Por Cacá Brandão

Fui dramaturgista do Galpão por quase 15 anos. Antes, durante e depois dessa temporada, escrevi livros sobre a história e as atividades do grupo, artigos sobre diversos aspectos do trabalho dele, ensaios sobre o teatro e sobre o ofício dos que se dedicam a ele, diários das montagens para as quais fui convidado, entrevistas, textos para programas e muitas outras coisas. Por isso, tornou-se difícil escrever “sobre” o Galpão, como me foi solicitado pelo editor da Sagarana, sem sentir-me plagiando-me. Decidi, então, escrever “sob” o Galpão e a sua luz, tal como um vitral que, com a tinta do sol, redige suas mensagens multicoloridas no chão das igrejas por ele paginado. O que pretendo, portanto, é tentar ver aquilo que algumas das suas peças poderiam iluminar no nosso presente tão sombrio e examinar a travessia que elas vêm fazendo no tempo desde quando foram concebidas.

A sensibilidade requerida pelas montagens do Galpão é cultivada com muita dedicação e disciplina do corpo e do espírito, o que geralmente não é percebido pelo público, dado a espetacularizar tudo e a glamourizar excessivamente a arte. Fundado em 1982, o Galpão trabalha o teatro como um misto de risco e rito, o que serviu de título para o livro sobre os 15 anos de sua trajetória¹. A profundidade, o rigor e a intensidade das pesquisas e reflexões que alicerçam suas montagens levam-no a capturar e a revelar o que se encontra latente no presente e ao nosso redor, mas que só perceberemos quando talvez já seja tarde. A maior prova disso vi das coxias do Teatro do Sesiminas, em uma apresentação de “Partido” (1999, direção de Cacá Carvalho e adaptação livre de “O visconde partido ao meio”, livro escrito por Italo Calvino, em 1951). Trata-se de uma peça na qual o público não tem muito do que rir, que diverge do clima circense e cômico frequente nas montagens da trupe e que serve como uma advertência para nós. Depois de participar de uma guerra e levar um “canhonaço no peito”, o visconde Medardo volta para Terralba cindido em uma metade completamente perversa, que atormenta a cidade durante a primeira parte da peça, e outra totalmente beata, mas igualmente insuportável, que domina a segunda parte. Narrada a partir do olhar do sobrinho do visconde, a montagem sublinhava a cisão radical entre o bem e o mal da qual somos compostos. Mas, além disso, ela prenunciava uma sociedade maniqueísta, intolerante, abrutalhada e fraturada por facções que não têm outro horizonte senão eliminar uma à outra. Esse horizonte abateu-se sobre nós com o 11 de setembro de 2001, quando “Partido” já ia para a terceira temporada, e o mundo viu, no lugar das torres gêmeas, ser instaurada uma humanidade cindida em duas metades incapazes de se harmonizarem entre si. Essa divisão contrapôs ocidente e oriente, cristãos e muçulmanos, civilização e barbárie, puros e impuros.

“Partido”.

Toda uma trajetória de destruição recíproca acentuou-se a partir dali e sequestrou o projeto de uma humanidade universal no qual a emancipação do ser humano estaria acima de categorias estreitas — como as de raça, de ideologia, de classe e de religião — nas quais este acabou sendo lançado. A partir de então, essa cisão radical foi aprofundada até gerar uma crise civilizatória sem precedentes, da qual não estamos sabendo sair. Ela infiltra-se em todo lugar e tornou-se a ideologia predominante introjetada dentro de cada sociedade, como a brasileira atual, e de cada um dos seus integrantes. Um “canhonaço no peito” explodiu o ideal do bem comum e fez de nossas cidades campos de batalha entre uma facção que se julga pura e boa e outra considerada impura e má. Tais cisões — políticas, econômicas, raciais, religiosas, futebolísticas, sexistas, etc. – nos jogaram em tribos, comunidades fechadas, universos privados e guetos telemáticos que nos acorrentam e que tentam avassalar uns aos outros, ter a posse exclusiva do espaço, das mentes e das riquezas todas e dominar nosso corpo, nossa alma e nosso tempo.

Chegamos ao momento prenunciado por aquela montagem de 1999 e a uma paisagem de ruínas e destruição produzidas pela barbárie hi-tech e consumista contemporânea. Um tempo de muito lixo, no qual o ser humano e a civilização tornaram-se também descartáveis. Na paisagem sombria de Terralba, o sol deixou de nascer, como na Los Angeles, de “Blade Runner”. “Partido” ainda é uma advertência para um público que não quer ouvi-la e “cuja hora passa desesperadamente”, como diz o personagem Pedropregro. É Sebastiana quem faz, ao final dessa peça, uma avaliação de nosso estado atual: “Essa resignação é repugnante!”. E são do sobrinho de Medardo as palavras que relanço a você, leitor, como um canhonaço terno: “Não me deixe aqui, senhor, sozinho neste mundo cheio de responsabilidades e fogos-fátuos. Não pode me deixar aqui, senhor!”. Esse deserto onde me encontro, à diferença do que é declamado pelo coro com que “Partido” é encerrado, não é mais só meu.

