Por Júlia Castro
Fotos Cezar Felix

Um jeito de dar notícias de viagem é fazer uma crônica, como os viajantes fazem desde tempos anteriores à própria invenção das mídias impressas, na época das Grandes Navegações e até antes disso. 

Grandes escritores portugueses que escreveram crônicas enriquecem o panorama da literatura de viagem, como João de Barros, Gomes Eanes de Zurara, Fernão Lopes e Pero Vaz de Caminha, com a famosa carta de “descoberta” do Brasil. Deixando de lado esse caráter histórico da crônica como forma de documentar oficialmente e chegando mais perto da genialidade de escritores brasileiros, como não lembrar Carlos Drummond de Andrade, João do Rio, Fernando Sabino e aqueles exímios no humor, como Luis Fernando Verissimo e Rubem Braga? Verissimo é especialista em usar o gênero para nos fazer dar gargalhadas em voz alta. Outros, como Moacyr Scliar, em Dicionário do viajante insólito, conseguem unir viagem e humor com doses de ironia de incrível leveza, que nos deixam com um sorrisinho sutil estampado no rosto.

Uma coisa é certa: se eu pudesse, escreveria para fazer rir, mas, para isso, seria necessário basicamente que eu nascesse de novo. A minha sorte é saber sentir o cheiro de bom humor dos momentos, como o daquela sala de embarque do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, onde minhas atenções foram atraídas por um casal. O homem folheava um dicionário de italiano para viagens e tentava pronunciar algumas palavras para a companheira, que ria bastante, construindo ao redor deles um ar engraçado e cheio de cumplicidade. Bateu uma vontade de vivenciar algo com esse casal, que fosse uma expressão em italiano que eu soubesse falar corretamente, enquanto eles, não. De repente, me percebi como uma observadora que procura um caso para uma crônica, próxima de uma pedinte, um pouco mendiga e até usurpadora. Talvez os dois tenham percebido meu oportunismo e, meio sem graça, desviei o olhar para percorrer aquele ambiente de pressa e de desconexão que compõe um aeroporto.

Com a esperança de visualizar um flagrante de uma situação inusitada ou uma personagem sui generis, percebo com calma todos ali sentados naquela sala de embarque: quem serão esses seres humanos? De onde vêm, para onde vão, para o quê? Quais serão suas levezas e suas ansiedades? Qualquer tentativa de interpretar essas pessoas que circulam por ali será inevitavelmente baseada em preconceitos e em falsas leituras. Decido, então, relaxar, observando a luz do sol que entra pelas envidraçadas paredes laterais do Congonhas. O atendente do guichê da companhia italiana aparenta ser um perverso cientista de laboratório ou um diretor de escola altamente exigente que castiga maus passageiros. Parece ser também a percepção do homem ao meu lado, com o qual já me relaciono por meio de sorrisos. Identifico em meio segundo que é um latino-americano, em razão do castelhano murmurado. Já não posso mais seguir com minhas observações relaxadas, agora é mais uma das horas marcadas da viagem: a do embarque.

O comportamento dos passageiros em aviões é curioso: alguns chegam e guardam a bagagem como quem acorda e faz o mesmo percurso do quarto à cozinha, para preparar o café, há 25 anos. Outros conversam entre si para descobrir onde se sentar, os próximos procedimentos, muito bem comportados. Suspeito que alguns gostam de se metamorfosear, fantasiando-se com peças cheias de glamour, como casaco de pele ou uma bolsa de marca, para sinalizar superioridades (imaginadas). Outros acabam rindo e conversando para disfarçar qualquer sensação de inadequação. Estou no último grupo.

O simpático está ao meu lado de novo, o que é uma alegre coincidência. Descubro que é uruguaio e que vive em Barcelona há mais de 10 anos, longe dos pais e dos irmãos e, agora, do sobrinho que acaba de conhecer em Montevidéu. Tem saudades da terra natal, mas não pensa em voltar, pois não quer lidar com o risco de desemprego e com as violências urbanas. Enquanto me conta sobre sua vida, explica, com demonstrações, todos os procedimentos da poltrona, do controle da TV, sobre os horários de alimentação, a comida para vegetarianos (acho que já tenho cara de…). É tão solidário quanto é reservada a brasileira mais à direita.

