Permanentes reinvenções

O Instituto Inhotim não só amplia a presença de novas linguagens artísticas como também está em busca de novas formas de sustentabilidade financeira.

Reportagem Filipe Motta
Fotos Rogério Alves Dias

 

É começo de tarde numa sexta feira de dezembro. Diante de 71 vigas de aço de cores e tamanhos variados —mergulhadas com as suas muitas toneladas, de forma aleatória, na vertical e no alto de um morro —, uma jovem se joga no chão para fazer fotos do que surge diante de si. Passados alguns segundos, ela se levanta, entra no labirinto de formas metálicas e começa a bater nas barras para ouvir os sons.

“Sou apaixonada por estruturas metálicas e vim desesperada para ver essas vigas. Estou com o coração pulsando para bater nelas”, conta a jovem empresária Karem Chaves, de Santos, litoral paulistano.

Recriação de uma obra feita no Art Park, em Nova Iorque, em 1984, Beam Drop Inhotim, foi montada em uma operação de 12 horas, em 2008, na qual um gigantesco guindaste erguia as longas barras de aço, soltando-as do alto em direção a um poço de concreto, onde foram chumbadas com o secamento da massa. Seria ingenuidade dizer que o trabalho do escultor norte-americano Chris Bourden ilustra a grandiosidade de Inhotim. Simplesmente porque a diversidade de obras e experiências de grande impacto que o instituto proporciona é tamanha que fazer qualquer comparação entre elas se torna impossível.

Maturidade 

O complexo foi aberto em 2006, a partir do acervo de arte contemporânea particular do empresário Bernardo Paz. Hoje reúne um rico panorama da cultura brasileira e internacional. Com apenas 10 anos, o Inhotim atingiu rapidamente a maturidade e o reconhecimento como um dos mais importantes polos de cultura e arte contemporânea do mundo. O acervo do local reúne obras de artistas brasileiros consagrados, como Tunga, Adriana Varejão, Cláudia Andujar, Hélio Oiticica, Cildo Meireles e Miguel do Rio Branco.

Sem falar na miríade dos nomes mais significativos a emergir no cenário mundial nas últimas décadas, como o norte-americano Matthew Barney, com o domo geodésico com um trator florestal, em “De Lama Lâmina”; o dinamarquês Olafur Eliasson e o caleidoscópio futurista, a “Viewing Machine”; ou a japonesa Yayoi Kusama, com gigantes bolas esféricas flutuantes, em “Narcissus garden”, para ficar em alguns.

“O Inhotim é um lugar que mexe com as pessoas. Até as leigas, que não tiveram a oportunidade e não têm contato permanente com arte, ficam muito tocadas. A paisagem, a vegetação e a necessidade de você caminhar enquanto conhece o centro afetam todos os nossos sentidos, despertam a sensibilidade”, afirma o professor de Arquitetura Domingos Guimarães, de Ribeirão Preto, que, pelo quinto ano seguido, trazia os alunos para conhecerem o espaço.

O Inhotim é único

Localizado em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a 60 quilômetros da capital, o centro conta hoje com 19 galerias. Superlativos são insuficientes para descrever Inhotim. Com uma área de 145 hectares de Reserva Particular de Patrimônio Natural e outros 140 hectares abertos à visitação, o espaço mantém, entre patas de elefante, manacás e jabuticabeiras, as galerias rodeadas por um jardim botânico que, por si só, vale a visita. Com cerca de 5 mil espécies no total, o jardim possui, por exemplo, uma das maiores coleções de palmeiras do mundo, com 1,4 mil espécies, 330 de orquídeas e 450 da família dos Arecaceae, que inclui antúrios e copos-de-leite.

“O Inhotim tem uma conexão única entre paisagismo e arte contemporânea. Ele inventou uma combinação. Ninguém fez isso em grande escala no mundo. Existem versões menores em Nova Iorque, Japão e Dinamarca, por exemplo. Mas nenhum deles conseguiu a sinergia e/ou tem uma estrutura como a daqui”, avalia o presidente do Conselho Consultivo do Instituto, o economista e especialista em educação Cláudio Moura Castro.

Espaços de arte contemporânea, como o Centro Georges Pompidou, em Paris, e o Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova Iorque, ainda chamam a atenção na arte contemporânea mundial, devido ao histórico de exposições e obras catalogadas. Mas nenhum provocou tamanho rebuliço nos últimos dez anos como a proposta do centro criado em Brumadinho. “O Inhotim é um mundão, uma coisa grandiosa, monumental. No ponto de vista de acervo, talvez o MoMA tenha mais obras, vamos admitir, mas, em dimensão, o Inhotim é único”, diz Cláudio, com orgulho.

Mas surge a pergunta: de onde vem a ideia de criar o Inhotim e para onde ele vai? Um relato de Bernardo Paz, publicado na página do instituto, ajuda a entender essas questões, mas apontando para possibilidades em aberto. “Como construí Inhotim? Com paixão e achando que, com 12 jardineiros e eu, plantando juntos, iríamos fazer este lugar. O que significam agora os dez anos de Inhotim? Nada. É um tempo que já se passou. O Inhotim continuará sempre ainda por vir”, projeta.

