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Devoção em movimento, a Festa do Rosário no Serro

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Nossa Senhora do Rosário
Nossa Senhora do Rosário Serro.

Catopês no cortejo pelas ruas do Serro. Foto Cyro Almeida.

Nossa Senhora do Rosário

 

Os símbolos e rituais do Congado do município do Serro são elementos que dão vida a uma das manifestações culturais mais antigas de Minas Gerais.

 

Reportagem Cyro Almeida

Fotos Tiago Aguiar e Cyro Almeida

 

Quem desembarca no terminal rodoviário de Serro, região central de Minas Gerais, é informado, por meio de grandes painéis, que está na primeira cidade brasileira tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) no ano de 1938.

Situada na Serra do Espinhaço — cadeia de montanhas que se estende por 1.200 km do centro de Minas Gerais ao norte da Bahia — o município do Serro possui uma população de aproximadamente 22 mil habitantes e uma história profundamente ligada ao ciclo do ouro e dos diamantes no período colonial. O relevo acidentado impediu a chegada da estrada de ferro à cidade no início do século XX, desviando o progresso para Curvelo. Embora isso tenha causado uma crise econômica, foi justamente a falta da ferrovia que protegeu o município da modernização.

Nossa Senhora do Rosário Serro

Igreja do Senhor Bom Jesus de Matozinhos e casario serrano. Foto Tiago Aguiar.

 

Entre as montanhas, a paisagem urbana de Serro ficou resguardada no tempo, o que permitiu que ela chegasse a 1938 com seu cenário dos séculos XVIII e XIX mais preservado. Assim, o que pareceu uma decadência na época tornou-se o segredo para a preservação de sua imagem histórica e o charme que ainda transmite.

A cidade também se orgulha pelo pioneirismo em Minas Gerais no registro de um bem cultural imaterial: o modo de fazer o queijo minas artesanal da região do Serro, uma prática com mais de duzentos anos de tradição, foi reconhecido oficialmente como patrimônio estadual em 2002. Mas a trajetória do Queijo do Serro foi mais além, pois ele foi reconhecido  Patrimônio Nacional do Brasil (pelo IPHAN em 2008), e se tornou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) desde 4 de dezembro de 2024.

Nossa |Senhora do Rosário Serro.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e casario serrano. Foto: Tiago Aguiar.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Casario serrano com vista para as Igrejas Nossa Senhora do Carmo e Santa Rita. Foto: Tiago Aguiar.

 

O Queijo do Serro, mais do que um produto, é parte da identidade cultural de seu povo. Além da gastronomia, o turismo também é impulsionado pelas paisagens naturais e pelo acolhimento de seus distritos, como Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras.

Em meio a tamanha diversidade de tradições, é na devoção à Nossa Senhora do Rosário que a cidade agrega a maior parte de seus filhos. Realizada anualmente no primeiro final de semana de julho, a Festa do Rosário é o ponto alto da riqueza cultural do Serro, reunindo milhares de pessoas, entre fiéis e turistas, em torno da celebração.

Contexto histórico e cultural

A Festa de Nossa Senhora do Rosário tem como elemento central o cortejo de dança, canto e religiosidade conhecido como Congado, havendo registro da eleição de Reis e Rainhas desde 1716 na cidade do Serro. Mesclando rituais católicos com tradições de matriz africana, os grupos de dançantes (como são chamados os membros do Congado do Serro), vestem roupas coloridas, usam acessórios, tocam instrumentos musicais, entoam canções e dançam de acordo com o estilo próprio de cada grupo.

Assim como em outras tradições orais, a narrativa sagrada sobre Nossa Senhora do Rosário se manifesta na junção de alguns fragmentos da memória coletiva. Uma parte da herança cultural remete à batalha naval de Lepanto, na Grécia, quando a Liga Santa — uma coalizão de potências católicas — derrotou o Império Otomano em 1571. A cristandade, sob a orientação do Papa Pio V, rezou à Virgem do Rosário pedindo sua intercessão nessa disputa, e com a vitória da Liga Santa instituiu-se uma data oficial para as Festas de Nossa Senhora do Rosário, que já ocorriam há mais de um século na Europa.

No Brasil, as pessoas negras escravizadas recriaram essa e outras tradições católicas, dando novo sentido às suas manifestações. Outra parte do mito, estabelecida e transmitida em território nacional, narra o aparecimento milagroso de uma imagem de Nossa Senhora do Rosário flutuando nas águas do oceano. Os portugueses, com suas vestes finas e cânticos em latim, foram até o mar, mas quando tentavam pegar a imagem ela se afastava cada vez mais da margem. Rogaram à Santa que viesse à terra firme, mas não foram atendidos. Os africanos e seus descendentes escravizados pediram permissão para tentar convencer a Santa. Com seus tambores e cantos nativos, foram atendidos pela Virgem, que finalmente saiu das águas e aceitou ser carregada em seus braços.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Devoto reverencia Nossa Senhora do Rosário. Foto Cyro Almeida.

