
Desde 2011, Tiradentes sedia o Festival Foto em Pauta. Foto Cezar Félix
Desde 2011, Tiradentes sedia o Festival Foto em Pauta, coordenado pelo fotógrafo mineiro Eugênio Sávio. A cidade histórica recebe profissionais consagrados, fotógrafos iniciantes e amadores, além de artistas visuais e editores, que se reúnem em torno da fotografia e da produção de imagens. O forte envolvimento da comunidade local é uma das marcas do evento, hoje reconhecido como um dos festivais mais importantes do Brasil.
Reportagem Cezar Félix (com Mariana Lage)
Fotos Eugênio Sávio/Léo Lara/Cezar Félix
Imagine como seria divertido e excitante reunir colegas e profissionais que você admira num ambiente em que todos convivem de perto e trocam experiências. Imagine também o quanto seria bom encontrar um ídolo, um expert naquela técnica fotográfica que você tanto aprecia, não em um estúdio, mas na rua, numa praça, numa cidade pequena o suficiente para que sua ambiência, tão diversa daquela das metrópoles, seja capaz de propiciar uma conversa demorada e tranquila. Imagine agora que esta cidade seja mineira, dessas históricas, nas quais as pessoas são receptivas e cujo tamanho e topografia fomentam a abertura e o diálogo.

A movimentação da Rua Direita durante o o Foto em Pauta em 2026. Foto Cezar Félix
Mais ainda, imagine como seria empolgante poder mergulhar durante dois ou três dias num festival capaz de te abrir um mundo de possibilidades e formas de manusear a sua câmera, ainda que você esteja apenas começando. Sair a pé sem rumo pelas ruas, testemunhar diferentes trabalhos artísticos e correr o risco de encontrar, reunidos numa mesma esquina, todos os profissionais, ídolos, experts e, quem sabe, colegas de trabalho, todos disponíveis para um brinde, um bate-papo ou uma risada.
Tudo isso faz parte da experiência que muitos fotógrafos, jornalistas e apreciadores da fotografia, seja ela documental, jornalística ou artística, viveram nas 16 edições do Festival de Fotografia Foto em Pauta de Tiradentes, idealizado e organizado pelo fotógrafo mineiro Eugênio Sávio.

Rua Direita na luz das primeiras horas da manhã, Foto Cezar Félix
Profissionais da imagem
O festival teve sua primeira edição em 2011. Desde então, foram 15 edições, sempre no mês de março, reunindo fotógrafos consagrados e iniciantes, estudantes e profissionais de diversas regiões do Brasil — muitas das quais, carentes de festivais e exposições. A programação passa por exposições, workshops, leituras de portfólios, lançamentos de livros e fotolivros, palestras, bate-papos e projeções de imagens, além de atividades educativas voltadas para a comunidade local.

São 16 edições do festival em Tiradentes. Imagem da exposição de João Farkas no Museu de Sant’Ana. Foto Cezar Félix
Durante os festivais, as ruas e os corredores de centros culturais se enchem de gente, e os espaços expositivos chegam, com frequência, à lotação máxima, e basta manter-se atento para ouvir elogios abundantes ao evento.
Se Tiradentes comprovou ter vocação para festivais culturais, o festival de fotografia organizado por Eugênio Sávio conseguiu colocar em relevo o que a cidade tem de melhor e o que melhor pode ser feito em termos de infraestrutura. A organização do festival se mostra atenta aos detalhes e à riqueza de conhecimento que tem a oferecer.

O Foto em Pauta abre espaço para artistas priorizando a diversidade a a inclusão. Exposição Retratistas do Morro, em 2024. Foto Eugênio Sávio
Cosmopolita e aconchegante
Com exposições em diferentes formatos espalhadas por toda a parte, o festival permite ao visitante explorar as ruas a pé e convida os moradores a redescobrir recantos que o dia a dia costuma tornar invisíveis, agora vistos com olhar aberto para o belo e o inesperado.
É comum festivais que atraem grandes multidões se mostrarem mais interessados na festa do que nos trabalhos exibidos. Não é o caso. O Foto em Pauta tem o tamanho ideal, aliando o conforto mineiro de receber bem ao apuro estético e à seriedade profissional que o distinguem.

