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A cidade é sobre o rio. Pirapora

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Pirapora-MG

 

Pirapora-MG

As famosas carrancas e o Vapor Benjamim Guimarães são representantes fundamentais da cultura do Velho Chico. Mas Pirapora revela muito mais: as comunidades formadas por barranqueiros, carranqueiros, vapozeiros e artistas simbolizam não só a conservação das tradições culturais do município como também atuam para transformá-las  e reinventá-las  para que que elas resistam ao tempo.

 

Por Otávio Augusto Alves/Fotos Maria Vaz

 

Quem chega a Pirapora dificilmente passa pela cidade sem encontrar, ainda que de maneira involuntária, dois de seus maiores ícones. Seja nas prateleiras de souvenir dos hotéis, nas lixeiras à beira do rio, nas feiras de artesanato e restaurantes, as referências a eles estão em todo lugar. Garantem a quem passa pela cidade o encontro com patrimônios considerados, cada um à sua maneira, únicos no mundo.

No entanto, em uma visita um pouco mais atenta, o contato com os habitantes do município norte-mineiro banhado pelo rio São Francisco revela mais. É em conversas com barranqueiros, carranqueiros, vapozeiros, artistas e funcionários da cultura e do turismo que se percebe a manutenção orgulhosa e a transformação de tradições que resistem ao tempo e se reinventam. Acolhedores e conhecedores da própria história, recebem quem chega de braços abertos, dispostos a apresentar sua cultura e dois de seus protagonistas: as famosas carrancas e o Vapor Benjamim Guimarães, representantes fundamentais da cultura do Velho Chico.

De um lado, esculturas em madeira de formato híbrido humano-animal colocadas nas proas das embarcações para espantar os seres do rio. De outro, o único barco a vapor movido a lenha em funcionamento no mundo. Juntos, têm povoado o imaginário da região há mais de um século e testemunhado as transformações pelas quais o rio São Francisco tem passado. Em um tempo em que não havia estradas para automóveis, era primordialmente por meio do Velho Chico e de seus afluentes que canoas, barcas e vapores levavam e traziam gente, mercadorias e, claro, histórias.

 

Pirapora.

Era por meio do Velho Chico e de seus afluentes que canoas, barcas e vapores levavam e traziam gente, mercadorias e, claro, histórias.

 

É o que se pode notar nos inúmeros relatos de viajantes, artistas, repórteres, fotógrafos e escritores que passaram por ali entre o século XIX e o início do XX. Richard Burton, Marcel Gautherot, Saint-Hilaire e Pierre Verger, entre outros, fizeram questão de registrar a relação do povo local com o rio e suas embarcações. Não surpreende, portanto, que elas continuem a ocupar um espaço tão significativo na memória de Pirapora, do vale e de seus habitantes. Seres das águas, elas foram corresponsáveis pela própria formação do povo sanfranciscano, já que inúmeros povoados e cidades banhados pelo rio são resultado do deslocamento constante, ao longo de seu leito, das embarcações, abundantes até meados do século XX.

Primeiro foi o tempo das grandes barcas, com enormes carrancas em suas proas, feitas para espantar as “feras” do rio. Um pouco depois, o tempo dos vapores, em que dezenas de “gaiolas” (como também eram chamadas as embarcações movidas a lenha) levavam mercadorias, correspondências e emigrantes em busca de melhores condições de vida – tempo em que a própria correnteza era mais forte e a navegação era mais fácil.

Pirapora.

Infelizmente castigada pela mudança dos tempos e do clima e pelo sucateamento, a navegação enfrenta outra realidade atualmente. A opção pelos modais rodoviários e o consequente abandono dos antigos projetos que ligavam ferrovias e hidrovias decretaram o fim da era de ouro da navegação no São Francisco nos anos 80. Nas últimas décadas, as embarcações – especialmente as grandes e médias – foram quase extintas. Além disso, enquanto os registros de chuva se alteram ano após ano, o assoreamento aumenta e o volume de água do rio diminui, sobretudo por causa da construção de barragens em seu leito.

