Nhá Chica, a leiga que nasceu em um pequeno povoado — Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, distrito de São João del Rei —, ganha um caminho de fé, repleto de belezas naturais e carregado de história, uma trilha à altura da santidade da legendária beata.

Por Cezar Felix (reportagem e fotos; com colaboração de Jean Donnard e Augusto Almeida nas fotografias)

A Rota Nhá Chica — Caminho das Virtudes —, cujo trajeto soma 220 km ao longo da Estrada Real, começa em Tiradentes, na Trilha dos Inconfidentes, e termina em São Lourenço, no Circuito das Águas.

Desenvolvida pelo Sebrae Minas — em parceria com nove prefeituras dos municípios integrantes do roteiro — ela é assim dividida: Caminho da Castidade, 11 km, que percorre Tiradentes, Santa Cruz de Minas e São João del Rei. Caminho da Prudência, também 11 km, entre São João e Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. O próximo, com 16 km, é o Caminho da Fé, entre Santo Antônio do Rios das Mortes Pequeno e São Sebastião da Vitória. Na sequência, parte-se desta localidade e vai até Caquende: 22 km. Com extensão de 30 km, o Caminho da Fortaleza sai de Caquende,  vai até a Capela do Saco e termina em Carrancas. Mais 15 km, o trecho sai desta cidade e termina na Estação de Carrancas. Daí até a Fazenda Traituba são mais 20 km pelo Caminho da Pobreza. Desta tradicional propriedade rural até Cruzília forma-se os 37 km do Caminho da Obediência. Em seguida, o trecho até Bependi, de 19 km, é chamado de Caminho da Caridade. Entre a cidade em que viveu Nhá Chica, passando por Caxambu até Soledade de Minas (19 km) está o Caminho da Esperança. Finalmente, o Caminho da Temperança: 15 km entre Soledade e São Lourenço.

Nhá Chica, um caminho de fé e de graças. Foto Jean Donnard.

Uma grande peregrinação

O fato é que há muito tempo  — são mais de 100 anos — acontece  interruptamente uma grande peregrinação nessas trilhas. Os fieis percorrem um longo caminho rumo a Baependi,cidade onde ela faleceu, para agradecer à milagrosa beata as graças alcançadas. “Por devoção a Nhá Chica, a peregrinaçãode São Lourenço a Baependi é feita por uma estrada de chão, com aproximadamente 33 km, que possui paisagens exuberantes de cachoeiras, grutas, mirantes, serras e represas, além de igrejas, santuários e capelas, o que confere à região um grande potencial para o turismo religioso, atraindo não apenas devotos, mas também turistas”, como informa o Sebrae Minas.

Escultura de Nhá Chica no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Baependi. Foto Jean Donnard.

O projeto liderado pelo Sebrae mineiro vislumbra justamente esta potencialidade turística da rota: “no Brasil, os motivos religiosos têm impulsionado o setor de turismo, aquecendo as atividades de comércio e serviços, propiciando a geração de empregos e inclusão social”, argumenta a instituição, que explica: “o projeto do Sebrae Minas, em parceria com as prefeituras das nove cidades mineiras incluídas na rota, teve início há dois anos. Nesse período, foram realizadas ações de formação e fortalecimento da governança, pesquisas e levantamentos dos atrativos turísticos e histórico-culturais, formatação de novos produtos turísticos para comercialização e capacitação de grupos de artesãos”.O Sebrae informa ainda que “o projeto prevê a sinalização com placas e avisos sobre o significado das virtudes atribuídas à beata mineira, além da publicação do Guia do Peregrino, que irá orientar turistas e peregrinos sobre as condições da rota”.

A primeira negra brasileira beatificada

Surgem belas paisagens rurais nos trechos da trilha.

A inspiradora da Rota Nhá Chica, Francisca de Paula de Jesus, nascida em meados de 1810 como filha livre de uma escrava, foi beatificada (a primeira negra do Brasil) pela Igreja Católica em maio de 2013 — em cerimônia presidida pelo cardeal Angelo Amato, representante da Santa Sé e prefeito da Congregação para a Causa dos Santos. Ela viveu quase toda a vida em Baependi, pois chegou lá ainda muito pequena acompanhada da mãe e do irmão, dois anos mais velho. Aos 10 anos de idade, ficou orfã. Ainda jovem, já era conhecida e procurada por muitas pessoas em busca de conforto, conselhos e, sobretudo, de orações.

Em pouco tempo, muitos passaram a considerá-la como uma ‘santa’. Sobre isso, quanto perguntada por alguém, ela simplesmente respondia que apenas rezava com muita fé. Nhá Chica tem uma biografia que justifica não só a veneração em torno dela como a beatificação pela Igreja. Desde o falecimento da beata, em 14 de junho de 1895, incontáveis graças e até milagres são atribuídos a ela. São relatadas, inclusive, curas por intercessão, fenômenos que a ciência não conseguiu explicar, fatos decisivos para a beatificação da humilde mineira. Leia na sequência dessa reportagem outras informações sobre a vida de Francisca de Jesus.

Os municípios envolvidos da Rota Nhá Chica pela Estrada Real reúnem impressionantes acervos de produtos turísticos.

Imenso acervo de produtos turísticos

No trajeto proposto pelo Guia do Caminho das Virtudes – Rota Nhá Chica, produzido pelo Sebrae Minas, os municípios envolvidos somam um impressionante acervo de produtos turísticos — reunindo aqueles relacionados ao patrimônio histórico, à cultura (arte, arquitetura, artesanato e folclore), todos os que são voltados para a natureza (ecoturismo, turismo de aventura, águas minerais e termas) e ainda os que envolvem a gastronomia. Também é preciso ressaltar a ampla oferta de hospedagem de qualidade.

Além da rota efetivamente proposta pelo Guia Caminho das Virtudes (detalhado aqui nesta reportagem), o viajante pode usufruir de atrativos imperdíveis e já consagrados — desde Tiradentes até São Lourenço.

