
Araxá, “do lugar alto de onde primeiro se avista o sol”, maneira pela qual os indígenas identificavam o lugar.
Nada tão perfeito como o significado do nome Araxá, “do lugar alto de onde primeiro se avista o sol”, uma tradução do tupi-guarani. Dona de uma grandiosa história de mais de 235 anos — embora a cidade conte 165 anos de emancipação política. A terra onde viveu a legendária Dona Beja, também é privilegiada pela natureza, sobretudo pelo rico manancial de águas mineralizadas, transformou Araxá em um dos mais procurados destinos turísticos de Minas Gerais e do Brasil. O grande salto teve início com a inauguração, em 1944, do Grande Hotel do Barreiro e Termas de Araxá — hoje sob a administração da Rede Tauá de hotéis.
Reportagem Cacaio Six
Fotos Cezar Félix/Cyro Almeida
Dos verdejantes planaltos que dominam a região do Alto Paranaíba, a paisagem vista da estrada revela grandes chapadas, alguns trechos ainda intactos do belo bioma Cerrado e uma vasta produção agrícola. As terras são tomadas por culturas de café, milho, trigo e soja, além de uma boa quantidade de eucaliptos. Numerosos bovinos, sobretudo das raças zebuínas — como o gado Nelore — são vistos pastando sossegadamente pelos campos cobertos de gramíneas próprias para pastagens, todas muito bem cuidadas. Imensos mananciais em cursos d’água, como córregos, ribeirões e rios, banham esse território, conferindo-lhe ainda mais fartura. Isso porque ele está entre duas importantes bacias hidrográficas, a dos rios Paranaíba e Grande — que juntos foram o gigantesco Rio Paraná. Grandes rios, como o Quebra-Anzol, Tamanduá e Capivara, afluentes do Paranaíba, cruzam a região.

A paisagem no entorno de Araxá revela alguns trechos ainda intactos do belo bioma Cerrado.
Ao se avistar Araxá, nada tão perfeito como o seu significado, “do lugar alto de onde primeiro se avista o sol”, maneira pela qual os indígenas identificavam o lugar, justamente por se localizar em um terreno alto, plano, em cima de um chapadão onde existia um vulcão, há séculos extinto. Atribui-se a a esse significado, uma tradução do tupi-guarani, aos índios Araxás, primeiros habitantes locais, que, por sua vez, eram procedentes das tribos dos índios Cataguás.

Com um pouco mais de 111 mil habitantes (IBGE, 2022) e 165 anos de idade — foi fundada em dezembro 1865 — a cidade deve a sua merecida fama, sobretudo ao turismo. Na foto, a Matriz de São Domingos.
Com um pouco mais de 111 mil habitantes (IBGE, 2022) e 165 anos de emancipação, embora tenha sido fundada em 1791, a cidade deve a sua merecida fama sobretudo ao turismo. Porém, até chegar ao que é hoje, um dos mais importantes e interessantes polos turísticos de Minas Gerais, reconhecido nacional e internacionalmente, muitas águas rolaram para escrever a sua grandiosa história. A localidade onde hoje está o município é a mais antiga do lugar então conhecido como ‘Sertão da Farinha Podre’, que hoje engloba as regiões do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba. São mais de 235 anos de história.
Tudo começou com a mineração do ouro na região até hoje conhecida como Desemboque, atualmente um distrito do município de Sacramento, a pouco menos de 100 km de distância. Por volta do início da década 1780, as férteis terras do planalto de Araxá começaram a atrair os primeiros moradores, pioneiros da formação de fazendas.

A Igreja Matriz de São Sebastião, patrimônio histórico, cultural e religioso. erguida em 1804. Foto Cyro Almeida.
Havia lá um lugar repleto de nascentes para onde os animais se encaminhavam instintivamente para beber as águas que corriam entre as pedras. Só que essas águas eram mineralizadas e muito ricas em sal. Elas não só curavam as feridas dos animais como também repunham nutrientes, fortalecendo-os. Esse lugar passou a ser conhecido como Barreiro e o povoado cresceu em torno dessas terras, domínios demarcados da Sesmaria do Barreiro.