 

Amparados por estes fundamentos, quatro grupos de dançantes compõem o Congado de Nossa Senhora do Rosário do Serro: os Marujos, os Catopês, os Caboclos e a Caixa de Assovios, diferenciando-se uns dos outros por suas funções na tradição oral, que se revelam nas fardas, símbolos, instrumentos, modos de dançar e de cantar. Parte da tradição se faz em encenar as lendas, compondo também uma narrativa alegórica sobre a formação do Brasil.

Dançantes

No Congado do Serro, os Marujos representam a esquadra portuguesa na luta contra os Otomanos pelo controle do Mediterrâneo, disputa que assumiu o caráter de guerra santa entre cristãos e muçulmanos. A figura dos Marujos vincula-se também ao mito do surgimento de Nossa Senhora do Rosário na costa brasileira, no qual os homens brancos que se lançaram ao mar para resgatar a imagem foram malsucedidos, por recusa da própria Santa. Os membros do grupo vestem calça, camisa e quepe brancos com frisos azuis, e também um lenço de gola, como o dos marinheiros. A farda dos chefes — Patrão, Capitão de Mar e Guerra, Contramestre e Piloto — também é composta por elmo, ombreiras de franjas, cordões entrelaçados, medalhas e, além disso, carregam espada, remetendo aos comandantes de esquadra. Cantam ao som de instrumentos de corda — cavaquinhos, violões, violas, banjos — e de pandeiros xique-xiques, flautas, pífaros e caixas de couro.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Capitão Ênio Flávio, Marujo do Congado do Serro na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Foto Cyro Almeida.

 

A narrativa sagrada do aparecimento de Nossa Senhora do Rosário pelas águas do mar destaca o protagonismo dos africanos escravizados e de seus descendentes, responsáveis pela chegada da imagem à terra firme. No Congado do Serro, os povos negros são representados pela figura alegórica dos Catopês. Conforme a lenda, são eles que acompanharam Nossa Senhora do Rosário e, portanto, são os primeiros na hierarquia dos dançantes e tem primazia em muitos rituais da Festa. Suas fardas são compostas por capacete com penas de ema, capa de chitão multicoloridas e peito enfeitado com espelhos, bijuterias e colares. Sob as fardas, vestem camisa e calça comum, tênis ou “quédis” (um tipo de calçado feito de lona com sola de borracha). Seus instrumentos são tamborins, caixas de couro, xique-xiques artesanais e reco-reco. Comandados por dois chefes — o Mestre e o Contramestre —, os Catopês são responsáveis por conduzir a Cruz da Irmandade, a Bandeira e o Reinado durante o festejo.

Nossa Senhora do Rosário Serro

Rodrigo, Catopê do Congado do Serro na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Foto Cyro Almeida

 

Os membros do terceiro grupo dançante, os Caboclos, representam os indígenas. Enquanto os Marujos personificam o domínio dos mares, os Caboclos funcionam como alegoria da própria terra, o novo mundo — a América portuguesa — e os seus povos originários. Ao som de caixas de couro e sanfonas, reverenciam Nossa Senhora do Rosário, vestindo coletes adornados de lantejoulas, broches e medalhas. A farda também é composta de cocares, saiotes e perneiras com penas coloridas. Enfeitam o rosto com batom, blush e brincos, acessórios que se integram a colares, pulseiras e fitas. Trazem consigo um arco e flecha de madeira, cuja batida produz um estalido que acompanha o ritmo das caixas. Seus brados são vigorosos e somados ao estalo rítmico dos arcos e flechas evocam a atmosfera de uma preparação para o combate. Entre os Caboclos, destacam-se as figuras do Papai Vovô, Mamãe Vovó e o Caciquinho. São comandados por quatro chefes: Caboclo Mestre, Pantalão, Zé de Freitas e Doutor.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Claiton, Caboclo do Congado do Serro na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Foto Cyro Almeida.

 

Festeiros: o Reinado

Além dos dançantes, outras alegorias estruturam o Congado do Serro no contexto do Reinado. Rei e Rainha, Juízes e Juízas, Mordomo do Mastro, Mucamas e Pajens formam uma hierarquia simbólica que, embora remeta à estética das cortes europeias em seus figurinos e códigos visuais, também resgata a organização social da África, onde muitas culturas se alicerçavam em grandes reinos.

