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Semana Santa e Corpus Christi, teatros de fé em Ouro Preto

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Ouro Preto

 

Ouro Preto

Os tapetes devocionais decoram as ruas de Ouro Preto na Semana Santa e no Corpus Christi

 

A cidade Patrimônio Cultural da Humanidade enche-se de fé e de turistas nas datas mais procuradas para o turismo religioso. Ouro Preto ganha ainda mais esplendor durante as celebrações seculares da Semana Santa e de Corpus Christi. 

Fotos Cezar Félix

Sabe-se que a Semana Santa é uma data especial para todos os cristãos, mas na antiga Vila parece ser ainda mais importante. Os atrativos são inúmeros na principal cidade histórica de Minas Gerais: arte, arquitetura, gastronomia, religião, artesanato, natureza, além da famosa hospitalidade mineira. Porém, são nas celebrações religiosas que o turista pode encontrar todos esses atrativos em um único momento. Nas cerimônias da Semana Santa e de Corpus Christi a fé do povo mineiro reflete-se na emoção das festividades do calendário santo, por meio de gestos, palavras e encenações, e contagiam turistas de todo o país e do exterior.

Ouro Preto

Nas cerimônias da Semana Santa e de Corpus Christi a fé do povo reflete-se na emoção das celebrações.

 

Antes, porém, é preciso contextualizar historicamente as origens dessas duas celebrações seculares. Uma terra sem fronteiras definidas, da qual brota ouro e diamante. Aventureiros tentam a sorte e escravos sonham em encontrar um veio mais recheado de pedras preciosas, que lhes renderiam prêmios e, quem sabe, a liberdade. Eram assim as Minas Gerais do fim do século XVII, início do século XVIII. Um local onde não entravam as Ordens Primeira (padres) e Segunda (freiras) por proibição da Coroa. Mas a fé não poderia ser vetada. Na falta de líderes religiosos, nasciam as Irmandades, cada uma dedicada a um santo, a uma causa. Sem a Igreja para ditar suas rígidas regras, cada uma moldava seus rituais e suas homenagens a seu modo. Assim, nasciam festejos com características regionais tão marcantes que até hoje fazem do folclore mineiro um dos mais ricos do país

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Na Semana Santa é quando ocorre a reconstrução de tradições religiosas seculares, e quando o turista e o morador vivem Ouro Preto em seu maior esplendor. Foto Jean Yves Donnard.

 

Conceitos que se misturam

Fazem parte não apenas do folclore, mas também das festas religiosas, dois conceitos que em Minas Gerais se misturam. A sobriedade que envolve os cultos e as orações em outros lugares aqui ganham cor e música. É o resultado da miscigenação da sociedade mineira, que nos tempos coloniais era mais vigorosa que no restante do país, já que a estrutura da exploração do ouro permitia, por exemplo, a ascensão de social e econômica de negros e índios. Dessa possibilidade, nasceram algumas das manifestações mais belas que hoje fazem parte da identidade do povo da região. É o caso do Congado, por exemplo. Uma festa religiosa, que honra Nossa Senhora do Rosário. A beleza das celebrações mineiras, em geral, não está somente na pompa e na grandiosidade dos eventos, mas na fé e na simplicidade de um povo que reconhece nas suas crenças a sua origem. A Semana Santa e o Corpus Christi provam que Minas sabe preservar sua história por meio da arte, da fé e da alegria.

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A Semana Santa e o Corpus Christi mostram que Minas sabe preservar sua história por meio da arte e da fé.

 

O esplendor da Semana Santa

O destaque da Semana Santa é quando ocorre a reconstrução de tradições religiosas seculares, e quando o turista e o morador vivem a cidade em seu maior esplendor. As celebrações tomam conta de Ouro Preto e revelam um resgate da tradição do povo mineiro — que enfeita suas casas e ruas para celebrar a paixão de Cristo.

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Cerimônia do lava-pés, um dos rituais da liturgia católica. Foto Jean Yves Donnard.