O belo projeto urbanístico no centro da cidade.
“Aos 25 dias do mês de agosto de 1785, nesta paragem dos Sertoins dos Arachás, debaixo da serra do mesmo nome, fincamos uma pedra em sentido perpendicular com quatro testemunhas para os 4 pontos cardeais. Daí partimos em direção ao oeste, medindo 2.722 cordas de 2 braças cada uma, onde fincamos o 2º marco; daí seguimos em direção ao norte onde fincamos o 3º marco defronte a Fazenda do Campo Aberto; daí seguimos em direção ao nascente, na Fazenda Pão de Açúcar onde fincamos o 4º marco, e deste 4º marco em linha reta até o marco peão na Boca da Mata”, como descreve o histórico documento ‘ Termo de Demarcação da Sesmaria do Barreiro’. Seis anos depois, em 1791, surgiu a Freguesia de São Domingos do Araxá e, em 1800, foi concluída a primeira Igreja, a Matriz de São Domingos.

A história araxaense não pode ser contada sem talvez a sua principal referência, o mito da personagem Dona Beja. Na foto, à direita, o sobrado construído por ela em 1830, hoje o Museu Dona Beja.
A legendária Dona Beja
A história araxaense não pode ser contada sem talvez a sua principal referência, o mito da personagem Dona Beja. Seu nome era Ana Jacintha de São José e ela teria nascido em Formiga (MG) também em 1800 e se mudado muito pequena para Araxá. Desde criança, conta a tradição oral, era admirada pela impressionante beleza. Era filha de uma indígena, batizada como Maria Bernarda dos Santos, e o pai era desconhecido. Ana Jacintha tinha cabelos louros e olhos azuis. Já moça enamorou-se por um jovem fazendeiro da região que a comparava com a flor “beijo”, daí o apelido. Sua beleza não passou despercebida ao ouvidor da corte portuguesa, um cargo de extrema importância e poder, chamado Ignácio Silveira da Motta. Ele então a raptou da fazenda em que ela morava com o avô.

O sobrado foi erguida na Praça da Matriz, onde ficavam as principais construções da elite local. Foto Cyro Almeida.
Beja tornou-se então amante e protegida do ouvidor e teria vivido com ele por dois anos. Neste período, tornou-se rica, poderosa e influente junto aos nobres da corte, aos políticos e aos grandes fazendeiros. Uma prova desta influência seria o sobrado construído por ela em 1830. A propriedade foi erguida na Praça da Matriz, onde ficavam as principais construções da então vila e onde residia a elite local. Porém, desde os seus 17 anos, quando mudou-se para o povoado, ela era vítima de toda a sorte de preconceitos e não era aceita pela sociedade, notadamente pelas mulheres.Mas, ao contrário delas, consta que Beja era bem recebida e marcava forte presença com livre trânsito em repartições públicas e nos tribunais, além de participar de movimentos políticos e das mais importantes decisões que afetavam a vida da sociedade da época.
Beleza e poder
Conta-se que até a decisão da corte portuguesa de devolver a região do Triângulo Mineiro a Minas Gerais teve sua decisiva influência. Isso aconteceu ainda na época em que ela vivia com o ouvidor Motta, no ano de 1816. O fato é que na segunda metade do século XVIII, o Triângulo havia sido anexado à Capitania de Goiás, em função de um movimento articulado pelos moradores de Desemboque, muito mais interessados na mineração aurífera.

Dona Beja retratada pelo artista Calmon Barreto, em tela que está no museu dedicado ao artista. Foto Cyro Almeida.
Além do sobrado, hoje sede do Museu Dona Beja, afirma-se que Ana Jacintha era dona de uma chácara nos arredores, conhecida como “Retiro de Ana Jacintha”. No seu retiro, ela recebia homens poderosos e ricos que a admiravam e respeitavam. Dizem que lá aconteciam reuniões políticas e que decisões importantes eram tomadas em meio a festas e saraus. A chácara chegou a ser abrigo de revolucionários durante a Revolução de 1842, conflito entre as elites dominantes da época. Beja tornou-se famosa, e continuava a atrair os homens, inclusive de regiões distantes que viajam grandes distâncias para conhecê-la e admirar os seus encantos. Dizem que Dona Beja escolhia rigorosamente os seus homens e deles ganhava dinheiro, joias e pedras preciosas. Ela conseguiu amealhar considerável fortuna e tornou-se uma das pessoas mais poderosas da região do Triângulo Mineiro.