O festival permite ao turista explorar as várias possibilidades para admirar as expossições oferecidas pelo evento. Foto Cezar Félix
Outro traço que define o festival é a preocupação em abrir espaço para o maior número possível de artistas. Um fotógrafo que não entra na programação oficial, seja por restrições de infraestrutura ou de recursos, pode expor e mostrar o seu trabalho numa programação paralela. Sem rivalidades ou territorialismos, o objetivo é fomentar a troca de experiências e conhecimento, aproximando o público dos profissionais e do universo da fotografia. Quem aprecia a fotografia — de dentro ou de fora de Tiradentes — sai ganhando.
Tudo isso, sem dúvida, coloca em destaque a capacidade do festival de ser ao mesmo tempo cosmopolita, com referências de peso, e aconchegante, sem soar pequeno. Uma programação que faz de Tiradentes uma festa para os olhos.

Cosmopolita e lugar de grandes encontros: Rua Direita, em frente ao Centro Cultural Yves Alves durante a 12ª edição em 2023. Foto Léo Lara.
Referência da fotografia brasileira
Não à toa, muitos dos fotógrafos que já participaram do Foto em Pauta continuam marcando presença em Tiradentes: para esses profissionais, o festival se tornou uma referência da fotografia brasileira. O paulistano João Farkas — que há mais de 30 anos registra a relação entre homem e natureza na Amazônia, no Pantanal e no sul da Bahia por meio da fotografia documental, com luz natural e cores vibrantes — considera o Foto em Pauta “um dos acontecimentos mais importantes da fotografia brasileira, pois é extremamente bem-sucedido naquilo que pretende.” Na edição deste ano, ele apresentou a exposição Costa Norte ao ar livre, junto ao Museu de Sant’Ana. “Para mim, o festival foi reconfortante e estimulante. Muita gente da população local prestigiou a exposição, pessoas que não têm oportunidade ou mesmo a iniciativa de entrar em uma galeria. Na minha exposição, ao ar livre, as pessoas passavam e simplesmente entravam, e também houve visitas de crianças das escolas. Para a minha fotografia, que se propõe extremamente acessível e universal, é maravilhoso ter essa convivência com o público em geral.”

João Farkas: notável o grau de comunicação entre os fotógrafos. Foto Guilherme Rocha
Farkas também ressalta que o Foto em Pauta “permite e proporciona um ambiente extremamente amigável” entre os fotógrafos. “Esse contato, essa troca de informações, faz com que seja notável o grau de comunicação entre os profissionais porque os fotógrafos são figuras solitárias, trabalham muito sozinhos espalhados pelo país”. O alto nível do material exposto revela, na sua avaliação, a “qualidade e a importância da fotografia para o Brasil”. Para ele, a cidade histórica empresta ao festival um charme particular: “Por característica de Tiradentes, o festival oferece uma espécie de caça ao tesouro onde as coisas não são evidentes nem muito óbvias e não tem muita coisa de glamour, mas, ao contrário, ele é feito de pequenos encontros; as exposições são pequenas joias. É um festival de encontros e de descobertas, é fascinante. É a segunda vez que eu vou, e pretendo voltar todas as vezes que for possível porque são muito raras as oportunidades que a gente tem de estar com os colegas, com o público e com uma cidade que é interessantíssima”.

A exposição Costa Norte ao ar livre, junto ao Museu de Sant’Ana. Foto Cezar Félix
O mais importante festival do Brasil
A última edição do Foto em Pauta contou também com a participação de Bob Wolfenson. Seu nome já é suficiente: são cinco décadas de obras, dos célebres ensaios para a revista Playboy às exposições Festa da Luz, no MASP (Museu de Arte de São Paulo), em 1996, e Antifachada – Encadernação Dourada, no MAAB-FAAP (Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado), em 2004.
A convite da Adriana Rouanet, Wolfenson levou ao Instituto Rouanet a exposição Exteriores, resultado de suas errâncias por diferentes territórios ao longo desses cinquenta anos. “Foi uma adaptação feita por mim para esta exposição que ficou interessante, super editada, em um formato de bolso, menos da metade da realizada anteriormente em São Paulo. Ela não perdeu as suas características e se integrou à arquitetura, à paisagem e ao ambiente da cidade histórica”.

