Junto ao Caminho Novo da Estrada Real e envolta pela natureza exuberante nos limites das serras do Espinhaço e da Mantiqueira, a simpática Santana dos Montes promete satisfazer até mesmo os paladares mais exigentes.

Reportagem Sâmia Bechelane
Fotos Rogério Alves Dias

Quem nunca associou Portugal à famosa bacalhoada? Ou a sangria às terras espanholas? Da Argentina, são as empanadas; da Colômbia, as arepas. No Brasil, comidas e bebidas típicas também ajudam a dar a cara dos lugares: tacacá no Pará; baião de dois no Ceará; acarajé na Bahia. Minas Gerais, então, não seria a mesma sem a cachaça, o pão de queijo ou o feijão-tropeiro. Deliciosas, essas iguarias e bebidas conferem um sabor diferente a cada local e muitas vezes se convertem, por si só, em atrativos para visitantes. No universo turístico, elas vêm sendo chamadas de terroirs.

A Igreja de Santana.

Nas imediações da Estrada Real, algumas cidades têm apostado cada vez mais nos terroirs como incremento ao turismo local. Uma delas é a charmosa Santana dos Montes, a 151 quilômetros de Belo Horizonte. O município já revela vocação gastronômica desde os tempos coloniais: no auge do ciclo do ouro, no século XVIII, foram a agricultura e a pecuária as atividades responsáveis por povoá-la e também por abastecer as vilas garimpeiras próximas, de solos pobres e pouco férteis.

O ‘terroir’: torresminho com angu de fubá.

Com mais da metade dos 3.822 habitantes vivendo na zona rural, Santana dos Montes é tranquila e hospitaleira. É talvez o destino mais atraente entre as cidades que compõem o Circuito Villas e Fazendas de Minas, com um núcleo histórico bem preservado e belos hotéis-fazenda nos arredores, outrora palcos da produção agrícola local. Os poucos caminhos levam à Igreja Matriz de Santana, que homenageia a padroeira do município. É também no Largo da Matriz que repousa, imponente, o Solar dos Montes, que oferece um dos terroirs mais saborosos de Santana.
Linguicinha caramelada

O Solar é uma das ótimas opções de hospedagem em Santana dos Montes. É também a residência do casal de proprietários, Anamaria Vaz de Assis Medina e José Maria Medina — ou “dona Ana e seu Medina”, como são conhecidos na cidade. São eles os responsáveis pela receita da linguicinha caramelada, terroir servido no restaurante do Solar, com um misto de simplicidade e requinte.

As paisagens rurais convidam ao sossego.

Servida em rodelas ao molho caramelado e acompanhada por torradas de pão francês fresquinhas, a linguiça é um afago no paladar de quem aprecia a boa culinária agridoce. Vinho tinto seco ou cachaça de qualidade harmonizam bem com o prato, cuja inspiração veio em uma das muitas viagens que o casal já fez à Espanha. “Fomos a uma cidade muito pequena e agradabilíssima, chamada La Alberca, e lá comemos uma linguiça caramelada maravilhosa. Daí, comecei a fazer aqui. Todas as vezes em que viajamos, para qualquer coisa que eu como, costumo pedir a receita”, conta Anamaria.

Linguiça caramelada: ‘terroir’ exclusivo.

A cozinha é um dos grandes investimentos do casal para o Solar, que oferece pensão completa (termo usado quando, no preço da diária, estão incluídos café da manhã, almoço e jantar). O menu é variado e inteiramente preparado no local, com itens frescos da horta orgânica cultivada no quintal. O próprio casal decide o cardápio das refeições, que pode acolher tanto iguarias do repertório mineiro quanto pratos de outros países — a exemplo do locro, uma especialidade do norte argentino.

“São receitas de família, influenciadas por nossas ascendências espanhola, portuguesa, francesa e argentina, mas com a cara da comida mineira”, explica Anamaria. Finais de semana, férias e feriados prolongados são as épocas de maior procura por turistas, dentre os quais, casais cariocas e paulistas interessados ou já percorrendo a Estrada Real. Quem não está hospedado no Solar também pode frequentar o restaurante; basta reservar com antecedência.

Gastronomia da Roça

A linguiça caramelada e outros terroirs da cidade fazem parte do Programa Gastronomia da Roça, uma ação do Conselho Municipal de Turismo de Santana dos Montes (Comtur). Iniciada em 2014, a iniciativa ofereceu orientações sobre qualidade e atendimento para proprietários de estabelecimentos gastronômicos da cidade. Cada um deveria escolher um prato principal, de maneira a estabelecer uma lista de iguarias que pudessem se converter em atrativos turísticos locais. “Temos escassez de bons restaurantes na cidade; não é à toa que todas as hospedagens oferecem pensão completa. Por causa disso, a gastronomia por si só acabou se tornando um atrativo”, explica Anamaria, que é a atual presidente do Comtur e também consultora em estudos socioeconômicos, junto ao marido.