A bela arquitetura da Fonte Dona Beja, onde a bela dama de Araxá, Anna Jacintha, se banhava, é um dos principais atrativos do Grande Hotel do Barreiro.
Reza a lenda que o passar dos anos só fazia aumentar a sua beleza. O fenômeno era devido aos banhos que ela tomava diariamente na Fonte da Jumenta, atual Fonte Dona Beja. Acredita-se, até os dias de hoje, que a fonte de água milagrosa é capaz de conceder juventude, saúde e beleza.Ana Jacintha de São José foi mãe e teve duas filhas: Tereza Thomázia de Jesus, que nasceu em 1819, e Joana do Deus de São José nascida em 1838. Ambas se casaram com homens importantes e de influentes famílias da cidade. Beja teve também muitos netos e netas.
A partir da corrida dos diamantes, na localidade de Bagagem, hoje a cidade de Estela do Sul, também no Alto Paranaíba, Ana Jacintha mudou-se para lá e teve participação ativa da vida diária da cidade. Conta-se que foi ela quem financiou a construção de uma ponte sobre o Rio Bagagem. Foi nesta cidade que Ana Jacintha, a legendária Dona Beja, morreu aos 73 anos de idade.

O Grande Hotel Termas de Araxá ocupa uma área verde de 400 mil metros quadrados, emoldurado por um lago com cerca de um milhão de metros cúbicos de água mineral radioativa, cuja forma lembra um coração.
Grande Hotel do Barreiro
O encontro de uma região privilegiada pela natureza com as suas histórias e lendas transformou Araxá em um dos mais procurados destinos turísticos de Minas Gerais e do Brasil. O grande salto teve início, evidentemente, com o surgimento do Grande Hotel do Barreiro e Termas de Araxá. A construção do complexo iniciou-se em 1938 e a inauguração oficial aconteceu somente em 1944 em um grande evento liderado pelo presidente Getúlio Vargas e pelo governador mineiro Benedito Valadares.

Fonte Andrade Júnior, construída em 1944, homenageia o engenheiro hidrólogo responsável por descobrir o valor mineral das águas. Foto Cyro Almeida.
Ícone de absoluta importância de sua época, o Grande Hotel ocupa uma área verde de 400 mil metros quadrados, emoldurado por um lago com cerca de um milhão de metros cúbicos de água mineral radioativa, cuja forma lembra um coração.

O Grande Hotel foi projetado pelo arquiteto ítalo-brasileiro Luiz Signorelli sob influência da arquitetura italiana e do estilo “missões”.
A arquitetura e a decoração do imenso prédio (45 mil metros quadrados de área construída) são deslumbrantes, obras projetadas pelo arquiteto ítalo-brasileiro Luiz Signorelli sob forte influência da arquitetura italiana e do estilo “missões” — o mesmo que caracteriza a arquitetura das antigas construções coloniais da América espanhola, comuns em países como Colômbia e Venezuela. O conjunto arquitetônico é em estilo neoclássico, caracterizados pelas colunas, arcos e capteis. Ainda fazem parte do estilo — elegante e com grande simetria nos traços — e da decoração os refinados vidros bisotados (as bordas são chanfradas e inclinadas, criando um efeito de moldura natural, além de um brilho elegante), mármore de Carrara (região da Itália), lustres de cristal da Boêmia (região da república Tcheca) e grandes salões de baile. Além da suntuosa construção, o espetacular paisagismo emociona pela beleza. O projeto foi concebido pelo genial paisagista Roberto Burle Marx.

O conjunto arquitetônico é em estilo neoclássico e tem requintada decoração. Foto Divulgação.
Termas do Grande Hotel
Ao lado do hotel, ligado por uma galeria suspensa de cerca de cem metros (decorada com grandes afrescos que mostram paisagens de Minas Gerais), estão as Termas de Araxá — onde se aproveitam os efeitos terapêuticos das fontes radioativa e sulfurosa. Sua arquitetura também é grandiosa, e é inspirada no numeral oito — o número do “infinito”, e dos ensinamentos de Buda (são oito no total) que são representados nos ambientes. São oito entradas de banhos e a mesma quantidade de afrescos, vitrais, painéis, colunas e pontas de mandalas.