Bob Wolfenson: o mais importante festival do Brasil. Foto Cezar Féliz
Indagado se Exteriores pode ser classificada como uma crônica de viagem, Wolfenson foi mais além: “Eu acho que é uma crônica da minha vida. Eu até daria um outro nome para a exposição, Intervalos, porque ela revela aspectos dos intervalos da minha vida, períodos em que eu não estava a serviço de alguma encomenda de trabalho. Eram instantes em que eu estava com a câmara em descanso, em uma certa apatia, no melhor sentido da palavra. Ou seja, eu só levantava a câmara e observava o que havia na minha frente”.
A ideia da exposição surgiu após o estúdio do fotógrafo, em São Paulo, ter sido inundado por uma tempestade. “No processo de restauro após a inundação, eu tive contato com esse material. Eu não me lembrava dessas fotos. Ao recolher essas imagens, a gente foi dando um nexo diferente para as fotografias. No começo, não havia nada que me levasse a fazer esse trabalho, mas eu já tinha na cabeça o nome Exteriores — que não queria dizer fotos de viagens, nem estar no exterior, queria dizer algo exterior a mim, algo que era formador de mim, mais do que informador”.

A exposição Exteriores ficou em cartaz no Instituto Rouanet. Foto Cezar Félix
Já em relação ao festival, Wolfenson afirma que o Foto em Pauta é “uma espetacular arena de encontros” e “o mais importante festival do Brasil”. Ele destacou ainda a profusão de lançamentos de livros de fotografia e fez uma menção especial ao lançamento do livro de Eustáquio Neves: “Uma loucura, uma entidade como artista”.
A importância dos encontros
Valdemir Cunha, fotógrafo paulista, autor de 27 livros e editor de livros de fotografia — além de ser Publisher da Editora Origem, que publicou mais de 100 livros de diferentes fotógrafos — acompanha o festival desde a primeira edição. O Foto em Pauta “só evolui desde 2011”, avalia. Valdemir lembra que, nos primeiros anos, “eram dois ou três autores e eu lançando livros. Em 2026, foram 72 autores e mais de 300 pessoas em um espaço dedicado a lançamentos de livros de fotografia. Isso é muito importante, e só acontece em um evento como o Foto em Pauta, o maior festival do Brasil em público”. O fotógrafo acrescenta que o festival é o lugar onde quem “é livreiro e tem editora” mais vende livros.

Valdemir Cunha, publisher e fotógrafo: encontros e todas as possibilidades de conversas. Foto Cezar Félix
Valdemir também ressalta a importância dos encontros entre os profissionais: “Fotógrafos de praticamente todas as regiões brasileiras vão a Tiradentes discutir sobre fotografia. Trocar ideias e poder observar os diversos trabalhos é muito estimulante”. E completa: “Como editor, eu garimpo trabalhos que possa publicar no futuro. Às vezes, é quase impossível para um jovem poder mostrar o seu trabalho. A minha editora tem esse perfil, de investir nos jovens, e no Foto em Pauta você tem todas as possibilidades de conversa”.
Diversidade da fotografia
Homenageado na segunda edição, em 2012, o fotógrafo Miguel Aun — uma lenda da fotografia mineira e brasileira — se diz “suspeito” para analisar o festival. Todavia, ele é categórico: “É fantástico para a fotografia brasileira, é um festival que a cada ano torna-se ainda mais interessante e muito válido para os fotógrafos. O Eugênio Sávio conduz tudo com uma seriedade impressionante”. Embora seja um adepto da fotografia “direta e purista”, Miguel elogia a diversidade da fotografia apresentada no evento. “A obra conceitual por meio da fotografia, que faz parte da arte contemporânea, dá oportunidade para o público vislumbrar novas leituras”. Na sua visão, a fotografia “pura, como eu procuro fazer”, apresentada no festival, é “nivelada pela alta qualidade”.

