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Uberaba das múltiplas sete colinas é Geoparque Mundial

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Uberaba.
Uberaba.

Santuário de Nossa Senhora da Abadia. Um importante atrativo do turismo religioso.

 

A bela cidade onde viveu o médium Chico Xavier, terra de ricas tradições históricas e culturais, é reconhecida como Geoparque Mundial da Unesco e é a maior referência internacional na criação do Gado Zebu.  

 

Por Cezar Félix (texto e fotos)

 

Em 206 anos de história, desde a fundação do município em 3 de março de 1820, Uberaba — palavra originária da língua tupi-guarani (y-beraba), que significa “água clara”, “rio brilhante” ou “água resplandecente” — construiu uma saga de grande relevância em Minas Gerais —com óbvios reflexos no cenário nacional — tanto na pujança da economia quanto na construção, por sua gente, de uma cultura diversa. Há ainda nesse território o legado precioso lapidado pela natureza, um bonito cenário urbano onde se sobressai importantes ícones do patrimônio histórico e arquitetônico (destaque para as imponentes e belas igrejas) e uma paisagem que irradia religiosidade e fé. 

Uberaba.

Interior do Santuário de Nossa Senhora da Abadia.

 

Tais características refletem em atrativos turísticos de grande expressão. Uberaba é simplesmente um centro internacional em todos os aspectos que se referem ao Gado Zebu. A cidade guarda todas as referências ao grande homem que foi o médium Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, onde em 43 anos como residente construiu uma extraordinária obra — reconhecida, é claro, no Brasil e em diferentes partes do mundo — como mentor religioso da doutrina espírita e como um grande filantropo. 

Uberaba.

Uberaba recebeu o título de Geoparque Uberaba – Terra de Gigantes devido aos atrativos do Geossítio de Peirópolis.

 

Geoparque Mundial da Unesco

Para completar o rol de atrativos, Uberaba é reconhecida, desde março de 2024, como Geoparque Mundial da Unesco. Segundo o Ministério do Turismo, “Geoparques são áreas geográficas unificadas de relevância geológica internacional e que são administrados com base em um conceito de proteção, educação e desenvolvimento sustentável”. Conforme informa o Ministério do Turismo, o município, para concorrer ao título, “enviou uma proposta batizada de ‘Terra de Gigantes’, contendo três pilares: local onde ‘Chico Xavier se revelou ao espiritismo mundial’; ‘Capital Mundial do Zebu’ e ‘Terra dos Dinossauros no Brasil’, este último, devido aos trabalhos paleontológicos realizados no distrito rural de Peirópolis”.

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O legado do grande médium está imortalizado no Memorial Chico Xavier. Foto Helena Carla Mendes da Silva/Divulgação.

 

História, rota das bandeiras

A origem da cidade, de acordo com a documentação integrante do Acervo Público de Uberaba, está ligada às várias bandeiras que partiam de São Paulo em direção a Goiás, cujo objetivo era a busca por minas de ouro, prata e pedras preciosas, além da conquista de terras. A primeira delas aconteceu no ano de 1590, chefiada pelo capitão Sebastião Marinho. Partindo de São Paulo, o bandeirante chegou até o Rio Tocantins, em Goiás. 

É relevante acrescentar que por volta de 1600, os padres jesuítas fundaram o primeiro núcleo de povoamento branco da região, chamado Aldeia de Santana do Rio das Velhas (hoje Araguari), com o objetivo de aculturar (catequizar) os indígenas. 

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a Igreja de Santa Rita, construída entre os anos de 1850 e 1854, abriga o Museu de Arte Sacra de Uberaba.

 

A mais significativa bandeira para a história uberabense talvez tenha sido a que partiu de São Paulo em 1722 rumo a Goiás, liderada por Bartolomeu Bueno da Silva Filho (filho do lendário Anhanguera). Ao passarem pela região, conforme os registros do Arquivo Público, os bandeirantes se depararam com os indígenas caiapós, moradores e guardiões das terras. A bandeira “partiu de São Paulo seguindo os rios Atibaia, Camanducaia, Moji-Guaçu, Grande (Porto da Espinha), passando em Uberaba, a sessenta metros dos fundos do atual cemitério São João Batista.