Os vitrais das Termas enfeitam a rotunda central, cujas obras ilustram a história da região. Autoria do artista belga François Frank Urban. Foto Cyro Almeida.
O grande atrativo do Grande Hotel, as Termas do Barreiro, foram inauguradas em 1942. Antes mesmo da construção do hotel elas já funcionavam e seus efeitos medicinais e relaxantes são famosos desde então. As formas do balneário — incluindo a riqueza dos detalhes dos afrescos — foram projetadas para abrigar as inúmeras salas e salões de onde se pode provar de todos os tipos imagináveis de banhos — dos perolados aos de lama, e os tratamentos estéticos, que foram oferecidos mais tarde. A estrutura conta com 17 mil metros quadrados de muita beleza, um verdadeiro convite ao bem-estar e à revitalização para quem se rende às delícias sulfurosas.

A bela arquitetura do edifício das Termas de Araxá.
Tratamentos estéticos de alto nível
A piscina emanatória de água energizante, aquecida a 37 graus, é um dos grandes destaques das Termas. Sua água radioativa vem da Fonte Dona Beja e é usada para relaxamento e hidroterapia. Além do prazer corporal, é impactante olhar em volta e se deparar com azulejos pintados à mão, e observar ao redor as grandes janelas de vidro, cuja vista se perde nos jardins projetados por Burle Marx. Não há como não reparar no contraponto perfeito do colorido dos vitrais, da ornamentação do chão com uma grande mandala de oito pontos, de mármore branco e preto. No segundo andar, existem oito quadros feitos pelo mosaicista e pintor paulista Joaquim da Rocha Ferreira, mostrando a importância dos banhos desde a antiguidade, especialmente na civilização egípcia, na Índia, Grécia e Roma até a atualidade. Vale lembrar que os primeiros fluxos turísticos, que se deram na Europa, foram motivados pelos banhos e termas que se espalhavam pelo Velho Continente.

A piscina emanatória com água energizante. Foto Divulgação.
Ainda nas Termas, têm-se os tratamentos estéticos de alto nível, como drenagem linfática facial e corporal, massagens relaxantes, com pedras quentes e a cromoterápica, que busca equilibrar as energias usando cores; ainda há a moderna técnica de reflexologia podal, baseada na massoterapia oriental onde os pontos representativos dos órgãos e membros do corpo são refletidos na planta do pé. Para completar a gama de tratamentos para a beleza e bem-estar, são oferecidos tratamentos como a aromaterapia, feita com a privilegiada água local, óleos essenciais e sais aromáticos; a gomagem corporal e facial, higienização e as famosas saunas seca e úmida.
O Grande Hotel Termas de Araxá tem ainda uma programação completa de lazer com piscinas de água mineral, futebol de campo, quadras poliesportivas, cinco quadras de tênis de saibro, caiaque, arco e flecha e stand up paddle no lago. Há também passeios de bicicletas, caminhadas, trilhas ecológicas, pedalinhos no lago e pescaria esportiva.

Nas Termas é onde se aproveitam os efeitos terapêuticos das fontes radioativa e sulfurosa. Conforto e relaxamento.
Complexo turístico
Araxá também é um polo para amantes de esportes de aventura. Localizado na Serra da Bocaina, a 1.350 metros de altitude, o lugar conhecido como Horizonte Perdido é um ponto de parada obrigatória para praticantes de voo livre, sobretudo voos de paraglider. As condições climáticas são perfeitas para a prática do esporte e possibilitaram a quebra de vários recordes de distância.

Horizonte Perdido: restaurante, hospedagem, vinícola e voo livre. Foto Divulgação.
O local está dentro de uma fazenda também chamada Horizonte Perdido e dentro da propriedade surgiu um complexo turístico formado por um restaurante — o já tradicional Restaurante Horizonte Perdido —, os meios de hospedagem Chalés Horizonte Perdido e a Vinícola Horizonte, além da rampa de voo livre. “O complexo consolidou-se como um dos destinos mais cobiçados por um público exigente, unido por um estilo de vida que celebra o bem-estar, a contemplação, a rica culinária e a paixão pelo enoturismo”, afirma a proprietária Belma Nolli. Ela acrescenta que “o visitante típico do Horizonte Perdido é um autêntico apreciador do bem-viver. Na gastronomia, é entusiasta da boa mesa, com pratos refinados, ingredientes locais de alta qualidade e menus assinados. Essa paixão gastronômica caminha lado a lado com o amor pelo mundo dos vinhos, transformando cada refeição em um ritual de harmonização com rótulos selecionados em meio à paisagem montanhosa”.

