Fotografia

O caçador de tempestades

Persistência e paciência são os princípios mais importantes para o fotógrafo André Sena, que encontrou na beleza dos relâmpagos a matéria prima do seu trabalho.

Por Juliana Afonso

Quando o menor sinal de chuva surge no céu, a cidade logo se entristece. As nuvens escurecem, os casacos saem dos armários, as pessoas voltam para casa. Às vezes, um ou outro guarda-chuva colorido passeia pelas ruas. E só. Enquanto todos começam a correr para se esconder, André Sena faz o caminho inverso. “Eu vou em direção à chuva, rindo, feliz. Ninguém entende nada”, diverte-se o fotógrafo.

Caçador de tempestades é um dos apelidos de André Sena, que se especializou em captar imagens de relâmpagos. Suas fotos chamam atenção não só por mostrarem o momento em que a descarga elétrica acontece, mas também pela composição estética de rara beleza, capaz de transmitir a real dimensão desses fenômenos naturais. “Eu não quero fazer o retrato do relâmpago, eu quero mostrar o relâmpago em todo seu conjunto”, explica. É por isso que as cores do céu, a textura das nuvens, a cortina formada pela chuva, o tamanho do relâmpago e outros elementos estão sempre presentes em suas fotos.

Passatempo que virou profissão

A fotografia começou como um ‘hobby’. O primeiro equipamento de André foi uma máquina digital compacta, presente de seu pai. “Comecei a brincar. Minha mãe cultivava orquídeas e eu fazia a documentação das flores para ela. Também levava a máquina para nossas viagens e fotografava os lugares que a gente visitava”, conta. Nessa época, André trabalhava com automação industrial e estudava Engenharia Eletrônica; a atividade se tornou a sua “válvula de escape”. Ele começou a estudar fotografia, passou a entender mais sobre os equipamentos, conheceu pessoas com interesses parecidos e até que descobriu um fórum na internet com o nome “mundo fotográfico”, onde os participantes se encontravam para passeios fotográficos. Começava aí os primeiros passos do fotógrafo na profissão.

André Sena gosta muito de fenômenos climáticos. Um dia, em casa, durante uma tempestade com muitas descargas elétricas, ele se questionou: “será que eu consigo clicar isso?”. Foi quando descobriu o que realmente ele preferia fazer na fotografia.

Apesar do ofício lhe interessar a cada dia mais, André nunca abandonou a engenharia. “Sempre gostei dos aspectos tecnológicos da fotografia digital e buscava entender questões como funcionamento de sensor, gerenciamento de cores e tudo o que fosse capaz de mostrar as condições que fazem um equipamento ser melhor que outro”, diz. Ao terminar a graduação, André Sena entrou para o mestrado na área de processamento digital de imagem e sua dissertação abordou o tema da marca d’água digital invisível, além da questão de direito autoral em imagens coloridas.

Durante o mestrado, ele conheceu professor Alex Moreira, que planejava montar o curso superior de Tecnologia em Fotografia, da Universidade Fumec (Fundação Mineira de Educação e Cultura), de Belo Horizonte. “Ele conheceu minha história, viu meu material e perguntou se eu tinha interesse em ministrar aulas de fotografia”, conta. André começou a lecionar logo na primeira turma, no ano de 2013.

A técnica como aliada

O lado engenheiro e o lado fotógrafo se misturavam tanto que, no princípio, André recebeu muitas críticas sobre suas imagens serem tecnicamente perfeitas, mas pouco atrativas. “Minhas fotos eram de livro didático, não tinham um teor artístico interessante”, diz.

As críticas foram importantes e fizeram com que ele investisse no estudo de composição e estética. As perguntas ‘o que eu quero transmitir com imagens de relâmpago?’ e ‘que sentimento quero que as pessoas tenham ao visualizarem essas imagens?’, passaram a fazer parte do seu dia a dia. Hoje, suas fotos demonstram muito mais que relâmpagos: buscam mostrar a dimensão do que é uma descarga elétrica dentro da paisagem. Esse é um dos motivos pelos quais a maior parte das fotos é de plano bastante aberto ou abarca outros elementos, como prédios e pessoas, que possibilitam ao espectador entender a escala do fenômeno.