 

A população sai de casa para participar dos atos e rituais da liturgia católica. As ruas viram palco de verdadeiros espetáculos, repletos de simbolismos, figurinos e estandartes.  A cidade ganha vida e história. A arquitetura recebe a celebração, o artesanato orna as construções seculares. A gastronomia dá a energia saborosa aos peregrinos, enquanto a natureza completa o cenário e relembra que existe algo ainda maior do que nós. Já a arte é sacra, e os mineiros são fiéis que recebem o outro de forma humilde e hospitaleira.A cidade enche-se de fé e de turistas. A Semana Santa é uma das datas mais procuradas para o turismo religioso. Ouro Preto ganha ainda mais esplendor.

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Confecção do tapete na quinta-feira da Semana Santa.

 

Dramaticidade barroca da liturgia

Sabe-se que a Semana Santa é uma data especial para todos os cristãos, mas na antiga Vila Rica parece ser ainda mais importante. A solenidade tradicional, comemorada há mais de três séculos, veste a cidade em pleno estado de graça. Nas ladeiras históricas a grande festa é celebrada com a dramaticidade barroca da liturgia e a emoção da arte, tudo por meio da encenação de membros da igreja e seus fiéis.

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Moradores e turistas se empenham para embelezar as ruas da cidade com os tapetes.

 

Todos participam. A cidade se empenha e se dedica com gosto aos preparativos das festividades, principalmente na confecção dos tradicionais tapetes de serragem e flores que se estende pelo centro histórico. Já nas paróquias há uma tradição que mantém um revezamento da presidência do cerimonial entre as duas igrejas mais antigas, o mesmo ocorre na organização da encenação da Paixão de Cristo. Por características de sua formação, a Ouro Preto possui duas igrejas matrizes, a Basílica de Nossa Senhora do Pilar e o Santuário de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias — uma democracia religiosa.

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Os tapetes prontos nas primeiras horas da manhã.

 

Sexta-feira da paixão

A celebração é data especial marcada no calendário. Tudo começa logo a cidade se esvazia das multidões carnavalescas. Na quarta-feira de Cinzas os altares recebem panos grossos, geralmente da cor roxa, que cobrem as imagens dos santos e as cruzes. Essa ação faz parte da tradição da Quaresma. Diz-se que que a intenção original do ato é centrar a atenção dos fiéis no mistério da Paixão do Senhor. Os tecidos são, também, sinal de celebração. Durante a Semana Santa eles vão para as ruas da cidade histórica, nas cores roxa e vermelho, e são dependurados nas janelas das casas e igrejas remetendo à paixão e morte de Cristo.

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A procissão emociona pela devoção e fé dos fieis.

 

Os eventos religiosos começam na sexta-feira anterior ao Domingo de Ramos, com missas e procissões. Mas é na noite da Quarta-feira Santa que a cidade parece voltar aos tempos de outrora. É o Ofício das Trevas, uma celebração de origem medieval. Os fiéis rezam salmos, lamentações e fazem leituras da Bíblia, apenas à luz de um candelabro com velas.  Ao final de cada salmo, uma vela é apagada, até ficarem na escuridão que remete à amargura de Cristo descrita pelos profetas. Uma homenagem com ares realistas.

Ouro Preto.

Os ouro-pretanos mantêm a tradição das celebrações da Semana Santa e do Corpus Christi.

 

No dia seguinte, na Quinta-feira Santa, acontece a famosa cerimônia do Lava-Pés e do Mandatum. “Mandatum novum do vobis”, que significa: dou-vos um novo mandamento, é a fala que representa a humildade de Jesus quando lava os pés de seus discípulos na Santa Ceia. A origem da prática de se lavar os pés, provavelmente, está nos costumes referentes à hospitalidade das civilizações antigas, gregas e romanas, especialmente naquelas onde a sandália (ou algum calçado aberto) era o principal tipo de calçado. O anfitrião ao receber um hóspede providenciava uma vasilha com água e um servo para lavar-lhe os pés. A encenação é feita, e é emocionante. Após o sermão, o padre, representando Jesus, lava os pés de doze jovens da comunidade que representam os apóstolos.