Águas da Fonte Dona Beja.
Natureza e história
Araxá está situada próxima à Serra da Canastra, área de preservação de cerrado e campos de altitude, de relevo acidentado e belas e altas cachoeiras, com até 200 metros de altura. O entorno do parque é famoso pela produção do queijo canastra, declarado Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro em 2008 pelo Instituto Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e Patrimônio Cultural Imaterial Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Araxá tem atrações também para aqueles que apreciam roteiros históricos, como o Museu Sacro e a Igreja de São Sebastião, instalados em prédio datado de 1804, de estilo jesuítico, com traços simples. No altar da igreja, há imagens de São Sebastião e do Cristo Morto — assinadas pelo escultor mineiro Bento Antônio da Boa Morte, que viveu em Araxá em fins do século dezoito até o seu falecimento em 1857 — que valem a visita. O museu fica na sacristia e apresenta peças de Boa Morte e do escultor goiano Veiga Valle, além de contar parte da história da cidade. A igreja propriamente dita, construída por José Pereira Bom Jardim, teve uma das torres destruída durante a Revolução de 1842 e foi descaracterizada no final da década de 1970. Graças a um movimento realizado pelos moradores de Araxá, foram feitas obras de restauração, e hoje a Matriz de São Sebastião representa uma das maiores riquezas do patrimônio histórico da cidade.

A Matriz de São Domingos é consagrada ao padroeiro da cidade, tem estilo eclético na arquitetura.
Outra igreja de Araxá, a Matriz de São Domingos, é considerada uma das mais belas de Minas Gerais. Consagrada ao padroeiro da cidade, tem estilo eclético, com características romanas e elementos góticos e neoclássicos. A construção da edificação foi iniciada em 1917 e concluída três décadas depois, em 1948. No interior, os afrescos grandiosos e os vitrais multicoloridos encantam o visitante. A grande torre, que se destaca do resto do prédio, foi finalizada em 1933, e a pintura interna da capela-mor, assinada pelo artista paulista Alberto Paulovich, datada de 1946, foi restaurada por iniciativa da comunidade. Mais um atrativo religioso é a Capela de Nossa Senhora das Graças, localizada dentro do complexo do Barreiro, foi erguida na mesma época da construção do Grande Hotel. Por isso mesmo, é um património tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico de Minas Gerais (IEPHA-MG).

Vista da Capela de Nossa Senhora das Graças, situada no Complexo do Barreiro.
É preciso citar como um relevante atrativo cultural o Museu Calmon Barreto e o Memorial de Araxá, sediados em um mesmo espaço em uma casa histórica, uma antiga residência. Os espaços têm a gestão da Fundação Cultural Calmon Barreto (FCCB). Calmon Barreto de Sá Carvalho é um pintor nascido em Araxá no início do século XX e o museu abriga importantes obras de sua autoria.
Conforme informe a FCCB, o artista “tornou-se um pintor-historiador, legando imagens que se configuram como fontes históricas. A paisagem regional, os personagens, as tradições, as origens, os costumes e as mentalidades passariam a compor as telas de Calmon. A temática adotada passou a mostrar cenários de índios, bandeirantes, tropeiros e suas funções de submissão, de autoridade, de luta pela sobrevivência”

Sala do Museu Calmon Barreto com obras do artista. Foto Cyro Almeida.
Outra referência como atrativo cultural é o Teatro Municipal de Araxá, inaugurado em dezembro de 2012. Com 1.500 m² de área e 300 lugares, o teatro integra um projeto que valorizou a arquitetura e o urbanismo da área central de Araxá. O arquiteto mineiro Gustavo Penna assina todo o projeto. Ele criou um caminho que liga o teatro à Praça da Igreja Matriz de São Domingos. O edifício da casa de espetáculos valorizou toda a área ao redor, pois ele parece ficar enterrado abaixo do solo. A arquitetura do teatro ainda criou um Teatro de Arena, que funciona como uma concha acústica.
Na parte superior do prédio do Teatro Municipal existe um grande espelho d´água, uma homenagem do arquiteto a Araxá por causa das águas medicinais. O local ainda é um mirante que proporciona uma bela vista do eixo central que segue até a Igreja Matriz.