A eleição para estes serviços é conduzida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Serro na primeira semana do mês de maio, durante a Festa de Santa Cruz. Candidatos a Rei, Rainha, além dos Primeiros e Segundos Juízes e Juízas são escolhidos de forma individual e não por pares. Nesta mesma ocasião, elege-se o Mordomo do Mastro, responsável pela Bandeira de Nossa Senhora do Rosário.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Festeiros João Cornélio e Maria Eunice: Rei e Rainha na Festa do Rosário de 2025. Foto Cyro Almeida

 

Ao serem empossados no encerramento da Festa do Rosário, em julho, os festeiros assumem as incumbências simbólicas e as responsabilidades práticas para viabilizar a celebração do ano seguinte. Na execução dessa tarefa, a família de cada eleito se envolve, trabalha e também representa a hierarquia do Reinado, compromisso que se destaca no caso do Mordomo do Mastro. Os integrantes do Reinado e seus familiares organizam eventos, rifas e mantém a tradição de “retirar esmolas” para custear as refeições servidas gratuitamente aos dançantes, moradores do Serro e turistas durante a Festa. A família do Mordomo é também responsável por financiar a festa do Levantamento do Mastro.

Rainha Conga

Além da Rainha anual do Reinado, outra pessoa de destaque no Congado do Serro é a Rainha Conga. Ao contrário do cargo eletivo de Rainha, o posto de Rainha Conga é exercido de forma vitalícia e hereditária. Sua origem e afinidade tradicional estão estreitamente ligadas aos Catopês.

A atual Rainha Conga, Rosiane, recebeu o legado após o falecimento de sua avó, Dona Cesárea. Desde criança, Rosiane, hoje com 39 anos, frequenta a Festa do Rosário. Mais que devota, ela e outras netas de Cesárea incumbiam-se da função de preparar a avó para o cortejo de domingo: além de vesti-la, cuidavam de seu cabelo e de suas unhas.

Em 2015, um grupo de jornalistas perguntou a Dona Cesárea se ela já estava preparando uma sucessora entre as mulheres da família. Longe da expectativa da morte, ela respondeu que ainda não havia pensado muito no assunto, mas, caso viesse a faltar, seu posto seria transmitido à neta Rosiane. Num primeiro momento, Rosiane recusou a oferta, por achar que não era o momento adequado para conversarem sobre esse tipo de assunto.

Fatalmente, no mesmo ano, a Rainha Cesárea ficou gravemente doente e veio a falecer. Ainda na missa de corpo presente, surgiu o questionamento sobre a sucessão, e o chefe dos Catopês à época, sabendo do desejo da recém-falecida Rainha, indicou o nome de Rosiane.

A princípio, ela continuou a relutar contra o seu destino, mas, com o passar dos dias, a fé em Nossa Senhora do Rosário falou mais alto e ela aceitou a responsabilidade. Em assembleia, os Irmãos do Rosário selaram sua concordância e, dispensando votação, Rosiane foi nomeada por consenso como Rainha Conga, em 2015.

Nossa Senhora do Roário Serro.

Rosiane, Rainha Conga. Foto Cyro Almeida.

 

Roteiro da Festa: sagrado e secular

Durante os dias da Festa, em julho, a cidade do Serro se transforma. O largo e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário são o epicentro das festividades, mas a tradição percorre outros espaços no centro histórico.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Foto Cyro Alomeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro

Bandeirolas da Festa do Rosário de 2025. Foto Cyro Almeida.

 

Para quem acompanha a celebração pela primeira vez, o vocabulário do Reinado pode gerar algumas confusões naturais. Uma dúvida comum de turistas e de visitantes está nas chamadas “casas” dos festeiros — os Juízes e as Juízas, o Mordomo do Mastro, o Rei e a Rainha.

É importante compreender que essas “casas” não são as residências pessoais e cotidianas das pessoas eleitas. Trata-se de um conceito simbólico e coletivo, no qual esses espaços são sediados nas escolas públicas locais ou em outros ambientes amplos e integrados à comunidade. Os pátios escolares e algumas salas de aula são temporariamente transformados e decorados para os ritos de hospitalidade, assumindo a identidade da corte no Reinado e exaltando a imagem de Nossa Senhora do Rosário.

Assim, quando a programação anuncia, por exemplo, que os Catopês vão buscar o Rei em sua casa ou que os Caboclos almoçarão na casa da Juíza, o público deve saber que os dançantes estão se direcionando a uma escola da cidade, onde a reverência ao Reinado e a fé na Virgem do Rosário são vivenciadas de portas abertas.

Sexta-feira

A noite de sexta-feira é marcada, dentro das tradições que compõe o Congado do Serro, pela Condução da Cruz da Irmandade feita pelo grupo dos Catopês. Por volta das 18h, o grupo se dirige à casa do Rei, local onde lhes é confiada a Cruz, que carregarão até a Igreja do Rosário para o início da missa.

