Ensaio

Belo Horizonte: os ângulos e a exposição

Cidade-paisagem, Belo Horizonte é uma metrópole que se exibe em ângulos formados por cruzamentos entre avenidas e ruas, linearmente projetadas, e arranha-céus. Da geometria calculada, surge sempre um detalhe, um toque ornamental para a fruição de quem gosta de olhar.

Por Júlia Castro
Fotos Gustavo Baxter

A arquitetura moderna da capital de Minas Gerais, típica de uma cidade arrojada, conjugada ao neoclássico ou ao estilo arte decô, somada aos ipês floridos na primavera, permite que os olhos de quem contemple a cidade possam seguir por novas direções, percorrendo inusitados caminhos.

É certo que BH nem sempre se mostra com tanta facilidade quanto o faz para os que alcançam seus domínios chegando desde a região Sul, pela BR 040. Por essa entrada, a cidade é só paisagem. Paisagem noturna: amplo espectro reluzente que ilumina o coração de quem anseia viver fortes emoções. Paisagem-dia, retrato da esperança: sol radiante sob fundo azul. O verde de Belo Horizonte está cada vez mais ausente do cotidiano do século XXI, mas ainda vivo na memória da época em que a capital era identificada como cidade-jardim.

Belo Horizonte em preto e branco, remetendo às fotografias dos tempos de sua fundação. Beagá com amarelado típico das fotografias da década de 1970 e 1980 e cada vez mais azulada nas imagens dos anos 1990 e 2000. Hoje, na era de voyerismo tecnológico, a cidade, todavia, torna-se turva. Ao adentrar tal território, descobre-se uma Belo Horizonte que pode ser embaçada, principalmente quando se está em engarrafamento de trânsito na Savassi. Sobretudo, em dias abafados.

O véu (a névoa)

Esse belo horizonte não é mais amarronzado e tomado pelo verde, como foi outrora. Dependendo do dia, o azul que permanece é muito menos vivo. O verde das montanhas deu lugar ao marrom revelado de algumas poucas colinas desmatadas cujo destino padrão é ganhar camadas de asfalto que já cobriram quase todo o resto.

O minério exposto na Serra do Curral limita as águas das marés da cidade: o mar de morros se tornou cinza, esbranquiçado, um mar denso, um mar parado. Belo Horizonte geométrica, os prédios crescem mais que as árvores e ocupam o espaço do vento. Os edifícios ofuscam e roubam, das telhas das casas, o alaranjado que temperava as cores da paisagem em outros tempos. Os carros acinzentam. Sóbrio horizonte.

A cidade com nome de paisagem parece esconder mais que mostrar. Paisagem entediante que camufla belezas, tal como a montanha esconde ouro no próprio interior. O mar de morros monótono, às vezes sufocante, faz com que as áreas verdes da cidade pareçam miragens: ilhas, oásis, cada vez mais confrontadas por paredões, por amplos empreendimentos imobiliários.

As saídas

As imagens emolduradas que se vê da janela do automóvel sucedem-se rapidamente, mas, vez ou outra, pode-se degustá-las sem pressa, culpa ou medo. Relances de cidade que surgem pelas avenidas Afonso Pena, Raja Gabaglia, do Contorno, José Cândido da Silveira, Catalão (dentre tantas outras). A Praça da Liberdade refletida no retrovisor do ônibus. O frescor das árvores centenárias da região hospitalar. Tudo o que se pode ver da Praça do Papa. Múltiplos enquadramentos, mil e um retratos, assim como qualquer cidade, Belo Horizonte exibe suas várias faces sem mostrar-se de uma vez só.

A paisagem que se observa da janela do apartamento. O pedaço de bairro visto do escritório em que se trabalha. As cenas que acontecem quando se anda a pé, distraidamente e, por isso, mais apto para olhar. Colecionar imagens, pedaços de cidade que talvez possam ser a cidade inteira para cada um. Aliás, que possam ser a cidade que interessa a cada um: a mais real, a mais plena. Posicionar-se e olhar sem sequer pensar sobre o que se observa, apenas sentir a vida pulsar no asfalto, no boteco, na marquise do prédio.

Em Belo Horizonte veem-se, também, ângulos desagradáveis, a careta (de mau gosto) da cidade, o lixão do jardim, o avesso da beleza, as piores versões da capital. A face da violência, da sujeira, da miséria, da dinâmica desumana da vida, escancarada sob os olhos, aquela que não é possível evitar. São imagens pouco colecionáveis, mas capazes de chocar e de provocar: repulsa, medo, indignação, urgência de mudança, desejo de transformação, sensação de falência do sistema urbano, vontade de fugir. A antítese de um belo horizonte, imagem estranha, a recusa da cidade.

O invisível

Para sobreviver no meio urbano é necessário não se afetar por determinadas cenas: a do aleijado sentado no chão, miserável e sujo, além de doente, implorando o seu vintém. Do cachorro com berne, cheio de moscas. Da criancinha vendendo chicletes e do idoso quase rastejando. Da mesma forma, a urbe condiciona seus moradores a não se afetarem pelas paisagens. Para que parar para ver uma paisagem desorganizada e caótica de uma grande avenida a não ser para ler a placa de trânsito com a velocidade permitida? Determinadas áreas do percurso que cada um desenha por Belo Horizonte, no cotidiano, tornam-se, de alguma forma, invisíveis: chapadas, sem profundidade, sem inteligibilidade, pouco observadas, ignoradas. É como se não houvesse nada para olhar, apenas para passar os olhos guiados pela pressa moderna. Desatenção, poucos olhares, pouca presença de quem passa.