Novas linguagens

Esse “por vir” se manifesta na busca de construir uma programação de atividades que tem incorporado cada vez mais outras frentes artísticas, extrapolando o campo das artes plásticas. Em novembro de 2016, por exemplo, a realização do Festival Indie Meca reuniu nomes de peso da cena brasileira contemporânea, com os músicos Liniker, Jaloo e Mahmundi, além do consagrado Caetano Veloso. Apresentações da Orquestra Filarmônica Minas Gerais, de Marisa Monte e Fernanda Takai, além de performances em homenagem ao artista plástico Tunga, um dos grandes nomes do centro, fizeram parte da extensa programação do ano que passou.

“Essa programação artística diferenciada é uma conquista que passa a fazer parte do cenário de Inhotim. Seja por meio de parcerias, como foi o caso do Meca, seja com uma programação própria, que se consolidou nos últimos anos. É uma marca do instituto, assim como o jardim botânico e as galerias. Além das artes visuais, o Inhotim propicia essa programação de experiência de outras linguagens artísticas, como a dança, o teatro e a música”, pontua Antônio Grassi, diretor executivo do instituto.

Transformação do olhar

“É uma fantasia. Você não sabe o que vai ver. Entra pela natureza e vai encontrando os lugares. É isso que dá a magia do lugar”, diz a farmacêutica Teresa Silva, de 27 anos, de São Paulo, no segundo dia de visita dela ao instituto. “Aqui estou sentindo muito a cultura brasileira contemporânea. É legal termos isso, algo que se vê muito pouco em outros lugares. Faz aprender sobre o Brasil, apura o nosso olhar. No Inhotim, a gente quer ir a todos os cantos, parar para ver tudo, não perder nada”, complementa Teresa, enquanto percorre uma estradinha que a conduz em direção à galeria do fotógrafo Miguel do Rio Branco.

Para o professor de Arquitetura Domingos Guimarães, vindo de Ribeirão Preto (SP) pela quinta vez, para trazer os alunos universitários para conhecer o instituto, o Inhotim é um lugar que mexe com a sensibilidade das pessoas, mesmo com as leigas, que não têm tanta ligação com a arte. “A paisagem, a vegetação e a coisa de você caminhar despertam todos os nossos sentidos”, diz.

E, como não poderia deixar de ser, Domingos reforça a potência arquitetônica do lugar. “Essa proposta do edifício dentro do espaço natural é surpreendente. Normalmente, vemos edifícios do porte dos existentes nas galerias do Inhotim em áreas urbanas, no entorno de outras edificações. Aqui, eles surgem no entorno da mata, em espaços não muito comuns, o que transforma nosso olhar. E a gente nem consegue imaginar o valor de cada galeria dessas. Pensar que aqui tem dezenas de galerias, e às vezes a gente tem dificuldade de encontrar uma”, complementa o professor.

Lygia 

Somente um lugar com a proposta do Inhotim é capaz de construir uma galeria como a que abriga permanentemente a obra “Ttéia 1C”, da artista plástica brasileira Lygia Pape. Do lado de fora, o monólito contemporâneo de concreto armado esconde perfeitamente a surpreendente trama de fios metalizados de cobre que flutua em meio a um duelo entre a luz e o breu, no interior do espaço. Inaugurada em 2012, pouco após a morte de Lygia, a obra é quase uma síntese das experimentações feitas pela artista em instalações do final dos anos 1990, unindo fios aos espaços arquitetônicos. E, disposta em meio à mata, faz alusão ao interesse que ela nutria pelas perambulações nas cidades.

Claudia

Da entrada, a vegetação típica de mata atlântica esconde boa parte da arquitetura da galeria da fotógrafa Claudia Andujar, uma das últimas a serem abertas no instituto, em 2015. Desenhado pelo escritório Arquitetos Associados, também responsável pela elegante obra dedicada ao fotógrafo Miguel do Rio Branco, o edifício tem 1,6 mil metros quadrados e é um dos maiores do instituto.

Nascida na Suíça e de origem judaica, Andujar veio para o Brasil em 1955 e, em 1970, a serviço da revista Realidade, teve o primeiro contato com os índios ianomâmi, na Amazônia. São eles os atores de destaque das fotografias que compõem a galeria. Durante quase duas décadas, a fotógrafa realizou preciosa documentação e imersão nos modos de vida desse povo, registrando o cotidiano do grupo e também o impacto trágico e melancólico da intervenção da civilização ocidental sobre o território ianomâmi, a partir do regime militar brasileiro. A demarcação das terras indígenas dos ianomâmi se deve, em parte, ao precioso trabalho feito pela fotógrafa com aquela população. “Os judeus eram marcados com a estrela de Davi para morrer. Eu estava marcando os ianomâmi para que eles sobrevivessem”, disse a fotógrafa sobre a obra que realizou.