Diferentemente dos grandes cortejos coloridos que serão vistos no domingo, a Condução da Cruz na sexta-feira possui uma atmosfera mais comedida e um tanto quanto sombria. Sob a penumbra das ruas nesta noite, o ritmo das caixas dos Catopês costuma ser mais cadenciado e grave. Não há a euforia do ápice da Festa, mas sim um “canto de lamento”, que remete ao sofrimento dos antepassados e à profunda devoção à Nossa Senhora do Rosário.

Os Catopês são o único grupo a adentrar a Igreja na sexta-feira para a liturgia. A missa não começa sem a chegada dos Catopês e lá permanecem até o fim da homilia. Após a missa, os Catopês são recebidos na casa do Rei para o jantar.

Os que desejam permanecer nas ruas do Serro após os ritos tradicionais e religiosos, encontrarão festividades seculares que tomam conta da cidade neste período. Nas imediações da Igreja, ao longo da Rua do Rosário, bastam poucos passos para desfrutar de uma autêntica cachaça mineira ou saborear um caldo quentinho, especialidades certeiras diante das baixas temperaturas que marcam a região nesta época do ano.

Sábado

Na madrugada de sábado, às 5 horas, o despertar do Serro acontece diante da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde se ouve o ressoar de três pífaros e duas caixas de couro. Essa melodia anuncia a chegada da Caixa de Assovios, coletivo de músicos que figura entre os grupos dançantes e é um dos pilares nos ritos e tradições da Festa. No roteiro das celebrações, esse momento é conhecido como Matina.

Acompanhada pelos presidentes da Irmandade e da Associação dos Congados, além de um expressivo número de devotos, a Caixa de Assovios desfere três batidas rituais à porta da Igreja e sob o ressoar de seus instrumentos, o grupo pede licença para adentrar o templo e iniciar a Festa. As sonoridades da Caixa de Assovios evocam o lamento da população escravizada, enquanto seu protagonismo na Matina resgata a memória do período em que o acesso aos templos era negado aos negros.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Interior da Igreja do Rosário durante a Matina. Foto Cyro Almeida.

 

Apesar da madrugada, o templo é tomado pela população serrana e por turistas, que se distribuem pelo espaço disponível —frequentemente de pé — à espera do início da missa.

Terminada a cerimônia, todos saem pelas ruas do Serro em um cortejo conduzido pela Caixa de Assovios, despertando o restante da cidade. Durante a manhã de sábado, a comitiva passa pela casa do Rei e da Rainha, dos Juízes e das Juízas, onde são oferecidos os tradicionais cafés da manhã. Em cada parada, uma mesa extensa e generosa é preparada. Nelas, a imagem de Nossa Senhora do Rosário ocupa o lugar de honra, cercada por iguarias típicas como broas, biscoitos, canjicas, queijos e frutas. A itinerância pelas casas dos festeiros encerra-se por volta das 12 horas.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Diego, Rodrigo e Robson: pifeiros da Caixa de Assovios. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário.

Caixeiros da Caixa de Assovios. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Café da manhã de sábado oferecido na casa dos Primeiros Juiz e Juíza. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Festeiros Breno e Cristina: Primeiros Juiz e Juíza, oferecem o café da manhã de sábado. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Café da manhã de sábado oferecido na casa dos Primeiros Juiz e Juíza. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Festeiro Dalvo, Segundo Juiz, oferece o café da manhã de sábado. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário.

Café da manhã de sábado oferecido na casa do Rei e da Rainha.Foto Cyro Almeida.

 

Enquanto o sábado de manhã é marcado pela solenidade da Matina e pela hospitalidade dos cafés nas casas dos festeiros, a tarde oferece um momento vibrante e descontraído com o Samba do Serro. Essa festividade secular não é um evento isolado, mas uma extensão da identidade negra local e um momento em que os Caboclos abrem uma pausa em seus compromissos litúrgicos para uma confraternização alvoroçada.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Samba do Serro na Praça João Pinheiro. Foto Cyro Almeida.

 

Geralmente o Samba começa após o almoço, por volta das 14h, e acontece na Praça João Pinheiro, próximo à Prefeitura. Além de mesclar a efervescência das músicas com cervejas geladas, a tarde de sábado é oportuna para o turista conhecer duas igrejas nas proximidades da Praça: a Igreja Nossa Senhora do Carmo e a Igreja de Santa Rita.

A primeira, foi erguida entre 1767 e 1781, pela Ordem Terceira do Carmo. Possui estrutura de madeira e barro, com altares rococó — estilo artístico e arquitetônico característico do final do século XVIII no Brasil. O acesso à Igreja é feito por uma escadaria frontal, atravessando robustos muros de pedras que são adornados por trepadeiras e cercados por palmeiras imperiais.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Igreja Nossa Senhora do Carmo. Foto Cyro Almeida.