Tiradentes, o início da rota

São quilômetros que revelam paisagens exuberantes, inclusive de inúmeras cachoeiras. Foto Jean Donnard.

Como a rota começa por Tiradentes, o Caminho da Castidade, é impossível deixar de indicar visitas aos mais importantes atrativos da cidade histórica mais charmosa do Brasil.

O largo das Forras, a praça principal de Tiradentes.

O Largo das Forras é a praça principal da cidade e, como o nome indica, era o lugar onde os escravos recebiam as cartas de alforria destinadas a eles. Sombreada por uma linda figueira —uma segunda que havia lá teve que ser cortada recentemente em função do ataque de uma praga —, é rodeada por bares, restaurantes e pelas charmosas cherretes. Na arquitetura, destaca-se a sede da prefeitura, um casarão colonial datado de 1720, que é a maior construção civil da cidade. O monumento a Tiradentes, de 1982, comemorativo do centenário da morte do mártir, não passa despercebido. Lá também está a Capela do Senhor Bom Jesus da Pobreza (1771), uma construção simples, mas que abriga um belo forro, cuja pintura mostra o Pai Eterno e o Espírito Santo. Há ainda a figura do Cristo Agonizante onde reluzem na imagem os olhos de vidro e os rubis, representando as chagas.

As charmosas e tradicionais charretes de Tiradentes.

Fachada do Museu Santa’Ana: acervo de 291 esculturas de Santa’Ana, o único do gênero existente no Brasil.

Museu de Sant‘Ana e Igreja do Rosário

Só o fato de caminhar pela Rua Direita já é um deleite pela oportunidade de observar a arquitetura colonial em grande parte preservada. Um pouco adiante na rua, o Museu de Sant’Ana nem parece que um dia foi cadeia. Construída por volta de 1730, a casa foi restaurada em 1835, após um incêndio em 1829. Em 2014, depois de um amplo projeto de restauração sob responsabilidade do Instituto Cultural Flávio Gutierrez, o prédio da antiga cadeia se transformou no museu que abriga um acervo de 291 esculturas de Santa’Ana, o único do gênero existente no Brasil.

Já a Igreja de Nossa Senhora do Rosário foi construída em pedra cantaria em  1708, no início do povoamento do então Arraial Velho, em 1708. A igreja possui belíssimas imagens de São Benedito, São Brás e São Elesbão. A construção dela foi obra da Irmandade dos Homens Pretos. No interior do templo, foi sepultado Manoel Víctor de Jesus (1793-1828), o talentoso artista mulato que pintou a maioria das obras encontradas na Matriz de Santo Antônio, inclusive a caixa do órgão.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário: construída em pedra cantaria em 1708.

Matriz de Santo Antônio

 A Matriz é um caso à parte tamanho a beleza e a importância histórica e cultural. A tradição oral aponta que as primeiras obras da igreja iniciaram-se em 1710. O templo, porém, encontrava-se quase pronto em 1732.

No decorrer do século XVIII houve a ampliação da nave, a construção das sacristias e a fachada foi remodelada. Aliás, por volta de 1810, Aleijadinho, reconstruiu a frontaria, em estilo rococó, numa encomenda da Irmandade do Santíssimo Sacramento.

No alto a Matriz de Santo Antônio: um caso à parte pela beleza e importância histórica e cultural.

Destacam-se no interior do templo os dois retábulos de Nossa Senhora da Conceição e São Miguel e Almas, os mais antigos da igreja (primeira metade do século XVIII). Há ainda, o belo conjunto homogêneo de talha, no estilo dom João V, também da primeira metade do século XVIII. A obra monumental do coro, com colunas e guirlandas douradas é da mesma época, e o forro da capela-mor é pintado a ouro. Já o da nave, tem pinturas com cenas e símbolos do Antigo Testamento.

Painéis pintados nos anos de 1736 e 1737 decoram a capela-mor; e no camarim, painéis pintados nos anos de 1736 e 1737. Entre as décadas de 1730 e 1740 foram executados os retábulos da Irmandade do Bom Jesus do Descendimento, do Bom Jesus dos Passos, de Nossa Senhora do Terço e de Nossa Senhora da Piedade. De grande beleza são as duas sacristias decoradas ao gosto rococó; as pinturas de Manoel Victor de Jesus reluzem nos consistórios dos Passos, do Santíssimo Sacramento e do Descendimento assim como o órgão e o relógio da torre, ambos confeccionados em Portugal e instalados em 1788. É preciso incluir o relógio de sol em pedra-sabão, datado de 1785 — atualmente um dos símbolos mais famosos da cidade.

Esplendor da arte e arquitetura em estilo barroco.

Originária de uma pequena capela construída em 1776 pelo ermitão Antônio Fraga, com o dinheiro de esmolas recolhidas por ele, a Igreja da Santíssima Trindade hoje é formada por nave e capela-mor, ladeadas por sacristias e consistórios do século XIX. A portada de pedra-sabão (inacabada), as duas janelas à altura do coro, o frontão triangular e os sinos nas duas laterais caracterizam a fachada.

Igreja da Santíssima Trindade, recentemente restaurada. Foto Augusto Almeida

O retábulo de madeira recortada dentro da igreja é original; o arco-cruzeiro é simples e o púlpito tem forma de paralelepípedo. Os dois altares (datados de 1824) foram esculpidos com talha aproveitada de altares mais antigos.

Imagens do “Pai eterno com Cristo crucificado” e de “Nossa Senhora das Dores e São José”, seis castiçais e oito telas completam o acervo.

Marco Zero da Estrada Real, Santa Cruz de Minas

Seguindo pelo Caminho Velho, que encanta pela linda paisagem da Serra de São José, logo chega-se ao monumento do Marco Zero da Estrada Real, no município de Santa Cruz de Minas. Logo ao lado, a imponente Cachoeira do Bom Despacho — e as piscinas naturais que ela forma —atrai muita gente da região, além dos muitos turistas.

Turistas na Cachoeira Bom Despacho, em Santa Cruz de Minas, marco zero da Estrada Real.