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A beleza das celebrações em Ouro Preto também está na fé e na simplicidade de um povo que reconhece nas suas crenças a sua origem.

 

A Sexta-feira da paixão revela uma marcante tradição religiosa ouro-pretana, a Procissão do Enterro. Triste e bela. Após o sermão na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a imagem de Jesus é retirada da cruz e colocada num caixão, sendo, posteriormente, acompanhada pela representação da guarda-romana. Atrás vão a imagem de Nossa Senhora das Dores e a corporação musical tocando músicas fúnebres. Não há missas, nem toques de sinos. A noite de Ouro Preto ganha um silêncio respeitoso.

Estendam os tapetes

É Sábado de Aleluia! O início do ano litúrgico católico. Também é o dia da confecção dos tapetes de serragem nas ruas por onde passa a Procissão da Ressurreição, umas das mais impressionantes tradições da Semana Santa. O trabalho, que surgiu em Ouro Preto em 1733, demonstra toda a religiosidade e o espírito comunitário que a celebração representa. Turistas também são bem-vindos para ajudar. Tanto o processo como o resultado são de encher os olhos. Com paciência e fé, ciprestes, farinha de trigo, pó de café, palha de arroz, flores, couro, cal e serragem se transformam em magníficos tapetes que cobrem as históricas ruas de pedras.

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A confecção dos tapetes demonstra toda a religiosidade e o espírito comunitário que as celebrações representam.

 

Todo o trabalho de confecção dos tapetes é artesanal. A serragem é a principal personagem, por isso é preparada com quase um ano de antecedência. O trabalho atravessa a madrugada e é a solidariedade dos moradores do trajeto que o impulsiona. Além da distribuição de café e alimentos por organizadores e moradores, músicos ouro-pretanos percorrem o caminho animando os artesãos. Quem coordena todo esse trabalho é a Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop) — do projeto até a confecção.

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A procissão na Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

 

Fé e compaixão

Os tapetes relembram uma famosa data conhecida como “Triunfo Eucarístico”.  Em maio de 1733, Vila Rica (atual Outro Preto) foi palco da maior e mais expressiva festividade barroca do Brasil Colonial, considerado por muitos historiadores como a origem do Carnaval Brasileiro. A ocasião era a inauguração da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar. Os portugueses queriam mostrar-se, e toda Vila Rica queria ver a grande a festa. No dia da procissão, a cidade amanheceu decorada com as ruas atapetadas com flores e folhagens. Na procissão trinta e dois cavaleiros vestidos, militarmente, como cristãos e mouros, com dois carros de músicos instrumentistas e vocalistas, todos seguidos por inúmeras outras figuras religiosas — revestidas com diamantes, ouro, rendas, sedas e plumas. Uma grande apoteose de sinos, bandas, fogos e cânticos que prolongaram-se por três dias. Diz-se que nenhum outro acontecimento celebrado em Minas Gerais ou no Brasil Colonial teve tal esplendor, requinte de luxo e pompa.

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Semana Santa e Corpus Christi

 

Até tempos recentes. Hoje a cidade pode não encher-se de ouro, mas a fé e a compaixão acabam por ser mais valiosas. O Domingo de Páscoa encerra as comemorações com a missa festiva em celebração à Ressurreição de Jesus. Após a missa, a Procissão do Santíssimo Sacramento é formada e percorre o caminho dos tapetes de serragem. É uma procissão cheia de vida, que começa com os grupos de seresta desfilando na madrugada das Aleluias, anunciando a alegria da Páscoa.

A semana Santa atrai desde os mais religiosos, até os apenas interessados. Porém, encanta com unanimidade: um ótimo momento para conhecer as ruas enfeitadas, as tradições seculares, o povo hospitaleiro, a gastronomia saborosa e a cultura histórica tão latente das ladeiras ouro-pretanas.

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Imagem que mostra uma celebração produzida com esmero e cuidado. Foto Jean Yves Donnard.