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O Museu no Arte Sacra no interior da igreja de Santa Rita.

 

Depois a expedição continuou a viagem em direção ao Rio das Velhas (hoje Rio Araguari) e penetrou em Goiás pelo Rio Corumbá. Segundo alguns relatos da época, a expedição passou pelas terras de Uberaba. Esta rota ficou conhecida como Estrada Real — na realidade, era uma das uma das estradas reais — ou Anhanguera, que consistia em um importante caminho para que as autoridades portuguesas implantassem a colonização, a produção e o escoamento dos minerais preciosos”. É bom lembrar que todos os caminhos abertos para a busca de ouro, pedras preciosas e domínio de terras em Minas Gerais foram denominados como estradas reais.

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A antiga Estação Ferroviária da Mogiana abriga o Arquivo Público de Uberaba.

 

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Antiga Estação Ferroviária.

 

Palco de batalhas

A exploração e o povoamento de todo o Triângulo Mineiro, de modo geral, como destaca o Arquivo Público, ocorreu, como em todo o “Brasil-Colônia”, pelo amansamento e extermínio das populações indígenas e dos negros nos quilombos. “As estradas para a região do Triângulo Mineiro e Goiás tornaram-se palco de batalhas entre os exploradores dos sertões e os indígenas. A invasão de terras indígenas provocou muitas vezes sangrentas guerras contra os caiapós, no antigo Sertão da Farinha Podre (Triângulo Mineiro). Vários quilombos também foram ameaçados pelos exploradores brancos”. É importante registrar que o Sertão da Farinha Podre   pertenceu à Capitania de Goiás a partir de 1744, domínio encerrado em abril de 1816.

 

Uberaba.

A memória conservada da Estrada de Ferro Mogiana, que chegou a Uberaba em abril de 1889, na locomotiva a vapor exposta no Complexo Turístico da Praça da Mogiana.

 

Ainda segundo o Arquivo Público de Uberaba, em 1766 foi criado o Julgado de Nossa Senhora do Desterro das Cabeceiras do Rio das Velhas (Desemboque), sob a administração de Goiás, abrangendo a região do Triângulo e quase todo o sul de Goiás. Era um local rico em minas auríferas e de intensa exploração. Desemboque teve o seu esplendor até 1781, quando as minas auríferas se esgotaram. 

Prosseguindo a exploração das terras, o governo de Goiás para dinamizar a administração dos Sertões, nomeou em 1809, Antônio Eustáquio da Silva Oliveira (major Eustáquio), para a função de comandante “Regente do Sertão da Farinha Podre” e em 1811 foi nomeado por Ato Governamental, “curador de índios”. Ele era natural de Ouro Preto e residente em Desemboque.

2 de março de 1820

O major Eustáquio comandou uma outra expedição em fins de 1812, composta por 30 homens, com o objetivo de procurar novas terras para se estabelecerem. A expedição chegou ao Rio Uberaba e fixou-se na margem esquerda do Córrego das Lages, onde foi edificada a Chácara da Boa Vista (hoje Fazenda Experimental da Epamig). Em 1818, o vigário do Desemboque Hermógenes Cassimiro de Araújo Brunswick benzeu uma capela que havia sido construída pelos primeiros habitantes e assim foi estabelecido o reconhecimento de um povoado pela Igreja, que passou a se chamar Arraial de Santo Antônio e São Sebastião da Farinha Podre, designação ostentada até 1820, como registra o Arquivo Público.

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A bela Igreja de São Domingos, de 1914, cuja construção priorizou o uso da pedra tapiocanga, uma rocha sedimentar típica do Cerrado.

 

“O arraial foi crescendo e isso permitiu que em 2 de março de 1820, o rei D. João VI decretasse a elevação do Arraial de Santo Antônio e São Sebastião à condição de Freguesia (Paróquia), o documento oficial mais antigo de Uberaba.