Logo a seguir, um lugar muito interessante (e impressionante) é o Refúgio de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José, que ocupa uma área verde de 3.700 hectares. Trata-se de um precioso tesouro natural de Minas Gerais em meio a formações do Cerrado, Mata Atlântica e Campos Rupestres, ao longo de 12 km dos paredões rochosos da Serra de São José.

O Refúgio das Libélulas — cuja criação é uma iniciativa pioneira no Brasil e abrange os municípios de Tiradentes, Santa Cruz de Minas e Prados — protege uma das localidades mais ricas em libélulas do mundo. Para se ter uma ideia, a região no entorno da Serra de São José abriga em torno da metade de todas as espécies conhecidas em Minas Gerais e estima-se que 18% de todas as encontradas no Brasil.

Outro atrativo: Refúgio de Vida Silvestre Libélulas da Serra de São José, uma área verde de 3.700 hectares.

O Instituto Estadual de Florestas (IEF) é responsável por administrar esta Unidade de Conservação (UC). Aberta à visitação pública, a UC  tem como atrativos: Casa da Serra, Casa das Águas, Trilha do Carteiro, Trilha da Biquinha, Trilha da Mãe d’Água, Trilha do Sopé da Serra e Trilha do Mangue.

Vale a pena conhecer a produção local de móveis rústicos na região.

Uma vez no perímetro urbano de Santa Cruz de Minas, vale a pena conhecer a produção local de móveis rústicos. A cidade tem diferentes lojas que oferecem produtos de muita qualidade em madeira de demolição — bancos, mesas, cadeiras, armários e aparadores, dentre outros. Vale a pena também conhecer o artesanato local, produzido em madeira. Existem peças variadas e de grande originalidade. É preciso reparar na praça e na Matriz de São Sebastião, um belo templo, que pertence a uma paróquia recente, datada de 1986. Porém, a devoção ao santo pela comunidade vem de um longo tempo: são mais de 200 anos.

São João del Rei

A rota então segue até a Ponte da Cadeia em São João del Rei, cuja obra é datada de 1798, foi construída em pedra e cal, “com cantaria de picão, em todas as suas faces e lados”, como registra o sítio patriamineira.com.br: “que seria formada por três arcos de 32 palmos de vão cada um”. Outro dado interessante é que a responsabilidade pela empreitada ficou a cargo do Mestre Francisco de Lima Cerqueira que, na mesma época, construía as igrejas de Nossa Senhora do Carmo e de São Francisco de Assis.

A bela Igreja de São Francisco de Assis é um atrativo que precisa ser visitado.

A atração seguinte é o Museu de Arte Sacra. Dono de um acervo diversificado — que soma 450 peças —  que cobre o  período da mineração e o auge da produção artística dos estilos barroco e rococó. As coleções — muitas delas oriundas de doações particulares e outras em regime do comodato, acervos de ordens das igrejas, confrarias e irmandades — registram peças que vão do século XVIII até o século XX. Elas reúnem mobiliários, livros litúrgicos, pinturas, imaginárias, ourivesarias e indumentárias, dentre outros raros itens.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo, cuja construção foi iniciada em 1734.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo

A seguir, surge a Igreja de Nossa Senhora do Carmo — ou Igreja da 3ª Ordem do Carmo, cuja construção teve início em 1734. Os registros do templo mostram que houve obras até 1879, o que demonstra uma grande lentidão nos trabalhos. A arquitetura diferencia-se pelas torres octogonais. Francisco de Lima Cerqueira foi o responsável por erguer o fronstipício, iniciado em 1787 e somente finalizado em 1816. Coube ao Mestre Cerqueira, em 1790, “a opção pela forma octogonal das torres, em substituição às formas arredondadas, como previa o projeto original”, esclarece o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Trabalhada em pedrão sabão, a portda destaca-se não só pela beleza como também pelo fato de ter sido obra de três autores diferentes. Aleijadinho esculpiu os dois anjos em cima das pilastras, segurando escapulários. Especialistas, inclusive, afirmam que os anjos estão entre as mais belas obras do gênio Antônio Francisco Lisboa. Já o querubim anexo à porta é de autor desconhecido assim como a figura de Deus Pai , no medalhão — que seria uma plágio da escultura do profeta Naum, de Congonhas —, obra de alta qualidade, de alguém próximo a Aleijadinho.

Outra diferente característica da igreja é a talha toda em branco, de grande valor artístico, que impressiona pela beleza. A imagem de Nossa Senhora do Carmo está no forro da nave junto com Papa João XXII. A vigorosa talha da capela-mor traz como elementos decorativos o coroamento do retábulo — onde estão a tarja e o símbolo da ordem Carmelita: o Monte Carmelo e as três estrelas representando os santos da ordem: Santo Elias, Santa Tereza d’Ávila e São Simão Stock.  A padroeira, Nossa Senhora do Carmo, está no trono e nas laterais Santo Elias e Santa Tereza d’Ávila.

Ainda na capela-mor não passam despercebidas as pinturas do alemão George Grimm, de 1879, cenas da Transfiguração e Elias subindo ao céu.

Professor da Imperial Academia de Belas Artes, Grimm foi o precursor da pintura ao ar livre no Brasil.

Há ainda no interior do templo a imagem (inacabada) do Cristo Crucificado, o que gera muitas lendas sobre o fato da obra não ter sido finalizada. Encontrada no interior da igreja no século XX, ela está exposta em uma urna de vidro. 

O casario histórico e a Basílica de Nossa Senhora do Pilar.

Basílica de Nossa Senhora do Pilar   

O caminho da rota segue até a linda Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. O templo, de 1721, chegou a ser incendiado durante a Guerra dos Emboabas (1707/1709). Ampliada no início do século XIX, ganhou nova fachada, em estilo neoclássico (em 1817), assinada por Manoel Vitor de Jesus, que substituiu a obra do Mestre Cerqueira.

