Bravo!

Às vésperas de completar 10 anos, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais se destaca entre as melhores do país, confirmando a admiração dos mineiros pelo repertório erudito.

Reportagem Jorge Fernando dos Santos
Fotos Eugênio Sávio

 

Com a apresentação da “Sinfonia nº 7”, de Mahler, nos dias 15 e 16 de dezembro de 2016, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais encerrou mais uma temporada de concertos, sob a regência do maestro e diretor artístico Fabio Mechetti. A reabertura dos trabalhos se dará em 16 de fevereiro próximo, com obras de Mahler e Franz Liszt, inaugurando a décima temporada.

O concerto inaugural da Orquestra foi realizado em 21 de fevereiro de 2008, no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A programação incluiu o “Hino Nacional Brasileiro” e a “Sinfonia nº 9”, de Beethoven, sob a regência do maestro titular. De lá para cá, o sucesso tem sido cada vez maior. A qualidade do repertório e o rigor no cumprimento da agenda demonstram a seriedade da instituição, que hoje figura entre as mais notáveis do país no campo da música erudita.

“Tudo que tem a ver com qualidade é um desafio muito grande no Brasil”, afirma o regente. Nascido em São Paulo, formado pela Juilliard School de Nova Iorque, aos 59 anos, Mechetti já regeu nada menos que sete orquestras e se diz realizado com o trabalho atual. “A Filarmônica de Minas reúne músicos qualificados, que disputam lugar no mercado global”, e isso resulta em qualidade. Para ele, “o trabalho de uma orquestra é ainda uma atividade de penetração limitada, e o desafio tem sido mudar esse paradigma, mantendo a excelência e formando um público cada vez maior, com a média de 100 mil pessoas a cada ano”.

O repertório tem sido o mais variado possível e já reúne cerca de 700 obras, em apenas nove anos. A escolha, diz Mechetti, é “mais ou menos democrática, pois serve de instrumento para ampliar o público e a própria qualidade dos músicos. O diretor artístico funciona um pouco como técnico de futebol”, encarregado de harmonizar a equipe. É ele quem estabelece a linha de trabalho, mas sempre ouvindo os músicos e conselheiros da orquestra, que representam a sociedade: “adotamos critérios múltiplos, que levam em conta vários aspectos na escolha do repertório”.

Excelência premiada

Em 2008, Mechetti recebeu o Prêmio Carlos Gomes de regente. Dois anos depois, a Filarmônica de Minas conquistou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Contudo, para o maestro titular, “o prêmio maior é ver a sala cheia a cada espetáculo e o povo emocionado, querendo cumprimentar os músicos após os concertos”. Ele diz que isso é de causar inveja até mesmo às orquestras internacionais, cujo público geralmente é de faixa etária mais velha que a do público da Filarmônica de Minas.

Para quem não sabe, a principal diferença entre uma orquestra sinfônica e uma filarmônica é que a primeira é mantida exclusivamente pelo estado, enquanto a segunda funciona como entidade autônoma, podendo receber recursos também da iniciativa privada. A Filarmônica de Minas é uma associação civil sem fins lucrativos, denominada Instituto Cultural Filarmônica. O objetivo dela é estruturar e manter a orquestra, além de promover a educação musical e a difusão da música clássica.

A orquestra emprega 92 músicos, dez técnicos e 38 profissionais de outras áreas. Em 2015, ganhou a sede própria, com entrada pela rua Tenente Brito Melo, 1.090, no Barro Preto. Ali, funciona a Sala Minas Gerais, espaço projetado especialmente para apresentações de música sinfônica. Com área total construída de 32.464 m² e capacidade para um público de 1,4 mil pessoas, o prédio também dispõe de salas de ensaio e integra o Centro de Cultura Presidente Itamar Franco. Além de funcionar como usina musical, deverá abrigar a Rádio Inconfidência e a Rede Minas de Televisão.

Segundo Mechetti, desde a primeira temporada, a Filarmônica também realiza concertos em praças públicas e participa dos principais eventos de música erudita do país, como os festivais de Campos do Jordão, Música Colonial Brasileira, Música Antiga e Rio Folle Journée. Até agora, apresentou-se em 45 cidades de Minas e de outros estados, como São Paulo, Rio, Salvador, João Pessoa, Recife, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Goiânia e Brasília.

Além das premiações e do reconhecimento da crítica, a interação com plateias internacionais e músicos de outros países tem sido outra prova de excelência. Destacam-se, nesse sentido, as apresentações feitas com o violoncelista Antonio Meneses na Argentina (Teatro Colón de Buenos Aires e Teatro Del Libertador General San Martin, em Córdoba) e no Uruguai (Teatro Solís de Montevidéu e Teatro Astengo, em Rosário).