 

Corpus Christi

Todos os anos em Ouro Preto, turistas e moradores, pessoas de todas as idades, atravessam a noite (de quarta para quinta-feira) confeccionando os tapetes devocionais do Corpus Christi — que sempre cai em uma quinta-feira, pois segundo a tradição católica, foi em uma quinta que aconteceu a Santa Ceia, reunião de Jesus Cristo com seus doze apóstolos.

Para a criação dos tapetes são utilizados materiais como serragem colorida, areia, flores e até borra de café, dentre outros pigmentos. Além dos ouro-pretanos e dos visitantes, a Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP) — assim como na Semana Santa — participa com a preparação de diferentes desenhos que ornamentam ruas, largos e praças ao longo do trajeto da procissão.  As artes criadas têm um padrão geométrico e símbolos religiosos ornamentados para retratarem cenas bíblicas. Os trabalhos são iniciados nas primeiras horas da noite, atravessam a madrugada e só são encerrados momentos antes da procissão. Os desenhos se revelam belas obras de arte a céu aberto.

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Serragem colorida, areia, flores e até borra de café: os materiais usados para a confecção dos tapetes devocionais.

 

Devoção e trabalho comunitário

“Mais do que um elemento decorativo, os tapetes representam uma das mais expressivas manifestações da religiosidade popular, unindo devoção, criatividade e trabalho comunitário”, como informam as duas principais paróquias de Ouro Preto, Paróquia de Nossa Senhora do Pilar e a de Nossa Senhora da Conceição. “Preservada ao longo dos séculos e transmitida entre gerações, essa tradição integra o patrimônio cultural e espiritual de Ouro Preto, reafirmando a identidade religiosa do município e fortalecendo os laços entre fé, arte e memória coletiva”.

Da mesma forma que ocorre na Semana Santa, a celebração de Corpus Christi obedece a cada ano uma alternância na organização entre as paróquias de Nossa Senhora do Pilar e de Nossa Senhora da Conceição. O objetivo é manter uma tradição “que fortalece a integração entre as comunidades paroquiais e preserva a riqueza religiosa e cultural de Ouro Preto”.

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As celebrações da Semana Santa e de Corpus Christi obedecem a cada ano uma alternância na organização entre as paróquias de Nossa Senhora do Pilar e de Nossa Senhora da Conceição.

 

A multidão que participa do solene cortejo religioso anda sobre as obras durante a tarde. A procissão tem o seguinte trajeto: saída da Basílica de Nossa Senhora do Pilar; praça Américo Lopes; praça Barão do Rio Branco; rua Diogo de Vasconcelos; praça da Estação; rua dos Inconfidentes; rua Antônio Martins; largo Frei Vicente Botelho; rua Felipe dos Santos; rua Dr. Alfredo Baeta e praça Antônio Dias. A chegada com o encerramento é no Santuário de Nossa Senhora da Conceição.

Ouro Preto.

Os trabalhos seguem por toda a noite.

 

Manifestações de fé

Durante o trajeto pelo Centro Histórico, a participação popular é muito impressionante. São comoventes as manifestações de fé das pessoas, principalmente no ápice da celebração que é   passagem de Jesus Sacramentado pelas ruas da cidade. “A presença de famílias, crianças e animais de estimação ao longo do trajeto evidencia o caráter comunitário e acolhedor da festividade”, pontuam os organizadores.

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Fé e identidade cultural movem as celebrações em Ouro Preto.

 

O Corpus Christi — tal qual a Semana Santa — demonstra que existe uma forte relação entre a religiosidade movida pela fé com a identidade cultural de um povo que vive em uma cidade Patrimônio Cultural da Humanidade. Muito além de uma celebração litúrgica, o Corpus Christi em Ouro Preto abarca fé, tradição, arte, arquitetura e história. Ao conservar uma celebração religiosa secular e incentivar a devoção de gentes de diferentes gerações, o Corpus Christi — e isso também se diz respeito à Semana Santa — reafirma a força da cidade histórica como um dos mais relevantes centros de turismo cultural e religioso do Brasil.

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Os tapetes embelezam a Rua Direita.

 

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