Colunas salomônicas de uma valiosa talha dourada, do período joanino, sustentam a incrível capela-mor. A imagem da Virgem do Pilar, a padroeira, ilumina o trono do altar-mor.  No coroamento, está a Santíssima Trindade. Em forma de cúpula, o forro é decorado com ornamentos dourados.

O conjunto da nave é constituído por seis altares laterais em magnífica talha barroca assim como são os púlpitos.

Outras obras — o forro, pintura do coro, assoalho e paredes da sacristia — foram executadas durante o século XIX, entre os anos de 1850 a 1863. Atribui-se as autorias a artistas locais como Venâncio do Espírito Santo. Destacam-se a Virgem com o menino no medalhão central, a representação dos doutores da igreja, os  quatro evangelistas e a de um personagem, ao lado de um anjo, trajado com roupas ao estilo da época, que pode ter sido quem financiou os trabalhos.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em São João del Rei, de 1719.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário

 Ainda um povoado e nem mesmo  elevado a vila, os habitantes do lugar onde hoje é São João del Rei, foram testemunhas, em 1708, do início das obras da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Concluídas em 1719, ela foi remodelada em 1753 e nos anos de 1930 ganhou as duas torres atuais.

No interior,a decoração em estilo rococo tardio embeleza os três retábulos, o medalhão no arco cruzeiro e os ornamentos de portas. O forro da nave é em forma de abóboda e o batistério, se tornou uma capela em forma de gruta. Dentro dela, a imagem de Nossa Senhora, uma pia de pedra e uma torneira em forma de cabeça. O forro, dividido em três painéis, é decorado por pinturas com elementos geométricos.

O artista Luís Pinheiro de Sousa fez a talha da capela-mor e no trono destaca-se a belíssima imagem de Nossa Senhora do Rosário, venerada com muita fé pelos devotos, considerada por eles como a mais importante representação de Maria de toda a cidade.

Terceira ponte construída em São João, após as pontes da Cadeia e da Santa Casa, a ponte do Rosário ficou pronta em 1801, feita de pedra e cal, cantaria de picão miúdo e também formada por três arcos. A cruz de pedra sabão no centro do arco maior é recente, dos anos de 1970. Porém, a peça substituiu uma anterior, do mesmo material e da época da construção, que foi quebrada.

A trilha segue pela região que é cortada pelo Rio das Mortes.

Antes de pegar a rota rumo a Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, no Caminho da Prudência, passa-se pela Igreja de São José Operário, no Bairo Tijuco, fundada no ano de 1945. A pequena vila, torrão natal de Nhá Chica, ainda conserva na “igreja velha”, as ruínas do piso de pedra da pia batismal, onde a beata foi batizada. Ela é lembrada pelos católicos na pequena localidade em duas ocasiões: no 26 de abril, data do batizado, e na data da morte dela, em 14 de junho de 1895. Nessas datas, são celebradas missas, além de festejos como quermesses.

Rio das Mortes também festa o seu padroeiro, Santo Antônio, numa tradição que completará 295 anos. A grande festa acontece exatamente no dia dedicado a ele, 13 de junho. Além da celebração de três missas na Matriz de Santo Antônio, ocorre a procissão, momento em que os devotos tem a oportunidade de venerar a imagem do santo “casamenteiro”, datada do século XVIII.

Placa indicativa do Caminho Religioso da Estrada Real.

CRER – Caminho Religioso da Estrada Real

O trecho de 16 km do Caminho da Fé entre Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno e São Sebastião da Vitória é para quem aprecia um boa trilha em meio à natureza. Com 66% do percursos em estrada de terra, é preciso atravessar pontes e riachos, abrir porteiras e adentrar em fazendas.

Em um ponto, surge o entroncamento  da Estrada Real com o CRER – Caminho Religioso da Estrada Real. O caminhante-peregrino tem a oportunidade de contemplar a bela natureza ao seu redor, desenhada por um relevo acidentado, cuja a paisagem revela amplas áreas verdes das matas do cerrado, além das lavouras e dos animais nas pastagens. Antes do destino final, cruza-se o povoado de Goiabeiras, onde está a Igreja de Nossa Senhora Aparecida e a pequena Capela de Santo Expedito. Próximo a São Sebastião da Vitória, é precido reparar em um singelo oratório dedicado a Nossa Senhora Aparecida. E, é claro, dedicar-se a mais alguns instantes de oração.

 Caminho da Humildade

É surpreendente o visual das trilhas — do Caminho da Humildade — que terminam no povoado de Caquende: a paisagem rural, da produção agropecurária, em contraste com a represa de Camargos — sem dúvida, um grande atrativo da região. O lago artificial foi formado no Rio Grande e faz parte da Usina Hidrelétrica de Camargos, que entrou em operação em 1960. A área inundada, chega a 50,46 quilômetros quadrados, sendo 40,26% pertencentes ao município de Carrancas e 25,91% a São João del Rei. As outras porções alagadas são de Itutinga, Madre de Deus de Minas e Nazareno.

O início da noite refletido no espelho d’água da Represa de Camargos.

Caquende está nas margens do espelho d´água de Camargos, onde é possível escolher atividades de lazer como a pesca e passeios de barco e também praticar diferentes esportes náuticos como caiaques e ‘stand pad’, além de wakeboard, jet ski, ski, windsurf e esportes com barco a velas.

Na região, existem boas opções de hospedagem que tem o lago como referência. Há ainda muitas casas de campos e até balneários no entorno. Há ainda a balsa, em operação desde 1967, que leva ao povoado de Capela do Saco, do outro lado. É preciso citar a gastronomia local, que combina o melhor da tradição da cozinha mineira com pratos preparados com as diferentes espécies de peixes do reservatório.

 Caminho da Fortaleza

O Caminho da Fortaleza começa justamente na travessia das águas de Camargos entre Caquende e a localidade de Capela do Saco, distrito de Carrancas. Esse lugar precisa ser destacado em função da história que possui. A suposta aparição de Nossa Senhora nas margens do Rio Grande pode ter sido o motivo para a edificação — no início do século XVIII — de uma capela de pedras dedicada a Nossa Senhora da Conceição. O feito foi obra de Júlia Maria da Caridade, então proprietária da Fazenda do Saco — onde, aliás, localizava-se o porto de mesmo nome.