Degustação de vinhos e os tonéis de carvalho.

Apesar das dificuldades de adesão, o programa tem gerado bons frutos. Aos poucos, alguns pratos se firmam como legítimos terroirs da cidade, indicados como especialidades santanenses na lista “Locais a visitar em Santana dos Montes”. O guia está disponível na recepção do Solar e de outras hospedagens. Além da linguicinha caramelada, o torresmo com angu servido no Bar do Aristides e o peixe frito com farofinha do Sítio Cascatinha são pratos para agradar qualquer visitante. A degustação da cerveja artesanal Loba, embora não participe diretamente do Gastronomia da Roça, também se tornou um programa
turístico irresistível.

Torresminho com angu de fubá

É quase impossível se perder na sede de Santana, que tem o Largo da Matriz como referência e algumas poucas ruas que conduzem diretamente às fazendas do entorno. Na cidade, todas as pessoas perguntadas sabem informar onde está o Bar do Aristides: bairro Residencial João Nogueira, bem próximo à Escola Municipal Padre Armando Cesário. O armazém é administrado pelo próprio Aristides e pela esposa dele, Maria Aparecida. Os dois recebem o visitante com um sorriso no rosto e a hospitalidade típica dos mineiros. É nos fundos do bar que se prepara o famoso torresminho com angu, que não tarda mais que 20 minutos para chegar à mesa do cliente.

A porção de torresmos é simplesmente deliciosa. São quentinhos, crocantes, sequinhos, enormes, ao mesmo tempo em que carnudos e macios. Como acompanhamento opcional, vem um angu feito na hora, de partir com a colher e pegar com as mãos. O visitante pode dar um toque final ao prato com gotas de limão capeta “que a gente apanha nos pastos próximos”, revela seu Aristides. A bebida fica a gosto do cliente, mas cerveja e cachaça combinam muito bem. Definitivamente, é difícil parar de comer.

Na cozinha do bar, Maria Aparecida descreve passo a passo como preparar a iguaria. O toucinho é encomendado em um açougue de confiança, “de onde chega limpinho”. Mesmo assim, ela o “depila” mais uma vez, de maneira a evitar qualquer pelinho. Depois ele é lavado, escorrido, temperado com alho e sal e frito em óleo quente. Após a primeira fritada, Aparecida o escorre novamente e o guarda no congelador, onde fica por até 15 dias. Quando chegam os clientes, basta fritá-lo mais uma vez “até que pururuque”, descreve ela, em referência ao aspecto retorcido, dourado e cheio de bolhas que o torresmo ganha quando pronto. Já o fubá para o angu vem da vizinha Conselheiro Lafaiete. É moído em moinho de pedra, o que lhe confere um gosto ainda mais original.

O resultado de tanto apuro é uma porção que, segundo os proprietários, se converteu no principal atrativo gastronômico do bar. Eles garantem que, mesmo quem chega para comer outras porções servidas no local, como fígado de boi ou linguiça de frango, quer ao menos experimentar um torresminho. Aristides se diverte, lembrando alguns casos envolvendo a iguaria: “já aconteceu de vir gente aqui que nem conhecia angu. Outros perguntam: ‘pode comer torresmo com angu?’”.

Os apreciadores do prato são moradores de Santana e turistas, enviados principalmente pelo Solar dos Montes. Aparecida comenta que a procura melhorou depois que o prato passou a integrar o Gastronomia da Roça, devido à divulgação proporcionada pelo programa. E arremata com um dos segredos do negócio: “não tem problema servir outras coisas aqui no bar. O que não pode é deixar faltar o torresminho com angu”.

Peixe frito com farofinha

Marlene Magalhães e Antônio Aumari são os responsáveis pelo Sítio Cascatinha, a apenas dois quilômetros da Praça da Matriz. Com um sorriso no rosto, o casal recebe os visitantes já na porteira, de onde se avista toda a beleza simples do sítio. Hortas e redes em diferentes cantos, uma queda d’água natural — que inspirou o nome do lugar — e poço e piscina construídos para se aproveitar melhor a água. E é na varanda da casa do casal que se serve mais um terroir de Santana dos Montes: peixe frito com farofinha.

Peixe frito com farofinha.