Isso, é claro, altera relações históricas que originalmente formaram alguns dos patrimônios do vale do São Francisco, como as carrancas e o Vapor. Por não poderem mais dispor do rio inteiro, perderam o espaço original que ocupavam no mundo sanfranciscano.

Mesmo assim, são reinventados pela criatividade e resiliência do povo. Seja no trabalho dos carranqueiros como Boni – que já não produzem carrancas com a intenção primordial de colocá-las nas proas das embarcações –, seja no trabalho dos funcionários da Emutur e da tripulação do vapor, como Elaine e Willian – que apresentam o majestoso Benjamim Guimarães para os olhares curiosos dos turistas que vão à cidade apenas para vê-lo de perto –, Pirapora mantém vivos os patrimônios que vêm marcando a vida de gerações. Se agora seu trânsito pelo rio é mais raro, eles ainda são fontes de sentido e de renda para os moradores do município de pouco mais de 55 mil habitantes, localizado a 340 quilômetros da capital Belo Horizonte.

Pirapora.

Miniatura do vapor Benjamim Guimarães. Obra de autoria do artista Zé da Paixão, que pode ser encontrada para compra em diversos estabelecimentos do município.

O rio e a navegação

O Opará, nome tupi-guarani do rio São Francisco, sempre foi essencial para quem vivia e ainda vive às suas margens. Ocupadas originalmente por diversos povos indígenas, até o século XVIII viviam ali os Ampira, Tabajara, Maracá, Catolé, Caiapó, Cururu, Kiriri, Akroá e Xakriabá. Com o início da invasão portuguesa e, especialmente, a partir do século XVII, esses povos enfrentaram uma contínua expulsão de seus territórios e um extermínio sistemático, o que fez com que hoje apenas os Xakriabá permaneçam na região, embora sem acesso direto ao rio, o que continuam a reivindicar.

Após a descoberta do ouro nas Minas Gerais, no século XVIII a pecuária avançou pelo interior. Apelidado de “Rio dos Currais”, devido às extensas criações de gado avistadas por quem o navegava, seu curso (o quinto maior do Brasil, em extensão) tornou-se rota fundamental para o transporte de pessoas, carne, couro e outras mercadorias entre o interior e o litoral. A partir daquele momento, formou-se uma primeira conexão, ainda que tímida, entre diferentes lugares da então colônia.

Pirapora.

O trânsito transformou a região do vale. Embora muitas vezes violentos, os contatos entre povos diversos – indígenas, africanos e portugueses – geraram culturas, saberes e ofícios. Tendo como ponto comum a relação com as águas do São Francisco, nasceu um universo compartilhado, em que humanos, animais, plantas, embarcações e seres-rio interagem uns com os outros. Por fim, desses encontros surgiram modos de vida em íntima conexão com o rio: barranqueiros, vazanteiros, ribeirinhos, remeiros, quilombolas, entre outros. Seja no sertão, nas chapadas, no cerrado ou nas famosas veredas, alguns dos ecossistemas atravessados pelo rio, o que se vê é uma profusão de manifestações culturais marcadas pela presença do Velho Chico, de seus habitantes e, especialmente, de sua temporalidade, manifestada pelos ciclos perpétuos de seca e cheia.

Pirapora.

São os funcionários da Emutur e da tripulação do vapor que apresentam o majestoso Benjamim Guimarães para os olhares curiosos dos turistas.

 

Alinhadas ao tempo do rio, as vidas que o margeiam conhecem-no como se conhece um parente próximo. Quem depende dele sabe exatamente a hora certa da pesca, do plantio, de preparar o solo e de esperar o fim da época de reprodução dos peixes, a piracema. Tais seres do rio fazem dele sua casa e seu meio de vida. Através dele, constroem vínculos de afeto e aliança. Dos materiais nele encontrados, constroem suas moradias e as embarcações nas quais se transportam de um lugar ao outro, fazendo parentes, levando novidades e trazendo mercadorias. Como diria Richard Burton, viajante inglês, em 1867[1]: “Todos os homens desta região são mais ou menos anfíbios; a canoa, como dizem, é o seu cavalo”.