“Eu gostei de tudo que vi até agora. As várias obras de Inhotim nos colocam em posições diferentes. O ‘Desvio para o vermelho’ (de Cildo Meireles) é um foco, aqui (na Claudia Andujar), tem a questão dos indígenas. A gente começa a levantar coisas que já vimos na vida, a fazer associações em nossa cabeça. Muita coisa pela qual passamos vem à tona”, conta a bibliotecária Cláudia Santos, 59, enquanto deixa a galeria. “A experiência vai despertando memórias. Eu sou apaixonada pela natureza. A gente tem coisas muito raras aqui e vai fazendo ligações. A própria experiência da natureza te relembra a sua vida, de quando criança, de pisar na terra e entrar no mato…”, continua Cláudia, de frente à obra da xará dela.

Antes de nos despedirmos, perguntamos à bibliotecária Cláudia Santos do que ela mais gostou no passeio. “Aqui não tem do que eu gostei mais. Eu gostei e ponto”, ela diz e sorri.

Opções de sustentabilidade econômica

Em meio à crise que sacode o país, para os próximos anos, o Inhotim trabalha com a meta de alavancar cada vez mais opções de sustentabilidade econômica. “O desafio é sempre financeiro. As visitações não cobrem as despesas. O Inhotim já bateu o recorde mundial, de a visitação cobrir 70% das despesas, mas quem financia o resto?”, coloca Cláudio Moura Castro, do Conselho Consultivo.

Um dos caminhos em estágio avançado encontra-se na construção de um hotel no interior do complexo. A Txai, que opera um resort de luxo em Itacaré, na Bahia, assumiu os trabalhos e irá administrar o estabelecimento, que deve contar com cerca de 40 bangalôs, piscina e restaurante. Ainda não há previsão de conclusão das obras, mas inicialmente trabalhava-se com a possibilidade de elas serem finalizadas no final de 2017.

Outra frente, operada diretamente pelo instituto, é a construção de círculos de patronos, atraindo pessoas que queiram atuar como mecenas, em troca de deduções fiscais previstas na legislação brasileira e até mesmo de obras de artistas do Inhotim. “Nós já tivemos uma experiência embrionária, com a galeria da Claudia Andujar, em que criamos um círculo de patronos para a conclusão do espaço. A Claudia nos cedeu alguns múltiplos (“cópias”) de algumas obras, que foram passados para os patronos que doaram para a galeria. É esse o modelo que a gente pretende aprimorar”, pontua o diretor Antônio Grassi.

Ele lembra que hoje mais de 400 brasileiros, por exemplo, fazem doações para o MoMA, em Nova Iorque, e poderiam contribuir para o Inhotim. “Seria interessante trazer essas pessoas para cá. Muitas fazem a doação para fora até por desconhecimento. No Brasil, elas poderiam ter renúncia fiscal (no imposto de renda). Um trabalho que tem sido feito é o de esclarecer e trazer esse investidor pessoa física para o Inhotim”, afirma o diretor. As definições sobre a construção de novas galerias e abertura de exposições em 2017 dependem, em parte, de acertos nesses modelos de financiamento.

Ao mesmo tempo, o Inhotim trabalha para fortalecer ainda mais a imagem que produz no exterior. Hoje, algo entre 15% e 20% dos visitantes do instituto, que, em 2014 e 2015, passaram dos 350 mil, vêm de fora do Brasil. Para isso, tem reforçado o trabalho da marca em escolas, eventos de arte e cultura em outros países, bem como a atuação em conjunto com embaixadas brasileiras em lugares como Alemanha, Portugal e Estados Unidos. Desde a abertura do espaço, em 2006, quase 3 milhões de pessoas já visitaram o instituto.

Insubstituível

Dado o caráter único da experiência de visitar o Inhotim, Grassi refuta a possibilidade de se abrirem unidades em outros países, tendência polêmica seguida por museus como Louvre, da França, e o Guggenheim, de Nova Iorque. “A ideia não é criar uma filial do Inhotim fora do Brasil. A ideia é fazer cada vez mais no Inhotim, como experiência que está aqui. Cada vez mais trazer pessoas para cá. Até porque uma das características mais fortes do Inhotim é o fato de que ele não tem reprodução. É difícil reproduzir o Inhotim”.

Questionado sobre a principal contribuição do instituto nesses dez anos, Grassi reforça a diversidade de olhares que o Inhotim trouxe sobre a cultura e a sensibilidade do país, fugindo dos lugares comuns que associam o Brasil somente a futebol, samba e carnaval.

“É muito importante o aspecto de mostrar um Brasil vivo, exuberante, que tem esse formato, esse estado de espírito, como o Inhotim conseguiu. É uma grande contribuição para a imagem do Brasil, tanto para fora quanto para dentro. O público brasileiro se surpreende com o Inhotim. O comentário principal que a gente ouve é ‘nem parece que estamos no país’. E a gente sempre retruca com outra ideia: ‘isso só é possível no Brasil’”.

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