Miguel Aun: diversidade da fotografia. Foto Cezar Félix
Outra fotógrafa que esteve em todas as edições do festival é Michelle Bastos. Publisher da Editora Estrondo, especializada na publicação de fotolivros de mulheres, ela valoriza uma característica marcante do evento: “Gosto muito do Foto em Pauta porque o ambiente inclusivo é uma prioridade”. Pelo fato de atuar “nessa área de relacionar fotografia e gêneros”, Michelle destaca a “atenção em dar esse espaço para as autoras mulheres que pensam a teoria da fotografia, que produzem a fotografia”. Essa presença feminina, segundo ela, é visível em diferentes frentes do festival: “Eu fico muito feliz em vir na leitura de portfólios e assistir uma participação feminina massiva”, afirma. “Vejo uma presença muito forte das fotógrafas mulheres nas palestras. Para mim, só faz sentido, como mulher fotógrafa e produtora de fotografia, buscar espaços que pensam a participação das mulheres na fotografia de uma forma crítica e generosa”.

Michelle Bastos: atenção para as autoras mulheres que pensam a teoria da fotografia, que produzem a fotografia. Foto Cezar Félix
Olhar fotográfico apurado
Já o mineiro Henrique Murta — especialista em experiências visuais imersivas na natureza, com mais de 70 prêmios internacionais — aprovou mais essa experiência no festival: “Acho maravilhoso poder expor os meus trabalhos para o público que prestigia o Foto em Pauta, um ambiente que pulsa fotografia”. Segundo ele, “muita gente já tem o olhar fotográfico apurado para contemplar o meu trabalho de uma forma mais elaborada e ainda demonstra um interesse bem desenvolvido não só pela fotografia, mas também pelas artes visuais. Fazer parte disso, de um festival que ganhou essa proporção, é muito importante para mim”.
O também mineiro Gui Mazzoni, que participou da edição de 2025 do festival, além de artista visual e fotógrafo belo-horizontino, é médico ultrassonografista e pesquisador e doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Seu trabalho — “uma fusão artística que mostra o som pelo olhar” — transforma sons inaudíveis em imagens por meio da utilização do aparelho de ultrassonografia. Ao deslizar o equipamento pelo corpo, são captadas vibrações que se transformam em composições abstratas. “Eu trabalho com a imagem do som”, afirma Mazzoni.

Henrique Murta: é muito importante participar de um festival que ganhou essa proporção. Foto Cezar Félix
Novas formas de ver a fotografia
Mazzoni considera o festival “extremamente relevante” por ajudar muitos fotógrafos a darem novos passos em suas carreiras. Na sua leitura, o Foto em Pauta cria uma comunhão entre fotógrafos do Brasil e do exterior, permitindo uma interlocução entre diferentes olhares e tendências da fotografia. “A fotografia tem um cunho muito interessante por ser um meio de traduzir um discurso, de trazer conceitos. Então, quando a gente tem, no festival, a oportunidade de ver livros, assistir palestras e discutir até nos bares com os colegas, você tem o privilégio de ampliar as perspectivas, porque cada um traz, por meio da fotografia, coisas que você nunca havia pensado”, analisa o médico e fotógrafo. “Isso faz com que eu saia do evento mais pleno, mais preenchido. Os colegas trazem óticas e visões que até então eram imperceptíveis para mim”, encerra.

Vila do Foto em Pauta, localizado ao lado da Matriz de Santo Antônio. Foto Cezar Félix
Mais um que figura entre as presenças constantes em Tiradentes é o artista diamantinense Eustáquio Neves, protagonista do concorrido lançamento do livro Outros navios: Eustáquio Neves — obra que explora memória, racismo estrutural e resistência negra no Brasil, por meio de experimentações radicais que juntam fotografia, pintura, colagem e intervenções químicas.