Adélio Brasil, artista e contador de casos piraporense, nos explica: “a vida do barranqueiro é voltada para a água. Nós somos diferentes do pessoal dos Gerais, do sertãozão. Nós somos mais abertos, mais lerdos. A gente recebe todo mundo dentro de casa. O rio é uma porta aberta para a sua casa. Todo mundo aprendeu a viver assim”.

As barcas

Se a relação dos barranqueiros com o Velho Chico revela uma cultura profundamente marcada pelas águas e seus ciclos de cheia e seca, suas embarcações ocupam, é claro, um papel fundamental nessa relação. Desenvolvidas e transformadas segundo as condições materiais e culturais da própria região ao longo dos séculos de ocupação, cada tipo corresponde a um modo de uso próprio. As canoas, barcos de origem indígena escavados em troncos, são barcos a remo menores e mais leves, fundamentais para a pesca. Já os ajoujos, também conhecidos como balsas, foram as primeiras embarcações de carga encontradas no rio São Francisco, a partir do século XVII. Neles, podem-se transportar carga e animais vivos (gado, por exemplo), uma vez que são compostas pela união de duas ou mais canoas ligadas por um tablado ou estrado de madeira. Por sua vez, as barcas, originadas no século XVIII, são embarcações que propiciam maior capacidade de carga e conforto, por serem feitas de tábuas com caverna, permitindo sombra e descanso aos remeiros. Foi nelas que as figuras de proa passaram a ser largamente utilizadas, especialmente no século XIX.

Fundamentais para o deslocamento no rio, especialmente a partir do início de seu trecho médio (em Pirapora mesmo), a partir do qual se pode navegar, as embarcações são mais do que meios de transporte para o povo sanfranciscano. Cuidadosamente adornadas, nomeadas, fabricadas e restauradas, revelam um vínculo muito profundo com a paisagem da qual fazem parte. Simbolizam, por exemplo, as memórias e histórias criadas em seus percursos, origens familiares, relações entre pai e filho – em que um ensina ao outro o ofício de construí-las – ou a expectativa da chegada de uma correspondência muito aguardada. Mais do que instrumentos, são sujeitos próprios do mundo do vale. Chamadas por nomes próprios, como Tainá ou Benjamim Guimarães, são personagens da cultura ribeirinha.

Pirapora.

Como tais, fazem parte do amplo repertório de histórias da região. É especialmente por seu intermédio que, por exemplo, ocorreram – e ocorrem – os encontros com as criaturas misteriosas do São Francisco. Duendes do Rio, Mãe-d’Água, Minhocão e Caboclo d’Água são algumas das aparições já registradas por tripulantes e moradores da região. Ferais e protetoras das águas, são elas, muitas vezes, responsáveis por naufragar as embarcações que ameaçam a sua paz e a do rio.

Para isso, contramedidas são necessárias. Afinal, como garantir a segurança das viagens com tais criaturas à espreita, prestes a virar as embarcações? Como proteger os tripulantes se o perigo não é facilmente percebido pelos sentidos imediatos dos remeiros? Como resguardar as embarcações à noite, enquanto todos dormem e tudo está escuro? Para tais questões, que os tripulantes são obrigados a se fazer, há uma resposta concebida pela mais alta tecnologia ribeirinha: as carrancas.

“A carranca era a garantia da barca, pois dava três gemidos se ela estivesse em perigo de naufrágio”, explica Paulo Pardal. Além disso, sua forma híbrida de humano e animal, especialmente feia, que muitas vezes lembrava um leão ou um cavalo com traços de gente, asseguraria a fuga dos seres do rio que se deparassem com ela, prevenindo naufrágios. Hoje, muitos dizem que esses entes fugiram por causa do barulho dos motores dos barcos. Para onde será que foram?

 

Pirapora.