Um grupo uniformizado de idosos (90% senhoras) desfila camisetas com estampa do vaticano e do papa Francisco, visitando as poltronas dos amigos. Cantam algumas canções que imagino serem católicas. Até que chega o funcionário com cara de disciplinário, batendo palmas e dizendo em alto e bom som: “— Sit down, lady!”. Ninguém se atreve a desobecê-lo. Seguimos viagem como desconhecidos semimudos que precisam de colaboração para dormir, ir ao banheiro e pegar a bandeja com lanche. Escuto a conversa entre brasileiros na fileira lateral. Puxo papo com um deles que diz ser mineiro como eu, de Divinópolis, e trabalhar em fazendas em Portugal e na Espanha, desde 2005. Passou muito frio no inverno, coisa de três calças e de três blusas. O senhor que o contratava precisava mesmo de gente, e gente para trabalhar falta. Agora que ele morreu, está pensando no que fazer; tentou voltar para o Brasil e ficou seis meses parado. Simplesmente não aguenta não trabalhar, ele e seus irmãos trabalham desde meninos. Planeja fechar um contrato no Canadá, com uma empresa de limpeza residencial. Queria muito levar a mãe com ele.
A noite vai passando, e, no mapinha luminoso, já cruzamos o Atlântico todo, em breve, chegaremos a Roma, onde farei conexão para Lisboa. Não há muito espaço para expectativas de viagem nesse momento, pois o desconforto das horas acumuladas na apertada poltrona é mais forte. Fico pensando nos fluxos de viagem que abrigam grupos de turistas com considerável poder aquisitivo (penso o momento desfavorável para a economia brasileira com relação à Europa) e trabalhadores que deslocam-se para encontrar empregos que não exigem alta qualificação. O desnível nas perspectivas de vida reproduz-se nesse lugar provisório que é o avião, e seguimos, como seguimos com a vida no Brasil, convivendo anestesiadamente com a radical desigualdade social.

Vem mais uma refeição estrategicamente pensada para distrair o nosso quase desespero de estar com sono e não conseguir dormir. Quem vem servi-la? O funcionário malvado. Quando ele chega, acabo deixando cair meus fones de ouvido no chão; deve ter sido nervosismo. Para minha surpresa, ele me devolve com um sorriso meigo e com os olhinhos apertados por trás dos óculos. É incrível como as aparências enganam, como bem diz a sabedoria popular. De homem austero, se transformou em um ser fofo e cordial. Depois fiquei sabendo que a empresa aérea estava em crise, e os funcionários, insatisfeitos. O piloto, ainda que estivesse insatisfeito, foi brilhante no pouso suave e ganhou palmas, principalmente do grupo uniformizado. Como em um show de rock, os funcionários disseram “arrivederci” e foram replicados por um coro altamente animado.