Freguesia era o termo eclesiástico que designava o território de atuação de um vigário.  Com isso ocorreu um desligamento dos laços religiosos que subordinavam o Arraial de Santo Antônio e São Sebastião (Uberaba) à Vila do Desemboque. O decreto constituiu um grande avanço para a comunidade. Significou a emancipação e gerência própria em assuntos de ordem civil, militar e religiosa. Foi o reconhecimento oficial tanto pela Igreja, quanto pelo Governo Real. Dada a importância histórica de 02/03/1820, quando a cidade foi elevada à Freguesia, instituiu-se oficialmente tal data para que se comemorasse o aniversário de Uberaba a partir de 1995”.

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Catedral Metropolitana de Uberaba.

 

O fato é que o lugarejo começou a registrar um acentuado crescimento a partir da formação de extensas propriedades, principalmente porque as  terras tinham baixo valor e eram isentas de impostos. A população passou a ser formada por agricultores, pecuaristas e comerciantes e diversas outras profissões. O Governo Provincial de Minas Gerais se viu obrigado a agir e criou o município de Santo Antônio de Uberaba, em 1836. Logo a vila transformou-se em uma referência regional e, em 1856, ganha o título de cidade, “tornando-se um importante centro comercial que se acentuou com a inauguração da Estrada de Ferro em 1889”, informa o sítio oficial da prefeitura. “Isso foi um acontecimento facilitador da imigração europeia para a cidade e para o desenvolvimento da pecuária zebuína”.

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Gado Zebu em uma fazenda da região. Uberaba é o mais importante centro mundial na difusão de tecnologia e da pesquisa genética das raças zebuínas.

 

Gado Zebu

A linha do tempo mostra que o início do desenvolvimento da pecuária zebuína em Uberaba começou no ano de 1890. A partir da melhoria da qualidade dos animais, nasceu a zebuinocultura e hoje o município é o mais importante polo mundial difusor de tecnologia e da pesquisa genética das raças zebuínas — os gados Nelore, Gir, Guzerá, Sindi, Brahman e Tabapuã — de origem indiana.  Sediada na cidade, a entidade responsável por esse trabalho de aprimoramento das raças zebuínas é a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). “A ABCZ registra em todo o Brasil mais de 600 mil zebuínos por ano e detém o maior banco de dados do mundo sobre o zebu, com mais de 12 milhões de animais cadastrados”, informa. “Através do PMGZ (Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos), subsidia, com dados técnicos e relatórios gerenciais, o monitoramento e a estratégia de seleção de mais de 3.000 criadores em todo o país”.
Além da alta qualidade alcançada pelos animais nos níveis genéticos e morfológicos, o Gado Zebu transformou Uberaba em um dos mais expressivos centros brasileiros do turismo de eventos e negócios. Tudo em função da ExpoZebu, a exposição nacional do Gado Zebu, que em 2026 promoveu a 91ª edição do grandioso evento, realizado desde 1935 no Parque de Exposições Fernando Costa.

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Entrada do Parque de Exposições Fernando Costa.

 

ExpoZebu e Museu do Zebu

Organizada pela ABCZ, a ExpoZebu registrou a presença de cerca de 400 mil visitantes durante os nove dias do evento, realizado no período de 25 de abril a 3 de maio de 2026. A exposição movimentou um valor recorde de mais de R$ 254 milhões apenas nos 41 leilões oficiais, conforme informa a associação dos criadores. Junto à potência que significa a ExpoZebu, um outro atrativo de grande importância é o Museu do Zebu Edílson Lamartine Mendes, que tem como mantenedora a ABCZ. A instituição foi formada em 1983 por meio de um convênio entre a Associação com a Universidade de Uberaba (UNIUBE), as Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU) e a Fundação Cultural de Uberaba (FCU).

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Vista parcial do interior do Parque de Exposições.