O Teatro Municipal de Araxá, de arrojado projeto arquitetônico.
Doces típicos
Outro motivo de orgulho para os araxaenses são os doces típicos da região, feitos a partir de receitas que, há décadas, vêm passando de geração a geração. Doce de leite, ambrosia, compotas de frutas, biscoitinhos, essas delícias tradicionais são produzidas por fábricas que mantêm o toque artesanal do produto e não usam conservantes artificiais. Uma das mais famosas é a Dona Joaninha, com mais de quatro décadas de mercado. A história da doceria tem relação direta entre os doces como atrativos turísticos e a cidade de Araxá.

Ambosia, o carro chefe da marca. Foto Cyro Almeida.
A senhora Maria Helena Gomes de Oliveira, de 72 anos, conta que o turismo em Araxá surgiu junto com a tradição dos doces na cidade. “Os doces já faziam parte da culinária araxaense e eles eram servidos no Grande Hotel e no antigo Hotel da Previdência”. Maria Helena explica que as senhoras da cidade faziam doces como balinhas, barrinhas cristalizadas e o tronquinho, preparado com amendoim, chocolate e coco — “doce com mais tempo de existência do que a própria emancipação de Araxá” — que eram oferecidos aos turistas nos hotéis. Eles também visitavam as residências das doceiras para adquirirem as iguarias.
“Porém, as compotas em calda, colocadas em potes de vidro, ninguém fazia, ninguém fabricava”, de acordo com ela. “No final da década de 1960, a minha sogra começou a produzir esses doces”. Dona Joaninha era a sogra de Maria Helena. “Ela era goiana, natural de Catalão, veio novinha para cá e já sabia produzir esses doces. Após se casar com o meu sogro, ela passou a fazer os doces na cozinha da casa deles. O meu sogro ia aos hotéis, fazia a divulgação e o turista começou a ir na casa deles, no centro, próximo à Matriz, em busca dos doces”. Maria Helena aproveita para destacar que é o mesmo local onde hoje é a loja Doces Dona Joaninha e onde está instalada a produção. “Ela foi a primeira pessoa em Araxá e na região a produzir compotas em calda e doce pastoso para vender. Não existiam empresas de doces em Araxá”, como esclarece. “No período da safra, ela fazia os doces, as compotas, de goiaba, figo e laranja da terra, e ainda alguns doces especiais, pastosos, sempre na cozinha de casa”.

O turista pode acompanhar a produção na fábrica Dona Joaninha. Foto Cyro Almeida.
Dona Joaninha, segundo a nora, seguiu na produção dos doces na economia informal até o início da década de 1990. Em 1989, ocorreu o falecimento do marido dela. Maria Helena conta que um ano antes da partida do sogro ela havia se mudado com o marido e os dois filhos para Araxá. “Eu sou de Belo Horizonte e meu marido foi para lá muito jovem, onde nos conhecemos e nos casamos”. Ela prossegue contanto “que foi uma providência divina” a mudança da família para Araxá, pois o esposo como administrador de empresas já experiente, assumiu a gestão e ela passou a trabalhar com Dona Joaninha. A empresa foi então registrada com o nome fantasia da fundadora, entrou de vez no mercado formal e passou a efitivar a divulgação dos produtos. Segundo Maria Helena, a publicação “Guia 4 Rodas”, da Editora Abril, foi um veículo decisivo para que o doce passasse a ser conhecido no Brasil.
“Trabalhamos muito junto às mídias da época, criamos ‘folders’ para deixar nos hotéis e o Doce Dona Joaninha passou a ser conhecido em todo o país. A gente vendia pelo telefone e despachava os produtos para todas as regiões brasileiras. Assim, o doce também se tornou um grande atrativo de Araxá”. Na sequência, houve a expansão na variedade de produtos e a marca Dona Joaninha passou a produzir a ambrosia, com uma receita aprimorada pela fundadora, e a linha de leite. “Hoje temos uma linha diversificada, tendo a ambrosia como nosso carro chefe”, esclarece Maria Helena. “É a mesma que eu faço até hoje, um doce que fica no forno de sete horas a oito horas para chegar ao envase. Isso dá ao doce a característica de um manjar dos deuses”, exalta ela, orgulhosa.

