
A bela Cachoeira de Santa Rita.
O Parque Nacional das Sempre-Vivas, localizado no centro-norte de Minas Gerais, conserva uma preciosa biodiversidade, pois é abrigo de animas e plantas ameaçados de extinção, além de cerca de 60 espécies de sempre-vivas — por isso o nome da Unidade de Conservação. O território também é cenário de paisagens deslumbrantes.
Em uma região da Serra do Espinhaço, no centro-norte de Minas Gerais, fronteira das bacias dos rios São Francisco e Jequitinhonha, 124.555 hectares delimitam uma área reveladora não somente de paisagens deslumbrantes, como também de uma preciosa biodiversidade — sem precedentes em termos da importância desses recursos naturais para a humanidade. Esse território, abrangendo os municípios de Diamantina, Buenópolis, Olhos d´Água e Bocaiúva, forma os limites do Parque Nacional das Sempre-Vivas — a cerca de 300 km de BH e a 58 km de Diamantina, considerando a entrada principal do parque, localizada na comunidade de Macacos, no distrito diamantinense de Inhaí.

As sempre-vivas realçam a beleza das paisagens do parque.

Estrada dentro do parque: a visitação ainda é restrita.
O nome do parque é uma homenagem às flores “sempre-vivas” — espécies de plantas muito resistentes ao tempo, pois mesmo depois de colhidas e secas ainda mantêm a cor e a beleza — não à toa abundantes no lugar. Elas fazem parte de uma família de plantas floríferas, do grupo “euriocauláceas, que se concentram ao longo da Serra (cordilheira) do Espinhaço. Para se ter uma ideia, cerca de 70% das sempre-vivas do mundo estão na cordilheira e o parque abriga uma considerável quantidade dessas lindas flores.

A Unidade de Conservação ainda passa por projetos estruturantes. Foto Luiz Eduardo Dias.
Visitação restrita
No Parque Nacional das Sempre-Vivas (Parna Sempre-Vivas) existem registradas cerca de 60 espécies de sempre-vivas. Isso significa que o parque é a área de conservação com mais espécies da planta na Terra. Conforme avançam as pesquisas, mais espécies seguem sendo descritas. A estimativa é que existam mais de 100 espécies dessa família dentro dos limites do parque. Oito delas são consideradas raras e cinco, infelizmente, já estão ameaçadas de extinção.
Criado em 2002, o Parna Sempre-Vivas ainda conta com uma visitação restrita, ou seja, não está aberta para visitação pública, pois a unidade ainda passa por projetos estruturantes, cuja prioridade é garantir a conservação do ecossistema.

Dentre os problemas do parque existe a questão das grandes extensões de terras ainda pertencentes a propriedades particulares.
Problemas complexos
Um outro tema relevante que precisa ser superado para a estruturação é que, desde que foi criado, o Sempre-Vivas enfrenta problemas complexos. Dentro dos limites do parque há grandes extensões de terras pertencentes a propriedades particulares. Duas delas são Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN). Há também áreas de terras devolutas, pertencentes a União, mas com presença de posseiros. Embora muitos deles não tenham documentação, alegam ter direito às terras por usucapião-. Conforme apurado junto ao ICMBio, o proprietário que ainda não foi indenizado tem o direito de continuar utilizando a terra, porém sem aumentar a sua atividade dentro do território.

Criar condições para o desenvolvimento do turismo sustentável é o grande desafio do Parna Sempre-Vivas.
Após a superação deste grande desafio, o objetivo é criar condições para o desenvolvimento de projetos sustentáveis de turismo. Por enquanto, é preciso chamar a atenção para a necessidade de incrementar as pesquisas científicas, atividades existentes no Sempre-Vivas, fundamentos essenciais para todos os projetos conservacionistas. Numa definição científica, o complexo natural do parque reúne campos rupestres, savanas, veredas, matas ciliares, floresta estacional semi-decidual, floresta paludosa, campos hidromórficos e lagoas marginais. A precipitação média anual varia de 1250 a 1500 mm e a temperatura média anual é de 20ºC. As várias nascentes da Unidade de Conservação (UC) geram os cursos d’água alimentadores do rio Jequitinhonha, embora a sua nascente esteja situada no município do Serro.

A vereda faz parte do precioso complexo natural do parque.
Fauna preciosa
Exemplares raros da fauna sobrevivem na UC graças ao elevado nível de conservação. É registrada a existência de espécies de animais ameaçados de extinção, como as onças pintada e parda (suçuarana). Para sobreviverem, essas espécies de felinos, de portes elevados e complexos hábitos alimentares, necessitam de áreas bem conservadas e com muitos recursos de alimentação no que se refere aos animais que elas predam.

