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Serra dos Alves, uma bela vertente do Espinhaço

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Serra dos Alves.

 

Serra dos Alves.

Cachoeira dos Marques e a piscina natural de águas límpidas.

 

O cenário paradisíaco ainda intocado da Serra dos Alves, povoado localizado no município de Itabira, revela belezas naturais em nascentes, rios, cachoeiras e cânions. É mais um dos muitos encantos localizados nos domínios da Serra do Espinhaço.

Por Cezar Félix (texto e fotos)

A viagem segue pelos caminhos em pela estrada que serpenteia a geografia acidentada dessa porção da Serra (Cordilheira) do Espinhaço. Surge então Ipoema — famosa pelo interessante Museu dos Tropeiros —, e mais alguns quilômetros adiante aparece Senhora do Carmo, ambos distritos de Itabira.

Daí para frente, a estrada de terra parece se aprofundar nos contrafortes do Espinhaço, revelando belezas que desvelam com perfeição os vários significados da palavra Minas.

Minas ali se traduz nos recortes das serras, nos vales profundos, nas grandes rochas desenhadas por líquens, nos córregos e ribeirões límpidos, no sobrevoo de gaviões-carcarás, gaviões-penachos, urubus, beija-flores e nas lépidas seriemas desfilando no chão, além dos campos rupestres repletos de sempre-vivas, canelas-de-ema, orquídeas e bromélias.

Serra dos Alves

Detalhe da bela cachoeira que é de fácil acesso.

 

Vertente leste do Espinhaço

Assim a estrada de chão segue quase sempre em curvas. Antes do destino final dessa bela viagem, surge a vista de uma serra alta, imensa, de uma beleza transcendente. Algumas subidas e descidas depois, aparece o povoado da Serra dos Alves. A posição geográfica do lugar é na vertente leste da Serra do Espinhaço próximo ao limite com a Serra do Cipó, cuja região — parte integrante da Área de Proteção Ambiental (APA) Morro da Pedreira — faz a divisa entre as bacias do Rio São Francisco e do Rio Doce.

Serra dos Alves

A estrada para os Alves revela as paisagens características da Serra do Espinhaço.

 

Essa pequena comunidade dentro dos limites do município de Itabira, a 45 do centro da cidade, tem no Rio do Tanque o seu principal curso d´água. Esse afluente do Rio Santo Antônio — que, por sua vez, é afluente do Rio Doce — esculpe os principais atrativos naturais da Serra do Alves. Logo após a nascente, ele cai por cerca de 60 metros e forma a linda Cachoeira do Bongue. As águas deslizam pelas pedras formando um belíssimo poço entre imponentes rochas, proporcionando um visual encantador. Para chegar lá, um dos trajetos é curto, porém muito íngreme e é preciso descer passando pela mata.

Serra dos Alves

Cachoeira do Bongue no Rio do Tanque.

 

Cachoeira e cânion

O rio do Tanque segue o seu caminho entre a mata fechada como se escorresse no meio das enormes pedras. Alguns quilômetros à frente, ele desenha mais um bonito recanto, a Cachoeira dos Marques. De fácil acesso, a pouco mais de três quilômetros do vilarejo, a queda d´água tem cerca de três metros de altura, mas é caudalosa e forma uma enorme piscina natural de estonteante beleza assim como todo o cenário em volta. Para quem está na margem do poço do lado oposto à cachoeira, a vista alcança a Pedra da Serra dos Alves, onde no topo existe um mirante.

Serra dos Alves

O Rio do Tanque corre entre as grandes rochas.

 

Logo adiante, a 500 metros da Cachoeira dos Marques, surge um impactante acidente geográfico formado pela ação dos ventos e das águas durante milhões de anos. Trata-se do impressionante Cânion dos Marques, com paredões de 40 metros de altura e 600 metros de extensão. O lugar é um atrativo praticamente perfeito para a prática de esportes de aventura como a escalada, o rapel e o canionismo.

Serra dos Alves

Os cânions fazem parte da bela paisagem da Serra dos Alves.