1 Barco Tainá. Uma das poucas embarcações com carranca em Pirapora atualmente.

Os vapores e o Vapor

No final do século XIX e início do XX, eram os vapores a novidade e a promessa de maior integração entre municípios ribeirinhos. Símbolos de um prometido progresso, eles desafiavam as barcas de menor capacidade e permitiam que viagens mais longas fossem realizadas em menos tempo e com mais gente a bordo. Em Pirapora, aliados à nascente infraestrutura ferroviária, possibilitaram a ampliação daquela ligação em nível nacional iniciada nos tempos de colônia. Dos trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil, que passava por Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, passageiros e mercadorias chegavam à cidade e desciam o São Francisco nos vapores. Adélio Brasil nos conta que era possível chegar ao Rio de Janeiro, a partir de Pirapora, em um dia e meio. “Pirapora mesmo era uma cidade cosmopolita, porque tinha os vapores e o trem.”

É nesse contexto que aparece o icônico Benjamim Guimarães. Fabricado em 1913 em Pittsburgh, no estado da Philadelphia, nos Estados Unidos, era parte de uma leva de outros vapores encomendados para a América do Sul. Originalmente batizado de Gaiola, pelo menos segundo consta em um registro de fabricações da companhia James Rees & Sons[2], o Vapor, de acordo com a tradição local, fez uma longa jornada até chegar em Pirapora. Teria navegado um tempo pelo rio Amazonas antes de ser adquirido, na década de 20, pela empresa Júlio Guimarães, nome com o qual seria rebatizado posteriormente. No registro de fabricação da companhia, Júlio Guimarães consta como dono original.

Embarcação de tipo misto, durante décadas foi responsável por carregar gente e mercadorias, sendo fundamental para a integração dos municípios ribeirinhos, especialmente aqueles entre Pirapora e Juazeiro, na Bahia. Até os anos 1960, gerações de emigrantes se aglomeravam em seu convés inferior – e nos de tantos outros vapores da região – para sair de suas terras em busca de melhores condições de vida.

Pirapora.

O Benjamim Guimarães por volta dos anos 70.

 

“O forte [do município] naquela época era a embarcação. Toda casa tem um descendente de vapozeiro, alguém que veio para cá de vapor. Olha para você ver [sic] minha família mesmo… a gente não sabia quem era a família dos meus avós e de onde eles eram. Aí recentemente nós ficamos sabendo que meu avô veio da Bahia em um vapor e nunca mais voltou”, conta Elaine.

De todos os 33 vapores com os quais Pirapora chegou a contar, apenas o Benjamim Guimarães mantém-se em funcionamento. Nos Estados Unidos, o Belle of Louisville, também fabricado pela James Rees & Sons, em 1914, encontra-se restaurado, operando como um museu e fazendo pequenas viagens de caráter turístico. O Vapor, contudo, é o único de seu tipo em todo o mundo que continua desempenhando, ainda que raramente, sua função original de transportar carga e gente.

Pertencente à prefeitura de Pirapora e, devido a seu aspecto único, tombado pelo IEPHA/MG em 1986, nas últimas décadas o Benjamim Guimarães passou a ser cada vez menos utilizado para viagens pelo rio. Com o tempo e o relativo abandono, houve um grande desgaste em sua estrutura. Daí a necessidade de restauração, aprovada em 2020. Orçada em R$ 5,3 milhões e custeada pelo Ministério de Minas e Energia, com recursos do PAC, as obras de restauração tiveram início em setembro de 2024 e foram finalizadas no primeiro semestre de 2025.

Embora tenha sido reinaugurado em evento realizado em 1º de junho de 2025, o Vapor encontra-se atracado no porto de Pirapora, aguardando a liberação para voltar às águas. Enquanto não volta a navegar, por causa do baixo volume do rio – justificativa oficial negada pela população local, que afirma que já há condições para tal –, o barco é palco de visitas guiadas aos turistas. Crianças, idosos, forasteiros: o Benjamim Guimarães é atração para todo tipo de público.

“Na verdade, eu trabalho na empresa municipal de turismo [Emutur]. Atendo o pessoal lá e trago para cá, para eles fazerem a visitação do vapor. Mas aí a gente não deixa o povo ir embora sem contar a história do vapor, como ele veio para cá, como ele funciona”, diz Elaine.