Eustáquio Neves (no lançamento de seu livro em 2026): o importante é saber que eu tenho lugar no festival. Foto Eugênio Sávio
Com 40 anos de trajetória na fotografia e nas artes visuais, Eustáquio Neves afirma se sentir parte do Foto em Pauta: “O importante para mim é saber que eu tenho lugar no festival. Eu sei que faço parte disso, e isso é muito gratificante”. Na sua avaliação, o evento nasceu da construção de uma ideia, de um sonho de Eugênio Sávio, e, a cada ano, se consolida como um dos principais festivais de fotografia do Brasil. Eustáquio observa ainda que, na cidade histórica mineira, “surgem novas formas de ver a fotografia, muitas coisas boas produzidas pelas novas gerações”. Para ele, “a riqueza dessa diversidade faz toda a diferença para ampliar o universo da fotografia”.

Variedade de fotolivros à disposição do público. Foto Léo Lara
Curadorias em exercício
O premiado fotógrafo e artista visual mineiro Pedro David participa do Foto em Pauta desde a primeira edição. Ele conta que foi aluno de Eugênio Sávio no curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e que, “desde que a gente se encontrou, nos demos muito bem”. Com a boa relação entre ambos, Pedro passou a colaborar com o então professor já no primeiro Foto em Pauta, quando realizou uma exposição individual. “A partir daí, participei de diversas formas, desde elaborar propostas e dar ideias até realizar oficinas e entrevistar fotógrafos e artistas, para que eles pudessem mostrar seus trabalhos e falar sobre suas trajetórias.”

Lançamento de livros na Vila do Foto em Pauta no ano de 2024. Foto Léo Lara
Com o passar dos anos, Pedro David revela que Eugênio Sávio viu nele — e em João Castilho, também fotógrafo e artista visual — o potencial para fazer curadorias. “Ele achava importante que o evento tivesse sempre uma exposição principal e para isso era preciso investir em uma curadoria, reconhecendo na gente dois parceiros para realizar esse trabalho”.

Lançamentos de fotolivros na Vila Foto em Pauta na edição de 2026. Foto Eugênio Sávio
Pedro confessa que não pensava em ser curador, mas que decidiu “exercitar” o ofício na companhia de João Castilho. “Fizemos mais de 10 curadorias para o festival, uma oportunidade muito importante para a minha trajetória. Eu continuo sendo um artista, continuo valorizando a atividade como produtor de arte, mas esse exercício de curadoria traz muita fonte de informação, traz a prática na edição, além de ser uma fonte importante de remuneração. A gente fica muitos meses do ano trabalhando, uma atividade que faço com muito prazer”.
Na sua visão, o festival colabora e contribui decisivamente para o desenvolvimento da fotografia produzida no Brasil. “Seguimos praticando, estudando, ano após ano, porque esse não é um projeto de uma única exposição, é um exercício contínuo, longo, profundo, que tem sido muito interessante de fazer. A gente percebe o quanto tem sido bom o retorno do público”.

Projeções na praça (Largo das Forras) em 2024. Foto Léo Lara
Várias possibilidades de expressão
Seu parceiro, João Castilho — premiado com o Funarte Marc Ferrez de Fotografia em 2010 e o Conrado Wessel de Arte em 2008 — estreou no festival na primeira edição com uma oficina de arte contemporânea, e seguiu participando de diversas atividades até a quarta edição. A primeira curadoria veio no ano seguinte. “Fiz duas exposições como curador, trabalhando questões que pesquisava no meu mestrado. Foi o lugar com o qual eu mais me identifiquei”, revela.

