Pelos vãos das serras

O Parque Estadual Serra do Rola Moça, localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) foi criado para proteger seis mananciais que ajudam a abastecer a capital mineira e, ao mesmo tempo, preservar as exuberantes fauna e a flora da região.

Por: Tudy Câmara
Fotos: Roberto Murta

O Parque Serra do Rola Moça possui uma área total de 3.941 hectares e é considerado o terceiro maior em área urbana do país, além de uma das mais importantes áreas verdes de Minas Gerais. O parque abrange parte dos municípios de Belo Horizonte, Nova Lima, Ibirité e Brumadinho.

Os seis mananciais denominados Taboões, Rola-Moça, Bálsamo, Barreiro, Mutuca e Catarina abrangem em seus domínios várias nascentes e cabeceiras de rios das bacias do Rio das Velhas e Paraopeba. Essas terras foram transformadas em Áreas de Proteção Especial e não são abertas à visitação pública por serem parcialmente responsáveis pelo abastecimento de água da população de Belo Horizonte, Ibirité e Brumadinho.

O nome do parque

O nome do Parque foi inspirado num poema de Mário de Andrade. O poema conta a história de um casal que logo após a cerimônia de casamento subiu a serra de volta para casa. No caminho, o cavalo da moça deslizou no cascalho e caiu no fundo de uma grota. O marido apavorado desceu ribanceira abaixo e “a Serra do Rola-Moça, Rola-Moça se chamou”.

A serra do rola-moça (Mário de Andrade)

“A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não…
Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.
Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puserem de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.
Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.
A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.
As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.
Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos,
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.
Ali, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz …
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.
E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.
As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.”

Campo ferruginoso

O parque está situado numa zona de transição de Cerrado e Mata Atlântica, rica em campos ferruginosos e de altitude. A topografia acidentada se destaca pela beleza cênica das serras moldando um horizonte convidativo à contemplação da natureza.

Recentemente descrito pela geologia, o Campo Ferruginoso é considerado muito raro, sendo encontrado apenas em Minas Gerais, na região do Quadrilátero Ferrífero, área de inserção do Parque, e em Carajás, no Estado do Pará.

O parque protege as riquezas naturais que estão presentes nos diferentes ecossistemas que compõem a região, as matas ciliares, as áreas de cerrado e os campos rupestres. Vale ressaltar que as matas ciliares são importantes pontos de pouso para muitas espécies de aves que transpõem áreas abertas em deslocamento de um ambiente florestal para outro, como os sanhaços e as saíras. Esses ambientes representam, também, locais de nidificação e abrigo para muitas espécies de aves.

A flora diversificada proporciona ao parque um colorido especial, sendo encontradas várias espécies de bromélias, de orquídeas, de candeias, de arnicas, de jacarandás, cedros e jequitibás e das famosas canelas-de-ema, que tornaram-se o símbolo do Parque Estadual do Rola Moça.

A fauna é bastante rica. O parque abriga cerca de 30 espécies de mamíferos dentre elas algumas espécies ameaçadas de extinção como o lobo-guará, a onça parda e a jaguatirica. A raposinha, espécie endêmica do Cerrado, também habita a região. Foram registradas aproximadamente 170 espécies de aves, na área do Parque. Dentre elas o beija-flor-de-gravata, o rabo-mole-da-serra e a campainha-azul, ambas também endêmicas do Cerrado.

Aspectos culturais e históricos

A região do Parque Estadual Serra do Rola Moça é rica em histórias. Uma delas é a Serra da Calçada, região localizada na área de entorno do Parque pertencente a Companhia Vale. Nela há registro de antigas ruínas de um forte do século XVIII.