Para fazer comédia, sugerem Aristóteles e Molière, basta imitar os homens tais como são. Do que rimos com o Argan de “Um Molière imaginário” (1997, direção de Eduardo da Luz Moreira e adaptação de “O doente imaginário”, com inserções inspiradas em Machado de Assis) e com a aflição dos gestores da cidade aonde deveria chegar “O inspetor geral” (2003, direção de Paulo José e adaptação da peça de N. Gógol)? De nós mesmos, hoje, ilhados por um mar de hipocrisia, medo, corrupção, impunidade, ardis, avarezas e falcatruas proporcionadas por tartufos vigaristas que supomos terem o poder de salvar nosso corpo, nossa alma, nossas esperanças e nossas finanças. Atropelados a todo instante por mensagens e informações ludibriadoras e alienantes, tornamo-nos cegos para a realidade ao redor, para a verdade, para a solidariedade e para a justiça. Fomos “dessubjetivados”, tornamo-nos marionetes de nós mesmos e passamos a nos ancorar em fundamentalismos de toda espécie, em pós-verdades, em quimeras e promessas absurdas — como as dos livros de autoajuda, das propagandas e dos discursos dos políticos, dos pastores e das mídias — e em aparências desprovidas de qualquer substância: “Um homem de barba já é mais do que meio médico”, ensina-se a Argan. Hoje, é mais importante aparentar saber do que saber de fato. O próprio capital tornou-se uma ficção que as cidades globais e os centros financeiros fazem circular virtualmente. Substituímos o decoro, o bom senso e a consciência crítica pela ostentação, pela opinião mais assimilável e dócil à massa e pelo instinto que conduz a horda, como examinado por Freud. A solidariedade reduziu-se, quando muito, à esmola. Trocamos a liberdade pela segurança de estarmos bem juntinhos de nosso dinheiro, como o contabilizado permanentemente por Argan, e de nossos armamentos, como o estivador Galy Gay, de “Um homem é um homem” (2005, direção de Paulo José e texto de B. Brecht), que acaba transformado em uma máquina de guerra.

“Um Moliére Imaginário”.

A guerra já foi reconduzida ao centro de nossas relações sociais e voltou a ser uma ameaça para a humanidade toda. O ser humano não nasce humano, dizia Cícero: ele se torna humano, e, para isso, serve a cultura, ou se torna desumano, sob a pressão do medo, do utilitarismo, do rancor e do dinheiro. Também nosso povo — que tanto lota igrejas e templos gigantescos e suntuosos como lojas de shopping e dos quais Cristo o expulsaria, irado — condenaria Jesus à cruz e salvaria Barrabás e Judas, pois esses são mais divertidos e mais semelhantes aos fariseus que nos tornamos, como se compreende ao atravessar “A Rua da Amargura” (1994, direção de Gabriel Villela e adaptação do texto do dramaturgo português Eduardo Garrido). Ao que parece, nossa salvação está em condenar Cristo mais uma vez e, em seguida, acabar com o planeta e com nós mesmos, simultaneamente, precipitando a morte lenta para a qual nos dirigimos, como para um abismo, junto aos personagens de “Eclipse” (2011, direção de Jurij Alschitz e texto adaptado de A. Tchékhov).

“O homem é um homem”.

Habitantes absurdos, fraturados e oprimidos em cidades sombrias, divididas e brutais: “Nós!” (2016, direção de Márcio Abreu). Verona é aqui e agora, ao nosso redor. O amor livre dos enamorados modernos nasceu com “Romeu e Julieta” (1992, direção de Gabriel Villela e adaptação da obra de Shakespeare, com inserções inspiradas em Guimarães Rosa), um casal que não teria lugar também entre nós (a não ser nas telas de TV) e que seria obrigado a solidarizar-se apenas com os astros e as montanhas e a salvar-se no suicídio e na fantasia poética, para poder escapar do poder gregário das massas e da brutalidade de uma cidade espoliada e dividida pelas gangues dos Montecchios e Capuletos de hoje: “amor preso range na boca e quer fim!”. Como Romeu, fomos exilados. Como Julieta, abandonados pela mãe, pelo pai e pela ama. “Não me deixe aqui sozinho, senhor!”. Ficamos sozinhos nesta cidade cheia de responsabilidades e fogos-fátuos, mas sem horizontes e sem a magia reclamada por Pirandello em “O gigante da montanha (2013, direção de Gabriel Villela e adaptação do texto de L. Pirandello). Pois o pior que nos roubaram foram os horizontes e a capacidade de encantar o universo que nos cerca e de, sem sair dele, nos libertar.

“A Rua da Amargura”.

 

“Romeu e Julieta”: não teriam lugar entre nós.

Sob a luz que o Galpão faz atravessar pelo vitral de nosso tempo, revela-se, portanto, o que somos, o que fomos, o que perdemos, o que estamos em vias de ser e de deixar de ser. É ela que permite ver-me, ver você, leitor, e ver o lugar onde nos encontramos hoje: Terralbas e Veronas. Por isso, não há símbolo mais adequado para esse grupo de teatro: uma estrela azul e amarela que insiste, ainda, em prospectar horizontes e iluminar a nossa escuridão!


Cacá Brandão (Carlos Antônio Leite Brandão) é professor da Universidade Federal de Minas Gerais e atuou como dramaturgista do Galpão nas montagens de “Romeu e Julieta”, “Um Molière imaginário”, “Partido” e “O inspetor geral”.

Frases!

Decidi, então, escrever “sob” o Galpão e a sua luz, tal como um vitral que, com a tinta do sol, redige suas mensagens multicoloridas no chão das igrejas por ele paginado.

O Galpão trabalha o teatro como um misto de risco e rito. A profundidade, o rigor e a intensidade das pesquisas e reflexões que alicerçam suas montagens levam-no a capturar e a revelar o que se encontra latente no presente e ao nosso redor, mas que só perceberemos quando talvez já seja tarde.

Um “canhonaço no peito” explodiu o ideal do bem comum e fez de nossas cidades campos de batalha entre uma facção que se julga pura e boa e outra considerada impura e má.


Notas:

¹ BRANDÃO, Carlos Antonio Leite. Grupo Galpão: 15 anos de risco e rito. Belo Horizonte: Grupo Galpão, 1999.