Os doces são produzidos em tachos de cobre sem corantes e conservantes. Foto Cyro Almeida.
A sucessora da sogra salienta que nesse trabalho de crescimento, de diversificação e aumento da variedade de produtos, “a gente trabalha conforme a dona Joaninha fazia, pois ela era prendada na higienização, muito caprichosa, dedicada e amava o que fazia e me ensinou a amar também. Hoje eu trabalho como ela trabalhava”. Em 1990, Maria Helena começou a trabalhar com dona Joaninha, que faleceu em dezembro de 2023 aos 92 anos. “Já havia alguns anos que ela não estava lá na linha de frente, mas sempre permanecia ao meu lado. Ela era um amor, um doce de pessoa que, inclusive, recebeu do governo de Minas Gerais o título de ‘a doce doceira de Araxá’”.
Desde quando assumiu a gestão dos doces, Maria Helena desenvolveu novas receitas como a de transformar o famoso tronquinho em um doce cremoso e lançou a cocada morena. Há ainda o creme ‘noir’, um doce de leite cremoso com cacau 100 por cento e avelã, além de produtos zero lactose e zero açúcar.A fábrica Dona Joaninha — a primeira empresa de Araxá a receber o alvará da vigilância sanitária — funciona na mesma casa onde a fundadora residiu. O turista pode acompanhar, atrás dos vidros, toda a produção artesanal. “Nós não temos máquinas, é tudo manual e os doces não levam corantes e nem conservantes. Fazemos tudo com muito amor”, diz Maria Helena.

A Fenadoces é uma feira especializada. Foto Divulgação.
Fenadoces e ” Vai que dá Araxá”
A tradição doceira é tão relevante que Araxá sedia, há seis edições, a Fenadoces, uma feira especializada. Em 2026, a sexta edição aconteceu dentro das dependências do Grande Hotel Termas de Araxá (entre os dias 8 e 12 de julho) que recebeu mais de 40 mil visitantes, além de reunir 50 expositores de diferentes estados brasileiros. A feira é realizada pela ADA – Associação dos Doceiros de Araxá e a programação incluiu eventos de gastronomia, oficinas e concurso de doces, dentre outras atrações como apresentações culturais e grandes shows. Segundo Fabiana Alves, presidente da entidade organizadora, a Fenadoces “cumpre o seu papel de valorizar os doceiros, fortalecer os pequenos empreendedores e impulsionar a economia da nossa cidade”. Fabiana vai mais ao longe ao afirmar que “mais do que uma feira, a Fenadoces reafirmou seu papel como um importante instrumento de valorização da doçaria mineira, fortalecimento do turismo, incentivo ao empreendedorismo e promoção da cultura local”.
O empreendedorismo da atividade doceira é objeto de um programa de fomento chamado “Vai que dá Araxá”, uma ação promovida pela CBMM – Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, líder mundial na produção e comercialização de produtos de Nióbio, companhia sediada no município.

Os doces são atrativos turísticos consagrados de Araxá. Foto Cyro Almeida.
O programa consiste na oferta de mentoria individualizada, capacitação em grupo e aporte financeiro de R$ 50 mil para que os novos selecionados possam aprimorar seus negócios e conquistar a sustentabilidade no mercado. “A diversidade de segmentos contemplados reflete a riqueza das vocações regionais e o potencial de crescimento da economia local”, justifica a CBMM. “Vemos como cada história se conecta com a vocação de Araxá, criando uma rede que se fortalece mutuamente e contribui para o desenvolvimento econômico local de forma sustentável”, complementa Christianne Canavero, gerente de Sustentabilidade da CBMM. Ela destaca, ainda, que o programa representa o compromisso contínuo da CBMM em apoiar projetos que gerem impacto social e o fomento do empreendedorismo.

A pipoca gourmet NewPop é beneficiada pelo programa “Vai que dá Araxá”. Foto Cyro Almeida.
A NewPop Pipocas Gourmet é uma das empresas beneficiadas pelo programa. A proprietária Jenifer Pereira da Silva explica que trata-se de um produto “refinado que inclui crocância, sabor e leveza na medida certa sem quebrar o equilíbrio de uma experiência realmente gostosa. É um produto artesanal, de receita própria, inovador no mercado mineiro e brasileiro”.
Em razão das características da empresa e do produto — “uma pipoca comum jamais poderia chegar numa experiência como essa” — Jenifer classifica o “Vai que dá Araxá” como uma proposta “extraordinária”. Segundo a empreendedora, o programa “não só nos beneficia com recursos financeiros como também instrui o empresário, o profissional, com os objetivos da empresa”. Jenifer argumenta que houve uma “inovação em todo o meu negócio porque o programa focou em mim, no crescimento da empresária e com os pensamentos, objetivos e ações da gestora alinhados com o propósito da NewPop Pipocas Gourmet”.
