
As fotografias de Isis Medeiros desvelam o grande impacto que a mineração de lítio causa na vida das populações tradicionais do Vale do Jequitinhonha. Nesse ensaio aqui publicado, as imagens guiam-se pelos seguintes eixos temáticos: a beleza da paisagem natural; o cotidiano comovente de um povo altivo e essencialmente lutador; os ícones de sua cultura; e, por fim, os registros que desnudam os dramáticos impactos provocados pela mineração.
Por Cezar Félix/Fotos Isis Medeiros






Vale do Jequitinhonha, Araçuaí, Chapada do Lagoão: uma região de cerca de 24 mil hectares onde vive comunidades tradicionais — agricultores familiares, quilombolas, indígenas e chapadeiros — em localidades como Tesouras, Córrego Narciso e Giral. Como indica o nome do lugar, a chapada típica do bioma Cerrado ainda mostra lindas paisagens. A região foi reconhecida como Área de Proteção Ambiental (APA) municipal em dezembro de 2007. É uma APA de extrema importância hídrica para o semiárido mineiro, pois abriga 139 nascentes catalogadas que abastecem a região.





Ocorre que a área protegida foi reduzida em mais de 55% de seu território (para 10.739 hectares) por meio da aprovação de uma lei municipal. A alteração nos limites se deu em função do intenso ‘lobby’ realizado pelas empresas mineradoras, dedicadas à mineração do lítio.




A medida foi aprovada pela Câmara Municipal de Araçuaí e sancionada pelo prefeito sob intensos protestos de moradores e ambientalistas. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) contestou ativamente a tramitação na Justiça por meio de Ações Civis Públicas, alertando para os riscos ecológicos e para a total falta de consulta prévia às comunidades quilombolas e tradicionais que vivem na chapada.

A gente simples e humilde, moradora do lugar, conserva saberes e afazeres típicos da vida — nada fácil — na lida do campo, que gerou uma cultura com raízes históricas seculares — destaque para a tradição ceramista e também para produtos advindos da agricultura familiar. Chapada do Lagoão é uma “zona de sacrifício”, um território degradado pela mineração, cuja exploração econômica de intenso impacto ao meio ambiente causa imensa vulnerabilidade às comunidades locais.

A Chapada do Lagoão agora é um local estratégico na cena global e transformou-se em um centro nevrálgico do mundo, responsável por protagonizar a era da transição energética. Afinal, a região abriga grandes reservas de lítio, elemento essencial na fabricação de baterias para carros elétricos, smartphones, tablets e notebooks. O mineral é utilizado ainda em sistemas de armazenamento de energia solar e eólica, em componentes aeroespaciais e até em medicamentos para a bipolaridade.

Tudo começou em 2023, quando o Governo de Minas Gerais passou a promover o Vale do Jequitinhonha no exterior, chamando-o de “Vale do Lítio”. O marco inicial foi o anúncio na bolsa de valores Nasdaq, em Nova York, nos Estados Unidos. Conforme o Serviço Geológico do Brasil, a região onde está o município de Araçuaí concentra 85% das reservas brasileiras de lítio e cerca de 8% das reservas mundiais. Duas empresas já exploram o minério em Araçuaí: a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) e a canadense Sigma Lithium. Como um ícone de representatividade sem precedentes para o Vale do Jequitinhonha, a Chapada do Lagoão surge novamente como protagonista das emocionantes — e, por que não dizer, sem exageros, deslumbrantes — fotografias de “Zona do sacrifício: do ouro ao pó”.

As fotos são assinadas por Isis Medeiros — fotojornalista e documentarista —, cujo trabalho é dedicado à investigação e à denúncia de crimes ambientais. Ela é autora do livro 15:30, sobre a tragédia representada pelo rompimento da barragem em Mariana, e também registrou, em imagens pungentes, a história das pessoas atingidas pelo rompimento da barragem em Brumadinho.

A série “Zona do sacrifício: do ouro ao pó” transformou-se em uma exposição de 40 imagens, que ficou em cartaz de 2 de julho a 2 de novembro de 2026 no Museu de Folclore Edison Carneiro (Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular/ Iphan), na Galeria Mestre Vitalino, no Rio de Janeiro. A mostra também passou por Araçuaí, onde foi apresentada no Instituto Federal do Norte de Minas, no período de 30 de março a 30 de abril de 2026.

As fotografias de Isis denunciam o que grande parte do mundo não quer e parece não ter o menor interesse em ver: o lado invisível da mineração em grande escala — e, em última análise, da transição energética global — aquele que mostra a inclemente degradação ambiental, geradora de destruições em diferentes níveis. Trata-se, sobretudo, do adoecimento das comunidades, desencadeado pelo surgimento de conflitos diversos, pela destruição gradativa de moradias, pela poeira e pela falta de água. Sem contar — e até parece pouco diante de tudo isso — as profundas transformações nos modos de vida dessa população.


As imagens criadas por Isis narram a permanência, a resistência e o sentimento de pertencimento de um povo a seu território. Como ela mesma declarou: “Mais do que oferecer respostas, a exposição propõe uma reflexão: que transição energética queremos construir? Mineração sustentável para quem? Lítio verde para quem? Desenvolvimento para quem? E quais transformações queremos deixar para as próximas gerações?”


A Chapada do Lagoão, neste ensaio de Isis Medeiros, é retratada como um microcosmo do Vale do Jequitinhonha. As fotos guiam-se pelos seguintes eixos temáticos: a beleza da paisagem natural; as comoventes imagens de um povo altivo e essencialmente lutador; os ícones de sua cultura; e, por fim, os registros que desnudam os dramáticos impactos provocados pela mineração.



O lítio — o metal mais leve e menos denso que existe, inclusive mais leve do que a água e altamente reativo — sai do vale, das minas a céu aberto, para conduzir a transição energética desta nova era global. Porém, tudo isso acontece diante de uma gente dona de modos de vida, crenças, saberes e práticas transmitidos oralmente de geração em geração: uma população tradicional ali firmemente enraizada em todo o Vale do Jequitinhonha. Não custa insistir: são indígenas, quilombolas e seus descendentes. Aliás, Jequitinhonha, Itinga e Araçuaí são nomes indígenas. Essa gente é dona de uma profunda identidade que jamais pode se tornar invisível aos olhos de todas as gentes de várias partes deste mundo, caso isso fosse possível. Mas, pelo menos, aqui fica esse contundente recado.