O voo do urubu de cabeça vermelha. Foto Luiz Eduardo Dias.
A preciosa relação da fauna ainda protegida inclui a presença da jaguatirica, gato-do-mato, gato-maracajá, lobo-guará, cachorro-do-mato, tamanduá-bandeira, tatu-canastra, catitu, veado-campeiro, lontra, anta e o mocó — um roedor típico de áreas rochosas e endêmico do Brasil. A Unidade de Conservação também abriga as seguintes espécies de primatas: macaco-prego; mico-estrela ou sagui-de-tufos-pretos; macaco-sauá ou guigó e o barbado ou bugio-do-pantanal — o bugio, primata que se alimenta de folhas e habita as copas das árvores das matas fechadas, é conhecido pelo som potente que emite e que ecoa por longas distâncias entre os vales e formações rochosas do Sempre-Vivas.

A pose do urubu de cabeça vermelha.
Dentre as importantes espécies de aves — o parque protege cerca de 195 espécies, muitas delas típicas e endêmicas do bioma Cerrado como um todo — , destacam-se o raro beija-flor-de-gravata-verde (também conhecido como beija-flor-de-gravata-jacinto), de extremo valor de conservação por ser endêmico assim como o tacuri-de-costas-cinzentas, um pequeno pássaro insetívoro totalmente adaptado aos ecossistemas montanhosos e de vegetação arbustiva do parque. Não é difícil observar os voos das araras-vermelha grande, azul e das araras-canindé, além do bonito urubu-de-cabeça-vermelha.

Nas trilhas pelo parque, que não tem sede e nem portões de acesso.
Sem sede própria e portões de acesso
Desde a criação do Parque Nacional das Sempre-Vivas, há 24 anos, ainda não foi construída uma sede própria, nem mesmo portões de acesso e muito menos um centro de visitantes. O escritório do Unidade de Conservação, chefiada por Tathiana Chaves servidora do Instituto Chico Mendes (ICMBio), localiza-se em Diamantina. O local considerado como a entrada principal do parque fica na comunidade de Macacos/Inhaí. O trajeto até lá é feito em 56 km de estrada de terra e leva cerca de duas horas, sendo necessário ser feito em veículos com tração 4×4.

Placa indicativa do início de uma das áreas do Parna Sempre-Vivas.
O ponto de chegada é em uma antiga sede de fazenda, utilizada exclusivamente para abrigar brigadistas. Como o Parna Sempre-Vivas é uma Unidade de Conservação de proteção integral ainda sendo estruturada, as visitas só são permitidas por meio de autorização prévia da direção do parque. As visitas devem ser precedidas por um rigoroso planejamento e devem ser realizadas com o acompanhamento de guias locais.

Área do parque próximo a Curimataí.
A partir da comunidade de Macacos (no limite sudeste), existe uma trilha que segue até Curimataí, distrito de Buenópolis (limite noroeste). Ela é chamada de “Travessia”, tem 55 km e é considerada a principal trilha de trekking da UC. A travessia pode ser feita em cerca de quatro dias cruzando cenários de grande beleza. Os caminhos também são utilizados para as tradicionais cavalgadas durante os períodos de festejos religiosos.

O Parna Sempre-Vivas tem entradas pela comunidade de Macacos e pelo distrito de Curimataí.
Há ainda a Trilha Norte-Sul ligando Inhaí ao município de Olhos D’água. Este trajeto segue pela estrada aberta utilizada para a instalação do telégrafo na região. A trilha vai dar no Morro do Chapéu, de onde se tem uma indescritível vista panorâmica da Serra do Espinhaço.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Curimatái, distrito de Buenópolis.
Curimataí: um distrito a se conhecer
Porém, para desbravar uma parte do Parque Nacional das Sempre-Vivas, a nossa reportagem optou pelos caminhos que partem do distrito de Curimataí. Para começar, é preciso contar sobre esse pacato e muito interessante lugarejo. Localizado em um vale entre as Serras de Minas e do Cabral, Curimataí é banhado pelo rio de mesmo nome — cujo significado, na língua indígena, é “rio dos curumatãs, peixe de escamas e de carne saborosa” — afluente do Rio das Velhas.