Interação com o público

Desde a fundação, a Filarmônica de Minas tem dividido o palco com músicos convidados de renome internacional, como Nelson Freire, Arnaldo Cohen, Eliane Coelho, Augustin Hadelich, Yang Liu, Fabio Zanon, Vadim Gluzman, Isaac Karabtchevsky, Sergei Nakariakov, dentre outros. Também já recebeu visitantes ilustres, como Vladimir Feltsman, José Feghali, Chloë Hanslip, Philippe Quint, John Neschling, Ray Chen e Daniel Müller-Schott.

A orquestra também desenvolve projetos que visam popularizar a música erudita. São eles os Concertos na Praça, Concertos Comentados, Concertos de Câmara, Concertos Didáticos, Concertos para a Juventude e ainda o Festival Tinta Fresca, destinado a revelar jovens compositores. Outro destaque é o Laboratório de Regência, que visa formar novos regentes.

Coordenador dos Concertos Comentados, em que se analisam vida e obra dos compositores, o percussionista Werner Silveira, 38 anos, formou-se na Escola de Música da UFMG e trabalhou na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, de onde migrou para a Filarmônica. “A diferença entre as duas é bem grande”, reconhece. “Não só nas questões administrativa e salarial, mas também pelo fato de agora eu poder me dedicar exclusivamente à música sinfônica.” Anteriormente, ele tocava em grupos de rock e bandas de jazz para complementar a renda, o que já não acontece mais.

Werner considera que “a arte é um excelente instrumento para a gente se conhecer e conhecer melhor o outro, mas, para que isso ocorra, é preciso dar a ela a atenção que merece. Só assim a arte será de fato transformadora”. Na opinião dele, os Concertos Comentados constituem o projeto mais importante desenvolvido pela Filarmônica visando à formação de público.

“A ideia é buscar interação com o público, passar conhecimento e propiciar intimidade com a obra e o compositor antes das apresentações”, explica o percussionista. Aberto a pessoas de todas as idades, o projeto é realizado na sala de recepção, recebendo até 100 pessoas de cada vez. Ao lado do colega Arnon Oliveira, Werner também elaborou o roteiro de um DVD didático distribuído a escolas públicas de BH.

Fontes de recursos

Tendo como principal financiador o governo estadual, responsável por 60% da receita, o Instituto Cultural Filarmônica adotou a forma jurídica de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Além dos recursos governamentais e da bilheteria dos concertos, esse formato lhe garante o recebimento de doações e o apoio de patrocinadores, por meio das leis de incentivo à cultura.

Outra forma de arrecadar fundos é o Programa de Assinaturas, incrementado em 2009. Trata-se de uma iniciativa até então inédita nas produções culturais realizadas em Minas. Com a compra de talões de ingressos, os espectadores garantem lugares na plateia antecipadamente. Os carnês podem ser adquiridos na bilheteria da sede da orquestra ou pela internet, no site da instituição (www.filarmonica.art.br).

Dos 705 nomes iniciais que aderiram à compra antecipada, a orquestra conta hoje com a fidelidade de 3.320 assinantes. Um deles é Antônio Barbosa, funcionário aposentado da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. “Acho fantástico esse sistema e já estou nele há mais de quatro anos”, comenta.

Ex-seminarista, foi com os padres que Barbosa aprendeu a gostar de boa música. Para ele, “a Filarmônica de Minas é um grande ganho cultural para Belo Horizonte. Além de ter excelentes músicos, também recebe nomes internacionais, oferecendo programação fantástica ao nível do primeiro mundo”. Ele sempre opta pela compra de carnês com ingressos para as sextas-feiras e teve a sorte de também assistir ao concerto apresentado no Teatro Colón. “Foi maravilhoso, com excelente acolhida por parte dos argentinos”, ressalta.

Rigor administrativo

O Instituto Cultural Filarmônica tem como diretor-presidente Diomar Silveira e conta com uma assembleia de associados de 36 membros. O conselho administrativo tem 14 personalidades, sob a presidência de Roberto Mário Soares Filho, sendo Jacques Schwartzman o presidente emérito.

Economista formado pela UFMG, ex-funcionário das fundações João Pinheiro e Clóvis Salgado, Diomar lembra que a Filarmônica surgiu quando se tentava fomentar a Sinfônica de Minas Gerais. Diante da dificuldade para migrar os músicos para o sistema da CLT, resolveu-se criar a nova orquestra, cujo modelo de gestão permite contratar profissionais por meio de audições, e não mais por concurso público. Este, por razões burocráticas, só permite admissão de brasileiros.

 “A música clássica ainda não foi adequadamente difundida no Brasil, a ponto de podermos trabalhar só com talentos nacionais”, ressalta Diomar. “Por isso, para formar uma grande orquestra, torna-se necessário contratar músicos estrangeiros”. Para ele, “a música clássica é universal, sem barreiras geográficas ou de tempo. E é feita para todas as pessoas, de todas as idades, de todos os países e de todos os tempos”. Além dos brasileiros, a Orquestra Filarmônica tem hoje 18 músicos de outras nacionalidades.