 

Patrimônio histórico

A Serra dos Alves conserva um importante patrimônio edificado, uma referência da história do lugar. É a fascinante Capela de São José, construída em madeira, adobe e pau-a-pique sobre uma base de pedra. De estilo colonial, a capela foi erguida em uma data próxima ao ano de 1860. O interior do templo guarda um belo altar em madeira entalhada e imagens esculpidas em barro, madeira e papel machê, semelhantes às criações do santeiro itabirano Alfredo Duval —  um homem preto, nascido em 1873 (e falecido em 1947) na época de vigência da Lei do Ventre Livre, que viveu de criar artes e ofícios.

Serra dos Alves

A histórica Capela de São José, de 1860.

 

Há ainda o sino datado de 1727. Por isso, a Capela de São José tem uma considerável importância histórica. Como complemento da beleza do conjunto, na frente da capela fica um cruzeiro de cerca de 6 metros de altura, decorado com adereços que representam o martírio de Jesus Cristo.

O cruzeiro e sete casas localizadas em volta do adro da Capela de São José  formam um harmonioso conjunto arquitetônico e histórico, tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Municipal de Itabira no ano de 2004, uma medida relevante, pois conserva a bela paisagem rural do início do século XIX, consagrando mais um precioso atrativo turístico.

Serra dos Alves

O interior da Capela de São José.

 

Tradição e cultura

A área em frente à capela é palco de celebrações tradicionais seculares dos católicos. A Festa de São José homenageia o padroeiro da comunidade, com a procissão e a tradicional coroação anual de um novo rei e uma nova rainha. Há ainda as festas do Divino Espírito Santo, de Nossa Senhora da Conceição e de Nossa Senhora do Rosário.

O grande destaque das festas e também um importante atrativo cultural é a   participação da tradicional Guarda de Marujos de Nossa Senhora do Rosário, que colore as celebrações com danças, batuques e trajes em tons de azul. A Marujada é um símbolo da preservação da memória do povoado.

Outro evento tradicional, que acontece todos os anos, é a chegada na capela da cavalgada vinda do distrito de Senhora do Carmo. Fieis, turistas e moradores revivem a forte herança tropeira regional.

Serra dos Alves

A Capela de São José foi construída em madeira, adobe e pau-a-pique sobre uma base de pedra.

 

História

Os primeiros sinais de povoamento deste rincão da Serra do Espinhaço aconteceram em 1850 com a chegada dos bandeirantes em busca de cristais e de ouro. Porém, o vil metal não era fácil de ser explorado como em Mariana e Ouro Preto. Logo, os primeiros moradores se dedicaram à agricultura e pecuária de subsistência. Por incrível que pareça, essas atividades ocupam muitos moradores nos dias de hoje. Eles criam gado leiteiro, porcos e galinhas, além de cultivarem feijão, milho, banana, cana de açúcar e até café.

O visitante, inclusive, tem acesso a produtos locais de muita qualidade como pães de queijo e outras quitandas como broas, biscoitos de polvilho e as brevidades. Há ainda fubá, farinha de mandioca e rapadura.

Serra dos Alves

A Pedra da Serra dos Alves: no topo existe um mirante com uma linda vista do povoado.

 

Foram os primeiros moradores que levaram o lugar a ser conhecido como Serra dos Alves. A família que leva o sobrenome era proprietária da fazenda mais antiga da região, chamada Fazenda das Cobras. Em 1846, um membro dos Alves herdou uma outra propriedade local, a Fazenda do Tanque, tida como a mais próspera da época, o que consolidou a presença dos Alves nesse ponto da Serra do Espinhaço.

Serra dos Alves

A Serra dos Alves faz parte da APA Morro da Pedreira.

 

Os tropeiros também foram presenças importantes na localidade, pois a história registra que houve um intenso trânsito de tropas na região até meados do século XIX. Eles deixaram como legado a   culinária típica e uma grande tradição na história oral das famílias.

A fixação definitiva do povoado aconteceu em 1866 com a construção da Capela de São José em uma área de um hectare de terra doada pelos próprios moradores, também os responsáveis pela construção da capela histórica. Pouco tempo depois, foram construídos o cruzeiro e o cemitério.  Essas três edificações definiram a existência do povoado da Serra dos Alves, pois elas consagraram o vínculo dos habitantes com a religiosidade e o culto aos antepassados.

Serra dos Alves

O cruzeiro faz parte do conjunto histórico da Capela de São José.

 

 

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