Pirapora.

A guia Elaine no Museu dos Vapores.

 

Impecavelmente pintado e com peças de metal brilhante, a embarcação é um deleite para os olhos. O maquinista Willian, tripulante do Vapor há mais de 10 anos, é um dos responsáveis que se revezam para apresentar a atração. Detalhista, explica cuidadosamente cada peça importante do barco e sua função para a navegação. O que, para um leigo, parece um emaranhado de peças de metal sem sentido, para os tripulantes são instrumentos de trabalho corriqueiros.

Dotado de uma nova caldeira, que permitirá que o Vapor atinja até 12 km/h, contando com uma nova pintura e com a roda-pôpa reformada, a expectativa é que o barco de três andares e com capacidade para 140 passageiros continue a fazer pequenos trajetos na região, especialmente em eventos turísticos ou festivos. Para mais informações sobre a data de seu retorno ao rio, é possível acompanhar o site da Emutur. Enquanto não ocorre, o Vapor segue inspirando todos que acompanham sua história centenária.

 

Pirapora.

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Pirapora.A Casa de Máquinas reformada do Vapor Benjamin Guimarães.

 

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Visão do São Francisco a partir do bordo do Vapor. Ao lado direito, as cabines de acomodação restauradas.

 

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Sino do Vapor. Utilizado para comunicação com portos e outras embarcações.

 

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Willian, tripulante e guia do Vapor.

 

Carrancas e Carranqueiros

“Infelizmente, as carrancas passaram. Estão irremediavelmente sepultadas como manifestação coletiva.” Essas foram as palavras de Paulo Pardal, em seu seminal livro Carrancas do São Francisco, publicado originalmente em 1981. Referenciado pela população local por seu grande trabalho de reconstituição histórica, o autor, ao constatar o declínio da utilização de barcas no médio São Francisco, sentenciou as carrancas a um triste desparecimento.

Estava errado, felizmente. Se é verdade que as próprias barcas são raras no curso do rio – quanto mais as equipadas com carrancas –, a tradição segue viva por meio do ofício de seus carranqueiros e pela reinvenção da própria tradição. Bonifácia Pereira dos Santos, a Boni, nascida em 1969, é uma das responsáveis por manter as carrancas vivas. Gentil, abriu as portas de casa para contar um pouco da sua história e mostrar o processo de escultura de uma carranca.

Boni

Filha de Domícia Xavier dos Santos e Antônio Pereira dos Santos, Boni é filha, irmã, tia e sobrinha de carranqueiros como ela. Artista – ou artesã, como costuma se chamar – aprendeu a esculpir carrancas com sua mãe aos oito anos de idade, desenvolvendo desde muito cedo o gosto pelo ofício. Iniciando pela toá, uma pedra simples, similar à pedra-sabão, que oferecia segurança ao aprendiz, a partir dos doze anos começa a esculpir as primeiras carrancas em madeira.

Escultora há tanto tempo, já não lembra se encontrou dificuldade para aprender nem qual foi a primeira carranca que fez para vender: “Já nasci vendo isso. Nem sei como que aprendi também. Sei que fazia de toá porque minha mãe não me deixava pegar no facão. Depois que ela deixou”.

Sua vida e a de sua família – a família Xavier – se confundem com as carrancas. “As carrancas são tudo”, diz Boni; é como se não houvesse um antes delas, portanto. Oriundos de São Romão, município mineiro também batizado pelo Velho Chico, foi justamente por causa delas que todos se mudaram para Pirapora:

“Meu tio [Sabino], minha mãe e meu pai faziam peças pra Dedeco. Mas era só gamela, pilão, santo, peixe… Traziam quase todo mês pra ele. E ele [o tio] tinha uma loja lá, tinha outro tipo de artesanato, só que aí trazia pra ele. Aí meu tio viu um bicho num barco [uma carranca] e perguntou pra Dedeco o que era. Dedeco perguntou se ele conseguia fazer um e ele respondeu que dava conta. Aí ele fez uma toda feia, levou para Pirapora, o povo começou a gostar e aí Dedeco pegou e trouxe todo mundo para cá.”