 

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Interior da Igreja Nossa Senhora do Carmo. Foto Cyro Almeida.

 

Já o templo dedicado a Santa Rita exigirá do visitante o vigor para vencer a extensa escadaria de pedras — curiosamente conhecida como “escadinha” — que compõe, junto aos seus jardins laterais e à arquitetura chanfrada da igreja, o principal cartão-postal da cidade. Apesar de se encontrar fechada para cerimônias religiosas e visitação pública, pois passa por restauração estrutural e artística coordenada pelo IPHAN, o esforço da caminhada é recompensador, proporcionando ao visitante uma vista do casario serrano e do entusiasmo da multidão que ainda curte o Samba.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Vista da Praça João Pinheiro e do casario histórico durante o Samba do Serro. Foto Cyro Almeida.

 

Sabendo que muitos instrumentistas e apreciadores do Samba na tarde de sábado são os mesmos dançantes e devotos que estarão junto aos Caboclos, o encontro musical pode ser considerado como um respiro profano que prepara o espírito para as cerimônias que vêm à noite.

Por volta das 18h30, a Caixa de Assovios e os Catopês conduzem o Rei e a Rainha, que carregam a Cruz da Irmandade de suas casas até a Igreja do Rosário. No átrio do templo, o cortejo se integra aos demais grupos dançantes e segue em direção à casa do Mordomo do Mastro, guardião da Bandeira naquele ano. Ali, existe a maior reunião dos três grupos dançantes fora do ambiente das ruas. Enquanto o Mordomo e sua família oferecem o jantar aos dançantes, devotos e visitantes, a atmosfera equilibra a descontração com a profunda reverência à Bandeira — muitos se ajoelham e pedem bênçãos à Virgem do Rosário diante da imagem.

Distanciando-se do conceito convencional, no Congado do Serro, a Bandeira de Nossa Senhora do Rosário não se apresenta como um estandarte de tecido retangular com emblemas costurados. A representação consiste em uma delicada escultura da Santa, disposta sobre um andor iluminado e florido.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Irmãos do Rosário carregam a Bandeira de Nossa Senhora, acompanhados pelos Catopês. Foto Cyro Almeida.

A imagem da Virgem deixa a casa do Mordomo carregada pelos Irmãos do Rosário e segue acompanhada pelos Catopês até o largo da Igreja. O cortejo é recebido no largo do Rosário pelos Caboclos com seus arcos e flechas e pelos Marujos com suas liras. Primeiramente, a Bandeira adentra a Igreja para ser abençoada pelo padre e em seguida retorna ao largo para o Levantamento do Mastro.

No ato do hasteamento, o céu do Serro é tomado por um grande espetáculo de fogos de artifício. Aglomerados em volta da Bandeira, os Caboclos, Catopês, Marujos e demais devotos dançam e cantam pelo Levantamento do Mastro, produzindo um dos pontos altos da celebração. A imagem de Nossa Senhora do Rosário continuará erguida até segunda-feira, último dia de festa, quando será retirada e entregue ao Mordomo do próximo ano.

Nossa Senhora do Rosáio Serro.

Levantamento do Mastro. Foto Cyro Almeida.

 

Quem acompanhou as cerimônias até aqui não precisa se recolher tão cedo. Com ainda mais intensidade que na noite anterior, a Avenida Dom José André, vizinha ao Largo do Rosário, transforma-se em um corredor de barraquinhas repletas de sabores, bebidas e música. O cenário proporciona uma atmosfera vibrante e festiva, onde o encontro entre serranos e visitantes se estende pela madrugada.

Domingo

O domingo é o grande dia festivo. A jornada começa cedo, às 6h, quando os Catopês e a Caixa de Assovios se dirigem  às casas de cada festeiro — Juízes, Juízas, Rei e Rainha — para compor o Reinado. Em cada parada, os Catopês ajoelham-se em frente ao trono e entoam o canto da Ave-Maria por três vezes, conduzindo os festeiros até o próximo destino.

Na casa do Rei, acontece o encontro entre os Catopês e os Caboclos. Já os Marujos aguardam a comitiva na casa da Rainha, da qual são os guardiões. A partir deste dia, todos os grupos dançantes desfilam plenamente fardados, proporcionando o espetáculo visual multicolorido que caracteriza o Congado.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Catopês no cortejo pelas ruas do Serro. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Catopês no cortejo em frente à Igreja Nossa Senhora do Carmo. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Daniel, Nanin e Marcos: Caboclos no Congado do Serro. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Caboclos portando arcos e flechas em cortejo na Rua do Rosário. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Jesus e Zezinho: Marujos com fardas tradicionais, tocando caixa de couro e agogô. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Alcides: Marujo do Congado do Serro. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Catopês em frente ao trono na casa do Segundo Juiz. Foto Cyro Almeida.

