhora da Conceição das Catas Altas e, em 1724, já com o nome de Catas Altas do Mato Dentro, aconteceu a nomeação do primeiro vigário.

Noite de missa na Matriz.

Em 1729, iniciou-se a construção da Matriz de Nossa Senhora da Conceição. As obras continuaram até o ano de 1780 e ainda nos dias de hoje encontram-se inacabadas. É preciso informar, todavia, que trata-se de um dos mais importantes templos mineiros e uma das raras igrejas mineiras em que é possível determinar a data de fundação dela, pois consta de uma notícia inserida no Códice Matoso — que é a coleção das notícias dos primeiros descobrimentos das minas na América de autoria de Caetano da Costa Matoso, que foi ouvidor-geral em Ouro Preto — informando que em 1739 realizou-se o translado do Santíssimo Sacramento para a “nova matriz, que hoje existe”. (1750).

O altar-mór e a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Por meio de importantes documentos preservados, tornou-se possível registrar que grandes artistas, dentre entalhadores, escultores e pintores, trabalharam na construção da igreja — nomes conhecidos, grandes expressões da arte barroca como os portugueses Francisco Xavier de Brito  e Francisco Vieira Servas. Os dois compatriotas são reconhecidos por notáveis trabalhos nas igrejas mineiras. Xavier de Brito assinou belas obras em Ouro Preto e Mariana, enquanto Servas se destacou pelos entalhes da Igreja do Carmo de Sabará e das esculturas do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas. Há ainda a participação dos legendários Aleijadinho e Mestre Ataíde.

O Cristo Crucificado que está no trono da Matriz é atribuído ao gênio Aleijadinho.

Obras de arte inacabadas

O Cristo Crucificado que está no trono da Matriz é atribuído ao gênio Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, assim como o púlpito em madeira talhada do altar que fica à direita. De Ataíde, consta que são dele as pinturas dos quatro doutores da Igreja, localizadas acima das portas que levam ao interior da matriz.

O interior do da igreja revela três diferentes fases de construção e nota-se que as obras estão inacabadas.

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição foi erguida em pedra, taipa e madeira. Conta com duas torres sineiras, três portas externas almofadadas — com janelas envidraçadas em cima de cada uma delas —, e um óculo cruciforme na fachada. A simplicidade da arquitetura é uma característica do rococó de Minas Gerais.

Um dos altares laterais.

O interior do templo, ao contrário, revela uma grande riqueza, principalmente porque desvela três diferentes fases de construção e nota-se que as obras estão inacabadas. A ornamentação da Matriz  atravessou quase todo XVIII, o que está nitidamente representado dentro da igreja. Por isso, há preciosos detalhes em talha dourada por todos os cantos dela, assim como pinturas e ornamentações na madeira. O retábulo do altar-mor foi decorado com fundo branco e frisos dourados, embora haja um registro de que em 1821 ele não tinha nenhuma pintura. Ao pé do trono está Nossa Senhora da Conceição sendo coroada pela Santíssima Trindade.

Detalhes preciosos da bela ornamentação.

Dois imensos altares ladeiam o arco cruzeiro. Destacam-se as colunas e os nichos laterais do altar que fica à esquerda. No da direita, em formato de um grande oratório, está a incrível e original imagem do Cristo Crucificado. Nos outros quatro altares da nave, destacam se as imagens das águias que parecem alçar voo pelo alto do retábulo.

Por fim, a igreja apresenta acabamentos desiguais no seu revestimento em madeira. Uma parte dela tem a madeira policromada, outra está ao natural e em uma outra parte a madeira está pintada de branco.

A igreja apresenta acabamentos desiguais: uma parte dela tem a madeira policromada, outra está ao natural e em uma outra parte a madeira está pintada.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição é um monumento tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1939. O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA – MG) sacramentou o tombamento em 1989. Trata-se de “um exímio exemplar da segunda fase do barroco” como informa a instituição, “que permanece com seu interior inacabado, devido a escassez do ouro, possibilitando aos visitantes conhecerem as etapas de construção e a policromia, tornando-se um dos mais importantes do Brasil neste estilo”.

Casa que guarda a memória de uma cidade que surgiu em 1703.

Abundantes reservas de ferro

A linha do tempo da história de Catas Altas do Mato Dentro também registra a dramática decadência da mineração aurífera. O arraial, nos primórdios do século XIX, era formado por cerca de 200 casas erguidas em duas ruas. Os últimos resquícios da mineração resistiam nas  lavras do Capitão-Mor Inocêncio. Porém, foi justamente nessa época que começou a surgir a outra vocação minerária da região. O naturalista francês Auguste de Saint Hilaire, em visita realizada no ano de 1816, percebeu as abundantes reservas de ferro na Serra do Caraça e orientou Inocêncio a substituir a exploração do ouro pela do ferro. É preciso registrar que também passaram por Catas Altas os cientistas alemães Spix e Martius, o austríaco Joahn Emanuel Pohl, e o já citado  Richard Burton.

Capela de Santa Quitéria, entre as nuvens: datada do século XVIII, tem essa bela imagem que simboliza todas as Minas Gerais.

Outra importante personalidade que fez história em Catas Altas foi o padre português Monsenhor Manoel Mendes Pereira de Vasconcelos, que viveu na então freguesia entre os anos de 1878 e 1913 — período marcado como o auge da decadência da mineração aurífera. O Monsenhor, alarmado pela crescente pobreza da população, passou a ensinar técnicas para a incrementar a agricultura   e ainda orientou o cultivo de videiras até chegar à fabricação do vinho. Os vinhos locais fizeram fama no início do século XX e trouxe novas perspectivas de sustento à população.