 

O acervo do Museu do Zebu, como esclarece a ABCZ, foi iniciado em 1984, durante a 50ª ExpoZebu, com o lançamento da 1ª Mostra do Museu do Zebu, com o objetivo de tornar-se uma atração educativa e cultural sobre a pecuária zebuína. A entidade explica que o acervo do museu é composto por peças expositivas e pelo Museu do Zebu Virtual. “Com o acervo, é possível realizar atividades de ensino e/ou extensão com a montagem de exposições didáticas, atendimento a escolas públicas e privadas, promoção de seminários, palestras e cursos centrados na área das Ciências Agrárias. As peças do museu possuem sua própria historicidade e podem revelar dados de interessantes acontecimentos como forma de envolver e dar a conhecer a história do Zebu no Brasil. Anualmente, durante a Expozebu, esse patrimônio é exposto de acordo com o tema de cada mostra que é pensada, elaborada e demonstrada ao público”.

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Exemplares das raças zebuínas durante a Exposição Nacional do Gado Zebu. Foto Guilherme de Almeida Sedassari/
Divulgação.

 

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Sede da Associação dos Criadores do Gado Zebu. localizada nas dependências do Parque de Exposições.

 

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Museu do Zebu Edílson Lamartine Mendes. Foto Helena Carla Mendes da Silva/Divulgação.

 

Chico Xavier

Um dos mais ilustres mineiros (e brasileiros) de todos os tempos, Francisco Cândido Xavier — nascido no ano de 1910 em Pedro Leopoldo — viveu 92 anos como o maior e mais importante símbolo da religião Espírita (Espiritismo Kardecista) do Brasil. Ele foi autor de 450 livros, construiu uma obra quase incomparável em termos de assistência social e espiritual e ainda foi eleito o maior brasileiro de todos os tempos.

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Estátua em homenagem a Chico Xavier, localizada em frente a sede da prefeitura. Foto Daniel Vitor/Divulgação.

 

O extraordinário legado do médium está imortalizado no Memorial Chico Xavier, um atrativo imperdível de Uberaba. Fundado em 2016. O Memorial foi requalificado em 2024 por meio de um amplo processo de readequação da arquitetura, da museografia e na reformulação da principal exposição. 

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O quarto de Chico Xavier preservado para a admiração dos turistas.

 

A instituição justifica o trabalho realizado como um “posicionamento institucional estratégico e de orientação conceitual, que contemplou um olhar integrado entre as demandas de gestão, salvaguarda, pesquisa e comunicação museológicas”. A nova exposição ocupa dois andares e quatro galerias distintas, que, por sua vez, são divididas em salas ou nichos expositivos. “É um projeto único e coeso, cuja narrativa é apresentada em sete módulos que costuram a trajetória de vida do médium”.

Experiências imersivas, recursos de tecnologias e acessibilidade física e de conteúdos para pessoas com deficiência fazem parte do conjunto de atrativos do lugar. “A narrativa expositiva destaca a relação do médium com a cidade de Uberaba, o importante papel social por ele desempenhado e os valores universais inerentes ao seu discurso e à sua prática, além de contextualizar fatos e aspectos da biografia de Chico Xavier e as experiências espirituais vivenciadas por ele”.

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O distrito de Peirópolis guarda um tesouro paleontológico que faz Uberaba ser conhecida como a terra dos Dinossauros. Foto Divulgação Peirópolis.

 

Tesouro paleontológico

Uberaba é também a “Terra de Gigantes”, graças ao tesouro paleontológicoexistente do distrito de Peirópolis, localizado a 20 km do centro da cidade às margens da BR- 262. Em 1947, a localidade atraiu aquele que é considerado o pai da paleontologia brasileira, o paleontólogo gaúcho Llewellyn Ivor Price (1905-1980). Ele iniciou o processo de escavação em 1949, especificamente no local conhecido como Caieiras, um trabalho minucioso que se estendeu até 1961. Price, porém, continuou em Peirópolis até 1974. Os fósseis coletados pelo paleontólogo e equipe durante um período próximo a 30 anos fazem parte do acervo do Museu de Ciências da Terra do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), localizado no Rio de Janeiro. 