 

Com a corte plenamente reunida na casa da Rainha, o Reinado parte em solene procissão rumo ao largo da Igreja. Os festeiros são acompanhados pelas Mucamas e pelos Pajens — séquito pessoal que zela pelos símbolos da realeza, carregando sombreiros, bandeiras, paramentos, além dos mantos do Rei e da Rainha. Seus trajes variam a cada ano, mas habitualmente são em azul e branco, adornados por rendas e fitas.

O papel das Mucamas transcende a definição histórica do termo, que remete às mulheres negras escravizadas em funções domésticas de confiança no período colonial. No Congado do Serro, este grupo é heterogêneo, seguindo a lógica dos que integram os grupos dançantes, em que identificação com o rito e seus símbolos prevalece sobre traços étnicos. Nesse contexto, as Mucamas ocupam um lugar de zelo e delicadeza visual, ressignificando o passado de escravidão e convertendo este papel em uma posição de honra compartilhada.

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Caixa de Assovios e Catopês em cortejo na casa do Primeiro Juiz e da Primeira Juíza. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Festeiros Breno e Cristina: Primeiros Juiz e Juíza na Festa do Rosário de 2025. Foto Cyro Almeida.

 

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Ana Flávia e Luana: Mucamas dos Primeiros Juiz e Juíza na Festa do Rosário de 2025. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Festeiros Maria Eunice e João Cornélio: Rainha e Rei na Festa do Rosário de 2025 acompanhados por Mucamas e Pajens. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Em outro ângulo, Rainha e Rei na Festa do Rosário de 2025 acompanhados por Mucamas e Pajens. Foto Cyro Almeida.

 

O cortejo na manhã de domingo é marcado pela Embaixada, drama ritual que encena o primeiro encontro entre portugueses e africanos no Reino do Congo, protagonizado pelo embate simbólico entre Marujos e Caboclos. Esse teatro popular, representado por meio de versos, músicas e coreografias de combate, é desdobrado em vários atos — tais como a batalha de espadas, o cerco ao trono, o rapto do Caciquinho e a rendição — que acontecem pelas ladeiras da cidade até chegarem à Igreja do Rosário.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Marujos e Caboclos na batalha de espadas, durante a Embaixada. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Marujos em frente a Igreja do Rosário durante a Embaixada. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Caboclos no Congado do Serro.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Caboclo no Congado do Serro. Foto Cyro Almeida.

 

Encerrada a missa, o almoço é servido na casa dos festeiros, enquanto a Igreja permanece de portas abertas. O templo torna-se o refúgio para o encontro íntimo de serranos e visitantes com a imagem de Nossa Senhora do Rosário, uma devoção expressa em rezas silenciosas, no beijo das fitas, na imposição das mãos e nos registros fotográficos que buscam eternizar a presença da Santa.

No período da tarde, o andor da Virgem do Rosário é conduzido pelos devotos do interior da Igreja ao átrio, momento adornado por uma linda chuva de papéis picados. A liturgia desloca-se então para o largo do Rosário, onde a Coroação de Nossa Senhora é celebrada em meio a outras solenidades. A cerimônia marca o encontro das autoridades eclesiásticas e políticas com o Reinado, unindo o poder religioso, o civil e a devoção popular em um mesmo rito de reverência. As cerimônias e atos oficiais são acompanhados pelos dançantes e uma multidão de fiéis.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Devotos reverenciam Nossa Senhora do Rosário. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Roário Serro.

Nanin: Caboclo junto à imagem de Nossa Senhora do Rosário. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário.

Catopês de Milho Verde durante a saída de Nossa Senhora para a Coroação. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário Serro.

Catopês e Rainha Conga em devoção à Nossa Senhora do Rosário. Foto Cyro Almeida.

 

Nossa Senhora do Rosário.

Imagem de Nossa Senhora do Rosário durante as celebrações do Congado do Serro. Foto Cyro Almeida.

Simultaneamente, a vida secular da festa acontece na Avenida Dom José André. Não tão distantes do rigor das solenidades, serranos e turistas aglomeram-se nas barraquinhas em busca de bebidas geladas e comidas típicas, do churrasquinho ao pastel. A música alta e a conversa vibrante dominam também os bares e as calçadas nas imediações, oferecendo um contraponto profano à celebração que ocorre no largo.

Ao anoitecer, a imagem de Nossa Senhora é confiada aos ombros dos Irmãos do Rosário em frente à Igreja, para dar início à solene Procissão Luminosa. Milhares de devotos caminham pelas ruas do Serro, carregando velas acesas, em um fluxo constante que proporciona um espetáculo visual formado por sinuosos feixes de luz que se movimentam pelo casario colonial da cidade.