Os esportes náuticos são grandes atrativos do lago de Camargos.

No auge da produção do ouro no entorno da antiga Villa Rica, o Porto do Saco era um importante entreposto comercial de São João del Rei em razão escoamento do precioso metal até Paraty.

Pela importância histórica, a Capela de Nossa Senhora da Conceição do Porto do Saco — para se ter uma ideia, em 2012 houve uma festa em que se comemorou 300 anos de existência dela —, é tombada pelo IEPHA (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais). Trata-se também do primeiro patrimônio histórico de Carrancas e no mês de julho o calendário das celebrações religiosas reserva uma data para Festa de Nossa Senhora da Conceição.

A Serra de Carrancas chega a uma altitude máxima de 1.378 metros. Foto Augusto Almeida.

Carrancas, das serras, nascentes e cachoeiras

Uma vez em Carrancas, os atrativos de multiplicam. A terra das serras e cachoeiras, oferece várias possibilidades para o turista como os esportes de aventura e o turismo rural.

Quatro serras circundam Carrancas, um desenho de relevo que lembra uma ferradura. Uma delas é a majestosa Serra de Carrancas com uma altitude máxima de 1.378 metros. Estão nessas serras as nascentes que formam os rios que correm por todo o município esculpindo magníficas cachoeiras e cânions, e seguem para abastecer a cabeceira do rio Grande.

O pôr do sol do alto da Serra de Carrancas encanta os visitantes. Foto Augusto Almeida

Foi exatamente subindo o rio Grande que os bandeirantes paulistas descobriram a região, percebendo imediatamente a fertilidade das terras e todas as possibilidades da exploração aurífera. 1720 era o ano e a bandeira era chefiada pelo capitão-mor João Toledo Pizza. Um ano depois já estava erguida uma capela em honra a Nossa Senhora da Conceição e o lugar passou a ser conhecido como Nossa Senhora do Rio Grande.

Pouco depois, nas frenéticas escavações em busca do ouro, os habitantes do lugar descobriram duas grandes pedras que tinham o formato de duas carrancas. Daí a origem do nome da cidade. Mas antes, o lugarejo foi conhecido por outros nomes também ligados às grandes pedras: Nossa Senhora das Carrancas, Carrancas de Baixo e Carrancas de Cá.

Existem em Carrancas lugares praticamente intocados, de rara beleza.

Recantos praticamente intocados

Ainda hoje existem no município lugares praticamente intocados, de imensa beleza, recantos provavelmente muito parecidos com a paisagem que os bandeirantes encontraram nos idos do século XVIII. Um ótimo exemplo é a serra das Broas e das Bicas, rica em cachoeiras, grutas e cavernas. A cachoeira das Bicas, com 75 metros de queda, é uma ótima opção para a prática da descida em rapel. Já a gruta da Cortina — uma densa vegetação desce pela rocha e cobre a entrada da imensa clarabóia, daí o no nome — encanta os espeleólogos. Conforme relato de guias e de moradores desta região, ainda há muitas belezas ocultas nesta serra como uma cachoeira ainda mais alta do que a das Bicas, além de rochas de quartzito e arenito com fendas que formam grutas ainda desconhecidas.

Uma das cachoeiras do complexo da Zilda, com 12 quedas d’água em sequência. Foto Augusto Almeida.

O ecoturismo surge para Carrancas como uma relevante atividade econômica. Tanto é assim que, na vertente do turismo de aventura, existem várias opções para a prática de trekking, mountain bike, cannyoning, montanhismo e vôo livre.

Para quem prefere sossego, paz e tranqüilidade, a cidade, além de oferecer o melhor da culinária típica mineira e muitos quitutes  — os pães de queijo são deliciosos —, dispõe de boas pousadas, restaurantes e fazendas históricas.

Estação de Carrancas, cuja origem remonta ao final do século XIX. Foto Leandro Aguiar.

História e fé no Caminho da Justiça

Carrancas também pode se orgulhar de seu patrimônio histórico. A Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição foi construída em pedra maciça por volta de 1720. A nave da igreja é decorada por uma belíssima pintura datada de 1840, de autoria do mestre Natividade — devidamente reconhecida pelo IPHAN —, discípulo do Aleijadinho.

No distrito de Carrancas, a 20 km do centro, está a Estação de Carrancas — aí já dentro do Caminho da Justiça  —, cuja origem remonta ao final do século XIX a partir da expansão da Estrada de Ferro Oeste de Minas, que implantou diversas estações em seu trajeto até Barra Mansa-RJ.

O complexo da cachoeira da Fumaça é o principal atrativo de Carrancas. São 15 cachoeiras próximas, com destaque para as mais visitadas que são a própria cachoeira da Fumaça — cartão postal da cidade pelo grande volume d’água e os seus 22 metros de altura—, do Véu da Noiva, com 32 metros de queda e um belo poço, e as cacheiras do Luciano e da Serrinha, esta menos frequentada.

Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição foi construída em pedra maciça por volta de 1720.

Mas ainda há águas e mais águas límpidas e cristalinas, entre poços, corredeiras e cachoeiras em meio a muito verde. São passeios imperdíveis. A começar pela cascata ou escorregador da Zilda: são 12 pequenas cachoeiras em sequência e o principal atrativo, uma rocha com 15 metros de extensão que faz as vezes de um delicoso escorregador. Após atravessar uma original ponte pênsil chega-se à cachoeira Vargem Grande, repleta de cascatas, duchas e piscinas naturais.

Outro ótimo local para banhos é o Poço do Coração. São duas piscinas naturais, sendo uma em forma de coração, além de corredeiras e um escorregador.