O que não se vê

Os trajetos que os cidadãos empreendem no dia a dia são entrecortados por outros itinerários eventuais, quando é necessário chegar a áreas distantes do espaço cotidiano. Algumas vezes, trata-se da primeira ocasião em que se vê uma parte da cidade, ainda que se more há mais de 20 anos por ali. Ou a segunda vez. Talvez, simplesmente não se lembre de já ter estado por aquele bairro anteriormente. Surpreendido por estar em um espaço tão familiar e, ao mesmo tempo, absolutamente desconhecido, o morador reage tal como o paciente quando apresentado à imagem de raio x ou de ultrassonografia de alguma parte de seu corpo. Mas a surpresa pode durar pouco,  como quando o exame por imagem confirma que não há nenhuma doença ou fratura. Logo perde-se o interesse nele. Afinal, as imagens dos bairros da cidade não se diferem tanto assim. Parecem mostrar algo novo, mas revelam mais do mesmo, são padronizadas. Paisagens entediantes: fachadas iguais, a arquitetura padrão dos shopping centers, as avenidas com córregos canalizados e sinais de trânsito iguais.

Quando se está transitando por Belo Horizonte, de automóvel, de ônibus, de bicicleta ou a pé, grande parte do que se vê parece não ser absorvido pelo olhar, mas jogado em algum limbo da memória, como um tipo de entulho que se deposita na caçamba ou no fundo de quintal. É um modo de ver sem olhar. Desses passeios banais, contudo, é possível recolher retratos que sirvam de nutriente para o sentimento que cada um carrega, de uma maneira ou de outra: o de pertencer a uma cidade e, sobretudo, o de reconhecer qual é a cidade onde se vive.

Paisagem muda

Se as paisagens de BH um dia representaram tesouros guardados pelo mapa da cidade, hoje parecem ser imagens intermitentes, modificadas continuamente. Obras, viadutos, empreendimentos imobiliários comerciais ou habitacionais riscam e colorem a superfície da capital, polvilham de novas formas o território belo-horizontino.  A reunião de prédios e edificações forma uma paisagem-padrão: visualizada sem a moldura da Serra do Curral, é quase igual à de tantas outras capitais.

Revitalizar, construir, produzir conjuntos habitacionais e alargar as vias: movimentos que alteram a paisagem sem que as relações entre a cidade que se quer, com a qual se sonha, a que se visualiza e à qual se pertence sejam amarradas no mesmo laço. A paisagem acaba por mostrar pouco, propiciar menos reflexões, termina inerte. Paisagem muda, paisagem que esconde, paisagem que tampa Belo Horizonte.

Buscando brechas

Percorrendo as ruas da cidade, as paisagens são como aparições que se revelam por entre muros e fachadas, grades e tapumes, vãos e garagens.  Enquadramentos construídos pelos olhares que procuram alguma brecha, saída.

Mirar um amplo panorama faz pensar na proporção de tudo aquilo que nos cerca e nos envolve. Quando a visão alcança extensões menores, a paisagem oferece retrato de outra grandeza, imagens do bairro e de regiões próximas. Acessar tais horizontes é algo cada vez mais propício a partir do espaço privado: apartamentos, condomínios, bares, restaurantes, hotéis, empresas. No âmbito do espaço público, a paisagem parece não ser mais uma peça fundamental quando se pensa na construção e na melhoria da cidade. A harmonia e a beleza da paisagem estão em segunda ordem de importância, pois o espaço da rua torna-se lugar de disputa por visibilidade, e não exatamente de oferta de beleza e de contemplação para quem for admirá-lo.

Placas, letreiros luminosos, imagens de publicidade nas fachadas, nos ônibus, nos edifícios: a cidade parece um grande comércio em que nos é oferecido mais o papel de consumidor que o de cidadão. Essa produção da paisagem para nos oferecer algo diminui o potencial das imagens dos panoramas e horizontes de refletirem nós mesmos.

Entrar na paisagem

Viver o lugar e reaprender a olhar os horizontes a partir dos quais Belo Horizonte se desdobra em imagens. Olhar, todo dia, um pouquinho. Olhar mais e demoradamente. Postar-se diante de uma paisagem pode ser um ato de amor associado ao sentimento de fazer parte do corpo orgânico da cidade.

Ver de longe para querer sentir de perto. Localizar para chegar. Quando o olhar se torna uma atividade separada do ato de estar na rua e interagir com a cidade, há algo que foi brutalmente interrompido na experimentação urbana. À medida que o olhar para a paisagem alimenta a distância entre sujeito e cidade, cresce o medo, a rejeição à diferença, a insegurança, a negação do outro, a falta de esperança.

Olhar e viver os panoramas, entrar neles, sorrir para o outro que observa de longe. Dizer e mostrar que faz parte e que está ali, estampando a paisagem local. Produzir paisagens em movimento com corpos que ocupam e que dançam no meio urbano. Lutar pela cidade. Do processo de buscar brechas para visualizar a cidade pode surgir o ato de resistência e de liberdade que expõe e nutre os vínculos dos moradores com a capital moderna planejada para produzir belos horizontes.

Ao ar livre, os cidadãos querem sentir-se parte dos quadros que contemplam, extinguir o vidro da janela, dispensar o ar-condicionado. Sobretudo, os mineiros, que gostam tanto de quermesse, festa, arraial e formas de celebrar que permitam o contato e a interação.

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