A multidão segue margeando os dançantes e aqueles que percorrem os diferentes trechos do cortejo testemunham instantes de puro deslumbramento, proporcionado pela variedade de sons e de melodias: a densidade das caixas de couro e os cânticos dos Catopês, o ritmo seco e pujante dos estalidos de arcos e flechas dos Caboclos e a alegre leveza das liras e flautas dos Marujos.

Equilibrando a euforia matinal proporcionada pela Embaixada, a Procissão Luminosa evoca um estado de gratidão e de introspecção, encerrando as celebrações de domingo no momento em que a Santa é reconduzida pelos fiéis ao interior da Igreja do Rosário.

Segunda-feira

Feriado no Serro. As cerimônias de segunda-feira começam com um dos momentos mais singelos da Festa, o gesto de gratidão em que as casas dos festeiros se abrem para oferecer mesas fartas de doces aos Catopês, Caboclos, Marujos e Caixa de Assovios.

Na passagem por cada uma das casas, realiza-se a Transmissão do Reinado. Iniciando pelos Juízes e Juízas, a hierarquia se renova com a passagem de insígnias e responsabilidades aos festeiros eleitos na assembleia geral da Irmandade do Rosário, ocorrida no mês de maio, durante a Festa da Santa Cruz. O ponto alto acontece nas casas do Rei e da Rainha, que transferem o cetro, a capa e a coroa aos novos escolhidos, assegurando a continuidade da tradição.

Ao cair da tarde, com o novo Reinado já constituído, a Caixa de Assovios e os Catopês conduzem o Rei e a Rainha até a Igreja do Rosário para a missa de despedida. Terminada a cerimônia e já ao anoitecer, realiza-se o desferimento da Bandeira, ritual que encerra oficialmente as celebrações, aguardando os preparativos para o próximo ano.

Tiago Aguiar: arte e identidade serrana

Nascido no Serro em 1983, Tiago Aguiar viveu na cidade até os 15 anos, quando se mudou para Belo Horizonte. Graduado em Comunicação Social, especializou-se em fotografia pelo Hallmark Institute of Photography, em Massachusetts (EUA). Depois de uma temporada em Nova Iorque atuando no mercado comercial, o fotógrafo restabeleceu residência no Brasil em 2009, cursando, a partir de então, o bacharelado em Artes Plásticas na Escola Guignard, unidade acadêmica ligada à Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). De volta às suas raízes, deu início a uma pesquisa artística e pessoal que originou diversos projetos tematizando a Festa de Nossa Senhora do Rosário do Serro e consolidou sua devoção, tornando-o também um Catopê.

Na série Dançantes (2016-2017), o artista montou seu estúdio fotográfico em uma garagem no centro histórico do Serro, onde convidou os Catopês, os Caboclos e os Marujos para serem retratados. Esse protagonismo dos fotografados diante da câmera revela camadas profundas, que costumam passar despercebidas nos registros rápidos feitos pelos turistas durante os cortejos. Nessas ocasiões, as ruas da cidade são tomadas por uma profusão de câmeras, que enfatizam a Festa do Rosário em sua dimensão de espetáculo ao registrar os dançantes sempre agrupados e imersos na multidão.

Nas fotografias de Tiago Aguiar, por outro lado, elementos como jeans, tênis, camisetas e relógios, somados aos olhares e posturas, revelam-se sob as fardas, transmitindo a singularidade desses sujeitos que, normalmente, são vistos apenas no âmbito coletivo. Com essa proposta, os dançantes têm uma maior autonomia na construção de suas próprias imagens, ao escolherem, em parceria com o fotógrafo, como desejam ser retratados.

O conjunto de retratos Caravana (2019) quebra as expectativas de quem pretende encontrar na Festa do Rosário a imagem de uma tradição estanque, aprisionada no tempo.

As barraquinhas existem desde os primórdios da celebração no Serro, com o objetivo inicial de arrecadar fundos para suprir as despesas do próprio evento. Contudo, com a expansão dos festejos, esse comércio também cresceu e tornou-se uma importante oportunidade de negócio. Guiados por um estilo de vida que envolve sucessivos deslocamentos, vendedores chegam ao Serro durante a Festa, seguindo um calendário de eventos que, frequentemente, se estende por todo o ano e atravessa diversas regiões do Brasil.

A partir dos anos 2000, o município do Serro instituiu o uso de barracas de metal pré-fabricadas e padronizadas, o que extinguiu a tradição do fazer artesanal e alterou a Festa do Rosário não só visualmente, mas também em sua dinâmica com a população local. Tiago Aguiar, contudo, não apenas admite essa mudança imposta pela industrialização e pela contemporaneidade, como também vislumbra o potencial histórico, iconográfico e expressivo da nova formatação. Por essa razão, ele retrata os comerciantes que viajam até a cidade e ocupam o centro histórico durante as celebrações.