Caminho da Pobreza e as fazendas históricas

O Caminho da Pobreza começa vislumbrando a histórica Fazenda Traituba, propriedade rural de grande tradição, que existe desde o ano de 1758 — quando foi construída a sede —sempre administrada pela família Junqueira. João Francisco Junqueira foi o responsável pela construção e o primeiro morador, junto com a família. Consta da história da fazenda que D. Pedro I a visitava periodicamente, pois era amigo dos Junqueira e apreciava caçar animais selvagens nas redondezas.

Sede da histórica Fazenda Traituba, propriedade de grande tradição, que existe desde o ano de 1758.

A amizade da família com o primeiro Imperador brasileiro incentivou a construção, entre os anos de 1827 e 1831, uma nova sede, a Casa Grande da Traituba, erguida no lugar denominado Encruzilhada. O objetivo era receber D. Pedro em uma nova visita. Porém, ele já havia abdicado do trono brasileiro  e retornado para Portugal. Todavia, surgiu um belíssimo patrimônio histórico e arquitetônico não só da região como também de Minas e do Brasil.

Conforme descreve o texto oficial da prefeitura de Cruzília, “o mobiliário é quase todo da época da construção. As paredes são de adobe, e o assoalho é de pinho. A sede é cercada de muros de adobe e os diversos portões de acesso são majestosos, decorados com trabalhos em pedra sabão. Da primeira sede, são guardados uma liteira e um oratório em estilo barroco”.

As fazendas da região conservam um importante legado da história da produção agropecuária. Foto Jean Donnard.

O texto chama atenção também para a flora da propriedade: “é exuberante, com uma bela mata virgem, na qual reina um jequitibá com 14m de circunferência na base. Tem a altura aproximada de um prédio de 7 andares. Sete pessoas são necessárias para abraçá-la”.

A Fazenda Traituba é ainda precursora na criação e seleção de cavalos da raça Mangalarga Marchador, uma das mais belas e importantes raças de equinos de todo planeta. O Mangalarga Marchador, pelo que ele significa em termos de história e cultura, além de um grande ativo da economia, merece um capítulo à parte em qualquer reportagem.

Entre a Traituba e Cruzília, já no Caminho da Obediência, o destaque fica para a Capela de São José do Favacho — dentro da fazenda de mesmo nome. Datada de 1761, ela abriga como o bem mais valioso a imagem original de São José.

Baias que abrigam cavalos Mangalarga Marchador, raça que surgiu na região de Cruzília.

A saga de uma família

A Fazenda do Favacho também faz parte da saga da família Junqueira. Em 1782, João Francisco Junqueira adquiriu a fazenda da viúva do antigo dono. Por isso, o lugar é considerado o “berço” de origem da tradicional família. Inclusive, ao lado da capela existe o cemitério onde eram sepultados os membros do clã.

A fazenda adquiriu tamanha importância que chegou a ter 1.200 moradores, segundo dados de um censo realizado à época. Também foi no Favacho que efetivamente foi inicada a seleção de cavalos que viria se tornar a raça Mangalarga Marchador. Quem iniciou o trabalho foi José Frauzino Junqueira, filho de João Francisco e sobrinho de Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas. Este, irmão caçula de João Francisco, era dono da fazenda vizinha, a Campo Alegre. Nesta propriedade, ele já selecionava éguas de muita qualidade. Como foi presenteado por D. João VI, em 1812, com um garanhão da raça de cavalos Lusitanos (da coudelaria real Alter do Chão), o Barão iniciou um série de cruzamentos entre o Lusitano e as fêmeas da Fazenda Campo Alegre.

As fazendas históricas da região são ligadas à história da tradicional família Junqueira.

Porém, foi José Frauzino quem de fato conseguiu, a partir da sequência ao trabalho inicial, selecionarcavalos refinados, dóceis, resistentes, cômodos e com o andar macio — pois adquiriram a capacidade apoiar três patas no chão simultanemente em determindos momentos ao longo da marcha, o chamado “tríplice apoio”. Além do mais, eram capazes de percorrer longas distâncias. Daí originou-se uma raça de equinos genuinamente brasileira, os cavalos Mangalarga Marchador.

Pôr do sol na Serra da Mantiqueira na região de Cruzília.

Pelo Caminho da Caridade

 O lugar de onde surgiu a cidade de Cruzília — ponto inicial do Caminho da Caridade — estava, literalmente, ao lado de uma “encruzilhada” entre dois importantes caminhos do período colonial que ligavam a região das minas de ouro a São João del Rei, Aiuruoca até o Rio de Janeiro. Os primeiros que lá chegaram, foram os “faiscadores” de ouro, depois vieram os agricultores, proprietários de escravos. Em 1862, ergueu-se a primeira capela dedicada a São Sebastião — e hoje, por isso mesmo, destaca-se na vista da cidade a Matriz de São Sebastião.

O grande atrativo da cidade, que fica na Praça da Matriz, é o Museu Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador, que  “tem como missão pesquisar, preserver e difundir para a sociedade em geral, com destaque para os criadores, a trajetória da consolidação da raça de equino nacional, genuinamente brasileira – o cavalo Mangalarga, em especial o Marchador”. De relevante importância histórica, a casa sede do Museu é a outrora Casa da Bela Cruz, datada de 1855, que pertenceu à fazenda Bela Cruz, outra propriedade considerada pilar da raça.

O queijo, do mais legítimo ‘terroir’  da Serra da Mantiqueira, é outro irresistível atrativo de Cruzília. Os queijos especiais da cidade, conquistaram, merecidamente, fama internacional. O Queijo Azul de Minas, produzido na cidade, foi premiado, em 2019, no maior concurso do mundo, o “Mondial Du Fromage”, realizado na França.

O queijo, do mais legítimo ‘terroir’ da Serra da Mantiqueira, é outro irresistível atrativo de Cruzília. Foto Breno Matias/Lucas Nishimoto/Divulgação IER.