Interior da Igreja de Nossa Senhora da Coneição. Foto Luiz Eduardo Dias.
A origem da vila, de 1.370 habitantes (censo do IBGE de 2022) e 555 domicílios particulares, remonta ao ano de 1832 quando foi criado como um distrito (então de Diamantina) por um decreto. Porém, supõe-se que o surgimento se deu entre os anos de 1760 e 1770, a partir a construção do curral da contagem de gado, o Curral de Pedras ou Curral de Contagem (que até hoje está lá), que funcionava como um ponto de fiscalização, pois a região era um centro de abastecimento para a região de Diamantina.

Forro e altar-mor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição: estilo rococó.
Conforme informa o Wikipedia, “o Curral de Contagem é uma construção do século XVIII e parece ser a única do gênero em Minas Gerais. Possui um formato quadrado, com duas aberturas para cancelas. Trata-se de uma edificação de pedras filetadas irregulares com junta seca dispensando, assim, o uso de argamassa e utilizando como acabamento a interpolação de pedras menores entre as maiores. O resultado são paredes bastante largas, com 70 cm de espessuras e dois m de altura. Com o intuito de facilitar a visibilidade para a contagem do gado, ao lado das cancelas e em uma das laterais, existem degraus de pedra em balanço, para facilitar o acesso ao topo do muro”.
Patrimônio histórico

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição vista de um outro ângulo. Foto Luiz Eduardo Dias.
Um outro símbolo da história local, é a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Curimataí — datada de meados do século XVIII (entre 1760 e 1770). Embora muito descaracterizada por reformas ao longo do tempo, a igrejinha conserva as belas pinturas em estilo rococó do teto e do altar-mor. As reformas mais agressivas à conservação do patrimônio histórico foram a que substituiu o forro de madeira da nave por uma laje de concreto e a que trocou o assoalho de madeira por ardósia.

O distrito de Curimataí ainda guarda traços da herança colonial.
Chamam a atenção as fachadas conservadas de algumas casas típicas dos séculos XVIII e XIX, as ruas de terra batida, os longos trechos que são cobertos por gramas, chamados de Rua do Rego, uma vez que são banhados pelos regos d´água — pequenos canais de água aberta artificiais, construídos há mais de 250 anos. O principal deles foi originalmente escavado para desviar as águas do Rio Preto por gravidade e movimentar os antigos moinhos de fubá da região.

Trecho da interessante trilha dos moinhos em Curimataí. Foto Luiz Eduardo Dias,
Moinhos e cachoeira
Por causa deles, existe no vilarejo a Trilha dos Moinhos que adentra pelo Cerrado morro acima em meio a paisagens de rara beleza. Os moinhos, construídos no século XVIII, são movidos pela força da água para moer milho e produzir fubá e derivados como canjiquinha e mingau, produtos essenciais para alimentação dos moradores. Além do mais, a história dessas estruturas remete à época da exploração de diamantes, no período colonial, e da necessidade do abastecimento dos garimpos na região de Diamantina.

Os moinhos foram construídos no século XVIII e são movidos pela força da água para moer milho e produzir fubá.
Os engenhosos moinhos, totalmente artesanais, utilizam a queda d’água para movimentar as grandes pedras de moagem. Eles são estruturas que funcionam em harmonia com a natureza. Ainda hoje, um dos atrativos turísticos do lugar é uma estrutura com aproximadamente 150 anos de existência (datada do século XIX), que segue em pleno funcionamento .

Vista do alto da Cachoeira de Curimataí. Foto Luiz Eduardo Dias.

Cenário na Cachoeira de Curimataí.
No alto da trilha, chega-se à Cachoeira do Rio Curimataí ou das Lavadeiras, um local totalmente preservado, sem nenhum tipo de estrutura construída. A queda d’água de cerca de 10 metros escorre pelas rochas e forma uma bela piscina natural, mas que chega até quatro metros de profundidade em alguns pontos. No entorno, alguns pequenos e convidativos poços completam o cenário. Todavia, o impacto se dá pela linda vista: as serras surgem no amplo horizonte e logo abaixo avista-se o vale recortado pelo Rio Curimataí.

O carro de boi com o carreiro (o condutor) e o candeeiro (que guia o caminho). Imagem que caracteriza as tradições desse sertão de Minas Gerais.
Domínios do parque
A trilha seguinte é rumo aos domínios do Parque Nacional das Sempre-Vivas, especificamente em direção à Cachoeira de Santa Rita. O caminho, percorrido por um veículo com tração nas quatro rodas, começou pela avenida principal de Curimataí, e seguiu por uma estrada de terra batida. Próximo ao cemitério local, uma grata surpresa: um carro de boi puxado por quatro animais e conduzido pelo carreiro e pelo ajudante dele, o candeeiro — pessoa que vai à frente guiando os animais e mostrando o caminho. O belo contexto da cena, evidentemente, exigiu uma parada para a produção de fotografias. Carreiro e candeeiro interromperam a dura lida e, numa comovente demonstração de humildade, pararam o carro de boi para que as imagens pudessem ser feitas.