Pirapora.

Fotografias de familiares de Boni. À esquerda: Domícia Xavier dos Santos, sua mãe. À direita: Sabino, seu tio, e Paschoal, seu cunhado.

 

Com a ajuda de Dedeco, padrinho dos carranqueiros e ex-prefeito do município, mudaram-se para Pirapora e conseguiram comprar uma casa, que infelizmente alagou na grande enchente de 1979. Depois disso, também com ajuda de Dedeco, sua família se mudou para a “rua dos carranqueiros”, onde morava boa parte dos escultores e onde a artista ainda mora. “A rua todinha fazia. Era uma barulheira. Só no toc toc.”

Com o tempo, muitas pessoas se mudaram. Dos carranqueiros, ainda moram ali, além de Boni, a tia, o primo Gelson, a irmã de Gelson e o sobrinho. “Tem gente que parou de fazer. Quando o trem aperta, faz um pouquinho. Venderam as casas, um bocado foi embora, entraram outras pessoas.

Pirapora.

Boni esculpindo carranca em seu ateliê.

 

Com o auxílio de ferramentas como enxó, formão, macete, crivo, goiva e serrote japonês, em poucos minutos o toco de madeira toma forma. A destreza e o prazer de quem trabalha há tanto tempo esculpindo propiciam a velocidade. Com um mesmo toco, duas peças são esculpidas quase simultaneamente, uma de cada lado da madeira. Umburana, vinhático, pequi, caraíba e cedro – madeiras encontradas na região – são os tipos mais comuns. Para Boni, o cedro (árvore ameaçada e atualmente mais difícil de achar) e a umburana são as melhores. Moles e menos propensas a rachaduras, facilitam muito o trabalho do artesão.

Se pequenas, um carranqueiro consegue fazer duas ou mais carrancas por dia. Contudo, com o passar do tempo, o desgaste físico se torna evidente. Boni, por exemplo, esculpe diariamente apenas uma por causa das dores no ombro: “Se pegar firme mesmo faz até mais. Uma grandona mesmo são dias, mas pode chegar até a mais de um mês.” No caso dessas, a artista não dispensa o uso da motosserra, instrumento que agiliza enormemente o trabalho.

Pirapora.

 

Para obter o material, toda ajuda é bem-vinda. Amigos, familiares e outros carranqueiros participam do processo, ajudando a distribuir a madeira disponível e apropriada. Pode ser a que restou de uma casa demolida ou a de pequizeiros caídos. Quem doa pode até mesmo acabar recebendo uma carranca em troca. Conseguir madeira, segundo Boni, nunca foi um problema: há mobilização para isso e até mesmo apoio do município. Não é raro que caminhões da prefeitura depositem lotes de madeira no galpão da associação de carranqueiros, de onde cada um leva o que precisa para trabalhar.

Não há regras muito rígidas sobre como deve ser uma carranca. Claro, há um padrão que os carranqueiros seguem – olhos esbugalhados, boca aberta com língua de fora e dentes pontiagudos e, em muitos casos, uma longa cabeleira. Contudo, ela pode ter cara de cavalo, de leão, de gente ou ser híbrida. Pode ser, ou não, pintada, grande ou pequena, com adornos ou sem. Algumas mais modernas possuem até olhos e bocas iluminados à pilha. Em Pirapora, a tradição é que não sejam pintadas, embora ocasionalmente possam ser, por variação, gosto do artista, ou demanda de clientes. Por outro lado, em outras cidades, como Juazeiro (BA), o mais comum é que sejam coloridas. Há também aquelas que ostentam o cabelo preto, como é tradição em Januária (MG).

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Carranca com os olhos e a boca iluminados. Autoria de Boni.

 

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Carrancas em diferentes formatos. Autoria de Boni.