Tamanha riqueza arqueológica fez Uberaba ser conhecida internacionalmente como como a terra dos dinossauros do Brasil, pois guarda a maior quantidade de espécies do país. Os fósseis, em grande número e diversidade, são incrivelmente bem preservados e registram idade entre 80 e 66 milhões de anos. Peirópolis acumula também o maior número de espécies descritas no Brasil, inclusive o maior dos dinossauros, o gigante ‘Uberabatitan ribeiroi’ que chegava a atingir 27 metros de comprimento e 10 de altura. Outro fato importante está relacionado à ocorrência de ovos, exemplares inteiros e em excelente grau de conservação.

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A antiga Estação Ferroviária: exposição com fósseis, réplicas e laboratório de paleontologia. Foto Flávio Cunha/Divulgação.

 

Geoparque Uberaba – Terra de Gigantes

O fato é que esse fabuloso sítio arqueológico foi descrito como Geoparque em 2014 por meio da tese de doutorado do geólogo Luiz Carlos Borges Ribeiro. Ele identificou o município como um parque ecológico em potencial.  Os sítios paleontológicos registram inúmeras e diferentes espécies, encontrados em um território que totaliza 4.523,957 quilômetros quadrados. É uma área que abarca todo o município de Uberaba, semelhante a outros geoparques europeus.
Em março de 2024, veio a consagração definitiva: o município do Triângulo Mineiro recebeu o título de Geoparque Uberaba – Terra de Gigantes, o primeiro patrimônio geológico de Minas Gerais internacionalmente reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco). O lugar passou a ser integrante da Rede de Geoparques da Unesco, sendo o primeiro do sudeste e o sexto geoparque brasileiro  a entrar na lista da organização mundial. 

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O Museu dos Dinossauros pertence ao Complexo Cultural e Científico de Peirópolis (CCCP) da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Foto Peirópolis/Divulgação.

 

O Geossítio Peirópolis, portanto, é um  atrativo irresistível para o turista que visita Uberaba. O principal destaque é o Museu dos Dinossauros — equipamento pertencente ao Complexo Cultural e Científico de Peirópolis (CCCP) da Universidade Federal do Triângulo Mineiro — que se divide em diferentes espaços, três áreas principais de visitação. A Antiga Estação Ferroviária abriga a exposição principal com fósseis autênticos, réplicas e um laboratório de paleontologia visível ao público. O

Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price conta com exposições que complementam o acervo com materiais de novas pesquisas.Na área externa, está a Exposição a Céu Aberto, onde há réplicas em tamanho real de dinossauros que habitaram a região há milhões de anos. Pousadas, cachoeiras, restaurante e trilhas completam os atrativos do Geossítio de Peirópolis.

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O estilo eclético do prédio histórico do Paço Municipal.

 

Imigração, urbanismo e arquitetura

Em função do desenvolvimento do município, sobretudo da pecuária zebuína, surgiu um relevante movimento relacionado à imigração. Os primeiros imigrantes foram os italianos seguidos pelos portugueses, espanhóis, árabes, alemães, chineses e japoneses. Os reflexos provocados pelos novos moradores não tardaram a surgir. Houve um acelerado desenvolvimento cultural e econômico de Uberaba, logo refletido no urbanismo e na arquitetura, onde surgiram requintadas construções no estilo eclético. “Muitas dessas edificações foram projetadas e construídas pelos imigrantes italianos e espanhóis que trouxeram de seus países de origem a técnica e a experiência”, esclarece o sítio da prefeitura.

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A palacete sede da Casa da Cultura tambérm é em estilo eclético.

 

“Muitos fazendeiros uberabenses transferiram suas residências do campo para a cidade e passaram a morar nos palacetes em estilo eclético. Estas requintadas residências constituíam locais de encontros políticos, sociais e festivos, eventos que permitiram muitas decisões que definiram a história do município”.

O patrimônio histórico e arquitetônico de Uberaba é revelado não somente pelos casarões ecléticos, a maioria deles erguidos pelos imigrantes, mas também pelas impactantes igrejas católicas. 

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O Edifício Manhattan, projeto do arquiteto uberabense Germano Gultzgoff, representa a arquitetura moderna (ou pós-moderna) em Uberaba.

 

Uberaba-MG.