Capela de Santa Rita nas trilhas rumo à cachoeira de mesmo nome. Foto Luiz Eduardo Dias.
Seguindo viagem, agora adentrando pelas subidas íngremes da estrada, a parada seguinte foi para encontrar a morada do guia local José Cardoso Neto, o Branco, de 56 anos, “nascido e criado aqui com muito orgulho”. A partir desse ponto, a trilha rumo à Cachoeira Santa Rita é percorrida a pé. O trajeto segue pelo Cerrado adentro e alterna trechos planos com subidas e descidas em terrenos ora úmidos por causa dos brejos, ora rochosos nos trechos de quartzo branco e lindamente floridos nos campos rupestres — as sempre-vivas em esplendor justificam plenamente o nome da UC. No meio da jornada, em um campo aberto, surge, como que do nada, uma singela capela dedicada a Santa Rita. O pequeno templo é uma referência da religiosidade dos moradores tradicionais da localidade.

Vista do Rio Preto que corre sobre as rochas.
Cachoeira de Santa Rita
Do alto de sua simplicidade, humildade e gentileza, José Cardoso guia cada passo em direção ao vale do Rio Preto por descidas íngremes até a chegada no leito do rio. O caminho agora é sobre grandes rochas e fendas que termina em uma encosta que descortina uma vista de indescritível beleza do planalto e das serras. Lá embaixo corredeiras formam poços límpidos e as águas invadem uma densa mata de galeria.

As trilhas do parque sempre revelam lindas paisagens. Foto Luiz Eduardo Dias.
É no rumo do curso d´água que segue a trilha. No final dela, uma pedra de cerca de 15 metros de altura exige uma descida um tanto complicada. Mais alguns passos pela mata e surge a espetacular vista da Cachoeira de Santa Rita. A água cai por uma altura de 40 metros enchendo uma paradisíaca piscina natural de aproximadamente 60 metros de comprimento por 20 de largura. Para aproveitá-la é preciso descer alguns metros numa picada pela mata. Uma vez lá, é difícil descrever tão deslumbrante cenário — seja nos instantes de observar a cachoeira ou nos momentos de admirar cada ângulo de todo o entorno do lugar certamente abençoado por Santa Rita.

O deslumbrante cenário da Cachoeira de Santa Rita visto do alto. Foto Luiz Eduardo Dias.
Frequência de visitantes
Mesmo não sendo efetivamente aberto para os turistas, o Parna Sempre-Vivas recebe visitantes com uma considerável frequência, conforme o testemunho do guia. Ele conta que percorre esse trajeto rotineiramente guiando turistas. “Gente de todos os cantos. De Diamantina, Belo Horizonte, Rio, São Paulo e gente de outros países”, diz. Branco acha que a atividade turística “pode melhorar a vida da comunidade”, mas alerta, resoluto: “mas sem a destruição da natureza, ela é o mais importante de tudo”.

O entorno da cachoeira é uma área totalmente preservada.
Branco defende a existência do parque, pois “ajuda a preservar a natureza, mas ele tem que ver uma maneira de não dar espaço para a destruição”, reforça. Ele acrescenta que a administração do parque tentou construir um alojamento, “o que não foi muito bem recebido pela comunidade”. O guia finaliza dizendo que fica muito “admirado” pelo fato dos turistas “acharem tudo muito bonito. Eles ficam encantados”.
Zelador e sineiro há oito anos da Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Curimataí, Bruno César de Moura é também um defensor do parque. “A serra está mais preservada, há menos queimadas e mais animais”. Ele conta que desde 2016 há um maior movimento de turistas no Parna. “Quem vem de fora dá um valor imenso ao parque”, diz. Ele destaca principalmente a presença assídua de “estudantes e pesquisadores”. O sineiro lembra da importância do Parna Sempre-Vivas ter instalado uma base em Curimataí. “Diamantina é muito longe e, a partir daqui, fica facilitado o manejo do parque. É preciso administrar, ter um controle mais rígido, a área é muito extensa”.

A parte de baixo da Cachoeira Santa Rita. Um lugar paradisíaco.