Pedro David: a curadoria é um exercício contínuo, longo, profundo, que tem sido muito interessante de fazer. Foto Léo Lara
Em relação ao trabalho realizado com Pedro David, Eugênio Sávio e recentemente com a artista visual Gabriela Sá, João identifica dois ciclos curatoriais. O primeiro, um projeto de três anos, foi o Foto em Pauta na Estrada, que gerou três exposições em 2018, 2019 e 2020. Nesse período, João, Pedro e Eugênio fizeram viagens de pesquisa de campo para investigar e conhecer trabalhos de fotógrafos no centro-oeste (Brasília, Goiânia, Campo Grande e Cuiabá); na região sul (Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba); no norte do país (Manaus, Belém, Rio Branco e Porto Velho); e na Bahia e em Pernambuco. “Foi muito interessante conhecer trabalhos de fotógrafos que vivem nessas regiões, pois eles são menos privilegiados nas exposições realizadas no sudeste”, argumenta.
João descreve a iniciativa como um “projeto pioneiro de viagens voltado para pesquisa curatorial”, cujos trabalhos alcançaram ótimos resultados. “A gente expôs muita gente que estava em início de carreira, que nunca havia feito uma exposição”, assegura. “Nós exploramos diversos temas: questões relativas ao corpo e temas relativos à abstração e à paisagem. A nossa pesquisa curatorial sempre buscou entender a fotografia na sua amplitude, complexidade e nas várias possibilidades de expressão”.

João Castilho: pesquisa curatorial que busca entender a fotografia na sua amplitude, complexidade e nas possibilidades de expressão. Foto Léo Lara
Em 2022, após a pandemia, o grupo iniciou um novo ciclo de pesquisa curatorial, que consolidou o papel do fotógrafo. “Agora a minha principal atividade como curador é na organização de exposições, mas sempre trabalhando em grupo, uma característica muito importante do festival Foto em Pauta”, assinala. “A gente trabalha em um laboratório coletivo de curadoria”.

Exposição “Eztetyka da Terra” no Centro Cultural Yves Alves em 2024. Foto Léo Lara
Polo da fotografia contemporânea brasileira
Por fim, Eugênio Sávio — que além de fundador e coordenador geral do evento tem uma vasta carreira que inclui coberturas de diferentes edições da Olimpíada e da Copa do Mundo — conta como surgiu o Foto em Pauta: “Tive a oportunidade de me formar fotógrafo em festivais pelo Brasil e até no exterior que foram muito marcantes para mim”. Daí nasceu o desejo de criar, em Minas Gerais, um festival de fotografia. “Fui amadurecendo essa ideia e o sonho foi se materializando ao longo da minha carreira como professor” — foram mais de 30 anos lecionando fotografia na PUC Minas. “Simultaneamente, entendi que poderia expandir minha forma de comunicar sobre a fotografia em um nível nacional e até internacional”, recorda. “O objetivo era tornar Minas Gerais um polo da fotografia contemporânea brasileira”, conclui.

Gabriela Sá, João Castilho, Eugênio Sávio e Pedro David. Foto Léo Lara
Eugênio avalia que “a receptividade e as luzes de Tiradentes formam o cenário perfeito para a fotografia”. Quem vai para a cidade se emociona com as possibilidades oferecidas pela fotografia e se encanta ao cruzar com o outro pelas ruas. Ele acredita que “o melhor de tudo é que as pessoas se surpreendem com o festival. Tem essa coisa mineira da festividade, dos encontros, das pessoas andando pelas ruas e participando ativamente”.

Palestras de Maurren Bisiliat e Rachel Rezende no Centro Cultural Yves Alves em 2024. Foto Eugênio Sávio
Sobre a dinâmica do evento, ele aponta que é como se fosse “uma caça ao tesouro”, pois não é permitido colocar placas indicativas e nem banners em uma cidade histórica preservada. “Então as pessoas precisam explorar a cidade para encontrar os espaços das exposições. A vila do Foto em Pauta, por exemplo, tem exposição, lançamento de livros, projeções de imagens e, é claro, vários encontros”.

Exposição Geografias Brasilienses em 2026. Foto César Barreto
Para encerrar, Eugênio Sávio afirma: “A gente precisa que o Foto em Pauta continue a ser um polo da fotografia contemporânea do Brasil e um lugar dos melhores encontros entre os fotógrafos, artistas e todas as gentes”.

Matriz de Santo Antônio: a fé em meio ao esplendor do barroco. Foto Cezar Félix