As ruínas constituem uma construção quadrangular, com aproximadamente 50×40 metros quadrados de área. No seu interior há uma construção menor, também de pedra. As muralhas externas têm apenas uma abertura na frente: uma porta de 3,60 metros de altura e 2 metros de largura. A casa interna tem duas portas, uma à e outra atrás; e seis janelas laterais. Tudo em pedra maciça e retangular, chegando alguns blocos a 1,50 m. de comprimento. A construção revela enorme trabalho e habilidade dos seus artífices. (Jardim & Jardim, 1982)

Devido às proporções e as características da construção, as ruínas são alvo de diferentes histórias. Existem autores que consideram que o local foi uma casa de fundição de moedas falsas, outros descrevem como um forte militar em virtude da guerra dos emboabas, passando ainda pela possibilidade de ter sido uma senzala ou ainda um estábulo. A hipótese de ter sido uma casa de fundição aparenta ser a mais assertiva, entretanto, seria necessário um estudo histórico mais aprofundado para se ter certeza da sua verdadeira origem.

Um condomínio localizado em Casa Branca, município de Brumadinho, guarda uma riqueza enorme de aproximadamente 100 pinturas rupestres. Elas estão em uma área de cerca de quatro metros quadrados em uma parede inclinada. As cores predominantes são as de tons avermelhados (barro). Devido o local ser de difícil acesso não há sinais de depredação humana, mas as ações naturais, como o calor do sol, aceleram o processo de degradação das tintas.

Verdadeiras raridades, algumas espécies da fauna e flora

Veado catingueiro

O veado-catingueiro é um ruminante como as vacas. Alimenta-se de folhas, flores e frutos caídos, no chão. Vive sozinho e tem hábitos preferencialmente diurno. Quando se sente ameaçado, frequentemente atravessa a nado grandes correntezas.

Lobo-guará

O lobo-guará é um animal tímido, muito diferente do que muitos pensam a seu respeito. É considerado carnívoro, mas também come frutos silvestres, principalmente a fruta-do-lobo ou lobeira. Está na lista das espécies ameaçadas de extinção do estado e do país.

Tatu-peba

É um tatu de hábitos principalmente diurno. Alimenta-se de insetos, materiais vegetais, pequenos vertebrados e às vezes carniça. É uma caça bastante apreciada, por isso está sempre na mira dos caçadores.

Catita

A catita é um pequeno marsupial que não possui bolsa marsupial. Os filhotes ficam aderidos nos mamilos da mãe na região ventro-abdominal até completarem seu desenvolvimento. Como em outros marsupiais são vistos agarrados no dorso da mãe antes de se tornarem totalmente independentes.

Tucanaçu

Essa espécie de tucano é a maior de todas. Mede cerca de 56 cm de comprimento e pesa cerca de 550gramas. Vive tanto nas florestas tropicais como nos campos abertos no cerrado. Gosta muito de fazer ninhos em buracos já existentes em arvores e palmeiras, naturais ou cavados por pica-paus.

Saira-azul

Os machos são de corres azul e negro, com as pernas vermelho-claras, enquanto as fêmeas são verdes, com cabeça azulada e pernas alaranjadas. A espécie é de ampla distribuição no Brasil. Vive nas bordas de ambientes florestais e nas matas ciliares. Alimentam-se de néctar e insetos.

Gavião-caboclo

O gavião-caboclo também conhecido por gavião-de-casaca-de-couro vive em áreas abertas, como os campos e cerrados. Alimenta-se de grandes insetos, pequenos mamíferos, aves, serpentes, sapos e pererecas.

Canela-de-ema

A heterogeneidade da natureza se mostra nas inúmeras formas, cores e tamanhos das espécies de canelas-de-ema. Elas são muito comuns nos campos-cerrado do estado de Minas Gerais. Tornou-se símbolo do Parque Estadual Serra do Rola Moça.

Pau-de-tucano

O pau-de-tucano é uma árvore muito comum no Cerrado de Minas Gerais. Suas flores amarelas dão um toque especial nos campos. Algumas pesquisas vêm comprovando que essa planta contém substâncias com propriedades capazes de prevenir e até tratar doenças como a úlcera gástrica e o câncer.

Orquídea

Essa espécie de orquídea (foto) é muito comum no estado de Minas Gerais. Seu amarelo faz um belo contraste nas áreas de campo onde ocorrem. Preferencialmente elas florescem no final do inverno.

Bromélia

Quase todas as espécies de bromélias são de origem do continente americano, entretanto elas são cultivadas em todo mundo para o paisagismo de jardins. A espécie mais popular é o abacaxi.


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