Casa no distrito do Morro da Água Quente.

Vinho de jabuticaba

O mais impressionante é que esse legado das vinícolas locais gerou o vinho de jabuticaba, fabricado pela primeira vez em 1949, obra do fazendeiro Anastácio Antônio de Souza. A bebida tornou-se uma tradição em Catas Altas e atualmente existe até uma associação de produtores, a  APROVART – Associação dos Produtores de Vinho, Agricultores familiares e Outros Produtos Artesanais de Catas Altas. Desde o ano de 2001, ela promove a “Festa do Vinho”, evento que atrai muitos turistas e gera renda aos produtores e também para o município.

Para fechar essa longa história, vale informar que Catas Altas era um distrito até 1995 quando foi emancipado de Santa Bárbara, tornando-se município.

A Capela do Senhor do Bonfim, de 1786, e as meninas do Morro da Água Quente.

A principal atividade econômica municipal é a mineração de ferro. Embora seja intensa e constante a movimentação provocada pelas atividades minerárias — além do que é possível ver claramente, em diferentes pontos, os impactantes estragos causados ao meio ambiente ao longo dos anos —, a Serra do Caraça ainda impressiona pela grandiosidade e estonteante beleza.

É encantador o harmonioso conjunto formado pela montanha e a pequena preciosa cidade histórica. Ainda por cima, esse cenário de cinema tem ao logo ao lado o magnífico Santuário do Caraça (confira na reportagem), o bucólico povoado da Água Quente e o Parque Natural do Caraça, dono de uma natureza exuberante ainda conservada.

Ainda hoje as águas são mornas.

Memória preservada

Além da Igreja Matriz, dois outros templos guardam a memória dessa época: a Igreja do Rosário e a Capela de Santa Quitéria. A primeira, erguida em pau-a-pique alicerçado sobre pedras, é datada de 1739, conforme os primeiros registros dela. O altar-mor com talha em estilo D. João V, o teto pintado em tons que misturam marrom e vermelho, além do forro que é da segunda fase do Barroco, embelezam a parte interna. Os negros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário eram enterrados no templo. Um detalhe curioso é na porta frontal está inscrita a data de 1862, porém não se sabe a razão, mas presume-se que foi para registrar alguma reforma.

O município revela lindas paisagens.

Já a Capela de Santa Quitéria é datada do século XVIII. Um registro de casamento que aconteceu em 1734 é o primeiro documento sobre as origens da capela. Ela é tombada pelo Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEFHA-MG) desde 1999. Consta que o templo — localizado em uma elevação e emoldurada pela serra ao fundo — foi construído em 1728 por Paulo de Araújo de Aguiar (com o auxílio dos devotos locais), provavelmente o então proprietário do terreno.

As trilhas são bem sinalizadas e as cachoeiras próximas são de fácil acesso.

Dentro da capela, destacam-se peças sacras do século XVIII, cujas restaurações terminaram em 2019, tais como as imagens de Santa Quitéria, Nossa Senhora do Carmo, São Luís Gonzaga, São Francisco Bórgia e um Crucifixo; seis castiçais e uma pia de água benta.

A combinação da arquitetura barroca da Capela de Santa Quitéria com bela paisagem serrana, faz dela um símbolo inconfundível não só dessa região do estado como também de todas as Minas Gerais.

 Morro D’Água Quente

Há 10 km do centro de Catas Altas, o pequeno e charmoso distrito do Morro D’Água Quente merece uma visita. As fontes termais que existiam no local, nos idos de 1887 — tal qual registrou Auguste de Saint Hilaire — inspiraram o nome do lugar. Ocorre que essas fontes foram destruídas pelas escavações na ânsia de se encontrar mais ouro. Lá ficava a Mina do Bananal, do português Domingos Vieira da Silva e de seu filho, o Guarda-Mor Inocêncio Vieira da Silva.

Combinação entre natureza e história nas trilhas.

A Capela do Senhor do Bonfim, datada de 1786, como aparece nos registros, foi erguida em estilo Barroco com uma estrutura de madeira, barro e fundação de pedras. No  interior, destaca-se uma imagem de Cristo crucificado esculpida em madeira.

A caixa d’água e os moinhos de pedras lá existentes também são do século XVIII. As pepitas do ouro, segundo consta,  eram lavadas na caixa d’água e essas águas moviam os moinhos. Por incrível que pareça, são mornas as águas dos pequenos poços — entrecortados por muros de pedras, construídos na mesma época — que ficam próximos à capela.

A queda d’água entre a mata de galeria.

Trilhar os caminhos em meio à natureza conservada de Catas Altas é outra ótima opção. Pra começar, as trilhas são bem sinalizadas e as cachoeiras próximas são de fácil acesso. A Cachoeira da Santa fica apenas a 1,5 km distante do centro. A queda d’água de cerca de 10 metros cai em um poço ótimo para banhos. Os praticantes do canionismo são frequentadores assíduos do lugar.

Já a Cachoeira Maquiné tem uma queda d’água de 20 metros de altura que escorre por entre pedras em meio ao  verde das matas de galeria. Os praticantes de rapel e de canionismo encontram um ótimo atrativo na cachoeira. Além do mais, é muito bonito o caminho até chegar lá, pois atravessa-se trechos de matas ainda preservadas e pelo Vale das Borboletas, repleto de cursos d’água, com uma linda cachoeira e, é claro, de diferentes espécies de borboletas.  Há ainda a Cachoeira do Quebra Ossos, um pouco mais distante, que encanta pelo incrível poço de águas límpidas com 40 metros de diâmetro.

A paisagem desvela uma região montanhosa de grande beleza.

 

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