O peixe é pescado na hora pelos proprietários ou pelo próprio visitante, ali mesmo, no tanque de tilápias do sítio. Menos de 40 minutos depois, já está limpo, frito e pronto para degustação, acompanhado por limão em fatias e por uma deliciosa farofa de farinha na manteiga. Com voz doce e calma, Marlene explica que o segredo do prato “é não ter segredo”. Para temperar, só sal e limão, que ajudam a manter o gosto natural do prato. Gordura velha ou queimada está proibida: a proprietária lembra que um peixe sequinho e saboroso requer óleo novo. Se o visitante desejar, podem ser servidos também arroz e salada.

Além de saborear o terroir, é possível desfrutar outras delícias do sítio, que é impecavelmente limpo e organizado. Ao custo de uma taxa simbólica (R$ 8 adultos/R$ 5 crianças), os visitantes podem nadar no poço e nas piscinas e conhecer um moinho d’água usado para moer fubá, “feito para pessoas que nunca viram um de perto”, explica Antônio. Também é possível beber garapa fresquinha, de cana moída na hora, em um pequeno engenho nos fundos da casa.

O Cascatinha tem recebido visitantes há mais de três anos. Segundo Marlene, além de incrementar a renda da família, essa é uma forma de proporcionar aos visitantes atrativos aos quais eles não costumam ter acesso nas cidades. Os turistas chegam principalmente por indicação do Solar dos Montes e do Circuito Villas e Fazenda de Minas. “Ainda está indo devagar, mas tem melhorado”, destaca. Por enquanto, a melhor divulgação tem sido mesmo o boca a boca. E o casal garante: quem vai volta.

Cerveja artesanal Loba

Santana dos Montes faz jus ao nome: para todo lado que se olhe, avistam-se serras e mais serras, cobertas de vegetação verdinha e emolduradas por um céu azul deslumbrante. Quando cai a tarde, o sol se põe atrás dos montes, em um verdadeiro espetáculo de beleza natural para moradores e visitantes. É esse o cenário da rota que leva à Fazenda Guarará. A oito quilômetros da igreja matriz, o local abriga a fábrica da Cerveja Loba Artesanal, sob a batuta do engenheiro e empresário Aloísio Rodrigues Pereira.

Degustação de cervejas artesanais.

A Loba produz 16 tipos de cerveja, com teor alcoólico que vai de 3,6% — a rosada e leve Berry Saison — até 11%, a preta e amarga Russian Imperial Stout. A mais popular, no entanto, é a dourada Lager, que tem 4,8% de álcool na composição e se harmoniza bem com queijos, crustáceos, peixes, massas e churrasco. Segundo Aloísio, ela responde por metade dos 50 mil litros de bebida fabricados mensalmente. A degustação completa custa R$ 10 por pessoa e é feita em uma área de convivência da Fazenda, com vista para os montes de Santana.

A história da Loba começou “do nada”, de acordo com o proprietário, que acompanhou todo o passeio à fazenda e serviu pessoalmente cerveja aos participantes. Durante as festas entre amigos realizadas na Fazenda, ele observava que o desperdício da bebida era constante e muito alto. Até que veio a inspiração: por que, em vez disso, não fazer a própria cerveja e oferecer aos convidados um fermentado de maior qualidade? A produção teve início em 2012, e, até agora, já são mais de 50 pontos de venda em toda Minas Gerais. A Loba conta com dois mestres-cervejeiros exclusivos e é uma das prioridades nos negócios de Aloísio, que também é dono do Hotel-Fazenda da Chácara, a seis quilômetros dali.

A fábrica da Loba está próxima à área de degustação e compensa a visita. Cada um dos tanques fermentadores — com capacidade para 1.500 litros cada — leva o nome de um lobo: Rojo (Vermelho), Ártico, Himalaia, Guará. O nome da cervejaria, aliás, é uma homenagem a este último, comum na região do vizinho Rio Guarará. No recinto dos fundos, o cheiro característico de cereais maltados vindos de países como Alemanha e Bélgica atesta a qualidade da cerveja.

Além da Loba, a Guarará oferece outras opções para o tour etílico do visitante. Extensas vinhas garantem a produção das uvas cabernet franc, sauvignon blanc, syrah e tempranillo, cuja colheita é enviada para a cidade de Caldas, no Sul de Minas, e retorna já em forma de vinho, para armazenagem em tonéis de carvalho. Está pronto o vinho Dos Montes, com uma produção média de 50 mil litros ao ano. Cachaça também não poderia faltar em uma fazenda mineira: embora não produza o destilado, a Guarará tem armazenados 80 mil litros da tradicional Itaverense, produzida na vizinha Itaverava e engarrafada em ocasiões específicas, a pedido do proprietário.