Ao longo do século XX, sobretudo entre as décadas de 1940 e 1970, os retratistas de quermesse e festas populares eram como outros fornecedores de serviços e produtos escassos na região. No caso da fotografia, a chegada desses profissionais era uma das raras oportunidades para grande parte da população ter sua imagem perenizada. Em vez de um fundo neutro popularizado pela fotografia de documento, os fotógrafos itinerantes trabalhavam com um fundo temático que representava paisagens, arquiteturas clássicas, cenários luxuosos ou ambientes rurais idealizados — muitas vezes pintados à mão —, o que conferia um caráter narrativo ao retrato.

Diante dessa tradição hoje rarefeita, Tiago Aguiar desenvolveu a série Quermesse (2018). Se antes o foco estava nos dançantes, aqui o artista se voltou para a população e os visitantes que prestigiam a Festa do Rosário, retratando o público que acompanha as celebrações sem exercer o protagonismo dos cortejos. A dimensão do sagrado permanece presente nesta obra. Ao construir artesanalmente uma barraca de bambu e lona, o fotógrafo buscou reconectar a si mesmo e à comunidade com a tradição dos fundos temáticos. Atrás dos retratados, o artista estampou a imagem da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, desenhada em grafite sobre lona durante um ateliê coletivo coordenado por ele.

Durante a Festa do Rosário de 2025, Tiago Aguiar realizou a exposição Rusá Serro, uma experiência artística ao ar livre, construída entre as ruas e praças do conjunto histórico da cidade. O título é uma corruptela para se referir à tradicional celebração local, o Rosário do Serro.

As vias públicas receberam a instalação de 33 painéis de grandes dimensões, cujas larguras variavam de dois a três metros, exibindo uma seleção de imagens das séries Dançantes, Caravana e Quermesse. Os painéis foram posicionados no caminho da procissão, de modo a melhor se relacionarem com essa manifestação da fé.

Adornadas pela arquitetura local, as fotografias ao longo do trajeto da procissão ressaltaram os vínculos devocionais e afetivos dos que fazem a Festa acontecer em suas múltiplas camadas, com ênfase no Congado, no comércio itinerante e nas expressões de moradores e visitantes, que foram captadas com sensibilidade.

O encontro da força expressiva da Festa do Rosário com a trajetória de Tiago Aguiar estabeleceu uma ponte entre a contemporaneidade e a tradição, articulando um universo simbólico centenário ao dinamismo das relações sociais e culturais no ambiente urbano.

Além de seu caráter artístico, a exposição ao ar livre — financiada com recursos da Lei Paulo Gustavo em Minas Gerais —desempenhou um papel significativo na educação patrimonial, reforçando o vínculo da comunidade com sua memória coletiva, ao mesmo tempo em que convidou novos públicos a explorar, interpretar e se envolver com essa cultura singular.

O legado da Festa

A julgar pelo panorama trazido por este relato, a Festa de Nossa Senhora do Rosário e o Congado do Serro revelam-se aos novos visitantes muito além de um mero registro folclórico, sendo uma oportunidade de vivenciar, junto à comunidade, a força de saberes e ancestralidades que sustentam a devoção. Tal experiência preserva e valoriza a fé na Virgem do Rosário, sem perder de vista que, no Serro, a tradição também se transforma para continuar viva.

Circuito do Rosário

A Festa de Nossa Senhora do Rosário redesenha a vida urbana do Serro. Caminhar pela cidade durante esse período envolve ser surpreendido pelo Congado que pulsa pelas ladeiras do centro histórico. Para quem deseja acompanhar o circuito da fé e as manifestações seculares, cada endereço guarda uma parte dessa tradição. Confira a seguir o guia de locais e pontos estratégicos para sentir de perto essa herança cultural.

Epicentro da fé

Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Rua do Rosário, s/n.

Outros templos no percurso da procissão

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição

Praça Cristiano Ottoni, 72.

Igreja Nossa Senhora do Carmo

  1. Ouro Fino, 1.

Igreja de Santa Rita

Alameda Prof. Tuquito, 133.

Casas dos festeiros: Reinado

Escola Estadual Luíza de Marilac (Escolinha)

Rua do Rosário, 318.

Escola Estadual Ministro Edmundo Lins (Ginásio)

Largo Do Pelourinho, 36.

Escola Estadual Doutor João Pinheiro

Rua Luiz Advíncula Reis, 84.

Escola Estadual João Nepomuceno Kubitschek

  1. Santa Rita, 110.

Escola Municipal Infantil Irmã Carvalho (Creche)

Rua Ladeira da Matriz, 100.

Celebrações seculares

Samba do Serro

Praça João Pinheiro

Barraquinhas de comidas típicas

Avenida Dom José André

Comércio itinerante

Avenida BR-259 (Centro histórico)

 

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