O diretor-presidente também afirma que o sucesso de uma orquestra se deve a dois pilares: a direção artística e a gestão administrativa. “O maestro Fábio Mechetti é o nosso regente e curador, responsável pela excelência do trabalho artístico”, elogia. “Mas não podemos abrir mão da estrutura, que inclui administração, finanças, marketing e logística. Muita gente trabalha nos bastidores para que a orquestra funcione.”

No ano seguinte à fundação, a Filarmônica foi qualificada pelo Programa de Certificação em Boa Gestão das Oscips Mineiras, promovido pela Secretaria de Planejamento do Estado de Minas Gerais, em parceria com a FIA-USP. Por receber recursos públicos, submete-se a auditorias independentes e da Controladoria-Geral do Estado. O Tribunal de Contas também analisa a contabilidade da instituição periodicamente.

Diante da crise econômica que assola o país e dos reflexos desse momento em Minas Gerais, Diomar aposta na sensibilidade do governo Pimentel. Ele acredita que todo o investimento feito desde 2008 não há de se perder: “esperamos que o governo não dê para trás nos 60% que vêm do estado”. No momento desta entrevista, ele aguardava ser chamado pelo secretário de Estado da Cultura, Angelo Oswaldo, para a assinatura do contrato referente a 2017. A previsão de gastos para o novo ano é de R$ 22 milhões.

Nove temporadas de sucesso

Números comprovam o bom resultado dos trabalhos

820 mil pessoas viram e ouviram a Filarmônica ao vivo

641 concertos realizados

835 obras tocadas

242 compositores brasileiros e estrangeiros interpretados

52 estreias mundiais e 11 encomendas

93 concertos no interior de Minas Gerais

27 concertos em várias cidades do Norte ao Sul do país

5 concertos em cidades da Argentina e do Uruguai

6 álbuns musicais

513 notas de programa produzidas

115 web vídeos executados

56 mil fotografias realizadas

318 concertos gravados

4 exposições temáticas sobre música sinfônica

3 livros sobre a formação de uma orquestra

1 DVD de iniciação à música orquestral

92 músicos

18 nacionalidades

Atrações da décima temporada

Grandes nomes e um repertório variado para 2017

— Nas celebrações dos primeiros 10 anos da Filarmônica, serão homenageados, em 2017, os compositores Zoltán Kodály (Hungria, 1882 – 1967), Johann Stamitz (Boêmia/República Tcheca, 1717 – 1757), Francisco Mignone (Brasil, 1897 – 1986), Ferde Grofé (Estados Unidos, 1892 – 1972), Georg Philipp Telemann (Alemanha, 1681 – 1767), Jorge Antunes (Brasil, 1942) e José Maurício Nunes Garcia (Brasil, 1767 – 1830).

— Das cinco séries, a chamada Fora de Série será inteiramente dedicada ao barroco na música. Cada um dos nove concertos a serem realizados aos sábados vai explorar o barroco nas concepções alemã, francesa, italiana e mineira, com enfoque na obra de compositores como Vivaldi, Haendel, Bach e família.

— Nas séries Allegro, Vivace, Presto e Veloce, realizadas nas quintas e sextas-feiras, a Filarmônica receberá pela primeira vez o regente e violinista israelense Pinchas Zukerman. Ele vai reger e tocar ao mesmo tempo o “Concerto para violino e violoncelo em lá menor, op. 102”, de Brahms.

— Também estreiam com a orquestra o pianista tcheco Lukás Vondrácek, vencedor do último Concurso Rainha Elisabeth, da Bélgica, e o norte-americano Robert Bonfiglio, que se apresenta com uma harmônica, instrumento pouco usual em concertos sinfônicos.

— O público terá a oportunidade de rever dois músicos brasileiros mundialmente conhecidos: o pianista Nelson Freire e o violoncelista Antonio Meneses, colaboradores e amigos da Filarmônica desde a criação da orquestra. Dentre os estrangeiros, retornarão ao palco pianista Anna Vinnitskaya e os violinistas Phillipe Quint, Nicolas Koeckert e Sergej Krylov, dentre outros.

— Destacam-se no repertório obras de compositores como Mahler (“Sinfonias nº 5 e nº 6”, “Trágica”), Rachmaninov (“Danças sinfônicas”), Vivaldi (“As quatro estações”), Dvorák (“Sinfonia nº 9”, “Do novo mundo”), Brahms (“Sinfonia nº 1”), Nunes Garcia (“Réquiem”), Bruckner (“Sinfonia nº 3”), Haendel (“Música aquática”), Berlioz (“Sinfonia fantástica”), Shostakovich (“Sinfonia nº 12”, “O ano de 1917”), Tchaikovsky (“Sinfonia nº 4”), Bach (“Cantata nº 211”, “Do café”) e Holst (“Os planetas”).

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