A interessante arquitetura do Tamareiras Park Hotel. Destaque para a passarela que liga os dois prédios. O projeto original (1930), em estilo mouro-florentino, foi assinado pelo arquiteto austríaco Carlos Simonek.

Igrejas católicas

Construída entre os anos de 1850 e 1854, a Igreja de Santa Rita conserva a singela arquitetura em estilo Colonial em que foi projetada e guarda no altar e em peças sacras o estilo barroco dos séculos XVIII e IX. Por isso mesmo, em 1939, foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Aliás, a igreja é o único prédio tombado pela instituição em todo o Triângulo Mineiro.

Devido à importância da Igreja de Santa Rita, ela abriga o Museu de Arte Sacra de Uberaba. Dentre as peças do acervo, destaca-se a escultura em madeira policromada de Santa Rita de Cássia ou Santa Rita das Causas Impossíveis, relíquia restaurada no ano de 2003. Já as peças barrocas e as vestes sacras, estandartes de procissões, paramentos, alfaias, mobiliário e diferentes imagens contam a história da Igreja Católica no Triângulo Mineiro. Outra preciosidade é o Conjunto de Casula (de 1909, vindo da França) feito com tecido bordado com linha e fios de ouro.   

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Altar da Igreja de Santa Rita de Cássia e Museu de Arte Sacra.

 

É impossível não se impressionar com a beleza da Igreja de São Domingos e consequentemente perceber como ela se destaca na paisagem da cidade. O templo marca a chegada dos primeiros dominicanos, vindos da França no ano de 1881. Os religiosos logo sentiram a necessidade da construção de uma nova igreja para abrigar as suas celebrações. Em janeiro de 1899 ocorreu a benção da pedra fundamental e depois surgiu o projeto primitivo, de autoria do engenheiro Egydio Betti Monsagratti, modificado posteriormente pelo engenheiro francês Florent. A construção priorizou o uso da pedra tapiocanga — daí a impressionante cor avermelhada — extraída nos arredores do município. Os tijolos foram utilizados apenas nas molduras, portas, janelas, abóbadas e arcos. A Igreja de São Domingos apresenta o estilo neogótico com a planta em forma de cruz, o que lembra as igrejas bizantinas. Sua inauguração aconteceu em outubro de 1904, ainda sem as torres e abóbadas centrais, que foram terminadas em 1914. Em 1963, a igreja ganhou uma grande reforma, projeto do arquiteto paulista Carlos Millan.

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Catedral Metropolitana de Uberaba, arquitetura em estilo neogótico.

 

A Catedral Metropolitana de Uberaba ergue-se soberana delimitando o centro da cidade. Em estilo neogótico, embora tenha passado por sucessivas reformas desde a construção em 1827 — obra que se estendeu até 1848 — do que foi a  segunda igreja matriz no antigo povoado. Em 1896, para receber o bispo de Goiás, que se transferiu da sede da diocese da capital goiana para Uberaba, a antiga matriz, então com duas torres, foi reconstruída com a substituição integral de todas as suas características tradicionais.  Em 1899, as duas torres da igreja foram substituídas por uma torre central única, com projeto do engenheiro Ataliba Vale, que lhe conferiu as características neogóticas. 

Para a criação da diocese na cidade, uma solicitação do bispo, o Vaticano exigiu a construção de uma catedral. A obra do novo templo foi concluída em 1905 e a inauguração aconteceu em 1907 com o surgimento da Diocese de Uberaba. Em abril de 1962, a igreja tornou-se Catedral Metropolitana com a elevação da diocese a Arquidiocese de Uberaba.

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Mais uma imagem da Igreja de São Domingos: estilo neogótico com a planta em forma de cruz, o que lembra as igrejas bizantinas.

 

A cidade das sete colinas — por volta de 1880, o memorialista Borges Sampaio estudou a topografia local, identificando seis colinas principais e no século XX, o historiador Hildebrando Pontes adicionou uma sétima elevação a essa contagem, criando então esse conceito —   ratifica a tradição da fé católica dos uberabenses com a existência do Santuário Basílica de Nossa Senhora da Abadia. 