 

Da ausência de regras muito rígidas surge, contudo, um aspecto comum imprescindível: “tem que ser feia”, ri Boni. Os artistas têm liberdade para imprimir suas marcas como quiserem, contanto que o resultado seja um ser “assustador, fantasmagórico”, nas palavras de Adélio Brasil. Também diferem entre si as versões a respeito da origem das carrancas: se eram inicialmente caricaturas dos fazendeiros donos das embarcações, imitações das figuras de proa encontradas nos navios de alto-mar que circulavam nas capitais da província da Bahia e do Brasil, ou se surgiram de fato da pura necessidade de espantar as feras do rio. A verdade é que pouco importa. Elas devem ser horríveis.

Após sofrerem com o sucateamento dos anos 80 e, consequentemente, quase terem desaparecido da navegação no rio São Francisco, as carrancas passaram a ocupar o espaço doméstico. Com isso, seu formato inclinado – que projetava a escultura para fora da embarcação – deu lugar a um formato vertical, permitindo que ficassem de pé. Hoje, expostas na parte externa da entrada dos lares piraporenses – e todo morador possui uma, segundo a guia Elaine –, elas mantêm o aspecto horripilante. Afinal, ainda que os seres do rio tenham fugido, existem os maus-olhados e espíritos à espreita, dispostos a perturbar o sossego dos lares piraporenses: “Com isso, criou-se um tanto de outras lendas. Está com quebranto, põe a carranca no muro. Chegou uma visita chata, joga sal grosso. Sempre virada para a rua, para receber e devolver”, nos conta Adélio Brasil.

Pirapora.

Boni esculpindo uma carranca em sua casa.

 

Pirapora.

Pirapora.

Uma vez finalizadas, se não foram encomendadas, as carrancas vão para as lojas do Mercado Municipal de Pirapora, localizado na rua Rua Rotary, no Centro, ou para lojas em cidades próximas, como Januária. Os preços variam de acordo com o tamanho e o esforço demandado: as menores custam cerca de cinquenta reais, enquanto as maiores podem chegar a milhares de reais. Turistas de todo o mundo vão a Pirapora e ao vale do São Francisco apenas por elas. Em Paris, por exemplo, um escritório de arquitetura possui uma enorme carranca de Mestre Davi, um dos mais importantes carranqueiros do município.

Em determinadas épocas do ano, são os carranqueiros que se deslocam, muitas vezes com patrocínio da prefeitura, para expor suas obras em feiras de outras cidades. Um exemplo é a Feira Nacional do Artesanato, realizada anualmente em dezembro, no Expominas, em Belo Horizonte. O sonho de Boni mesmo, contudo, é participar da Fenearte – a Feira Nacional de Negócios do Artesanato – em Recife. Segundo ela, porém, “a prefeitura ajuda para o estado [Minas Gerais]. Para ir para fora, não”.

Pirapora.

Ao lado de seus outros irmãos, dos sobrinhos e do primo Gelson, filho de um dos grandes mestres carranqueiros (Mestre Sabino), Boni mantém o legado da própria família Xavier, na medida em que transmite a tradição da cidade e do vale do São Francisco. Para isso, não basta apenas esculpir: “Tem que passar pra frente. Na feira a gente vende quase tudo, aí volta e fica sem [carrancas]. Imagina se tivesse muita gente fazendo”.

Sua trajetória é uma prova de tal preocupação. Após se aposentar de uma carreira na indústria, passou a se dedicar exclusivamente ao artesanato, esculpindo carrancas e bordando macramês. Por não ter filhos, tentou transmitir seu conhecimento a sobrinhos, mas nenhum quis aprender. “Vi acabando, aí falei: tenho que voltar com tudo agora!”. Atualmente, ainda busca dar oficinas em escolas da cidade para compartilhar conhecimento: “Tem que ensinar, passar pra frente.”

Pirapora.

Boni e Gelson. Entre eles, uma enorme carranca esculpida por Gelson.