Queijos artesanais premiados

Tudo começou com a produção do queijo prato, uma herança dos imigrantes vindos da Dinamarca, que chegaram na região nos idos de 1920. Não por acaso, esse tipo de queijo logo ganhou reconhecimento nacional. Ainda mais interessante, é a origem dele: os dinamarqueses logo perceberam que as condições climáticas e de solo eram adequadas à produção queijeira. Foi então desenvolvido por eles um queijo derivado dos tipos tybo e danbo, tradicionais do país nórtico. Ocorre que nas fiscalizações sanitárias por parte das autoridades, descreveu-se o queijo como “grande, circular e com formato de prato”. Daí, a consagração do tipo “queijo prato”. Os dinamarqueses ainda trouxeram um sistema artesanal para melhorar a qualidade, chamado ejetor de vapor, diferente do “pasteurizador de placa”, mais usado pelos produtores artesanais. Outro fator diferencial para a qualidade dos queijos cruzilenses: a bactéria “propiônico”, fundamental para garantir a alta qualidade dos queijos especiais, reproduz em grandes quantidades nos pastos e demais da região. O gado, portanto, alimenta-se delas, o que evidentemente reflete no queijo. Em outras regiões, por exemplo, o propiônico precisa ser adquirido.

Em Cruzília, o turista pode se deleitar com diferentes tipos de queijos artesanais: provolone, emmental, brie, cammenbert, além do queijo prato, dentre outros.

Santuário Nossa Senhora da Conceição: Baependi

O Santuário Nossa Senhora da Conceição (de Nhá Chica) é a maior inspiração e, é claro, atrativo de Baependi, pelo que a força da fé representa. Tudo começou quando a beata construiu uma igrejinha o lado da casa em que morava. Lá, ela venerava um pequena e singela imagem de Nossa Senhora da Conceição, e rezava para todos que pediam por orações.

Santuário Nossa Senhora da Conceição (de Nhá Chica), em Baependi. Foto Jean Donnard.

Após algumas reformas, a partir de 1954, a igrejinha é hoje o Santuário de Nossa Senhora da Conceição. O templo recebe peregrinos de todos os cantos do Brasil e também de diferentes países. Os fieis pedem graças, rezam com muita fé e muitos depois retornam para agradecer. Para se ter uma ideia, no “Registro de graças do Santuário”, podem ser observadas mais de 20 mil graças alcançadas por intercessão de Nhá Chica”.

Conforme informa o sítio oficial do Santuário, “Nhá Chica morreu no dia 14 de junho de 1895, com 87 anos de idade, mas foi sepultada somente no dia 18, no interior da Capela por ela construída. As pessoas que ali estiveram sentiram exalar-se de seu corpo um misterioso perfume de rosas durante os quatro dias de seu velório”.

O Santuário de Nossa Senhora da Conceição recebe peregrinos de todos os cantos do Brasil e também de diferentes países.

O incrível fenômeno aconteceu novamente, segundo informa o site: “tal perfume foi novamente sentido no dia 18 de junho de 1998, 103 anos depois, por Autoridades Eclesiásticas e por membros do Tribunal Eclesiástico pela Causa de Beatificação de Nhá Chica e, também, pelos pedreiros, por ocasião da exumação do seu corpo”.

O Santuário Nossa Senhora da Conceição abriga os restos mortais da beata. Eles são protegidos por uma Urna de acrílico que está no interior de uma outra de granito, onde são venerados pelos fiéis.

Foram registradas mais de 20 mil graças alcançadas por intercessão de Nhá Chica.

Matriz de Nossa Senhora de Montserrat

A cidade de Baependi tem origens no período colonial — consta na história local que os primeiros aventureiros lá chegaram em 1692 subindo o Rio Verde em busca de ouro. Em 1754, foi construída uma capela dedicada a Nossa Senhora de Mont-Serrat. Atualmente, o templo é a Igreja Matriz da cidade. Ela destaca-se por possuir diferentes estilos arquitetônicos. A fachada é embelezada pelas torres laterais, com as cruzes no topo, e pelo frontão triangular com paredes de pedras avermelhadas.

O impactante interior da igreja revela a nave com dois altares laterais e uma espaçosa área central  — o nicho maior e dois menores de cada lado. Ambos possuem molduras com belos trabalhos que reproduzem ramos de café. Na talha da nave central, estão incríveis representações da flora nativa da Serra da Mantiqueira.

Matriz de Nossa Senhora de Montserrat (século XVIII): características do rococó, barroco e neoclássico. Foto Jean Donnard

O fato é que a Matriz de Nossa Senhora de Montserrat, erguida em meados do século XVIII, em substituição à antiga capela, assimilou características do rococó, o barroco e o neoclássico — justamente porque construída e decorada ao longo dos ano. Tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico, é reconhecida por especialistas como a única do gênero no país.

Baependi é também um destino consagrado do ecoturismo e do turismo de aventuras. O munícípio conta com as mais diversas trilhas que levam aos mais variados tipos de cachoeiras e poços para banhos. Os melhores lugares são os seguintes: Espraiado do Gamarra: na margem do Rio Gamarra há bancos de areia que formam belas praias e um grande poço “espraiado”, onde é possível banhar-se a vontade.

A região da Serra da Mantiqueira conserva a bela arquitetura das fazendas coloniais. Foto Jean Donnard

O local é de fácil acesso e garantia de diversão para todas as idades. Cachoeira de Itaúna: ideal para famílias com crianças, por ter um poço raso. Conta com boa estrutura, com bar que funciona nos finais de semana, campinho de futebol e área para acampamento. Parque estadual da Serra do Papagaio: os pontos mais visitados são as cachoeiras dos Garcias, do Batuque, Deus-Me-Livre, do Fundo, do Vertedouro e da Antiga Usina. Também são famosos os Picos do Papagaio e do Bandeira. Além de Baependi, o parque ocupa territórios dos municípios de Aiuruoca, Alagoa, Itamonte e Pouso Alto. Os mais ani- mados podem, inclusive, se aventurar na travessia do parque, que vai de Baependi a Aiuruoca: são três dias de caminhada para percorrer 33 quilômetros de belas paisagens e montanhas.

Cachoeira dos Garcias, no Parque estadual da Serra do Papagaio.