A origem do Santuário remete a agosto de 1881 a partir da construção de uma capela na Colina da Misericórdia, finalizada em 1899. A capela foi elevada ao título de paróquia em 1921 e, em 1940, o templo ganhou uma torre e uma imagem de Nossa Senhora da Abadia. Atualmente, o Santuário apresenta uma fachada simétrica e imponente com elementos que misturam o estilo neocolonial eclético com traços do neoclássico. A parte interna se destaca pelas pinturas artísticas no teto, o altar tem um belo painel do artista mineiro Sinval Fonseca e os vitrais exaltam a iluminação do interior do templo. O Santuário de Nossa Senhora da Abadia recebe fiéis e turistas todos os anos, especialmente durante a tradicional e concorrida festa realizada agosto. 

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Mercado Municipal, um patrimônio da cidade e um importante atrativo, desde o ano 1924

 

Mercado Municipal, cultura e memória

Outro atrativo de qualidade em Uberaba é o Mercado Municipal, um patrimônio inaugurado em agosto de 1924. A sede do espaço ganhou ampla remodelação em 2006, mas mantém as características arquitetônicas em estilo eclético com forte inspiração inglesa, com destaque  para a estrutura em formato octogonal do edifício, que revela alguns traços do estilo art decó.

Produtos típicos produzidos no município, desde hortifrutigranjeiros até os melhores tipos de queijos, doces, cafés especiais e cachaças artesanais são encontrados com fartura nas bancas. A gastronomia tradicional também está presente em ótimas opções. O mercado preserva a característica de se manter como um local de encontros e de convivência da população. 

Dos hortifrutigranjeiros aos melhores tipos de queijos, doces, cafés especiais e cachaças artesanais.

Mercado: dos hortifrutigranjeiros aos melhores tipos de queijos, doces, cafés especiais e cachaças artesanais.

 

A movimentação cultural da cidade tem como referência o Centro Cultural Sesiminas. A combinação de um prédio de linhas arrojadas com o edifício em estilo eclético erguido em 1920 — que no alto fachada apresenta o nome “Henry Ford” devido a uma homenagem prestada pelo idealizador do espaço, o deputado uberabense Fidélis Reis. Fundador do lugar, inaugurado como Liceu de Artes e Ofícios, o político viajou aos Estados Unidos para pesquisar modelos de excelência em ensino técnico e profissionalizante. Lá, ele manteve contato direto e foi influenciado pelas ideias e métodos de produção do industrial norte-americano Henry Ford. 

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Centro Cultural Sesiminas, referência da movimentação da cultura local.

 

O complexo reúne o Teatro Sesiminas —  com capacidade para 534 pessoas, é um dos principais teatros do interior mineiro — que frequentemente apresenta espetáculos nacionais e internacionais de música, dança, circo e peças de teatro.

Há ainda a Galeria de Arte, dedicada a exposições que impulsionam trabalhos de artistas locais e nacionais, do clássico ao contemporâneo. Já a Escola de Cultura oferece cursos de formação e oficinas nas áreas de teatro, dança e circo, com salas apropriadas e professores qualificados.  

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Galeria de arte do Sesiminas.

 

Mais um atrativo histórico de grande relevância para Uberaba está exposto no Complexo Turístico da Praça da Mogiana: trata-se de uma bela locomotiva a vapor. Ela representa a memória conservada da Estrada de Ferro Mogiana, que chegou a Uberaba em abril de 1889, conectando o Triângulo Mineiro ao estado de São Paulo. A ferrovia foi um marco fundamental para o escoamento da produção de café e para o desenvolvimento econômico da região. 

O tronco ferroviário fazia parte do que era conhecido como “linha do Catalão” — o projeto da Mogiana era alcançar Catalão, em Goiás, e depois seguir para Belém (PA), o que jamais aconteceu — que chegou a Uberabinha (Uberlândia) em 1895 e a Araguari, em 1896.

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O município Geoparque Mundial tem ainda belos cenários da natureza. Foto José Henrique Martins.

 

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