 

A cooperação com os outros artesãos também é fundamental para a manutenção da tradição carranqueira. Segundo Boni, não existe competição ou segredos de ofício: o conhecimento é compartilhado e novas técnicas são trocadas entre os escultores. “Aí morre e acaba tudo, né? Quem sabe esculpir sabe fazer carranca, não tem segredo”. Há até mesmo uma cooperativa, atualmente com doze pessoas: a Associação dos Artesãos de Pirapora, mais conhecida como Casa dos Carranqueiros, dotada de um galpão para que possam produzir suas esculturas. No entanto, o espaço se encontra destruído há algum tempo; enquanto isso, os artesãos aguardam a realização de uma prometida reforma para obterem melhores condições de trabalho.

Permanências

Além da manutenção da tradição pela produção de seus mestres, existe mobilização por parte de outras pessoas, não necessariamente artesãos, para esse fim. No universo das artes, por exemplo, davi de jesus do nascimento leva o São Francisco, as carrancas e a cultura barranqueira para os quatro cantos do mundo. ALUVIÃO, seu primeiro livro de poemas, lançado em 2025 pela editora Fósforo, tem como fundamento o modo de vida às margens do Velho Chico. A série gritos de alerta (2020), obra em desenvolvimento divulgada em suas redes sociais, é composta por mais de mil desenhos de carrancas. Desenhadas em rencas, geralmente com as bocas escancaradas (manifestando seus gritos) e em relação umas com as outras, a obra explora a simbologia carranqueira. Como o próprio título sugere, ao fazer referência ao poder vocal das esculturas, cria uma sensação de urgência a respeito dos riscos aos quais o rio São Francisco está submetido.

A própria convivência entre os moradores, por si só, também contribui para a preservação da cultura carranqueira: “Tem criança que não conhece o rio. São pais que mudaram de Sete Lagoas para trabalhar na sede, não sei o quê. Eles nunca foram criados perto de rios. […] Eu vou à escola e pergunto ‘Você sabe o que é carranca?’ e o menino responde: ‘É aquele negócio que tem na lixeira com a cara feia?’[…] Aqui existe uma proteção velada a essas esculturas na rua. Por que ninguém pixa aquelas lixeiras? Porque a criança na escolinha passa para o coleguinha sem querer que é isso que dá comida na casa dele, que isso é a função do pai dele. O amiguinho sabe que aquilo ali é a forma de vida do pai dele”, conta Adélio Brasil.

Pirapora.

Parte do programa Adote uma Lixeira, as lixeiras às quais Adélio faz referência são de autoria do artista plástico Pedro Rodrigues da Silva. Com 90 cm de altura e pesando 2 kg, as obras podem ser encontradas na Orla da cidade.

Membro do Conselho Municipal de Políticas Culturais (CMPC) de Pirapora, Adélio também é um dos responsáveis pelos esforços institucionais de preservação: “A gente quer que perpetue, não pode acabar. Eu escrevi para um edital da lei Paulo Gustavo para colocarmos uma carranca em cada secretaria da cidade. Já estou com elas. São lindíssimas. Só vou pintar uma delas, para deixar na minha secretaria”.

Além de Pirapora, também existe um esforço para que as carrancas sejam tombadas pelo Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Para isso, um passo fundamental é o inventário de bens culturais, cuja função, segundo a autarquia vinculada ao Ministério da Cultura, é “identificar as diversas manifestações culturais e bens de interesse de preservação, de natureza imaterial e material”. O desafio é grande. Segundo Adélio, é necessário o mapeamento dos mestres produtores de carrancas de todo o vale do São Francisco. “A carranca é inventariada. Eu entrei no Iphan com o inventário de tombamento, só que eu tenho que ter anuência de todos os carranqueiros do vale do São Francisco. A Carranca não será tombada por Pirapora. Será um patrimônio do Velho Chico!”

Símbolos de uma era de ouro, as Carrancas e o Vapor não se restringem a ela. Representam o presente e o futuro do povo, não só do Vale do São Francisco, mas de todo o Brasil.

 

Pirapora.

[1] Visto em Carrancas do São Francisco, livro de autoria de Paulo Pardal.

[2] Disponível em: < http://shipbuildinghistory.com/shipyards/19thcentury/rees.htm>. Acesso em 15/10/2025.

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