Quem sou eu viajante

Chegar em poucas horas a outro continente é uma sensação feroz. A vontade é de abrir a boca e engolir de uma vez só tudo o que pode ser visto, todos os lugares a ir, as comidas e as bebidas também, as músicas, os objetos… Um frenesi… Não há muito tempo para pensar em quem é você nessa nova realidade: ou você pensa sobre si mesmo ou assume a posição de ser como um ponto que se move, come, bebe, dorme, paga, tira fotos, posta nas redes, carrega a bateria do celular. Um ser que faz contas: de distâncias, de preços, de horas disponíveis, de alternativas de transporte, de dias livres, de desejos antigos a serem priorizados. Se estiver em grupo, as contas se multiplicam exponencialmente. Também se transforma em alguém que olha mapas: prefiro sempre os impressos, em que entendo a lógica geral do lugar e depois posso abandoná-los, para percorrer as ruas e senti-las, me perdendo, claro. Há quem não queira se arriscar a ficar perdido, e perder metade de um dentre os limitados três ou quatro dias em que estará naquela cidade, e que use o Google Maps para andar olhando o celular ao invés de mirar os lugares.
A ansiedade é grande inimiga das boas escolhas em viagem (e, quiçá, na vida), mas uma dose de adrenalina ajuda a encontrar um rumo, mesmo para aqueles que viajam de forma planejadíssima, já que planejar não elimina os contratempos. Acho que a sabedoria da viagem se faz da mistura da lógica com a intuição e o cultivo dos aspectos flexíveis da personalidade. Tenho a impressão de que as cidades cosmopolitas podem ser comparadas a livros e que a forma de leitura é o que fará toda a diferença para se criar sentido para uma viagem. O excesso de informações é o primeiro desafio com que lidar, pois é preciso criar uma relação entre os pontos famosos da cidade e que passe por nossa sensibilidade, de modo que nossas escolhas devam ser muito pessoais, sempre. Caso contrário, ao invés de ler um romance, um conto ou um livro de poesia, estaremos a ler uma enciclopédia, ou seja, sem muito prazer, com alguma obrigação.

A estranheza cultural pode ser mais ou menos radical e produzir a necessidade de se situar com relação aos outros, definir quem você é nesse novo conglomerado de pessoas que, no caso dos lugares turísticos, a depender da época, é feito de manadas multiculturais. Como me enxergar a partir da minha fragmentada identidade? Mulher, de 36 anos, pesquisadora, professora, free-lancer, ensaísta-cronista da Revista Sagarana, educadora comunitária, brasileira, do Sudeste, de Minas, classe média, zona Leste-Sul de BH, lado B de Belo Horizonte desde a década de 1990, do samba, do carnaval desde os anos 10 do século XXI, do rock’n roll, das pistas, mestre em Geografia, mãe e filha, latino-americana, esquerda-mortadela, a favor da liberdade do pensamento, feminista desde pequena. Somos todos seres cambiantes, provisórios e de cindidas identidades, abertos — espero que sim —, para nos repensar a partir desse convite para a vida que a viagem proporciona.

Conversa de sombrar, entre sombras, sobre sombras

Sou viajante de olhar desviado: não sei muito bem para onde estou indo quando recuso o grandioso e pouso nos detalhes. Daí em diante, esmiuçando esses fragmentos, posso construir chaves de acesso aos lugares. Encontro inspiração nas crônicas da viajante Cecília Meireles, que gosta dos “(…) chafarizes, dos lampiões, de certas perspectivas, de certas portas, de certas pedras.” As certas coisas de Cecília são como flores rendadas por mãos delicadas que tecem a cidade, a estrada, as pessoas em uma manta de afetos que só é possível “(…) quando se cultiva a disciplina de ignorar completamente todas as demais coisas que não possam entrar na órbita do nosso perfeito amor”.

A impressão é de que as crônicas de Cecília Meireles sobre Portugal, publicadas em 1957, foram escritas há alguns anos, e não há mais de meio século, na medida em que as reflexões da autora sobre viagem e turismo são atuais, bem como as narrativas dela sobre as vilas e as cidades portuguesas. Arrisco dizer que a autora foi observadora de larga visão ou mesmo uma pescadora da essência cultural da vida portuguesa, que continua sendo cultivada e conservada nas tradições, na cozinha, no patrimônio histórico e cultural. Cecília avisa que a imaginação lusitana, em uma cozinha com bacalhau, azeite, ovos e açúcar, pode resultar em uma bruxaria culinária que tornará o turista, além de feliz, obeso… Fato é que esse tipo de bruxaria segue ileso nos dias de hoje, pois, em qualquer pastelaria na estrada ou nas esquinas de Portugal, se encontra o pastel de nata, a barriga de freira, o pastel de Tentugal e outras várias opções da doçaria conventual e regional a serem descobertas no diálogo com a senhora que explica muito bem e sempre responde à pergunta “— É bom?” com um sorridente “— Sim, sim, é delicioso!”. Só quem é bobo ou não pode com cafeína vai deixar de pedir, na sequência, um café cheio (para não receber apenas meia xícara).