Paciência e Persistência

Muitas fotografias contam histórias por si só e o ato de ver a imagem pode ser o suficiente. No caso das fotografias de tempestade, porém, é quase impossível não se perguntar sobre a atuação do fotógrafo. André Sena usa a técnica dos dois “P”: paciência e persistência. “Existem sensores que ao captarem uma descarga elétrica fazem a câmera disparar. Eu não uso esse tipo de equipamento, então preciso acompanhar a chuva do início ao fim”, explica. Em certas situações, ele já ficou mais de quatro horas observando a chuva para, em meio a 500 fotos, encontrar três imagens realmente boas.

Outro ponto fundamental é escolher o lugar onde a câmera será posicionada. É importante estar em um local mais alto, de onde seja possível perceber a real dimensão desses fenômenos. André costuma fotografar em alguns pontos de Belo Horizonte, como no alto da Raja Gabaglia, ou mesmo em Sete Lagoas, cidade onde nasceu e vive até hoje. Um dos pontos onde ele mais gostava de acompanhar as tempestades era na Serra de Santa Helena, mas depois de passar por duas experiências de assalto ele deixou de ir até lá. Hoje, seu apartamento em Sete Lagoas é um dos locais prediletos: além de uma vista interessante da cidade, ele tem segurança e está protegido da chuva.

Observar o melhor lugar para fazer uma foto também é entender onde se posicionar para não receber nenhuma descarga elétrica. André explica que a atenção precisa ser redobrada caso o fotógrafo escolha ficar em um local aberto. “Se a nuvem estiver em cima de mim eu paro de fotografar ou mudo de posição. Quando você está com um tripé de metal você se transforma em um para-raio”, diz. Ele lembra que, em uma dada situação, ele estava embaixo da nuvem eletrizada, mas não queria sair de lá. A solução foi entrar no carro, abrir um pouco a janela e colocar a câmera lá dentro.

O risco sempre existe. E junto com ele o desafio de fazer a foto perfeita. “É preciso entender de que lado vem o vento, que tipo de composição eu quero fazer, onde eu devo posicionar o raio dentro do quadro. Quando você consegue é uma alegria sem fim. É igual criança que ganha presente”, conta.

Frutos do trabalho

André não pensa duas vezes em dizer que sua profissão atual é a de professor. Mas o mundo dos cliques já lhe deu a oportunidade de realizar outros projetos. A primeira exposição aconteceu no final de 2011, em Sete Lagoas. O nome era “Previsões 2012” e agrupou o trabalho de artistas emergentes da cidade. Alguns meses mais tarde, as quatro fotos de relâmpagos selecionados por André foram exibidas em um dos bares que concorria ao festival Sabor de Bar.

Em 2013, André teve a oportunidade de montar uma exposição só com fotos de sua autoria. Foi assim que surgiu “Riscando o céu”, na Galeria de Arte Paulo Campos Guimarães, na Biblioteca Pública Estadual de Belo Horizonte. As 11 imagens selecionadas para a exposição mostram relâmpagos de beleza ímpar. Algumas das fotos carregam histórias curiosas. “Eu estava montando o tripé na janela do meu quarto com o controle remoto da câmera na minha mão. De repente veio um trovão e o estrondo foi tão grande que eu apertei o botão no susto. Foi quando consegui essa foto”, conta André, que aponta para a imagem de três raios simultâneos em um céu de cor lilás.

Mas o mundo dos fenômenos climáticos não se resume a tempestades e André tem planos ousados. Seu maior desejo — e maior desafio — é fotografar relâmpagos vulcânicos. “Na hora da erupção as partículas geram uma enorme diferença de potencial e produzem uma série de descargas, de cima pra baixo, de baixo pra cima, de todos os lados. Gostaria de ver o quanto eu conseguiria me aproximar do vulcão em um momento como esse”, conta. Outro desejo é o de acompanhar um grupo de caçadores de tornados nos Estados Unidos.

Enquanto o momento não chega, André Sena trabalha com outras propostas, sempre motivado pela possibilidade de capturar texturas, cores e instantes únicos. Entre seus projetos pessoais está o projeto “Viajando de Carro”, no qual ele percorre o Brasil registrando fotos de paisagem e natureza. “Na última viagem foram 5.300 quilômetros de carro, até a Ponta do Seixas. Na anterior foram 6.200 quilômetros, até o Chuí”. As fotos podem ser encontradas a partir das hashtags #viajepelobrasil e #conhecaobrasil, no instagrem. Outra hashtag cheia de fotos de André é a #cacadordetempestades. Afinal, onde quer que esteja e faça chuva, há sempre uma câmera fotográfica pronta para ser usada.

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