 Caminho da Esperança e o Circuito das Águas

O próximo destino, via Caminho da Esperança, é a estância hidromineral de Caxambú, no Circuito das águas. Nos atrativos naturais é que estão os principais encantos do município.

No quesito águas termais, a cidade é privilegiada e tem no Parque das Águas Dr. Lisandro Carneiro Guimarães 12 fontes com diferentes propriedades terapêuticas. Até mesmo a família real, no século XIX, foi frequentadora assídua da cidade em busca dos benefícios medicinais das suas nascentes. Todas as fontes termais são rodeadas por jardins, bosques e alamedas.

A bela paisagem da Serra da Mantiqueira entre Baependi e Aiuruoca. Foto Jean Donnard.

Com cerca de 210 mil metros quadrados, o parque fica no centro da cidade e tem a maior concentração de águas carbogasosas do mundo. Enquanto passeia pelos jardins e bosques, o visitante pode comprar garrafinhas para coletar as águas das 12 nascentes, cada uma com propriedades medicinais diferentes.

Balneário Hidroterápico de Caxambú: estilo neoclássico, vitrais franceses, azulejos e pisos vindos de Portugal e da Inglaterra.

Uma imponente construção em estilo neoclássico, com vitrais franceses, azulejos e pisos vindos de Portugal e da Inglaterra, abriga o Balneário Hidroterápico. Para o visitante relaxar, oferece banhos de imersão em água mineral, piscina de hidroterapia, saunas a vapor e seca, duchas e tratamentos estéticos. O balneário fica dentro do Parque das Águas.

As fontes termais são rodeadas por jardins, bosques e alamedas. Foto Jean Donnard.

Para apreciar a vista panorâmica do Parque das Águas e redondezas, há o clássico passeio de teleférico, atrativo tradicional da cidade. Nos 908 metros percorridos, os visitantes atravessam um lago e uma área de mata até chegar ao cume do Morro de Caxambu. Lá há um restaurante e lojas de souvenir.

Fonte Dom Pedro II: o parque tem a maior concentração de águas carbogasosas do mundo. Foto Jean Donnard

A Igreja de Santa Isabel da Hungria é o importante patrimônio histórico da famosa estância. Com a construção iniciada em 1878 e inaugurada em 1897, o templo foi erguido a mando da Princesa Isabel, por gratidão à cura de sua esterilidade. Com arquitetura em estilo gótico, foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico.

A piscina hidroterápica do balneário. Foto Jean Donnard.

O passeio no teleférico é mais um atrativo de Caxambú.

Trem das águas

Como forma de resgatar a memória de um lugar que foi um importante entroncamento da linha férrea de toda região sul mineira, no ano 2000 ressurgiu o Trem das Águas, que percorre a linha férrea entre Soledade de Minas e São Lourenço.

Modelo de ‘Maria-Fumaça” como o Trem das Águas, que percorre a linha férrea entre Soledade de Minas e São Lourenço. Foto Jean Donnard.

São 10 km de percurso, uma viagem pelas margens do Rio Verde, nos contrafortes da magnífica Mantiqueira, de paisagens inesquecíveis. Para completar o leque de atrativos, o Museu Ferroviário na Estação de Soledade de Minas — inagurada em 1884 — tem um acervo do tempo em que o trem levava passageiros e cargas a cidades como Cruzeiro (SP), que tinha um entroncamento para São Paulo, Varginha, Três Corações e Lavras. Há ainda o Centro de Artesanatos, com muitas peças típicas da região, que também oferece delícias mineiras como pão de queijo, doces e compotas diversas.

São 10 km de percurso, uma viagem pelas margens do Rio Verde. Foto Jean Donnard.

Vista parcial de São Lourenço desde o Parque das Águas. Foto Jean Donnard.

São Lourenço, destino final

O último município alançado pela Rota Nhá Chica é a bela e aprazível São Lourenço. Localizada em um ponto privilegiado da Serra da Mantiqueira, é uma das mais famosas estâncias hidrominerais do país. O local foi descoberto ainda no século XIX por bandeirantes que desbravaram a região em busca de ouro e prata, mas foi outra riqueza — a abundância da água — que garantiu o progresso do município.

O belo prédio do balneário: serviços hidroterápicos como banho turco, limpeza e hidratação de pele, duchas escocesas e sauna. Foto Jean Donnard.

São sete fontes de águas minerais com propriedades terapêuticas. Foto Jean Donnard.

O parque é bem cuidado e arborizado, com lago, belos jardins, gramados e alamedas. Fotos Jean Donnard.

A maior atração é o Parque das Águas, com sete fontes de águas minerais com propriedades terapêuticas e amplo espaço de lazer. O parque é bem cuidado e arborizado, com belos jardins, gramados e alamedas que convidam o viajante à caminhada e à prática de esportes nas quadras de vôlei, futevôlei, futebol, pista de cooper e ciclismo. O balneário oferece serviços hidroterápicos como banho turco, limpeza e hidratação de pele, duchas escocesas e sauna. Na saída do parque, há uma feira de artesanato, onde se destacam os tecidos e bordados.

O parque das águas de São Lourenço é um oásis de paz e sossego. Foto Jean Donnard.

Algumas empresas oferecem vôos de balão, um passeio pelas alturas para admirar a vista da cidade e a beleza natural da região. Do alto, além das águas de São Lourenço, imensas plantações de café, um dos principais produtos agrícolas do Sul de Minas, encantam não só pela inegável beleza, mas também pela força do produto.

A cultura cafeeira é outra tradição da Serra de Mantiqueira. Os cafés especiais são outros grandes atrativos de São Lourenço.

Vale a pena conhecer a Igreja Ermida Bom Jesus do Monte, a primeira igreja de São Lourenço, construída em 1903 próximo a uma fonte de água magnesiana. Destaca-se pela simplicidade das linhas arquitetônicas e pelas belas imagens dos vitrais.

Vista da Serra da Mantiqueira e a cafeicultura na região de São Lourenço.

Uma imagem para celebrar a fé e todas as belezas desveladas ao longo da Rota Nhá Chica.