Cecília me pega pelas mãos, ou melhor, sou eu quem procuro andar de mãos dadas com ela por Lisboa. Em “O passeio inatual”, avisa “Quem gosta de mim, em Lisboa…” e completa com as melhores coisas a se fazer e a ser ver na cidade, começando pelos “lados da Graça”. Concordo com ela, ali, naquela parte da cidade que abriga o Bairro da Graça, a Mouraria, a Alfama, se caminha com os pés firmes no chão, mas a cabeça voltada para o alto, para se observarem as janelas com vasos de flores e roupas dependuradas, balançando com o vento, como se fosse possível tatear com os olhos cada sacadinha e pegar carona com uma andorinha, em seu zigue-zague pelas ruas… Subir, como a “rodar num carrossel e ver a cidade lá embaixo toda luminosa, e o sol e o vento a brincarem nas árvores que nem passarinhos.”. Chegar ao Miradouro da Graça, visitado por Cecília em tempos anteriores ao batismo do mesmo com o nome de uma das mais maravilhosas poetisas portuguesas, Sophia de Mello Breyner Andresen, que foi quem bem explicou o efeito desse percurso em aclive e com curvas que ligam os topos das colinas (serão sete ou oito?):

“Aqui e além em Lisboa — quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irizado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada”

Suavemente, Cecília, que gosta de subir, pede que a leve ao Miradouro Senhora do Monte, para “ver o Tejo azul, e ouvir esta algaravia das crianças pelas ladeiras, e amar longamente o Castelo de São Jorge”, que aparece no horizonte com verdinhos ao redor. O que diria a escritora brasileira sobre a algaravia dos turistas que percorrem as ladeiras e vielas da cidade e chegam em turbas aos atrativos turísticos, como ao Castelo de São Jorge? Penso que ela consideraria a importância do turismo para a economia de Portugal, mas, sem delongas, se direcionaria aos recantos em que é possível sentir-se mais próxima da pulsação local. Nesse caso, eu refletiria com Cecília sobre o fato de a capital de Portugal ser hoje uma cidade cosmopolita e multicultural, com tradições e cultura vivas e expressas no fado cantado pelos bares e restaurantes, nos lindos museus que contam a história de Lisboa e de seus ícones, como, por exemplo, o Museu do Fado, o Museu Nacional do Azulejo e o Lisboa Story Centre. Conversaríamos sobre isso, descendo em direção à baixa, quem sabe para tomar um café próximo à Igreja da Sé.

Seguiríamos observando os passantes e meditando sobre as heranças portuguesas que descobrimos, cada dia um pouco mais, por aqui estar. Cecília lembra D. Maria I, pois visita o Palácio Nacional de Queluz, em Sintra, que abrigou a rainha conhecida no Brasil como “A louca”, e ainda lembra José Álvares de Maciel, de quem teve notícias por meio de um jornal do ano de 1788, exposto em algum acervo. Fica melancólica ao pensar sobre o destino trágico dos inconfidentes de Minas Gerais. E diz: “— Quem gosta de mim compreende que este lugar me comova, porque nós todos caminhamos com muitos mortos em redor; parentes, amigos, desconhecidos. Cada um de nós tem o seu certejo , de que não pode apartar”. Sim, Cecília, caminho com tantas e tantos, muitos deles vivíssimos, outros que nunca conheci. Meu certejo vai crescendo e me acompanha hoje por Lisboa: Cecília Meireles, rainha Dona Maria I, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Saramago, Fernando Pessoa e outros que me acompanham no desejo de saber um pouco dos segredos desta terra.

Júlia Castro pesquisa a ideia de viagem na literatura, e desenvolve tese de doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais. É colaboradora da Revista Sagarana desde 2009.